User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
burckhardt:idei:rito

RITO

  • O rito é um ato cuja forma procede de uma Revelação divina, de modo que sua perpetuação constitui por si mesma um modo de Revelação e implica participação, ao menos virtual, em um modo de ser extra-humano e universal, coincidindo seu significado com a essência ontológica de sua forma.
    • O cumprimento do rito não apenas evoca um símbolo.
    • A forma ritual possui alcance intelectual e ontológico.
    • Participar do rito é participar de um modo de ser.
    • O significado coincide com a essência ontológica da forma.
  • O espírito moderno tende a reduzir o rito a suporte de atitude ética e não percebe o caráter universal de sua forma qualitativa, embora o fruto do rito dependa de uma intenção (niyya) conforme ao sentido, sem que a intenção seja independente da forma do ato.
    • A máxima profética afirma que as ações valem pelas intenções.
    • A intenção se adapta à qualidade formal do rito.
    • A forma manifesta realidade ontológica e intelectual.
    • O ato se separa da esfera psíquica individual.
  • A quintessência dos ritos muçulmanos é a Palavra divina que veiculam, contida no Corão, cuja recitação é rito em si e pode concentrar-se em uma única frase repetida em número determinado para atualizar verdade e graça, favorecida pela concisão rítmica das fórmulas corânicas.
    • A recitação corânica constitui rito autônomo.
    • A repetição visa atualizar verdade profunda e graça particular.
    • As fórmulas concisas e rítmicas favorecem ladainhas e encantação.
    • No exoterismo, as jaculatórias permanecem secundárias.
  • Toda recitação repetida de fórmula sagrada chama-se dikr, significando menção, relembrança, evocação e lembrança, e no Sufismo a invocação constitui o meio central do método, em consonância com muitas tradições do ciclo humano atual.
    • Dikr possui pluralidade semântica convergente.
    • O esoterismo faz do dikr um meio básico e metódico.
    • A centralidade do dikr caracteriza o método sufí.
  • A eficácia ontológica do dikr fundamenta-se na analogia entre o Espírito universal (al-Rûh) e a palavra, pois o mundo foi criado pela Palavra divina (al-Amr, al-Kalima), e a enunciação do Nome divino simboliza um estado indiferenciado superior ao conhecimento racional.
    • A criação pela Palavra indica analogia real.
    • A enunciação do Nome reflete a enunciação primordial do Ser.
    • O símbolo remete a conhecimento não discursivo.
  • O Nome divino revelado implica Presença divina operativa à medida que ocupa a mente do invocante, pois a concentração no símbolo do Infinito conduz ao Infinito, até que a forma do Nome absorva toda projeção mental e sua Essência se manifeste, convertendo a união com o Nome em união (al-wasl) com Deus.
    • O Infinito não é objeto direto de concentração humana.
    • O símbolo do Infinito torna-se via de acesso ao próprio Infinito.
    • A forma sagrada não tende a nada fora de si.
    • Os limites do Nome se dissolvem em sua Essência.
  • O sentido de “lembrança” em dikr qualifica o estado ordinário de esquecimento (gafla), entendido como esquecimento do ser pré-temporal em Deus, e por isso a invocação é apresentada como exceção ao mal do mundo e como elemento maior na oração, segundo máximas proféticas e o Corão (XXIX, 45).
    • O esquecimento fundamental gera outros esquecimentos.
    • A máxima profética declara a invocação como exceção ao mundo maldito.
    • O Corão afirma a superioridade do dikr-Ullâh.
    • Interpretações divergem entre quintessência da oração e excelência sobre a oração.
  • Diversos versículos corânicos fundamentam técnica e doutrinalmente a invocação dos Nomes divinos, destacando humildade, segredo, temor e desejo, a beleza dos Nomes e o repouso dos corações na lmebrança de Deus, bem como a transposição esotérica do combate externo para a guerra maior contra a nafs al-ammâra.
    • “Lembrai-vos de Mim e Eu Me lembrarei de vós” (II, 152).
    • A invocação com humildade e em segredo associa-se aos muhsinîn e ao ihsân.
    • “Os mais belos Nomes são de Deus; chamai-O por eles” (V, 180).
    • A tropa inimiga figura a alma incitadora ao mal.
    • O repouso do coração é ligado à lembrança de Deus (XIII, 28).
    • A invocação pode dirigir-se a Allâh ou Al-Rahmân (XVII, 110).
    • A invocação frequente é ordenada aos crentes (XXXIII, 41).
    • A pureza do coração e o chamado a Deus são enfatizados (XL, 14; XL, 60).
    • A humilhação do coração à lembrança é exigida (LVII, 16).
    • A consagração ao Nome do Senhor é prescrita (LXXIII, 8).
    • Purificação, invocação e oração são associadas (LXXXVII, 14-15).
  • Máximas proféticas reforçam o sentido iniciático do Nome ligado a vida e morte e descrevem a invocação como purificação do coração, superior mesmo ao combate armado, trazendo cercamento angélico, favor divino, sakîna e lembrança divina dos invocantes.
    • A língua “úmida” no Nome de Deus é indicada como melhor ação.
    • A invocação é apresentada como removedora da ferrugem do coração.
    • A reunião para invocar atrai anjos e a Paz (al-sakîna).
    • A superioridade não se iguala nem ao combate até quebrar a espada.
  • O caráter universal do dikr manifesta-se na simplicidade formal e na capacidade de assimilar-se aos ritmos vitais, sobretudo à respiração, cujo duplo ritmo resume simbolicamente a vida e a existência.
    • A respiração fornece suporte elementar e direto.
    • O ritmo do símbolo acompanha a manifestação vital.
    • A alternância respiratória figura totalidade existencial.
  • A assimilação do ritmo sagrado à respiração pode estender-se aos movimentos do corpo, fundamento da dança sagrada em comunidades sufis, prática esotérica apesar da hostilidade religiosa islâmica à dança e à música e apesar dos riscos de desvios mágicos.
    • A identificação rítmica com o espiritual contrasta com a distinção rigorosa entre Criador e criatura.
    • Há razões prudenciais para proibição no culto comum.
    • O suporte é direto e primordial, por isso reaparece no esoterismo monoteísta.
  • Relatos atribuem o dikr dançado a danças de guerreiros árabes e a influências técnicas como hatha-yoga em ordens orientais como as Naqšbandis, enquanto Ŷalâl al-Dîn Rûmî inspirou o dikr coletivo dos Mewlewis em danças e música populares da Ásia Menor, permanecendo tais práticas coletivas periféricas e contestadas por mestres quando excessivas.
    • O dikr dançado possui história de adaptações formais.
    • A influência do hatha-yoga aparece como técnica de diferenciação.
    • As manifestações conhecidas dos dervixes são coletivas e periféricas.
    • Muitos mestres recusam sua generalização.
    • O dikr solitário deve prevalecer.
  • A invocação pratica-se preferencialmente em retiro (jalwâ) e pode acompanhar atividades externas, mas exige autorização (idn) de um mestre e ligação à cadeia iniciática (silsila), pois a iniciativa individual pode contrariar o caráter não individual do símbolo e provocar reações psíquicas imprevisíveis.
    • O idn garante auxílio transmitido pela silsila.
    • A ausência de autorização priva do suporte espiritual.
    • A prática individual pode colidir com a natureza do símbolo.
    • O risco descrito é de reações psíquicas incalculáveis.
/home/mccastro/public_html/perenialistas/data/pages/burckhardt/idei/rito.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki