Action unknown: copypageplugin__copy
burckhardt:simbolos:alquimia
CONSIDERAÇÕES SOBRE A ALQUIMIA
-
O adágio “fazer do corpo um espírito e do espírito um corpo” resume a alquimia, pois o ouro figura exteriormente um corpo opaco tornado luminoso e, no plano humano, a consciência corporal transmutada em espírito ou o espírito fixado no corpo.
-
Ouro como luz solidificada e corpo iluminado.
-
Transposição: fixação do espírito no corpo e espiritualização do corpo.
-
O “metal vil”, matéria próxima da obra, designa a consciência ligada ao corpo e submersa nele, de modo que o “corpo metálico” deve liberar “alma” e “espírito” como Mercúrio e Enxofre, já que sem realidade interior do corpo não haveria matéria para a obra espiritual.
-
Metal vil como consciência corporal obscurecida.
-
Extração de Mercúrio e Enxofre como operação interior.
-
No homem comum, “conhecer” e “ser” se polarizam como pensamento e consciência corporal, e ao serem reconduzidos ao centro simbolizado pelo coração, a consciência corporal se torna inteligível e luminosa enquanto a mente se cristaliza sob a ação fulgurante do espírito.
-
Estado centrífugo: pensamento separado e corpo passivo sem inteligência.
-
Retorno ao centro: inversão dos polos e transmutação de funções.
-
A transmutação recíproca de corpo e espírito aparece em todo método espiritual, mas na alquimia torna-se tema principal, apoiado no simbolismo metalúrgico da mudança de qualidades e do “estado de agregação” de um corpo.
-
Operação espiritual figurada por mudanças físicas.
-
Metalurgia como linguagem de transformação interior.
-
No início da obra, a consciência corporal é caótica e obscura, comparada ao chumbo e atribuída a Saturno, princípio de condensação que explica sua associação ao chumbo e também à razão, ponto sem extensão diante da dimensão existencial das demais faculdades.
-
Saturno como condensação e obscurecimento.
-
Polaridade espírito-corpo inscrita na natureza saturnal.
-
Tom sinistro de Saturno na astrologia adivinhatória.
-
Metodicamente, a condensação saturnal transforma-se em contemplação, pois a inteligência se retira do exterior ao interior e, reduzida a um ponto, mergulha na noite interior do corpo.
-
Recolhimento e concentração como regime inicial.
-
Interiorização como descida ao “escuro” corporal.
-
A doutrina alquímica afirma que todo metal resulta da união mais ou menos perfeita de Enxofre e Mercúrio, e a consciência corporal, como metal a transformar, é tecida dessas forças sutis, masculinas e femininas, que no estado caótico se neutralizam e se estorvam.
-
Enxofre masculino e Mercúrio feminino como polos complementares.
-
Neutralização mútua no “metal vil” como condição inicial.
-
Basilio Valentino associa Mercúrio à alma e Enxofre ao espírito e inclui a sal, mas tais nomes devem ser entendidos como potências cooperantes no mesmo plano da “natureza”, e a designação do Mercúrio como “espírito” refere-se à volatilidade que o opõe aos corpos sólidos.
-
Enxofre e Mercúrio como “espíritus” por oposição ao inerte.
-
Mercúrio como substância da forma psíquica do corpo e como espírito vital intermediário.
-
Galeno descreve o espírito vital como substância puríssima distribuída no espaço cósmico e assimilada pelo coração analogamente à respiração, o que corresponde ao prâna hindu e ao uso, no laya yoga, de um princípio dissolvente análogo ao “dissolvente universal” dos alquimistas.
-
Coração como órgão de assimilação vital.
-
Respiração como modelo de absorção do sutil.
-
A respiração restabelece ritmicamente o vínculo entre organismo e ambiente cósmico, e a assimilação do espírito vital mantém a continuidade entre forma psíquica do corpo e substância cósmica, como expõe fra Marcantonio ao definir o Mercúrio secreto como espírito vivo e universal que desce do céu, preenche o “ventre poroso” e se fixa como “úmido radical”.
-
“Ventre poroso” da terra como figura do corpo humano.
-
“Enxofres impuros” como corpos grossos com princípio formal encerrado.
-
Mercúrio solidificado como hyle plástica do corpo.
-
O Mercúrio vulgar, metal líquido e evaporável, é ao mesmo tempo “corpo” e “espírito”, liquefaz ouro e prata e permite, pela amalgama e pelo fogo, extrair o metal nobre de misturas impuras, figurando a operação de expulsar o volátil e revelar o ouro.
-
Amálgama e fogo como paradigma artesanal.
-
Separação do nobre pelo afastamento do mercurial.
-
Analogamente, o Mercúrio sutil contém o germe do ouro espiritual, pois o alento vital, natureza úmida da energia cósmica feminina, transmite o princípio ígneo da vida e, em seu protótipo universal, corresponde a Prakriti que traz Hiranyagarbha, o ovo de ouro do mundo.
-
Mercúrio como potência maternal do mundo anímico.
-
Correspondência com o oceano primordial e o “ovo de ouro”.
-
O nome “menstruo” atribuído ao Mercúrio indica a função nutritiva materna, como sangue uterino que alimenta o embrião quando não se derrama e não se corrompe, do mesmo modo que o Mercúrio nutre o embrião espiritual no vaso hermético.
-
Menstruo como imagem de nutrição interior.
-
Vaso hermético como matriz da gestação espiritual.
-
Através da consciência corporal, o alquimista encontra a substância cósmica do Mercúrio e se apoia em funções como a respiração para remontar, pelas “envolturas” da consciência, à realidade universal, o que exige graça, marco sagrado e atitude anti-prometeica e anti-egoísta.
-
Função corporal como ponto de apoio metodológico.
-
Integração da inteligência ao universal como operação assistida pela graça.
-
O Mercúrio se manifesta em múltiplos planos como alento sutil, substância fugitiva da alma, força lunar, matéria do mundo anímico e, por fim, matéria prima, sendo simultaneamente “aguardente” e “veneno mortal”, conforme o duplo aspecto gerador e dissolvente de sua umidade, análogo ao duplo rosto da Shakti.
-
Umidade como geração e dissolução.
-
Potência lunar com vertente benéfica e terrível.
-
Sinesio descreve a passagem do “misto” ao “simples” e a extração do azougue dos dois corpos perfeitos (ouro e prata, coração e sangue) como obtenção da quintaessência, luz viva e vínculo dos elementos, princípio e fim da obra, água que queima, branqueia, dissolve e congela e que só a natureza pode engendrar.
-
Quintaessência como medicina permanente e vitoriosa.
-
“Vinagre agrio” que faz do ouro um espírito puro.
-
Água única como agente central do magistério.
-
Embora o Mercúrio contenha em potência todas as qualidades e seja por isso andrógino, ele se polariza diante do Enxofre como frio e úmido, enquanto o Enxofre é quente e seco, correspondendo as qualidades masculinas à dilatação e solidificação e as femininas à solução e contração, e o Enxofre imita dinamicamente o princípio formal que desdobra e fixa formas.
-
Calor-secura como expansão e fixação.
-
Frio-umidade como dissolução e retração.
-
Enxofre como ação formalizante e fixadora.
-
A solução e contração mercuriais exprimem receptividade plástica e ação delimitante da matéria, e no plano artesanal a analogia formal do Enxofre aparece na ação colorante, como no cinábrio em que o Mercúrio é fixado e colorido, sendo o “color” tradicionalmente análogo à qualidade e à forma.
-
Cinábrio como exemplo imperfeito e analógico.
-
Cor como linguagem tradicional da forma.
-
Na primeira fase, a coagulação do Enxofre resiste à libertação do Mercúrio e a contração deste neutraliza o Enxofre, mas o nó se desfaz com o crescimento mercurial que dissolve o “metal vil”, permitindo que o calor dilatante do Enxofre desperte e manifeste a verdadeira forma do ouro, em analogia com o combate amoroso em que a fascinação feminina dissolve e desperta a potência viril, lembrando métodos tântricos.
-
Mercúrio primeiro como dissolvente contra a fixação.
-
Enxofre depois como gerador da forma nobre.
-
Erotismo sublimado como figura de transmutação.
-
A parábola do unicórnio e do leão nas Bodas Químicas de Andreae mostra o unicórnio lunar como Mercúrio puro e o leão como Enxofre inicialmente petrificado no corpo, que desperta pelo “homenagem” mercurial, rompe a espada da razão e só se aquieta quando a pomba do Espírito Santo lhe dá a rama de oliveira do conhecimento.
-
Rugido do leão como força criadora vivificante.
-
Espada quebrada como razão dissolvida na fonte.
-
Pomba e oliveira como selo do conhecimento divino.
-
O Enxofre entorpecido corresponde à mente que contém o ouro do espírito em estado estéril, devendo ser dissolvido na fonte mercurial para converter-se em fermento vivo capaz de transmutar os demais metais.
-
Ouro latente na mente.
-
Dissolução como passagem da esterilidade à fecundidade.
-
A primeira ação do Mercúrio é “branquear” os corpos, e Artefio descreve a extração de uma água viva incombustível e a dissolução do Sol perfeito nela, com passagem pela putrefação e negrura até que surja a substância branca, reduzindo o ouro à primeira matéria como Enxofre branco incombustível e Azougue fixo, de modo que o Sol “tome vida” e se multiplique.
-
Mortificação do Sol antes do renascimento.
-
Branqueamento como resultado de decocção contínua.
-
Redução à primeira matéria como retorno ao princípio.
-
O “Sol” que deve morrer na água mercurial é a consciência individual ligada ao corpo, ouro apenas virtual, e o branqueamento após o enegrecimento é descrito como dissolução no Mercúrio ou separação de alma e corpo, pois a redução à substância psíquica retira a alma dos sentidos e a derrama num espaço interior ilimitado, conforme a dinâmica de subir e descer da Tábua de Esmeralda.
-
“Ouro” como virtualidade no ego corporal.
-
Sublimação seguida de nova coagulação.
-
Movimento Terra-Céu-Terra como circulação de forças.
-
Quando a consciência interior é reduzida a uma matéria primeira lunar, o Enxofre aparece como força do centro misterioso do ser e fixa o Mercúrio fluido numa forma nova que é simultaneamente corpo e espírito, como o rugido do leão solar entendido como luz sonora ou som luminoso.
-
Enxofre como emanação do centro essencial.
-
Fixação como nova corporeidade espiritual.
-
Artefio descreve a transformação recíproca em que o corpo incorpora o espírito e este torna o corpo um espírito tingido e branco, por meio de cozedura na água branca até a negrura e depois pela decocção que elimina a negrura, fazendo o corpo subir com a alma branca, unindo-se inseparavelmente, o que é “solução do corpo e coagulação do espírito” numa mesma operação.
-
Fusão indissolúvel de corpo e alma.
-
Solução e coagulação como movimentos complementares.
-
Fixação do corpo ao espírito e espiritualização da consciência corporal.
-
Alguns alquimistas acrescentam a Sal a Enxofre e Mercúrio, e na ordem artesanal Enxofre causa combustão, Mercúrio causa evaporação e Sal é figurada nas cinzas, sendo a Sal o princípio de corporeidade, e em certo sentido a tríade corresponde a essência espiritual, alma e corpo, ou ainda alma imortal, espírito vital e corpo.
-
Cinzas como corpo residual e suporte.
-
Tríade como estrutura do metal e do homem.
-
A imprecisão de distinções ocorre porque as naturezas são vistas por sua ação no plano cósmico entrelaçado, razão pela qual as definições mais arcaicas são mais abrangentes, como na Tábua de Esmeralda: Enxofre solar e Mercúrio lunar como pai e mãe do embrião, o “vento” como alento vital que o leva no ventre, e a “terra” como corpo-nodriza.
-
Pai-mãe-vento-terra como genealogia do embrião alquímico.
-
Alento vital como segunda natureza do Mercúrio.
-
Quando o corpo ou a consciência corporal é purificado da “umidade” passional e se torna como “cinzas”, ele retém o espírito fugitivo e funciona como fixativo de estados espirituais que a mente não sustentaria, pois o corpo é o “inferior” correspondente ao “superior” segundo a Tábua de Esmeralda.
-
Purificação como remoção de paixões.
-
Corpo como suporte estável do espiritual.
-
O estado espiritual apoiado no corpo é incomensurável a ele e pode ser figurado como pirâmide invertida ilimitada apoiada pela ponta, imagem útil apenas para sugerir extensão e não instabilidade real.
-
Infinito sustentado no mínimo corporal.
-
Extensão espiritual sem medida comum com o suporte.
-
No âmbito do arte sagrado, a imagem de Buddha exprime mais diretamente a espiritualização do corpo e a incorporação do espírito, e a analogia com a alquimia se torna evidente pelo dourado e atributos solares, especialmente em estátuas mahayânicas que manifestam plenitude intensa e inefável na própria qualidade plástica.
-
Dourado como signo solar e alquímico.
-
Superfície plástica como expressão de plenitude espiritual.
-
Basilio Valentino compara o resultado da conjunção ao “corpo glorioso” dos ressuscitados, e Morieno afirma que quem limpa e branqueia a alma, a faz subir e guarda o corpo purificando-o de negrura e mau odor, pode então retornar ao corpo e, no “rematrimônio”, produzir grandes maravilhas, enquanto Rhases descreve a alma rematrimoniada com seu primeiro corpo como união inseparável que glorifica o corpo em incorrupção, sutileza e brilho capazes de penetrar o sólido por ter natureza de espírito.
-
“Rematrimônio” como reintegração definitiva.
-
Corpo glorificado como incorruptível e espiritual.
-
União alma-corpo como forma final da transmutação.
-
/home/mccastro/public_html/perenialistas/data/pages/burckhardt/simbolos/alquimia.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
