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HITLER ... – INTRODUÇÃO

ALLEAU, René. Hitler et les sociétés sécrètes. Enquête sur les sources occultes du nazisme. Paris: Grasset, 1969.

Propus-me estudar, nesta obra, os principais aspectos do iluminismo germânico em suas relações com o desenvolvimento histórico-político da Alemanha. Assim, descobri, no decorrer de uma investigação recente na Baviera, algumas fontes ainda ignoradas, e que não são todas alemãs, do fenômeno nazista. Além disso, em razão do caráter “mágico” da ideologia hitleriana, importava analisar os seus temas simbólicos e míticos fundamentais.

Devo lembrar, a este respeito, todo o interesse dos trabalhos de J. F. Neurohr, diretor do Instituto Francês de Munique, um dos melhores “germanistas” contemporâneos, e de sua obra: Der Mythos vom Dritten Reich (“O Mito do Terceiro Reich”), publicada em 1957 em Stuttgart. Há poucos exemplos, de fato, de uma análise tão justa da situação revolucionária de uma nação em função de seus mitos e de suas transformações no decorrer de sua história intelectual, moral e espiritual. J. F. Neurohr captou, de certa forma, no “estado nascente” a cristalização dos “mitos parciais” e frequentemente contraditórios que edificaram o “mito do Terceiro Reich,” permitindo assim ao nacionalismo se transformar em uma religião e à comunidade alemã aparecer como uma realidade mística.

Esta evolução foi acelerada pelo hitlerismo, é certo, mas ela havia precedido de bastante longe o aparecimento do nazismo: “Não se deve crer,” sublinha J. F. Neurohr, “que Hitler ou os nacional-socialistas tivessem inventado do nada o mito do 'Terceiro Império' para lançá-lo nas massas. Ele preexistia há muito tempo em estado latente no povo alemão, e sobretudo na parte culta da nação, que passou pelas universidades, centros tradicionais do patriotismo e do nacionalismo há mais de um século. Alguns dos temas do neo-nacionalismo remontam até as guerras napoleônicas, aos filósofos e poetas românticos e à Restauração. Outros se desenvolveram no decorrer do século XIX onde, sob o reinado de Guilherme II, já formam partes constitutivas do pangermanismo de antes da guerra. Outros, enfim, refletem a reação da consciência nacional alemã do pós-guerra em face de uma situação política inteiramente nova e de problemas sociais até então desconhecidos.”

É preciso precisar aqui que J. F. Neurohr entende geralmente limitar a noção de “mito” às análises de Georges Sorel e que ele não interpreta esta noção em função das teorias psicanalíticas. Sabe-se que a concepção soreliana do mito se inspira na psicologia de Bergson. Para este filósofo, um “ato livre” do homem consiste essencialmente em um “desses momentos únicos em seu gênero em que se toma posse de si, em que se recoloca na duração pura.” Criamos então um mundo totalmente artificial de imagens situadas à frente do presente, formadas já de movimentos e que dependem de nós. Embora artificiais, estas imagens, estas representações ideais, contribuem de uma forma decisiva para mudar a direção de nossa vida psicológica e para orientar nossos atos.

J. F. Neurohr aproxima estes “momentos vividos únicos” bergsonianos do que a filosofia alemã moderna chama de ein Erlebnis. Sorel parece ter aplicado esta psicologia da ação à sociedade e à história. “Estes mundos artificiais,” ele diz, “geralmente desaparecem de nosso espírito sem deixar lembranças, mas, quando as massas se apaixonam, então se pode descrever um quadro que constitui um mito social.” Para o célebre autor das Reflexões sobre a violência, “a greve geral é o mito no qual o socialismo se encerra inteiramente, ou seja, uma organização de imagens capazes de evocar instintivamente todos os sentimentos que correspondem às diversas manifestações da guerra empreendida pelo socialismo contra a sociedade moderna. As greves engendraram no proletariado os sentimentos mais nobres, os mais profundos e os mais motores que ele possui; a greve geral os agrupa todos em um quadro de conjunto e, por sua aproximação, dá a cada um um máximo de intensidade; apelando para lembranças muito dolorosas de conflitos particulares, ela colore de uma vida intensa todos os detalhes da composição apresentada à consciência. Obtemos assim esta intuição do socialismo que a linguagem não podia dar de uma maneira perfeitamente clara – e a obtemos em um conjunto percebido instantaneamente.”

Uma nota que segue este texto de Sorel acrescenta: “É o conhecimento perfeito da filosofia bergsoniana.” Vê-se assim que se trata de uma concepção pragmatista, antideterminista, anti-intelectualista, antimecanicista, da psicologia mítica, individual e coletiva. Grupos sociais ou nações inteiras, no momento de crises graves ou de revoluções, seriam animados por uma organização viva de imagens, feita da negação do presente, mas também de seus sonhos, de suas aspirações, de suas forças dinâmicas. Este mito revolucionário não seria uma descrição das coisas, nem tal como elas são, nem sobretudo tal como elas serão na realidade, uma vez que a mudança tenha ocorrido, mas ele exprime um conjunto de vontades.

Um mito, no sentido soreliano, se distingue essencialmente de uma utopia composta e elaborada por um filósofo ou por um cientista que pretende “pensar para o proletariado.” É uma organização imaginária motora, uma “ideia-força,” que possui um grupo social a ponto de levá-lo a se tornar uma potência criadora da história. Sorel dá o exemplo dos “protestantes da Reforma, nutridos da leitura do Antigo Testamento. Desejando imitar as façanhas dos antigos conquistadores da Terra santa, eles tomavam a ofensiva e queriam estabelecer o reino de Deus pela força.”

Deve-se, a este propósito, dar alguma atenção a certas expressões de Sorel sobre a natureza do socialismo, e que evocam, de forma singular, o “Grande Trabalho” político cujos arcanos certas sociedades secretas ensinavam iniciaticamente a seus adeptos: “É preciso que os socialistas,” declara Sorel, “sejam persuadidos de que a obra à qual se dedicam é uma obra grave, temível e sublime; é somente sob esta condição que eles poderão aceitar os inumeráveis sacrifícios que lhes pede uma propaganda que não pode proporcionar nem honras, nem lucros, nem mesmo satisfações intelectuais imediatas. Se a ideia de greve geral não tivesse como resultado senão tornar mais heroica a noção socialista, ela já deveria, por si só, ser considerada como tendo um valor inestimável.” Sorel, assim, anuncia que uma “espécie de onda irresistível passará sobre a antiga civilização.”

Esta linguagem profética, esta imagem diluviana da “mutação” histórica, do “salto qualitativo,” que deve separar definitivamente duas eras “geológico-sociais” sucessivas, a do capitalismo e a do socialismo, repetem, é certo, com eloquência, o tema da “ruptura sem retorno,” já desenvolvido por Marx e por Engels. Mas nelas se encontra também a afirmação nova de um “messianismo” fundado no “momento vivido único” bergsoniano. O heroísmo se torna então capaz de realizar por seus atos a “grande ciência” da transmutação social que Sorel não cessa de opor à “pequena ciência” dos “intelectuais” e dos “utopistas pseudo-revolucionários.”

Vê-se assim que Sorel não atribui à noção de “mito” o sentido ordinário de “coisa fabulosa.” Não é de forma alguma para denunciar o caráter ilusório e mentiroso da greve geral que ele a considera como um mito. Ele afirma, pelo contrário, a sua significação essencialmente criadora na “duração pura” onde ela se situa. Isso expressa bastante claramente o seu dinamismo “poético,” no sentido literal e não literário do grego poiein, “criar.” Sorel o sublinha, aliás, em muitas passagens de sua obra: o devir social não é de forma alguma um determinismo histórico. É uma criação livre, sob a influência de mitos sociais bem escolhidos, por um grupo de homens “capazes de entusiasmo,” o que significa, etimologicamente, de uma “exaltação produzida pela inspiração divina.” Assim, a causa do sindicalismo revolucionário seria inseparável do “Grande Trabalho” de uma energia transcendente, destinada a transformar o homem, o mundo e a vida.

Se se busca os molas ocultos desta transmutação universal que, em aparência, parece utópica, encontra-se que ela se baseia inconscientemente em uma nova representação simbólica da duração vivida e, de certa forma, em uma outra abordagem mítica do tempo.

Nossa época, de fato, não foi menos subitamente confrontada do que foi a Renascença com representações novas do espaço e do tempo. Pouco a pouco, um mito cronológico diferente do dos séculos precedentes parece ter se imposto ao inconsciente coletivo. Este novo mito transferia para o futuro todas as potências do tempo, que se tornou um “perpétuo inventor,” e que se vê dominar não apenas a filosofia bergsoniana, mas também as interpretações organicistas da evolução, os delírios tecnológicos e os profetismos místico-políticos do século XX.

Nestas condições, o pensamento socialista soreliano dependia mais do que qualquer outro das concepções bergsonianas da duração e de sua orientação geral para o futuro das sociedades. Na medida em que se invertia este movimento, se invertia também todo o sistema. Bastava transferir os princípios sorelianos sobre a legitimidade da violência aos direitos de um patriciado nacionalista que reivindicava, em nome do passado mais distante, a liberdade de conduzir a seu bel-prazer uma luta de raças chamadas a dominar o mundo e não uma luta de classes, para se chegar em linha reta ao imperialismo nazista, que, ele também, apresentou seus mitos políticos como “conjuntos de vontades” revolucionárias, apoiadas em “mitos sociais bem escolhidos” e em grupos de homens capazes de entusiasmo destrutivo.

A mistagogia hitleriana estendeu, por exemplo, a concepção “diluviana” das eras “geológico-sociais” anunciadas por Sorel a temas biológicos e cosmológicos cujo “delírio difuso,” a Wahnstimmung, muito emprestou daquele das divagações pseudo-esotéricas do século XIX: “Um tema que voltava constantemente em suas falas,” relata H. Rauschning a respeito de Hitler, “é o que ele chamava de 'virada decisiva do mundo' ou a dobradiça dos tempos. Haveria um abalo do planeta que nós, não iniciados, não podíamos compreender em sua amplitude. Hitler falava como um vidente. Ele havia construído uma mística biológica, ou, se se quiser, uma biologia mística, que formava a base de suas inspirações…

'O período solar do homem chegava ao seu fim; já se podia discernir nas primeiras amostras de super-homens a espécie nova que iria reprimir a antiga humanidade… O nacional-socialismo é mais do que uma religião: é a vontade de criar o super-homem.'”

Esta citação dá alguma ideia da forma como o nacional-socialismo inverteu os dados revolucionários, graças a dois procedimentos muito simples: aquele que consiste em identificar a nação com a humanidade, o partido com a igreja, o homem com Deus, e aquele que dissimula os problemas reais da economia sob os problemas ilusórios de uma pseudo-biologia.

O “delírio difuso” dos chefes nazistas não deve fazer esquecer, de fato, sua eficácia diária no domínio da propaganda política, nem sua utilização por grupos de interesses econômicos. Hitler se pronunciou claramente sobre o primeiro ponto em Mein Kampf: “A faculdade de assimilação da massa,” ele diz, “é muito restrita e seu entendimento, pequeno; por outro lado, sua falta de memória é grande. Portanto, toda propaganda eficaz deve se limitar a pontos muito poucos, e fazê-los valer com fórmulas estereotipadas o tempo que for necessário, para que o último dos ouvintes seja capaz de captar a ideia… A grande massa de um povo não se compõe nem de professores nem de diplomatas. Ela é pouco acessível a ideias abstratas. Por outro lado, ela será mais facilmente agarrada no domínio dos sentimentos, e é lá que se encontram os molas secretos de suas reações, sejam elas positivas ou negativas… Em todos os tempos, a força que colocou em movimento nesta terra as revoluções mais violentas residiu muito menos na proclamação de uma ideia científica que se apoderava das multidões do que em um fanatismo animador e em uma verdadeira histeria que as entusiasmava loucamente.”

No que se refere à utilização econômica do “delírio difuso” da Wahnstimmung hitleriana, aqui está um documento pouco conhecido e que merece ser citado e meditado: um extrato da declaração de Alfried Krupp von Bohlen und Halbach, em 1947, perante as autoridades americanas:

“Eu, abaixo assinado, Alfried Krupp von Bohlen und Halbach, Nuremberg, depois que minha atenção foi chamada para o fato de que incorro em punição em caso de falso testemunho, declaro o seguinte sob o juramento e sem coerção.

Em resposta à pergunta de por que minha família se pronunciou por Hitler, eu disse: 'A economia precisa de um desenvolvimento regular e sempre mais amplo. A luta entre os numerosos partidos alemães e a desordem têm impedido uma atividade construtiva. Nós, kruppianos, não somos idealistas, mas realistas.' Meu pai era diplomata. Tivemos a impressão de que Hitler nos permitia um desenvolvimento saudável. Ele de fato conseguiu. O sistema de partidos, tal como existia antes, era totalmente louco. Hitler, por sua vez, fazia planos e agia. No início, tínhamos votado no Partido do Povo Alemão, onde meu tio, von Wilmovsky, ocupava um posto elevado. Mas a ala conservadora era muito fraca para dirigir nosso país.

Não há ideais. A vida é uma luta pela 'manutenção da vida,' pelo pão e pelo poder. Falo sem rodeios nesta hora amarga da derrota. Nesta luta tão dura, precisávamos ser conduzidos por uma mão forte e firme. Hitler nos deu uma e outra. No decorrer dos anos de seu governo, todos nós nos sentíamos muito mais à vontade.

Eu disse que todos os alemães seguiam Hitler. A maioria do povo estava atrás do governo. Talvez essa tenha sido a nossa fraqueza. Li ultimamente os discursos de Churchill e notei que ele foi constantemente obrigado a defender sua política contra a crítica dos partidos e a modificá-la, se necessário. Não havia nada disso conosco.

Mas, em princípio, a diferença não é tão grande. Toda a nação estava de acordo com as grandes linhas da política seguida por Hitler.

Nós, kruppianos, nunca demos muito valor à vida. Só queríamos um sistema que funcionasse bem e que nos desse a possibilidade de trabalhar à vontade. A política não é nosso assunto.

Quando me interrogaram sobre a política antissemita dos nazistas e me perguntaram o que eu sabia sobre ela, eu disse que não sabia nada sobre o extermínio dos judeus e acrescentei: 'Quando se compra um bom cavalo, não se olha para alguns defeitos.'”

A assinatura do acusado segue esta declaração. Alfried Krupp, condenado em 31 de julho de 1948, pelo Tribunal Militar Americano de Nuremberg, a doze anos de prisão e à confiscação de seus bens, recuperou sua liberdade com sua fortuna, em janeiro de 1951, graças ao alto comissário americano na Alemanha, Mac Cloy. Doravante, os “kruppianos” continuam, como no passado, a “nunca dar muito valor à vida,” e a agir em função de seu único princípio: “Não há ideais.”

Estes fatos devem ser lembrados no limiar desta obra a fim de bem distinguir o que chamo de análise mito-política do fenômeno hitleriano, das fabulações mistificadoras e suspeitas às quais certos autores, principalmente franceses, se entregaram com demasiada complacência neste domínio, reconstituindo assim uma perigosa neo-mitologia do nazismo.

De fato, todo “delírio difuso” tende a se apresentar, politicamente, como uma síntese demagógica do díspar e nele se descobre sempre o que se prefere encontrar. O “racionalista darwiniano” pode pretender que o nazismo foi uma lúcida tentativa experimental de aplicar à humanidade os princípios científicos da seleção das raças e da evolução das espécies, saudando assim em Hitler a encarnação da “razão fria,” tão legitimamente quanto o “ocultista” é capaz de ver no nacional-socialismo a obra mágica das “potências negras do Tibete.” Pois é próprio do “delírio difuso” ser facilmente comunicável a formas análogas que se reconhecem nele tanto mais voluntariamente quanto ele se adorna a seus olhos com a autoridade de um aparato histórico que tende a tranquilizá-los sobre o valor objetivo de seus sistemas.

Deste ponto de vista, deve-se lembrar, ao risco de não agradar a ninguém, que Hitler foi nomeado o “Cristo alemão” tantas vezes quanto o “Anticristo.” W. Hofer cita, por exemplo, este texto de um ditado na escola comunal: “Jesus e Hitler”:

“Tal como Jesus libertou os homens do pecado e do inferno, Hitler salvou o povo alemão de sua perdição: Jesus e Hitler foram perseguidos, mas enquanto Jesus foi crucificado, Hitler foi nomeado chanceler do Reich. Enquanto os discípulos de Jesus renegaram e abandonaram seu mestre, os dezesseis camaradas caíram por seu Führer. Os Apóstolos concluíram a obra de seu Senhor. Esperamos que Hitler possa cumprir sua obra ele mesmo. Jesus construía para o céu; Hitler, para a terra alemã.”

Em uma obra recente, o historiador Friedrich Heer assinala que certos meios católicos espanhóis se obstinam em considerar Hitler como um santo que se sacrificou pela causa sagrada da defesa da Igreja e que se reza para obter sua intercessão e sua proteção contra a “subversão diabólica do comunismo.”

Salvador Dali, no limite “paranoico-crítico,” reivindica para seu delírio pessoal objetivos menos limitados do que os da Wahnstimmung nazista. Ele sonha com uma guerra cataclísmica “ultrarrápida, colossalmente destrutiva e transformadora, de uma ferocidade inaudita,” que desencadeariam os “verdadeiros mestres,” os “grandes cruéis,” os “senhores sem objetivo.” Dali esquece que eles já existem sob a forma de “kruppianos” e há muito tempo. “Hitler talvez fosse um delirante,” ele acrescenta, “mas ele perseguia objetivos mesquinhos como a hegemonia alemã e a vitória de uma raça. Ainda não sabemos o que são os Superiores. Eles não serão humanitários, mas super-humanitários; eles não se ocuparão de progresso, mas de transmutação, e buscarão o máximo de rendimento pelo máximo de conflitos.” Este era também o objetivo principal daqueles que, em numerosos países, se tornaram os banqueiros e os cúmplices do nazismo.

Existiam na Alemanha dois grupos principais de lojas maçônicas, aquelas que eram “humanitárias” porque recebiam os judeus e que permaneciam apegadas aos “Antigos Deveres” traçados pelas “Constituições de Anderson,” e aquelas da “Velha Prússia” que excluíram todo membro “não puramente germânico” e que rejeitaram todo ritual baseado no Antigo Testamento e todo simbolismo “não essencialmente germânico,” depois de ter assegurado a Hitler “sua devoção.” Até onde sei, não existem lojas super-humanitárias: lamento por Dali, mas também pela Maçonaria “velha-prussiana” (altpreussische) que não cometeu erros menos graves do que os da Igreja romana de Pio XII, dos “ultra-conservadores” britânicos, os Die-Hards do tipo de sir Henry Deterding, o presidente da “Royal Dutch,” ou da “União das Igrejas protestantes,” dirigidas pelo pastor Müller.

O governo hitleriano regulou em poucos meses as relações entre o Estado e as Igrejas. As negociações de von Papen em Roma levaram muito rapidamente à assinatura de uma Concordata com o Vaticano. Após a constituição da “Igreja evangélica,” nomeou-se um comissário de Estado para a Igreja protestante na Prússia, Jäger. Sua primeira ordem declara: “Devemos dar graças a Deus por ter, por seu órgão, Adolf Hitler, desviado de nós o caos bolchevique.” Não se pode confessar mais claramente que, para os católicos romanos como para muitos protestantes e para alguns maçons nacionalistas, tratava-se de exorcizar o Satã stalinista pelo Belzebu hitleriano.

Fiel à sua tradição política de oportunismo que o havia levado, alguns anos antes, a receber Georges Titchérine após Rapallo, mesmo que se juntasse posteriormente à campanha antissociética dos Die-Hards, os ultra-conservadores britânicos, o Vaticano não hesitou em abandonar o chanceler cristão Brüning para se juntar ao novo poder demagógico de Adolf Hitler.

A Maçonaria prussiana seguiu o movimento. Ela denunciou o caráter “pacifista e cosmopolita” das concepções das lojas “humanitárias”; ela proclamou seu caráter “puramente nacional” (rein national) e sua intenção de “desenvolver o amor à pátria, o sentido da nação e da comunidade, bem como de lutar contra o materialismo pelo desenvolvimento do sentimento religioso no povo.”

Estes fatos são suficientes para mostrar que a revolução do conservadorismo, expressão pela qual se designou muito justamente o nazismo, foi duplicada, de certa forma, pelos aspectos místicos e míticos do que se poderia chamar o nacionalismo extático, fenômeno histórico já conhecido dos franceses desde Joana d'Arc e sofrido por eles até uma época recente. Ora, pode-se constatar que o nascimento do nacional-socialismo não foi menos cercado de sombras do que o do movimento subterrâneo, ainda tão mal conhecido, que preparou e acompanhou o aparecimento da “Filha de Deus,” enviada pelo “Rei do Céu.”

Se se tratava, no caso de Adolf Hitler, de um “Filho do Diabo,” foram tomadas precauções tão grandes para apagar os rastros daqueles que colocaram em marcha, os primeiros, uma máquina infernal condicionada pelas ordens dadas a uma “missão providencial” da qual Hitler foi o único a nunca duvidar.

Tentei, no entanto, reencontrar as pistas desses personagens modestos demais que, com seu dispositivo em funcionamento, não parecem querer figurar nos futuros trabalhos dos historiadores. Se não consegui identificá-los todos, longe disso, pelo menos tive a chance de descobrir dois documentos que permitem, pela primeira vez, saber exatamente o que foi a célebre “Sociedade Thule,” a Thule-Gesellschaft, da qual se disse e escreveu na França tantas fábulas ridículas e, ao contrário, na Alemanha, tão poucas coisas dignas de interesse.

Achei que devia traduzir, em apoio às minhas hipóteses, não apenas uma história autêntica desta sociedade, escrita por seu fundador, mas também reproduzir uma lista de seus membros, estabelecida em 1933, ao mesmo tempo em que analisei os estranhos exercícios místico-mágicos descritos pelo verdadeiro “mestre” da Thule-Gesellschaft, um “Iluminado” germano-turco, Rudolf von Sebottendorff.

As relações destas teorias com as da alquimia iluminam de uma forma singular o mito da “transmutação biológica” da Alemanha, cuja explicação se buscou em vão até o momento. É-se no direito de se perguntar se o primeiro ensaio de aplicação deste saber secreto não ocorreu em Adolf Hitler ele mesmo, que teria sido, de certa forma, o “fermento” predestinado de uma metamorfose coletiva capaz de encontrar nele, com o Führerprinzip, seu guia e seu modelo.

É incontestável, pelo menos, que o caso de Adolf Hitler requer um estudo atento da mediunidade do Führer da qual todos os testemunhos conhecidos não permitem duvidar. Os fenômenos de possessão que o mestre da Alemanha apresentava me pareceram dever ser examinados, pois, neste ponto, constata-se que os exercícios místico-mágicos de Sebottendorff tendiam precisamente a colocar em relação o “missionado” com “entidades” de um “outro mundo” e, em todo caso, a favorecer um estado de auto-hipnose, favorável ao desdobramento da personalidade.

Esta “enxertia da Sombra” foi operada voluntariamente em um sujeito mediúnico com um dom excepcional de exteriorização oratória total, resultando em uma dissociação do Eu sem dúvida favorecida por graves lesões do aparelho respiratório, pela tuberculose na juventude e pelos gases de combate, durante a guerra? Ou foi adquirida por um treinamento pessoal do Führer, segundo indicações ocultas transmitidas por Rudolf Hess ou por algum outro membro ativo da Thule-Gesellschaft, ou mesmo por algum intermediário desconhecido? É infelizmente impossível responder a tais perguntas, mas não se pode evitar de as fazer quando se observa, pelo estudo de numerosos testemunhos, com que cuidado constante Hitler se precavia para não deixar ninguém, nem mesmo seu camareiro ou seus médicos, penetrar os segredos de sua vida íntima.

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