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RENOVAÇÃO DA CRIAÇÃO
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A doutrina sufí da “renovação da criação em cada instante” (Taŷdîd al-jalq bil-anfâs) afirma que as essências imutáveis (al-a‘yân al-thâbita) nunca aparecem como tais na existência, mas apenas suas modalidades relativas, cuja variação não se esgota sucessivamente, como o fluxo (fayd) de um rio que obedece à configuração imutável de seu leito.
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As modalidades não “saem” de seus arquétipos.
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O fayd representa a efusão incessante do Ser.
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O leito simboliza a determinação imutável.
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O prisma incolor figura o arquétipo que refrata a luz do Ser.
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No mundo espiritual (‘âlam al-arwâh ou al-Ŷabarût), a multiplicidade dos reflexos de um arquétipo manifesta-se como riqueza de aspectos contidos uns nos outros, sem repetição, enquanto no mundo da individuação (‘âlam al-mitâl) essa variedade se exprime sucessivamente sob a condição da forma, aproximando-se da repetição no mundo corporal (‘âlam al-ajsâm), sem jamais atingi-la.
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A variedade espiritual exprime diretamente a Unicidade divina.
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A forma implica delimitação e exclusão recíproca.
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O mundo das analogias contém formas psíquicas e corporais.
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A repetição pura dissolveria as qualidades do mundo.
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Considerada sob o ponto de vista temporal, a projeção do arquétipo renova-se a cada instante, de modo que o ser relativo está submetido a aniquilamento e manifestação contínuos, como ensina Muhyî-l-Dîn ibn ‘Arabî ao afirmar que não há intervalo entre destruição e aparecimento do semelhante (matal).
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A sucessão é lógica, não temporal.
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O instante de aniquilação coincide com o da nova manifestação.
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‘Abd al-Razzâq al-Qašâni confirma a ausência de intervalo perceptível.
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O versículo corânico sobre a “criação nova” exprime essa renovação.
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A imagem budista da chama ilustra identidade sem permanência substancial.
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A analogia da chama mostra que a luz corresponde ao Ser (al-Wuŷûd) e a forma da chama ao arquétipo que sustenta sua continuidade relativa, exprimindo simultaneamente a descontinuidade quase absoluta do cosmos e sua continuidade quase absoluta enquanto reflexo da Causa divina.
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A chama não possui autonomia, mas existe.
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A descontinuidade exprime o caráter ilusório do mundo.
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A continuidade exprime a dependência do reflexo em relação ao Princípio.
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A não-existência permanente corresponde à pura possibilidade.
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O Ser permanente é a revelação da Essência una.
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Os “alentos” ou “espirações” remetem à Espiração do Clemente (Nafas al-Rahmân), princípio divino que dilata (naffasa) as possibilidades a partir de seu estado de interioridade (butûn), manifestando-as por Misericórdia (ar-Rahmâ) como transbordamento (afâda) do Ser sobre as essências limitadas.
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A interioridade aparece como contração (karb).
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A dilatação manifesta as possibilidades relativas.
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A Espiração vincula-se à Misericórdia total.
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O transbordamento não implica perda da plenitude divina.
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O simbolismo do alento relaciona-se à Palavra divina, pois os sons ou letras (hurûf) são análogos aos arquétipos refletidos no cosmos, e o sopro que sustenta a articulação corresponde ao princípio que manifesta e mantém as possibilidades, sendo a Espiração complemento dinâmico e feminino da Ordem divina (al-Amr) expressa pelo “sê” (kun).
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O alento é suporte da manifestação sonora.
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Al-Amr representa o ato puro.
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A Espiração corresponde dinamicamente à Ordem.
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Muhyî-l-Dîn Ibn ‘Arabî identifica-a com al-Tabî‘a.
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A função cosmogônica aproxima-se da Shakti hindu.
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A teoria da renovação da criação relaciona-se diretamente à realização espiritual, pois a alma pertence ao mundo dos semelhantes (‘âlam al-mitâl), sendo composta por reflexos sucessivos sem continuidade própria, de modo que a identidade do “eu” é apenas reminiscência da huwiyya eternamente subsistente na Essência infinita.
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A alma inclui paraísos formais e infernos.
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O “eu” carece de continuidade substancial.
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A huwiyya é possibilidade eterna na Essência.
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O que ilumina e conhece a sucessão incessante dos semelhantes e os reconduz ao arquétipo não é a consciência individual, mas a Inteligência pura e transcendente.
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A consciência individual é incapaz de apreender a totalidade.
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A Inteligência pura estabelece a relação com o arquétipo.
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A transcendência garante a reintegração na Unidade.
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