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Atmayajna: o sacrifício de si mesmo

Svati vah parâya tamasa parastât Mundaka Upanishad, II.2.6

Quando um homem consagra a Deus Todo-Poderoso tudo o que possui, toda a sua vida, todo o seu conhecimento, isso é um holocausto. São Gregório, XX Homilia sobre Ezequiel

  • O Sacrifício védico é uma mimesis do que foi feito pelos Primeiros Sacrificadores, e é cumprido para benefício do Sacrificador tanto aqui como no além
    • Os textos litúrgicos do Rig Veda não podem ser considerados aparte dos ritos aos quais se aplicam
    • Os benefícios imediatos do Sacrifício são poder viver até o termo completo da vida (imortalidade relativa de “não morrer” prematuramente) e multiplicar-se em filhos e possessões
    • O benefício último garantido ao Sacrificador que vive a sua vida na terra em boa forma é o da deificação e uma imortalidade absoluta
    • O mero participante dos ritos assegura apenas o fim imediato; o Comprehensor (evamvit, vidvan, viduh) assegura os dois fins da operação (karma, vrata)
    • “Ninguém O alcança com obras ou sacrifícios” (na… karmana… na yajnaih, Rig Veda Samhita VIII.70.3)
  • A vítima sacrificial é uma representação do Sacrificador mesmo: “o iniciado é a oblação” (havir vai dikshitah, Taittiriya Samhita VI.1.4.5) e “a vítima (pasu) é substancialmente o Sacrificador mesmo” (Aitareya Brahmana II.11)
    • “Nós (os sacrificadores aqui e agora) devemos fazer o que os deuses (os sacrificadores originais) fizeram no começo”
    • “Oh Agni, sacrifica o teu próprio corpo” (yajasva tanvam tava svam, Rig Veda Samhita VI.11.2; cf. I.142.11; X.81.5)
    • “Por amor dos deuses escolheu a morte, por amor dos seus filhos (os “deuses” mesmos) não escolheu a imortalidade: eles fizeram de Brhaspati o sacrifício, Yama entregou (arirecit) o seu próprio corpo querido” (Rig Veda Samhita X.13.4)
    • “É com o Sacrifício como os deuses ofereceram o Sacrifício” (yajnena yajnam ayajanta devah, Rig Veda Samhita X.90.16)
    • O prastara, que representa o Sacrificador, é arremessado dentro do Fogo, e só se salva de uma imolação efetiva por uma invocação do Fogo mesmo (Shatapatha Brahmana I.9.2.17)
  • O Rei Soma é a vítima: Agni o comedor, Soma o alimento aqui em baixo; o Sol o Comedor, a Lua o seu alimento e oblação lá em cima
    • “Quando comedor e alimento (adya = purodasa) se unem (ubhayam samagacchati), isso é chamado o comedor, não o alimento” (Shatapatha Brahmana X.6.2.1)
    • O Sol e a Lua são os mundos divino e humano, Om e Vac (Jaiminiya Upanishad Brahmana III.13, 14), o Si mesmo e o si mesmo
    • O Sol é Indra, a Lua Vrtra, a quem ele engole nessa noite antes de aparecer a lua nova (Shatapatha Brahmana I.6.4.18, 19)
    • Vrtra é a esposa do Indra solar (Rig Veda Samhita X.85.29), originalmente ofidiana (apad), adquirindo pés no seu matrimónio
    • Os brotos (amsu) da planta de Soma são “prensados” (suta) – machacados e desmembrados – e o sumo filtrado e purificado é oferecido no Fogo
  • O grão contém a essência sacrificial (medha) que tinha estado no Homem (purusha, Rig Veda Samhita X.90); o grão é trilhado, descascado, joeirado e moído
    • “Os talos de cevada são talos de Soma” (Shatapatha Brahmana XII.7.3.13); “a cevada é Varuna” (Shatapatha Brahmana XIII.3.8.5)
    • A torta sacrificial (purodasa) adquire qualidades animais (cabelo, pele, carne, osso, medula) e “o Homem, a quem eles tinham oferecido, torna-se um homem-imitado” (kimpurusha)
    • “Vai vivo para os deuses” (Taittiriya Samhita V.6.6.4); “apresentai os vossos corpos como um sacrifício vivo” (Romanos 12:1)
    • “Soma era Vrtra” (Shatapatha Brahmana III.4.3.13, III.9.4.2, IV.4.3.4); Vrtra = Ahi, Papman
  • A pedra com que se prensa e se mata Soma identifica-se com o Sol (Aditya, Vivasvant, Shatapatha Brahmana III.9.4.8)
    • “Como Ahi da sua pele inveterada, assim (dos brotos machacados) flui a chuva amarela, brilhante como um cavalo” (Rig Veda Samhita IX.86.44)
    • “Como Makha, assim tu, Soma, vais brilhante ao filtro” (Rig Veda Samhita IX.20.7)
    • In divinis (adhidevatam) e na mimesis ritual, assim “dentro de vós” (adhyatmam): os poderes da alma (visão, audição, etc.) são as formas imanentes de Brahma e se chamam o seu “tragadouro” ou “sumidouro” (giri)
    • O Comprehensor de isto “engole” ou “sorve” (girati) ao inimigo mau e odioso (dvishantam papmanam bhratrvyam = Vrtra), e “torna-se com-Si mesmo” (bhavaty atmana)
    • No sono (ou em samadhi ou na morte) o Sopro mesmo (pranah, a divindade imanente, o Sol, Brahma) “engole” (jagara) os “quatro grandes si mesmos” (os poderes da visão, audição etc.) (Jaiminiya Upanishad Brahmana III.2)
  • Não é Soma mesmo, mas só o seu mal (papman) o que é morto (Shatapatha Brahmana III.9.4.17, 18)
    • “Soma é o Regnum” (kshatra, Shatapatha Brahmana V.3.5.8); é precisamente para que seja entronizado, e governe de verdade, que ele é “morto” (Shatapatha Brahmana III.3.2.6)
    • A culpa da qual Soma é limpo é que ele oprimia Brhaspati, o seu Purohita (Shatapatha Brahmana IV.1.2.4); a sua paixão é uma assimilação a e uma reunião marital com o Sacerdotium
    • O rei, no rito de iniciação real (rajasuya = varuna-sava), morre para que o rei nasça dele; não é ele mesmo, mas o seu mal, o que é morto
    • “Como Indra repeliu Vrtra, o Mal, pela oferenda da lua nova, assim faz o sacrificador” (Shatapatha Brahmana VI.2.2.19)
    • “Agni, o Senhor da operação, faz a quem matou o seu Vrtra, operar (o sacrifício) durante um ano; em diante ele pode sacrificar à vontade” (Taittiriya Samhita II.5.4.5)
    • O Buddha já não faz oferenda a queimar (como tinha feito em anteriores estados de ser), ele faz o que quer (kamakaro, Sutta-Nipata 350) porque venceu e depôs o seu Vrtra
  • giri (Aitareya Aranyaka II.1.8) significa “tragadouro”: dentro de nós a divindade está “oculta” (guha nihitam), dentro de nós, no coração, o “Sol oculto” (suryam gulham, Rig Veda Samhita V.40.6) há de ser “encontrado”
    • “Em nós mesmos, este (Sol) está oculto (guhadhyatmam), estas divindades (os sopros) (estão ocultas); mas manifestos in divinis (avir adhidaivatam)” (Aitareya Aranyaka I.3.3)
    • giri (raiz gir, “engolir”) e grha (raiz grah, “reter”) implicam recintos, cercados, um estar dentro de algo
    • giri é “montanha”; garta (da mesma raiz) é a vez “sede” e “tumba”
    • A “oblação de Soma… é incorporal” (Aitareya Brahmana II.14)
    • “De o que os brahmanes compreendem por ‘Soma’ ninguém saboreia nunca, ninguém saboreia que more sobre a terra” (Rig Veda Samhita X.85.3, 4)
  • A morte de Soma é a sua processão; ele é morto no mesmo sentido em que cada iniciando, homo moriturus, morre, para nascer de novo
    • “Um homem é innascido enquanto não sacrifica” (Jaiminiya Upanishad Brahmana III.14.8); sacrificar é nascer (Kausitaki Brahmana XV.3)
    • A matança de Vrtra é o nascimento de Indra (como Mahendra, Shatapatha Brahmana I.6.4.21)
    • O Sacrificador, ao participar na paixão de Soma, nasce de novo do Fogo sacrificial, no sentido em que “a menos que um homem nasça de novo…” e “a menos que um grão de trigo caia na terra e morra…” (João 3:3 e 12.24)
  • Enquanto Prajapati se divide a si mesmo, derrama os seus filhos, entra em nós, onde ele é engolido e oculto, assim o sacrificador “retrotrai (uddhrtya) estes sopros com Om, e os sacrifica no Fogo sem mal” (Maitri Upanishad VI.26)
    • “Com toda a sua mente, com todo o seu si mesmo (sarvenevatmana), certamente, o iniciado (dikshitah) recolhe (sambharati) e junta (sam ca jihirshati) o Sacrifício; o seu si mesmo, por assim dizer, está esvaziado (riricana ivatma bhavati)” (Shatapatha Brahmana III.8.1.2)
    • “Quando os sopros (pranah, os poderes sensoriais) se unem com ele (com o Si mesmo Espiritual), e Ele, tomando posse completa dessas medidas do fogo (etah tejo-matrah samabhyadadano') desce dentro do coração… (assim), abatendo o corpo, dissipando a sua ignorância, junta-se a si mesmo (atmanam samharati) com o fim de passar” (Brhadaranyaka Upanishad IV.4.1)
    • “Quem parte deste mundo, sem ter visto o seu verdadeiro mundo próprio (svam lokam adrshtva), ignorante do seu verdadeiro mundo próprio, não aproveita mais do que o que se poderia aproveitar os Vedas não recitados ou uma obra não feita” (Brhadaranyaka Upanishad I.4.15)
  • A relação dos sopros com o Sopro, como a dos Maruts (identificados com os sopros), é a de súbditos (visah, svah) com o seu rei
    • “Nós somos teus e tu és nosso” (Rig Veda Samhita VIII.92.93, Brhadaranyaka Upanishad IV.4.37)
    • “Eles lhe trazem tributo” (balim haranti ou bharanti); “rendei-me tributo” (me balim kuruta, Brhadaranyaka Upanishad VI.1.3)
    • Vrtra entra em Indra por acordo (Taittiriya Samhita II.4.12.5, 6; Shatapatha Brahmana I.6.3.17)
    • A parte de Vrtra que era de natureza Asurya (a parte ofidiana, a cauda) tornou-se o ventre, “para o acender (indhiya)” e “para o seu gozo (bhogaya)”; é, nos homens, o apetite tirânico ao qual estas criaturas (imah prajah, os poderes sensoriais) rendem tributo (balim haranti) sempre que estão famintos
    • “Vrtra está dentro de nós”; o Comprehensor de que Vrtra é o consumidor mata o inimigo do homem, a privação ou a fome
  • A mente (manas) é dupla, limpa e suja (suddham casuddham eva, Maitri Upanishad VI.34): suja por conexão com a deseação (kama), limpa quando está separada da deseação
    • “A mente, na verdade, é para os seres humanos o meio igualmente da escravidão e da libertação; da escravidão, quando está apegada aos objetos (vishaya), e da libertação (moksha) quando está desapegada deles”
    • “Como o fogo privado de combustível (nirindhah) se extingue no seu próprio fogar (svayonav upasamyate), assim, quando as suas emoções foram mortas (vrtti-kshayat) a vontade se extingue na sua própria sede (cittam svayonav upasamyate)”
    • “A Transmigração (samsara) não é nada senão a nossa volição (cittam eva); ‘Como é a própria volição de um, assim um vem a ser’ (yac cittas tanmayo bhavati)”
  • O si mesmo psicofísico e mortal que o sacrificador imola, embora aja como uma unidade (Aitareya Aranyaka III.2.1), não é um único membro (cf. I Coríntios 12.12) mas um composto, uma “hoste de seres elementais” (bhutagana), chamado “si mesmo elemental” (bhutatman), distinto do “seu Si mesmo imortal” (amrto'syatma, psyche psyches), o Homem Interior (antahpurushah = prajnâtman)
    • Este “si mesmo elemental” identifica-se com Soma (soma samjno'yam bhutatma, Maitri Upanishad VI.10)
    • Não o Soma que “era Vrtra”, mas o Soma que ainda é Vrtra; não Soma o Amigo (mitra) mas Soma o Titã (asura); não Soma o imortal, mas o Soma que há de ser prensado e morto
    • O Comprehensor da equação Soma = bhutatman é um homem verdadeiramente pobre (sannyasi), um homem enyugado (yogi) e um “sacrificador de si mesmo” (atmayaji)
    • “Uno retira (uddhrtya) estes sopros (dos seus objetos) e os sacrifica no Fogo” (pranan… agnau juhoti, Maitri Upanishad VI.26)
    • “As divindades (imanentes) são os sopros, nascidos da mente e uncidos à mente, neles um sacrifica metafisicamente (paroksham)” (prana vai deva, manojata manoyujas, teshu paroksham juhoti, Taittiriya Samhita VI.1.4.5)
  • A bebida de Soma é um rito de transubstanciação: “é metafisicamente (paroksham) como o Kshatriya obtém a bebida de Soma, ela não é imediatamente (pratyaksham = sakshat) participada por ele… (senão só) através do Sumo Sacerdote (purodhas), através da iniciação (diksha), e da invocação ancestral (pravara)” (Aitareya Brahmana VII.31)
    • “Eles recolhem (ahrtya) a planta usana e a prensam, e por meio da iniciação (diksa) e das sessões (upasads), pelo (vinculamento do) Tanunaptra e o ‘fazer que cresça’ (apyayana), a fazem ser ‘Soma’” (Shatapatha Brahmana III.4.3.13)
    • “Pela Fé, a filha de Surya, ele a faz (sura, aguardente, propriamente a bebida dos Asuras e repugnante para os brahmanes) ser sumo de Soma” (Shatapatha Brahmana XII.7.3.11)
    • O que os Asvins arrebataram a Namuci (Vrtra) bebe-se agora como Soma (Shatapatha Brahmana XII.8.1.3-5), a “Oferenda Suprema” (Vajasaneyi Samhita XIX.2)
  • O verdadeiro Agnihotra não é um rito cumprido meramente nas estações fixadas, mas diariamente dentro de vós: “os deuses estabeleceram então esse Fogo no seu si mesmo interior (enam… antar atman adadhata), e tendo feito isto tornaram-se imortais e invencíveis e venceram os seus inimigos mortais e vencíveis” (Shatapatha Brahmana II.2.2.8-20)
    • O Sacrificador, quando quer edificar a Agni (construir o altar do Fogo), “apreende-o em si mesmo (atmann agrim grhnite); pois é de si mesmo que ele o faz nascer” (atmano… adhijayate, Shatapatha Brahmana VII.4.1.1)
    • “Mentalmente (manasa) foram edificados, mentalmente foram bebidas as taças de Soma, mentalmente cantaram… Estes Fogos, certamente, estão feitos de conhecimento (vidyacita eva); e para o Compreensor de isto todos os seres (sarvani bhutani, todos os poderes da alma) constroem estes Fogos, inclusive enquanto está dormido” (Shatapatha Brahmana X.5.4.16)
    • “Porventura o Universo não está firmado na Verdade? Porventura a Verdade não reside no Fogo? (Samsaye yah…). Por isso dizem, ‘O Fogo é a Verdade’ (agnir vai satyam)” (Shatapatha Brahmana III.2.2.24, 25)
    • “Quem fala verdadeiramente (satyam), alimenta essa chama e ela torna-se cada vez mais a sua própria força ígnea (tejas); quem fala falsamente (anrtam) apaga-a, e ela torna-se cada vez menos a sua força ígnea”
  • Estabelece-se uma distinção entre o mero cumprimento e a compreensão do que se faz, entre o cumprimento como tal e o cumprimento como suporte da contemplação
    • “Quem quer que como Comprehensor faz este trabalho sagrado, ou mesmo o que é um Compreensor (mas não faz efetivamente os ritos), junta de novo, inteiro e completo, a este Prajapati (dividido)” (Shatapatha Brahmana X.4.2.31)
    • O satisad (o que está “sentado na verdade”) é o mesmo que o Atmayaji (o que é o seu próprio sacerdote)
    • “Vendo o Si mesmo imparcialmente em todos os seres e a todos os seres no Si mesmo, o Atmayaji obtém a autonomia (svarajyam)” (Manavadharmasastra XII.91; cf. Chandogya Upanishad VIII.1.1-6, Bhagavad Gita VI.29)
  • Numa sociedade completamente tradicional não há nenhuma distinção real entre as operações sagradas e profanas: “cada ocupação é um sacerdócio” (A. M. Hocart)
    • A referência principal do verbo kr (fazer ou obrar) e do nome karma (ação ou obra) é à operação sacrificial (cf. latim operari = sacra facere)
    • O verdadeiro Sacrifício (“fazer sagrado”, “sacralizar”, ieropoia) há de ser feito diária e horariamente em todas e cada uma das nossas funções – teshu paroksham juhoti (Taittiriya Samhita VI.1.4.5)
    • O homem perfeito é “o que fez o que há que fazer” (krtakrytah), o Arhat katam karaniyam
    • Em Kaushitaki Upanishad II.5, afirma-se com respeito à Oferenda a queimar Interior (antaram agnihotra) que os nossos sopros mesmos dentro e fora (pranapanau) “são duas oblações ambrosíacas sem fim (nante amrtahuti) que, quer desperto quer dormindo, um oferece (juhoti) continuamente e sem interrupção; e quaisquer outras oblações que haja, têm um fim (antavatyas tah)”
    • “Os Comprehensores disto abstinham-se, nos tempos antigos, de fazer oferendas a queimar efetivas (agnihotram na juhuvam cakruh)”
    • O Buddha pronuncia: “Eu não apilo lenha alguma para os fogos do altar; eu acendo uma chama dentro de mim (ajjhatam = adhyatmikam), o coração é o lar, a chama nele o si mesmo dominado” (attâ sudantâ, Samyutta Nikaya I.169)
  • Quando a “noção de que eu sou o fazedor” (ahamkara, karto'ham asmiti) foi vencida e os atos já não são “nossos”, quando nós não somos já alguém (vivo autem, jam non ego sed Christus in me, Gálatas 2:20), então nós não estamos já “sob a lei”
    • Só neste sentido, e não tentando vãmente não fazer nada, pode ser “rota” a cadeia causal do fatum (karma com os seus phalani); não por uma interferência milagrosa na operação das causas mediatas, mas porque “nós” já não somos parte delas
    • A referência de todas as atividades aos seus arquétipos (essencialmente uma reductio artium ad theologiam) é o que devemos entender quando falamos de “racionalizar” a nossa conduta
    • Na karma marga, karma retém as suas implicações sacrificiais
    • “Compreendendo isto, os antigos desejadores da libertação fizeram o trabalho sacrificial (krtam karma purvair api mumukshubhih); faz assim tu o teu trabalho (kuru karma) como fizeram os antigos” (Bhagavad Gita IV.15)
    • “Este Si mesmo Espiritual não há de ser apreendido (labhyah) pelo tépido, nem com arrogância, nem com ardor sem a sua ratificação (de pobreza); mas o que sendo um Comprehensor trabalha (yatate) com estes meios (upaya), esse Si mesmo mora na morada de Brahma” (Mundaka Upanishad III.2.4)
  • A conquista de Ahi-Vrtra, a matança e manducação do Dragão, não é nada senão a dominação do si mesmo pelo Si mesmo; a Oferenda a queimar é o símbolo e deve ser o facto desta conquista
    • “O que faz a Oferenda a queimar (agnihotram) rompe a rede da cobiça, desfaz o engano e dissipa a cólera” (Maitri Upanishad VI.38)
    • “Aquele cuja corda de arco é a sua vida solitária e cuja flecha é a falta de auto-orgulho pela existência de si mesmo, abate ao guardião da primeira das portas do palácio de Brahma, cuja coroa é engano… e que mata a todos estes seres com a flecha da ilusão” (Kaushitaki Upanishad I.4)
    • O Dragão, ou o Gigante – quer lhe chamemos Ahi, Vrtra, Soma, Prajapati ou Purusha, ou Osiris ou Dionysos ou Ymir – é sempre, ele mesmo, o Sacrifício, a vítima sacrificial; e o Sacrificador, quer divino ou humano, é sempre, ele mesmo, esta vítima, ou de outro modo não fez nenhum sacrifício real
  • O Herói Solar, ao sacrificar-se a si mesmo no começo, tendo sido um, faz-se a si mesmo – ou é feito ser – muitos, por amor daqueles em quem ele deve entrar se eles hão de encontrar a sua Via “da obscuridade à luz, da morte à imortalidade” (Brhadaranyaka Upanishad I.3.28)
    • “A menos que comais a carne do Filho do homem, e bebais o seu sangue, não tendes vida em vós” (João 6:53)
    • Ele está engolido em nós, como um tesouro enterrado
    • O Sacrifício “estende-se” nesta crucificação cósmica; enquanto nós pensamos e agimos nos termos dos pares de opostos, “nós crucificamo-lo diariamente”
    • “Nós” somos agregados dos poderes funcionais que são os filhos (prajah) de Prajapati (Brahma, Atman, Prana, o Sol) e os nomes dos seus atos
    • É o Si mesmo Universal que opera em cada um dos nossos muitos si mesmos, vendo, pensando, etc., nos quais ele está dividido; é este Si mesmo que se recolhe a si mesmo quando morremos
    • A segunda fase do Sacrifício, e, desde a nossa posição presente na multiplicidade, a sua parte mais essencial, consiste em juntar (samdha) novamente o que tinha sido desmembrado, e em edificar (samskr) outro Si mesmo, um Si mesmo unitário, que será o nosso Si mesmo quando este si mesmo presente já não for
    • Esta unificação e “entrada dentro do próprio de um” é a vez uma morte, um renascimento, uma assimilação e um matrimónio
  • Não somos “nós” os heróis deste drama cósmico: há só um Único Herói. É o Deus que “se atrapa a si mesmo por si mesmo como um pássaro na rede” posta pelo armadilheiro Morte, e é o Deus que sai da armadilha
    • Ele, e não este homem, Fulano, é o meu Si mesmo, e não é por nenhum ato “meu”, mas só conhecendo-O (no sentido em que conhecer e ser são um), só sabendo Quem somos, como “nós” podemos ser libertos
    • Todas as tradições insistiram na necessidade primordial do conhecimento de si mesmo: não no sentido moderno do psicólogo, mas no da pergunta “Qual si mesmo?”, o do oráculo “Conhece-te a ti mesmo”, e o das palavras Si ignoras te, egredere
    • “Com o Si mesmo um encontra a coragem, com a compreensão encontra a imortalidade; grande é a destruição se um não o encontrou aqui e agora!” (atmana vindate viryam, vidyaya vindate'mrtam… na ced ihavedin mahati vinash tih, Jaiminiya Upanishad Brahmana IV.19.4, 5)
    • “O que é um Comprehensor disso, com o si mesmo mora no Si mesmo” (samvisaty atmanatmanam ya evam veda, Vajasaneyi Samhita XXXII.2)
    • “O que tu, Agni, és, isso possa eu ser!” (Taittiriya Samhita I.5.7.6)
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