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TRÊS MUNDOS

JEAN BORELLA. La Charité profanée. Subversion de l’âme chrétienne. Paris: Éditions du Cèdre, 1979.

* A consistência material dos corpos é hoje posta em questão pela física quântica, que dissolve a ideia de partículas elementares como individualidades físicas localizáveis.

  • O físico Frenkel conclui que o que é ontologicamente primeiro não são os corpúsculos, mas o campo eletromagnético que os produz e que não é sustentado por nenhuma realidade material.
  • O modelo planetário da estrutura atômica de Niels Bohr é apenas uma representação cômoda sem valor de realidade.
  • As moléculas tampouco explicam a coesão dos corpos por crochês interatômicos: os elétrons de ligação e interação não são localizáveis; os químicos substituem as fórmulas geométricas por mapas de densidade eletrônica.
  • A matéria e o espaço são indefinidamente divisíveis: nunca se encontrará um grão de matéria ou de espaço indivisíveis, e portanto nenhum “tenon” elementário pode fundar o edifício do mundo corporal.
  • O espaço é exterioridade pura (partes extra partes), e sua natureza torna impossível que a consistência dos corpos seja de natureza espacial.
    • Todo ponto do espaço é o limite de todos os outros, o que faz do espaço não um contêiner estável, mas um “estouro” quasi realizado.
    • O que mantém juntas as partes de um corpo é uma unidade-forma de natureza psíquica, imanente à realidade corporal e inseparável dela.
    • O corporal é uma cristalização de substância psíquica transspacial: o modo terminal do psíquico, a maneira pela qual ele detém seu próprio movimento de manifestação em direção à exterioridade.
    • Ruyer denomina esse mundo puramente corporal o mundo do “aqui-agora”: ici e maintenant são os modos limites da presença corporal, reduzidos a uma unicidade pontual.
    • Leibniz formulou o princípio: “o que não é verdadeiramente um ser não é também verdadeiramente um ser”; a unidade real exige a atualidade de uma forma não espacial, portanto de natureza psíquica.
  • Os físicos idealistas são materialistas decepcionados: identificando realidade e materialidade, e não podendo verificar essa identificação na física quântica, concluem pela idealidade dos fenômenos.
    • Ruyer mostra que existem outros modos de realidade consistentes e objetivos além da matéria.
    • O “campo de consciência” humano fornece o modelo: na visão de uma mesa, a multiplicidade de objetos é unida em uma única “extensão-visão” sem coexistência por justaposição espacial.
    • Ruyer utiliza esse modelo para mostrar que deve existir algo análogo no nível das realidades corporais, pelo qual essas realidades são de algum modo presentes a si mesmas, ou seja, reais.
  • O mundo psíquico ou “mundo sutil” constitui o segundo estado do real, cuja existência objetiva o condicionamento materialista de três séculos torna difícil de reconhecer.
    • Uma paixão ou uma lembrança são dotadas de vida e estrutura autoconsistentes que resistem à vontade, definem-se e se impõem apesar do sujeito: são formas muito reais que informam a consciência e organizam o comportamento.
    • O estado de sonho e as descrições de Proust verificam de modo marcante esse caráter das formas psíquicas.
    • As formas culturais e sociais – a arte, a política, os costumes, as ideologias – apresentam-se, a esse nível, como formas psíquicas vivas e subsistentes.
    • Ruyer sustenta que essas formas têm caráter de necessidade relativa e respondem a “possibilidades permanentes”: assim como o anjo ou o “marciano” que quisesse construir um veículo de duas rodas movido por energia muscular chegaria inevitavelmente à forma “bicicleta”, há possíveis culturais e sociais de identidade suficiente através de sua evolução histórica.
  • O carvalho, examinado em sua natureza biológica, postula a existência objetiva de uma forma psíquica informante, não espacial, cuja atividade formadora se desenvolve na duração.
    • Um bolota nunca dará um pinheiro: o carvalho mantém sua forma individuada e específica por mais de quinhentos anos, partindo de solo e glande sem nenhuma semelhança com o ser vivo que deles resulta.
    • Esse desenvolvimento faz-se não por somação e justaposição moleculares, mas globalmente e sinteticamente, como se o carvalho “soubesse” o que acontece em todo lugar de seu ser a todo instante.
    • As estruturações no espaço são apenas a concreção visível das estruturações no tempo: o tempo é constitutivo do próprio ser do vivente.
    • Um vivente não é primeiro uma máquina depois posta em movimento: é inseparavelmente estrutura agente e atividade estruturante; a estrutura não precede a atividade, é exatamente contemporânea a ela.
  • O código genético do DNA não pode explicar materialmente a estrutura dos organismos vivos, pois não há relação inteligível entre a realidade física dos genes e a realidade física dos órgãos.
    • A comparação com a palavra “farinha” num livro de receitas esclarece: entre as letras no papel e a coisa farinha não há relação determinista para quem não sabe ler o código.
    • O código genético é constituído por sequências de quatro elementos básicos dispostos em grupos de três; a mão ou o olho, ao contrário, são constituídos por uma forma-atividade, arranjo global e unitário do espaço – não há olho ou mão em redução no DNA.
    • A formação de uma mão é temporal e requer um “comportamento embriológico” do tipo “previsão”: tudo no vivente só é enquanto se faz.
    • Os próprios epistemólogos reconhecem: “não existe ainda processo que autorize a dedução dos caracteres manifestos de um ser vivo a partir das sequências de base da molécula de DNA.”
    • O que o filósofo não pode aceitar é a dependência determinista entre estruturas genéticas e a estruturação orgânica que elas supostamente comandam e contêm in nuce – conforme Ruyer.
  • A morte biológica demonstra que é a alma quem confere realidade e consistência ao corpo, e não o inverso.
    • Representamos (falsamente) o corpo como realidade sólida e a alma vegetativo-animal como realidade frágil e evanescente.
    • A verdade é o inverso: cessando a atividade da alma, a substância corporal se decompõe e se desfaz.
    • É o corpo que está “na” alma, e não a alma no corpo; é ela quem o guarda.
  • O terceiro estado do real, de natureza semântica, corresponde ao mundo espiritual e à essência platônica: ver um carvalho é ver a essência carvalho manifestada na árvore percebida.
    • A forma-carvalho não é redutível ao código genético (que é apenas o meio pelo qual ela se realiza no espaço) nem a uma pura psyche ou forma-atividade (que é apenas o meio de se realizar na duração).
    • A experiência semântica é muito comum e objetiva, embora pouco notada: diante de um pinheiro percebe-se outra “palavra” do mundo, outro sentido que diante de um carvalho.
    • Ignorar essa dimensão ou reduzi-la a impressões subjetivas é tornar o conhecimento ininteligível e amputar a realidade de uma dimensão essencial.
  • A subsistência semântica é a subsistência fundamental do carvalho: “antes” de subsistir no espaço-tempo, o carvalho subsiste semanticamente como possibilidade permanente do sentido do universo.
    • O mais “duro” no carvalho é sua essência: analisar um carvalho, por mais finamente que se queira, é sempre e indefinidamente descobrir ordem, sentido, semântico.
    • O que mantém juntos os elementos de um edifício não são apenas mortaises ou cimento, mas a estrutura – e essa estrutura é uma descoberta, não uma invenção do arquiteto: é um possível técnico que impõe sua lei à inteligência.
    • Unidade de uma ordem é seu sentido: o que faz a unidade da ordem das palavras numa frase é o sentido dessa frase; não pode haver unidade verdadeira senão a unidade semântica.
  • A história do “carro de Milinda” ilustra, por via da negação, a realidade da subsistência semântica, revelando os pressupostos materialistas do não-substancialismo budista.
    • Milinda é o nome indiano de Menandro, rei grego do Penjabe no século II a.C.; o monge budista Nagasena argumenta que o carro não é o timão, nem o eixo, nem as rodas, nem a caixa, nem sua reunião – e portanto “não há carro.”
    • A fraqueza do argumento está em supor que a enumeração de Nagasena é exaustiva; mas resta ainda, para fundar a realidade do carro, o que Aristóteles chama de “forma” (morphe, eidos): a unidade estrutural inteligível da coisa, que a filosofia escolástica denomina “forma substancial.”
    • Todo artesão – Deus, anjo, “marciano” ou homem – que queira construir um veículo terrestre deve obedecer à forma “carro”, que não varia essencialmente do carro à carruagem, ao automóvel ou ao vagão.
    • Nagasena tem razão em mostrar que não é possível atribuir ao carro uma subsistência material; mas isso não significa que os seres carecem de consistência ontológica – significa que essa consistência é de outra ordem e natureza.
  • A subsistência semântica é o absoluto do ser no âmbito do criado, porque não se pode remontar além do sentido, e a unidade de um ser só pode ser unidade semântica.
    • A estrutura inteligível do ser é aquela em que todos os elementos são imanentes uns aos outros em unidade indivisível: os elementos “se compreendem” reciprocamente no duplo sentido do termo – compenetram-se ao inteligir-se mutuamente.
    • O sentido é primeiro e não pode ser definido, salvo reconhecendo um sentido dos sentidos de natureza puramente metafísica, que é o Logos divino ou Supremo Inteligível.
    • Para um ser dado, o absoluto indestrutível de sua realidade é de natureza semântica.
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