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EU MESMO E EU OUTRO
JEAN BORELLA. La Charité profanée. Subversion de l’âme chrétienne. Paris: Éditions du Cèdre, 1979.
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A retomada da questão socrática do conhecimento de si mesmo, após o estudo da “carta” do percurso, conduz à necessidade de descrever a viagem em suas peripécias essenciais para alcançar a verdadeira realidade.
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A pessoa a ser atingida não é dada imediata e naturalmente, exigindo uma conversão ao ser espiritual.
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Essa conversão implica distinguir o verdadeiro eu do falso eu, ou seja, o espiritual do psíquico, confusão esta que perverte a caridade cristã.
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A análise visa agora apreender essa perversão em sua raiz subjetiva, no indivíduo, mostrando como o mandamento de amor seria vão se dirigido ao eu empírico, capaz de simular a caridade.
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A reflexão sobre a natureza do homem e uma doutrina antropológica são indispensáveis, pois o amor de Deus requer toda a inteligência, restando a boa vontade e o intelecto para bem pensar.
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A análise parte da distinção terminológica entre “je” e “moi”, estabelecendo a tese de que o “moi” não é um ser, mas um ato de apropriação, um ter, designando a relação de posse do “je” com a individualidade psico-corporal.
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Nessa relação, o “je” é um possuidor possuído, capturado pela individualidade, conferindo ilusoriamente a essa captura a consistência de uma unidade.
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A distinção entre “je” e “moi” é comum no pensamento ocidental, mas pensadores como Kant, Husserl e W. James não tinham em vista uma antropologia religiosa e não apreenderam o “moi” como mentira de ser.
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São as palavras do Cristo que obrigam a análise filosófica a desmascarar a irrealidade do “moi” individual, como nos textos que exortam ao reino da própria vida ou alma, entendida como “ter”.
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Esses textos revelam uma estrutura dinâmica de três elementos: o “moi” humano natural, o “Moi” divino e um novo “moi” humano sobrenatural, exigindo o reino ao “moi” natural para se aceder ao pessoal.
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O reino ao “moi” natural só é possível se houver no homem um “je” mais radical e se aquilo a que se renega não for verdadeiramente real, pois o real não pode ser abolido.
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A ilusão do “moi” natural, embora pareça natural, é adquirida e tem uma história, constituindo-se menos como um ser e mais como uma habitude, um ato de posse que se consolida progressivamente.
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A gênese do “moi” parte do desejo de possuir o que se é, o que exige distinguir-se de si mesmo, opondo possuidor e possessão, e condenando a uma união jamais alcançada.
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O que se opõe são o espírito (pessoa espiritual) e a alma (realidade psico-corporal); na natureza primeira, o espírito é todo o homem, orientado para seu Princípio, sendo imagem e semelhança de Deus.
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O movimento de se deter de Deus é o de se voltar para si mesmo e para o mundo, perdendo a dominação e tornando a alma e o mundo objetos a conquistar, ou seja, inimigos.
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O homem detido, ao olhar para as águas anímicas, vê a sombra de sua própria pessoa (o “moi”), como Narciso fascinado pelo reflexo, num ato que engendra a ilusão e o leva à perda.
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O “moi” é a fascinação subida e a posse desejada, justificando-se pela lembrança de um ser perdido; o que Cristo pede é renunciar a essa usurpação de ser o guardião de si mesmo, “perder-se de vista”.
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A alternativa altruísmo-egoísmo situa-se no mesmo nível da ilusão do “moi”, pois o altruísmo é um “egoísmo transposto”, sem dimensão espiritual; a verdadeira solução é compreender que “sem Mim” nada se pode fazer.
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Romper com a fascinação da psique é aceitar que a mão esquerda ignore o que faz a direita, é deixar que o “Moi” supremo conheça no segredo, sem que o “moi” relativo furte esse fruto.
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A análise da dialética do “je” e da psique que constitui o “moi” recorre a elementos extra-filosóficos, como o relato bíblico do pecado original, cujo uso de símbolos é necessário por vivermos essa dialética de modo simbólico.
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O caráter simbólico do relato da Gênese não significa que ele não corresponda a uma realidade histórica; um evento é real na medida em que tem significação simbólica, pois todos os graus da realidade estão em correspondência analógica.
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O que funda a realidade histórica de um evento é o arquétipo de que ele é símbolo; a Escritura inclui ambos os planos numa mesma expressão, falando simultaneamente de uma realidade interior arquétipo e de sua manifestação exterior.
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Nos primórdios, o mundo sensível estava próximo do inteligível (as “sete terras estão no céu”), havendo unidade efetiva dos graus cósmicos, restabelecida por Cristo apenas na ordem sacramental.
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No Paraíso, todas as coisas tinham dimensão analógica sacramental: a árvore simboliza o Intelecto cósmico, e a serpente simboliza o mundo sutil, sendo considerada “cientificamente exata” a menção desses elementos no relato.
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A história do pecado original narra a queda do “je” na psique, entendida como a tentativa da imagem (função cósmica do homem) de possuir a semelhança (relação vertical com o Princípio).
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O homem é criado à imagem e segundo a semelhança de Deus; a imagem define a função cósmica (relação horizontal), enquanto a semelhança diz respeito ao conteúdo da imagem, à pessoa espiritual (relação vertical).
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A serpente afirma que, comendo do fruto, Adão e Eva serão “como deuses”, quando já o são; o teomorfismo interior é apresentado como objeto exterior a ser possuído, e desejar possuir o que já se é introduz a dualidade e a perda da natureza.
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A manducação do fruto proibido opera a inversão da estrutura antropológica: o interior torna-se exterior, o superior torna-se inferior, atualizando-se a dualidade.
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Os dois árvores no centro do Paraíso simbolizam as possibilidades do mundo humano: a árvore da vida (comunicação com o mundo espiritual) envolve a árvore da ciência do bem e do mal (virtualidades inferiores).
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Ao comer o fruto, Adão, por ser senhor do cosmos, arrasta-o em sua queda, permitindo à serpente (forças sutis) desdobrar-se e tornar-se horizontal, separando a árvore da vida da árvore da ciência.
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A vida (comunicação com o espírito) perde-se, restando a conhecimento teórico; a ciência do bem e do mal, especulativa no Paraíso, torna-se a vida do homem decaído, que passa a ter consciência dualista.
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Os olhos se abrem para a consciência dualista e separativa, mas o olho interior do coração se fecha, e o homem vê que está nu, ou seja, torna-se objeto para si mesmo, expulso de si.
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A nudez interior do Adão primordial, coberta pela luz divina, é a que Maria permite reaver; a nudez exterior, a das “túnicas de pele”, é a exteriorização da nudez, a aparência corporal atual que manifesta a animalidade, não a humanidade.
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A queda original é a queda do “je” na psique, a passagem da consciência unitiva de ser à consciência distintiva de ter.
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A pesquisa do si-mesmo e da verdadeira pessoa só pode realizar-se por uma conversão interior que remonte aquém do pecado original, uma vez que a verdadeira pessoa é conhecimento unitivo de ser, inapreensível positivamente pelo conhecimento dualista.
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Resta a possibilidade de uma apreensão negativa, uma “egologia negativa”, análoga à teologia negativa, que consiste em tomar consciência da própria inconsciência espiritual.
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O “je” aparece como a consciência da ignorância ontológica, um ponto cego no coração da consciência, a primeira face verídica da pessoa imortal.
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Para ir além e tornar-se si-mesmo, é preciso renunciar a tudo o que não se é, a todas as identificações possessivas, para dar lugar à identidade espiritual, visando não a pessoa humana, mas a Pessoa divina.
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É Deus quem dará a pessoa interior, pois não há outra identidade senão Ele; a identidade de cada um é participação na Identidade suprema, o Reino de Deus que está dentro.
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O caminho do conhecimento de si conduz para além da análise filosófica, à religião; para o cristão, a realidade sobrenatural em ato está nos Sacramentos, como a manducação eucarística, antítese da pecaminosa.
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A resposta humana à graça divina realiza-se na oração, particularmente na invocação do Nome de Jesus, que faz cessar de dizer “eu”.
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A essência da pessoa humana é espiritual, não psíquica; a alienação do “je” está em identificar-se com o que não é ele, e a personalização consiste em desvencilhar-se de si mesmo, recusando identificações ilusórias.
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Cessar de ligar-se às modificações psíquicas é passar pela morte, mas, se o “moi” é apenas uma ilusão de apropriação, morrer para a ilusão é nascer para o conhecimento.
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Para saltar sobre a própria sombra (a ilusão do “moi”), é preciso voltar-se para o Sol (Deus).
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