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burckhardt:idei:natureza-sufismo

NATUREZA DO SUFISMO

  • O sufismo (al-Tasawwuf), dimensão esotérica (batin) do islã, distingue-se do islã exotérico (zahir) por oferecer acesso ao conhecimento imediato do eterno em vez de um estado beatífico post mortem obtido pela observância das leis externas.
    • A via comum dos crentes busca um estado beatífico após a morte por participação indireta e simbólica nas Verdades divinas mediante obras prescritas.
    • O sufismo tem seu fim em si mesmo: o conhecimento imediato do eterno, sendo uno com seu objeto, libera do encadeamento das existências individuais.
  • O estado espiritual de baqa (subsistência pura fora de qualquer forma) equivale ao moksha hindu, assim como o estado de fana (extinção da individualidade) que o precede é análogo ao nirvana em sua ação negativa.
    • Baqa designa a subsistência pura fora de qualquer forma, meta dos contemplativos sufis.
    • Fana, a extinção da individualidade que precede baqa, corresponde ao nirvana como ação negativa.
  • O sufismo não se sobreacrescenta ao islã como elemento periférico, mas identifica-se com o núcleo (al-lubb) da forma tradicional que lhe serve de suporte, estando mais próximo da origem sobre-humana da revelação do que o exoterismo religioso.
    • Caso fosse exterior ao islã, o sufismo teria caráter periférico em relação aos meios espirituais deste.
    • O sufismo participa ativamente, de maneira completamente interior, na função reveladora que a forma islâmica manifestou e continua a manter viva.
  • O papel central do sufismo no seio do mundo islâmico pode permanecer oculto aos observadores externos, pois o esoterismo, consciente do significado das formas, é intelectualmente soberano em relação a elas e capaz de assimilar noções e símbolos de heranças tradicionais distintas de sua própria raiz.
    • O sufismo é ao mesmo tempo o espírito (ruh al-islam) e o coração (qalb al-islam) do islã, e também a voz mais livre em relação aos limites mentais desse mundo.
    • Essa liberdade é inteiramente interior e não se confunde com movimentos rebeldes à tradição, que não são intelectualmente livres porque não compreendem as formas que negam.
    • O papel do sufismo no mundo islâmico é semelhante ao do coração no homem: centro vital do organismo e sede de uma essência que transcende qualquer forma individual.
  • Os orientalistas, ao reduzirem tudo ao plano histórico, atribuíram o sufismo a fontes iranianas, hindus, neoplatônicas ou cristãs, mas essas atribuições divergentes acabaram por se equilibrar mutuamente, sem razão suficiente para pôr em dúvida a autenticidade histórica da filiação espiritual dos mestres sufis.
    • A filiação espiritual dos mestres sufis remonta, em cadeia (silsila) ininterrupta, ao Profeta.
    • As atribuições divergentes dos orientalistas se contradizem reciprocamente.
  • O argumento decisivo em favor da origem maometana do sufismo reside no próprio sufismo: aqueles que aspiram a essa sabedoria, que não é de natureza livresca nem meramente mental, apoiam-se necessária e constantemente no simbolismo corânico para realizá-la.
    • Tudo o que forma parte integrante do método espiritual do sufismo é extraído do Corão e dos ensinamentos do Profeta.
  • A observação orientalista de que a doutrina sufi não aparece nos primeiros séculos do islã com todo o desenvolvimento metafísico posterior demonstra o contrário do que pretende, pois os primeiros sufis se expressavam numa linguagem muito próxima do Corão cujas formulações concisas já continham o essencial da doutrina.
    • O crescimento da literatura doutrinária é fenômeno normal em qualquer tradição espiritual: não resulta do aporte de conhecimentos novos, mas da necessidade de conter erros e reanimar uma intuição que se vai debilitando.
    • A transmissão esotérica se dá principalmente por via oral, o que subtrai a continuidade histórica do sufismo às investigações dos eruditos.
  • Como as verdades doutrinais admitem desenvolvimento indefinido e a civilização muçulmana absorveu heranças pré-islâmicas, os mestres podiam empregar noções oriundas desses legados, nomeadamente as de Empédocles e Plotino para a cosmologia, e reconhecer a validade das doutrinas de Platão, tal como os Padres gregos o fizeram sem deixar de ser essencialmente apostólicos.
    • A cosmologia, ciência derivada da metafísica pura e fundamento doutrinário indispensável do sufismo, exprimia-se em grande parte por meio de noções já definidas por Empédocles e Plotino.
    • O platonismo atribuído aos mestres sufis é da mesma ordem que o dos Padres gregos, cuja doutrina permanece essencialmente apostólica.
  • A ortodoxia do sufismo manifesta-se não apenas na conservação das formas islâmicas, mas também no seu desenvolvimento orgânico a partir do ensinamento do Profeta e na sua capacidade de assimilar formas de expressão espiritual que não sejam essencialmente estranhas ao islã, inclusive em matérias secundárias relacionadas com alguma arte.
  • Embora tenham existido contatos entre os primeiros sufis e contemplativos cristãos, como o demonstra a história do sufi Ibrahim ibn Adham, o parentesco entre o sufismo e o monaquismo cristão oriental não se explica apenas por interferências históricas, mas pela natureza do próprio mensagem de Cristo.
    • Segundo Abd al-Karim al-Yili em al-Insan al-Kamil, o messagem de Cristo descobre aspectos interiores e esotéricos do monoteísmo de Abraão.
    • Os dogmas cristãos, redutíveis ao dogma das duas naturezas de Cristo, resumem em forma histórica o que o sufismo ensinará sobre a união com Deus.
    • Os sufis consideram o Senhor Jesus (Sayyidna Isa) o tipo mais perfeito do santo contemplativo entre os enviados divinos (rusul): oferecer a face esquerda a quem golpeou a direita é o desapego espiritual por excelência.
  • Apesar das semelhanças entre o sufismo e a contemplação cristã, os caminhos tradicionais são como raios de um círculo que convergem num ponto único sem jamais coincidir, exceto no centro onde cessam de ser raios, distinção que não impede ao intelecto situar-se por antecipação intuitiva nesse centro.
    • A via dos sufis difere muito da dos contemplativos cristãos, a despeito de todas as semelhanças.
    • A pessoa de Cristo não se situa para os sufis na mesma perspectiva que para os cristãos.
  • O sufismo compreende sempre, como elementos indispensáveis, uma doutrina, uma iniciação e um método espiritual, sendo a quintaessência da doutrina proveniente do Profeta, mas continuamente manifestada pela boca dos mestres graças a uma certa inspiração.
    • A doutrina é prefiguração simbólica do conhecimento a ser conquistado e, em sua manifestação, fruto desse mesmo conhecimento.
    • O ensinamento oral é superior, por seu caráter imediato e pessoal, ao ensinamento obtido dos escritos, que desempenham papel secundário de preparação, complemento ou auxílio à memória.
  • A iniciação sufi consiste na transmissão de uma influência espiritual (baraka) conferida por um representante da cadeia com origem no Profeta, que em geral é o próprio mestre, responsável também por comunicar o método e os meios de concentração espiritual adequados às aptidões do discípulo.
    • O quadro geral do método é a Lei islâmica, embora sufis isolados, em razão do caráter excepcional de seus estados contemplativos, tenham deixado de participar do ritual ordinário do islã.
    • Os suportes espirituais que em certas circunstâncias substituem o ritual habitual foram dados pelo próprio Profeta e constituem as pedras angulares de todo o simbolismo islâmico.
  • A iniciação toma habitualmente a forma de um pacto (bay'a) entre o candidato e o mestre espiritual (al-murshid), representante do Profeta, que implica a submissão perfeita do discípulo em tudo o que concerne à vida espiritual e não pode ser anulado pela vontade unilateral do discípulo.
  • As diferentes ramificações da filiação espiritual do sufismo correspondem aos diversos caminhos (turuq), cada um adaptado por um grande mestre às aptidões de uma determinada categoria de homens dotados para a vida espiritual, sem que tais caminhos representem cisões ou seitas, embora desvios parciais possam ter ocorrido incidentalmente.
    • Os diferentes caminhos correspondem a diferentes vocações e estão orientados para o mesmo fim.
    • O sinal exterior de uma tendência sectária é sempre o caráter quantitativo e dinâmico da propagação.
    • O sufismo autêntico nunca pode tornar-se um movimento, pois recorre ao que há de mais estático no homem: o intelecto contemplativo.
  • Se o islã pôde manter-se intacto ao longo dos séculos, a despeito da volatilidade do psiquismo humano e das divergências étnicas dos povos que abarca, isso se deve não ao seu caráter relativamente dinâmico como forma coletiva, mas ao fato de implicar, desde sua origem e por destino, a possibilidade de uma contemplação intelectual que transcende a corrente das afetividades humanas.
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