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burckhardt:idei:rito
RITO
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O rito é um ato cuja forma procede de uma Revelação divina, de modo que sua perpetuação constitui por si mesma um modo de Revelação e implica participação, ao menos virtual, em um modo de ser extra-humano e universal, coincidindo seu significado com a essência ontológica de sua forma.
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O cumprimento do rito não apenas evoca um símbolo.
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A forma ritual possui alcance intelectual e ontológico.
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Participar do rito é participar de um modo de ser.
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O significado coincide com a essência ontológica da forma.
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O espírito moderno tende a reduzir o rito a suporte de atitude ética e não percebe o caráter universal de sua forma qualitativa, embora o fruto do rito dependa de uma intenção (niyya) conforme ao sentido, sem que a intenção seja independente da forma do ato.
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A máxima profética afirma que as ações valem pelas intenções.
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A intenção se adapta à qualidade formal do rito.
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A forma manifesta realidade ontológica e intelectual.
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O ato se separa da esfera psíquica individual.
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A quintessência dos ritos muçulmanos é a Palavra divina que veiculam, contida no Corão, cuja recitação é rito em si e pode concentrar-se em uma única frase repetida em número determinado para atualizar verdade e graça, favorecida pela concisão rítmica das fórmulas corânicas.
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A recitação corânica constitui rito autônomo.
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A repetição visa atualizar verdade profunda e graça particular.
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As fórmulas concisas e rítmicas favorecem ladainhas e encantação.
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No exoterismo, as jaculatórias permanecem secundárias.
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Toda recitação repetida de fórmula sagrada chama-se dikr, significando menção, relembrança, evocação e lembrança, e no Sufismo a invocação constitui o meio central do método, em consonância com muitas tradições do ciclo humano atual.
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Dikr possui pluralidade semântica convergente.
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O esoterismo faz do dikr um meio básico e metódico.
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A centralidade do dikr caracteriza o método sufí.
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A eficácia ontológica do dikr fundamenta-se na analogia entre o Espírito universal (al-Rûh) e a palavra, pois o mundo foi criado pela Palavra divina (al-Amr, al-Kalima), e a enunciação do Nome divino simboliza um estado indiferenciado superior ao conhecimento racional.
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A criação pela Palavra indica analogia real.
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A enunciação do Nome reflete a enunciação primordial do Ser.
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O símbolo remete a conhecimento não discursivo.
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O Nome divino revelado implica Presença divina operativa à medida que ocupa a mente do invocante, pois a concentração no símbolo do Infinito conduz ao Infinito, até que a forma do Nome absorva toda projeção mental e sua Essência se manifeste, convertendo a união com o Nome em união (al-wasl) com Deus.
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O Infinito não é objeto direto de concentração humana.
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O símbolo do Infinito torna-se via de acesso ao próprio Infinito.
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A forma sagrada não tende a nada fora de si.
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Os limites do Nome se dissolvem em sua Essência.
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O sentido de “lembrança” em dikr qualifica o estado ordinário de esquecimento (gafla), entendido como esquecimento do ser pré-temporal em Deus, e por isso a invocação é apresentada como exceção ao mal do mundo e como elemento maior na oração, segundo máximas proféticas e o Corão (XXIX, 45).
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O esquecimento fundamental gera outros esquecimentos.
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A máxima profética declara a invocação como exceção ao mundo maldito.
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O Corão afirma a superioridade do dikr-Ullâh.
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Interpretações divergem entre quintessência da oração e excelência sobre a oração.
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Diversos versículos corânicos fundamentam técnica e doutrinalmente a invocação dos Nomes divinos, destacando humildade, segredo, temor e desejo, a beleza dos Nomes e o repouso dos corações na lmebrança de Deus, bem como a transposição esotérica do combate externo para a guerra maior contra a nafs al-ammâra.
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“Lembrai-vos de Mim e Eu Me lembrarei de vós” (II, 152).
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A invocação com humildade e em segredo associa-se aos muhsinîn e ao ihsân.
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“Os mais belos Nomes são de Deus; chamai-O por eles” (V, 180).
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A tropa inimiga figura a alma incitadora ao mal.
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O repouso do coração é ligado à lembrança de Deus (XIII, 28).
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A invocação pode dirigir-se a Allâh ou Al-Rahmân (XVII, 110).
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A invocação frequente é ordenada aos crentes (XXXIII, 41).
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A pureza do coração e o chamado a Deus são enfatizados (XL, 14; XL, 60).
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A humilhação do coração à lembrança é exigida (LVII, 16).
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A consagração ao Nome do Senhor é prescrita (LXXIII, 8).
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Purificação, invocação e oração são associadas (LXXXVII, 14-15).
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Máximas proféticas reforçam o sentido iniciático do Nome ligado a vida e morte e descrevem a invocação como purificação do coração, superior mesmo ao combate armado, trazendo cercamento angélico, favor divino, sakîna e lembrança divina dos invocantes.
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A língua “úmida” no Nome de Deus é indicada como melhor ação.
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A invocação é apresentada como removedora da ferrugem do coração.
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A reunião para invocar atrai anjos e a Paz (al-sakîna).
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A superioridade não se iguala nem ao combate até quebrar a espada.
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O caráter universal do dikr manifesta-se na simplicidade formal e na capacidade de assimilar-se aos ritmos vitais, sobretudo à respiração, cujo duplo ritmo resume simbolicamente a vida e a existência.
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A respiração fornece suporte elementar e direto.
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O ritmo do símbolo acompanha a manifestação vital.
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A alternância respiratória figura totalidade existencial.
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A assimilação do ritmo sagrado à respiração pode estender-se aos movimentos do corpo, fundamento da dança sagrada em comunidades sufis, prática esotérica apesar da hostilidade religiosa islâmica à dança e à música e apesar dos riscos de desvios mágicos.
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A identificação rítmica com o espiritual contrasta com a distinção rigorosa entre Criador e criatura.
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Há razões prudenciais para proibição no culto comum.
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O suporte é direto e primordial, por isso reaparece no esoterismo monoteísta.
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Relatos atribuem o dikr dançado a danças de guerreiros árabes e a influências técnicas como hatha-yoga em ordens orientais como as Naqšbandis, enquanto Ŷalâl al-Dîn Rûmî inspirou o dikr coletivo dos Mewlewis em danças e música populares da Ásia Menor, permanecendo tais práticas coletivas periféricas e contestadas por mestres quando excessivas.
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O dikr dançado possui história de adaptações formais.
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A influência do hatha-yoga aparece como técnica de diferenciação.
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As manifestações conhecidas dos dervixes são coletivas e periféricas.
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Muitos mestres recusam sua generalização.
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O dikr solitário deve prevalecer.
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A invocação pratica-se preferencialmente em retiro (jalwâ) e pode acompanhar atividades externas, mas exige autorização (idn) de um mestre e ligação à cadeia iniciática (silsila), pois a iniciativa individual pode contrariar o caráter não individual do símbolo e provocar reações psíquicas imprevisíveis.
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O idn garante auxílio transmitido pela silsila.
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A ausência de autorização priva do suporte espiritual.
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A prática individual pode colidir com a natureza do símbolo.
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O risco descrito é de reações psíquicas incalculáveis.
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