ESPÍRITO SANTO E CRISTO
CANTEINS, Jean. La passion de Dante Alighieri I. Paris: Dervy, 1997. (Parte II, nota 46)
Um joaquimita moderno (além disso, dantófilo: seu último livro, publicado em 1940, é dedicado a Dante), Dimitri Merejkowski, era obcecado pelo “Mistério dos Três”. Esse é o título de um de seus escritos, no qual ele chega a definir o Espírito Santo como um Princípio materno: o mundo que nem o Pai nem o Filho salvaram, diz ele, a Mãe, como Espírito Santo, salvará no tempo vindouro. De acordo com essa identificação, D. Merejkowski interpreta o “grande sinal no céu”: “a Mulher vestida de sol, com a lua sob seus pés” (Apocalipse XII. 1) como “o apocalipse” por excelência: a Revelação do Espírito Santo. Não sabemos quais fontes joaquimitas inspiraram essa apocalíptica; seja como for, a maternidade divina do Espírito Santo é ali afirmada de forma demasiado evidente para não ser destacada.
A “maternidade” do Espírito Santo também é evidenciada em vários fragmentos do Evangelho apócrifo segundo os hebreus, que nos foram conservados por citações antigas, nomeadamente em Orígenes e São Jerônimo.
1° Orígenes, em seu Comm. in Jn (II.6): “ E se alguém aceitar o Evangelho segundo os Hebreus, onde o próprio Salvador diz: 'Minha Mãe, o Espírito Santo, acaba de me agarrar por um dos meus cabelos e me levar até o topo do monte Tabor', ele se perguntará com perplexidade como a Mãe de Cristo pode ser (chamada) Espírito Santo, visto que ele é gerado pelo Verbo.”
2° São Jerônimo.
a) em Comm. in Is. XI.9 e Ezech. XVI.13, onde o latim Mater mea Spiritus Sanctus reproduz o grego do Apócrifo.
b) em Comm. IV in Is. XI.2, onde São Jerônimo explica a primeira proposição: “sobre ele (Isaías) repousará o Espírito de YHVH”, com referência ao Apócrifo que relata as seguintes palavras do Espírito Santo dirigidas a Jesus saindo da água batismal: Factum est autem, cum ascendisset Dominus de aqua, descendit fons omnis Spiritus Sancti et requievit super eum, et dixit illi: Fili mi in omnibus prophetis exspectabam te, ut venires et requiescerem in te. Tu es enim requies mea, tu es filius meus primogenitus.
O texto postula sem ambiguidade uma relação de mãe e filho entre o Espírito Santo e Cristo.
Essa “maternidade” do Espírito Santo implica uma feminilidade que a semântica das línguas antigas não revela: em grego, a palavra pneuma é de gênero neutro; em latim, spiritus é masculina. É no hebraico que se deve recorrer para encontrar um termo feminino: RUaH. No entanto, trata-se de um dado indeciso: RUaH foi inicialmente usado no masculino, em muitas passagens é de gênero indeterminado, e foi progressivamente que o gênero feminino se tornou preponderante a ponto de ser quase exclusivo (como na Mishná). Sobre este assunto, pode-se consultar o estudo de D. Lys: “Rûach”, o sopro no AT, P.1962 e, em particular, a nota sintética da p.336. Acrescentemos que o equivalente árabe Rûh, embora atestado no masculino, é mais do gênero feminino nas expressões sufistas. No artigo intitulado Er-Rûh (ET, n.º especial 224-5, verão de 1938), R. Guénon não deixa de salientar que a letra representativa de Rûh é Bâ, a segunda letra, cuja conotação feminina em relação a Alif está bem estabelecida.
