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Mente e Mito

  • Os instintos são apetitos naturais que movem passivamente o ser, e não devem ser confundidos com atos da vontade — distinção clássica que a filosofia escolástica e a tradição metafísica formularam com precisão.
    • Tomás de Aquino, Suma Teológica I.20.1 ad 1: “Aos atos do apetito sensorial chamam-se paixões; enquanto aos atos da vontade não se lhes chama atos”
    • “O Espírito quer, mas a carne é fraca”
    • Aristóteles, De Anima III.10: o apetito pode ser ordenado ou desordenado — o desejo como tal olha sempre ao presente, sem considerar as consequências — somente a mente é sempre ordenada
  • As tradições ensinam sempre a distinção de “duas mentes” — uma apática, independente da motivação prazer-dor, e uma pática, sujeita à persuasão apetitiva — e somente a Mente Primeira pode julgar em que medida deve consentir-se a um apetito.
    • Na filosofia escolástica, a Mente Primeira é o intellectus vel spiritus
    • Somente por ser desinteressada, a Mente Primeira pode servir ao bem real do sujeito e não ao seu prazer imediato
  • Hermes e Platão convergem na distinção entre as almas guiadas pela Mente e as almas arrastadas pelos apetitos, colocando estas últimas no mesmo caso das almas dos animais irracionais.
    • Hermes, Libelo XII.1.2-4: “nos animais irracionais, a mente coopera com o instinto natural próprio a cada espécie; mas nos homens, a Mente trabalha contra os instintos naturais… Aquelas almas em que a Mente tem o domínio estão iluminadas por sua luz, e ela trabalha contra suas presunções… Mas aquelas almas humanas que não lograram que a Mente as guiasse estão no mesmo caso que as almas dos animais irracionais, nos quais a mente coopera com os apetitos, e dá rédea solta a seus desejos… e são completamente insaciáveis em sua cobiça”
    • Platão, Leis 645 e República 431: o homem governado por seus impulsos é “escravo de si mesmo”, enquanto o que os governa é “seu próprio senhor”
  • Os apetitos instintivos dos animais selvagens e dos homens que vivem segundo a natureza humana são geralmente saudáveis — a seleção natural ocupou o lugar da Mente ao limitar a gratificação desses apetitos — mas os apetitos dos homens civilizados já não são confiáveis, pois os controles naturais foram eliminados pela “conquista da natureza”.
    • Os apetitos, exacerbados pelas artes da propaganda, constituíram-se em cobiças e ávidas ilimitadas, às quais somente a Mente desinteressada pode pôr limites racionais
    • Romney Green defende os instintos apenas porque esquece que eles são realmente apetitos ou necessidades e porque só pensa nos instintos que sua própria Mente aprova
    • O capitão Ludovici está inteiramente certo quando diz que nossos instintos devem ser regulados por um princípio mais alto
    • Deve confiar-se apenas nos instintos adequados ao Homem no mais alto sentido da palavra
  • O material do “folclore” não deve ser distinguido do material do mito — e o que se deve aos povos não é sua sabedoria “popular”, mas sua fidelíssima transmissão e conservação dela, cujo conteúdo é essencialmente metafísico e apenas acidentalmente de entretenimento.
    • A obra Monkey, traduzida por Arthur Waley, é descrita pelo resenhista Nichol como “uma mina de fantasia popular” — o que é precisamente o que ela não é
    • Eurípides: “não é meu próprio, pois o recebi de minha mãe”
    • O conteúdo da sabedoria popular — como poucos homens de instrução reconheceram — é essencialmente metafísico
  • Os símbolos do “rio”, da “ponte” e do “barco” são universais, presentes na literatura dos três últimos milênios, e provavelmente de antiguidade muito maior — e o episódio citado por Nichol ressoa textos de estratos sucessivos de tradição.
    • O episódio parece ser um eco do Mahakapi Jataka — “A História do Nascimento do Grande Macaco” — em que o Bodhisattva é o rei dos Macacos e faz de si mesmo a ponte pela qual seu povo pode cruzar a inundação da sensação até a outra margem da segurança
    • Esse episódio é por sua vez eco de texto mais antigo das Samhitas, em que se suplica a Agni — igualável por um lado ao Buda e por outro a Cristo — que seja “nosso fio, nossa ponte e nossa via”, e “seja-nos dado subir sobre tuas costas”
    • Mabinogion, História de Branwen: “o que quiser ser vosso chefe, que seja vossa ponte” — A vo penn bit bont — que Julius Evola observa constituir a “palavra de ordem” da cavalaria do Rei Artur
    • Catarina de Siena teve uma visão de Cristo na forma de uma ponte
    • Rumi atribuía a Cristo as palavras: “para os verdadeiros crentes eu me torno uma ponte através do mar”
    • Rig Veda: “Sendo ele mesmo a ponte, cruza velozmente as águas” — com referência ao Sol, isto é, ao Espírito
    • O Tripitaka é a designação conhecida dos Nikayas do Cânon budista páli, e significa aqui “Escritura” à qual se retira o sentido literal para dar seu significado mais alto
    • O fato de o corpo morto flutuar recorda que ocorreu uma catarse no sentido platônico — uma separação entre a alma e o corpo, ou nos termos paulinos, entre o Espírito e a “alma”
  • Vox populi, vox Dei — não porque a palavra seja do povo, mas porque é a “Palavra de Deus”, reconhecida na Escritura mas ignorada nos contos de fadas, que são chamados de “superstição” — precisamente no sentido primário da palavra, enquanto “tradição”, aquilo que foi transmitido.
    • Strzygowski: “O campesino pode ser inconsciente e inteiramente desconhecedor, mas o de que é inconsciente e desconhecedor é em si mesmo incomensuravelmente superior à ciência empírica e à arte realista do homem educado, cuja ignorância real se demonstra pelo fato de que estuda e compara os dados do folclore e da mitologia, sem suspeitar mais de seu significado real do que o mais ignorante dos camponeses” — Journal of the Indian Society of Oriental Art, V.59
    • Agostinho de Hipona, ao contrário da moderna apreciação da “Bíblia como literatura”: “Ó machado, fende a rocha!”
    • Nos heroicos resgates de donzelas presas de dragões — ou nos desencantamentos de dragões por meio de um beijo, que é a mesma coisa — encontra-se toda a história do plano da redenção e de sua operação, pois as próprias almas sensoriais são o dragão do qual o Espírito é o salvador
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