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EXEGESE SUFI DO CORÃO

  • Sendo o Sufismo o aspecto interior do Islã, sua doutrina constitui substancialmente um comentário esotérico do Corão, fundamentado nos ensinamentos do Profeta — inclusive nas sentenças santas (ahâdît qudsiya) — que fornecem a chave da exegese destinada especialmente aos contemplativos.
    • O Profeta transmitiu oralmente a chave da interpretação corânica.
    • Certos ditos foram pronunciados como santo contemplativo e não como legislador.
    • As ahâdît qudsiya possuem grau de inspiração análogo ao do Corão.
    • A exegese sufi parte dessas sentenças destinadas aos iniciados.
  • Cada palavra do Corão comporta múltiplos sentidos, reflexo do processo de manifestação divina, e a exegese sufi fundamenta-se tanto na natureza simbólica das coisas quanto na riqueza semântica das línguas primordiais como o árabe, o hebraico e o sânscrito.
    • A revelação reproduz graus da manifestação divina.
    • A linguagem primordial conserva modalidades do concreto ao universal.
    • O exoterismo limita-se ao sentido imediato.
    • A interpretação sufi percebe o significado interior e necessário.
    • Exemplos incluem os versículos sobre linafsihi e ‘alà nafsihi e o dito «quem se conhece conhece seu Senhor».
  • Em certos casos a exegese sufi inverte o sentido exotérico, interpretando ameaças de aniquilação como símbolos da extinção espiritual da alma durante a realização interior.
    • O ponto de vista da individualidade pode opor-se ao do intelecto transcendente.
    • A contradição é real, mas não absoluta.
  • Existe também uma exegese fundada no simbolismo fonético do Corão, segundo a qual cada letra corresponde a uma determinação do som primordial, e cuja compreensão requer a doutrina tradicional da revelação como “descendimento” global na noite da predestinação (sura al-qadr).
    • O Corão foi feito descer como conhecimento indiferenciado.
    • O “descendimento” fixou-se na modalidade corporal da consciência do Profeta.
    • A noite simboliza potencialidade e receptividade perfeita.
    • A manifestação compara-se ao dia.
    • O estado primordial é paz pela Presença divina.
  • O conhecimento integral oculto na noite da predestinação exprime-se posteriormente em palavras conforme os acontecimentos o atualizam, o que explica a fragmentação do texto e a repetição variada das verdades essenciais, cuja forma sonora conserva o poder espiritual originário.
    • A revelação ocorre sem elaboração discursiva.
    • A sonoridade participa da força espiritual.
    • A multiplicidade textual deriva da atualização progressiva.
  • A doutrina tradicional da revelação do Corão corresponde essencialmente à do Veda no Hinduísmo, recebido pelos Rishis por inspiração visual e auditiva, e as referências mundanas do texto devem ser compreendidas segundo a experiência ordinária e não como afirmações científicas.
    • O Veda subsiste eternamente no Intelecto divino.
    • A revelação opera-se pelo som primordial.
    • Os exemplos mundanos servem ao conhecimento de Deus.
    • Não se trata de especulação psíquica inconsciente.
  • Embora o comentário metafísico pareça superior por sua abstração, o texto corânico possui a superioridade simbólica de uma forma sintética e antropomorfa que corresponde ao próprio processo da manifestação divina.
    • A forma concreta não diminui o simbolizado.
    • O símbolo exprime a incomensurabilidade divina.
    • Deus pode tomar qualquer símbolo sem perda de transcendência.
  • Segundo a tradição profética, todo o conteúdo revelado se resume no Corão, este na sura al-fâtiha e esta na basmalah, cuja essência se concentra na letra ba’ e em seu ponto diacrítico, símbolo da Unidade principial.
    • A basmalah é fórmula de consagração ritual.
    • A tradição remonta ao Califa ’Ali.
    • A letra inicial simboliza a Unidade.
  • Os nomes divinos Allah, al-Rahmân e al-Rahîm exprimem três aspectos da Infinitude divina: transcendência absoluta, superabundância manifestadora e imanência salvadora.
    • Allah simboliza o Infinito transcendente.
    • Al-Rahmân corresponde à Misericórdia universal.
    • Al-Rahîm expressa a Graça imanente.
    • A manifestação do mundo é misericórdia.
  • A sura al-fâtiha estrutura-se tradicionalmente em três partes que mencionam os aspectos da Divindade, a condição da criatura e a relação entre ambas, articulando dependência e participação.
    • A primeira parte exalta os atributos divinos.
    • A parte final enumera as tendências da criatura.
    • O versículo central exprime adoração e busca de auxílio.
  • Pela al-hamd o espírito eleva-se além das limitações aparentes, reconhecendo em cada qualidade positiva a profundidade do Ser único, Senhor dos mundos.
    • Cada cor e cada qualidade revelam fundo inesgotável.
    • O louvor manifesta abertura ao Ser.
  • O tempo manifesta o Rigor (al-Yalâl), consumindo o mundo e conduzindo ao “dia do juízo” (yawm al-dîn), entendido como reintegração do temporal no intemporal.
    • O dia do juízo é dia da religião e da dívida.
    • A reintegração pode referir-se ao homem, ao mundo ou ao universo.
    • Tudo é perecível exceto a Face divina.
  • No intemporal, a liberdade retorna ao seu fundamento divino, coincidindo liberdade, ato e verdade em Deus, razão pela qual alguns sufis afirmam que os seres se julgam a si mesmos n’Ele.
    • Os membros do homem testemunham contra ele.
    • O juízo reflete a essência da liberdade.
  • O julgamento depende da tendência essencial do homem, figurada nos três caminhos da sura al-fâtiha e simbolizada pelo Profeta mediante a cruz formada pelo caminho reto vertical e as direções opostas e horizontais, correspondendo às dimensões ontológicas e às gunas do Hinduísmo.
    • Caminho reto corresponde à elevação.
    • Cólera divina indica oposição descendente.
    • Erro exprime dispersão horizontal.
    • Sattva, rajas e tamas refletem essas tendências.
  • Em última análise, há para o homem uma única tendência essencial, o retorno à própria Essência eterna, sendo o caminho reto identificado esotericamente com a própria Essência única dos seres, conforme o versículo da sura Hûd.
    • A ignorância gera tendências desviantes.
    • A oração é atendida pelo simples fato de ser pronunciada.
    • Deus mantém todos os seres no caminho reto.
  • O versículo «É a Ti que adoramos e é junto a Ti que buscamos auxílio» exprime simultaneamente a extinção (al-fanâ’) da vontade individual e a subsistência (al-baqâ’) no Ser puro, constituindo o istmo (al-barzaj) entre o Ser absoluto e a existência relativa.
    • A adoração implica conformidade à Lei e à Graça.
    • O auxílio divino é participação na Realidade.
    • O versículo é ponto de união entre dois oceanos.
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