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ESSÊNCIA E SUBSTÂNCIA

SARÇA ARDENTE — ENSAIO SOBRE A METAFÍSICA DA VIRGEM

  • Definir a metafísica como ciência do ser é reduzi-la à ontologia, ao passo que ela deve considerar o que está além do ser; neste capítulo o Ser é estudado enquanto causa ou princípio dos entes — o Ser supremo ou Ser puro encarado como Deus criador dos outros seres.
    • O Ser deve ser encarado como Princípio da manifestação universal: tudo o que se manifesta de qualquer forma deve ser referido ao Ser; o que não se manifesta, por não ser suscetível de manifestação, assim como a manifestação universal em estado principial, deve ser referido ao que se encontra além do Ser.
    • O próprio Ser é não manifestado, pois um Princípio é de outra ordem que o que ele manifesta; conhecendo-se a si mesmo, manifesta as possibilidades que estão nele; Frithjof Schuon, em L'oeil du coeur, distingue quatro grandes Visões pelas quais Deus se realiza em sua Onisciência.
    • A manifestação universal depende inteiramente do Princípio e, considerada fora dele, tem uma existência ilusória; o Princípio, ao contrário, não depende de sua manifestação e não é de modo algum afetado por ela; ilusório não significa irreal — a manifestação tem o grau de realidade que lhe convém, mas não por si mesma; ilusório implica a ideia de jogo: a manifestação vela o Princípio que a manifesta, e quem se deixa tomar pelo jogo torna-se vítima da ilusão cósmica.
    • A não reciprocidade das relações entre Criador e criatura faz a escolástica dizer que há relação real da criatura para Deus e relação de razão de Deus para a criatura, conforme René Guénon em L'homme et son devenir selon le Vêdânta.
    • O Ser manifesta as possibilidades de manifestação contidas nele em número indefinido segundo uma multitude de graus — os Estados do Ser, cujo conjunto constitui a Existência universal, conforme René Guénon em Les états multiples de l'Être; esses estados aparecem como superpostos segundo uma hierarquia bem definida, mas permanecem ligados ao Princípio, sem o qual perderiam toda realidade.
    • Do ponto de vista do Princípio, tudo se passa em perfeita simultaneidade e a saída da manifestação para fora do Princípio é ilusória; o ser humano deve assim percorrer os estados superiores por uma ascensão espiritual para reintegrar o Princípio — que é seu Fim —, do qual só aparentemente saiu, tornando-se o que é desde toda a eternidade.
  • O panteísmo é a doutrina que admite uma continuidade substancial entre o Princípio e sua manifestação, e a metafísica não pode admiti-la, pois só comporta uma concepção essencial da divindade — o Ser puro.
    • Deus manifesta o mundo, mas Deus não é o mundo e nem mesmo está no mundo, pois o Infinito não pode estar contido no finito; contudo o mundo extrai toda a sua realidade de Deus, pois se tivesse uma realidade própria limitaria o Infinito, e nada pode existir que não esteja contido no Infinito.
    • Sob o aspecto da essência, o mundo é essencialmente Deus, pois manifesta as qualidades contidas na Essência divina; sob o aspecto da existência, encontra-se separado de Deus; há, portanto, descontinuidade entre Deus e o mundo — não descontinuidade absoluta, impensável, mas relativa: simultaneamente continuidade na descontinuidade e descontinuidade na continuidade.
    • O mundo pode ser reduzido a Deus por integração essencial, mas Deus é distinto do mundo e não é de modo algum afetado em sua transcendência pela existência deste último.
  • O termo manifestação é preferível ao termo criação: criação é um conceito teológico, manifestação é um conceito metafísico; o verbo criar significa simplesmente fazer, e a teologia ensina que Deus criou o mundo ex nihilo a fim de evitar a concepção de um Deus demiurgo que organizaria o mundo a partir de uma matéria pré-existente.
    • O nada não existe por si mesmo e não é sequer uma possibilidade de ser de que Deus pudesse tirar algo; como nada existe fora do Princípio — infinito por definição —, Deus não pode tirar o mundo de outro lugar senão de si mesmo, sem ser com isso afetado, diminuído ou modificado.
    • O termo manifestação não deve ser confundido com as teorias emanacionistas, que pertencem ao panteísmo; o perigo é evitado quando se mantém uma concepção essencial da divindade e a transcendência do Princípio em relação à sua manifestação.
    • A objeção de que a manifestação apareceria como necessária e limitaria a liberdade do Princípio é respondida pelo caráter contingente e ilusório da manifestação ao olhar do Princípio: as possibilidades que se manifestam não entravam em nada a liberdade do Princípio.
    • Metafisicamente, o mundo existe porque o Infinito, para ser verdadeiramente infinito, deve comportar em certo sentido a negação ou a limitação de si mesmo; a manifestação é portanto a um só tempo afirmação e negação do Princípio supremo — mistério que ultrapassa o Ser concebido como causa.
  • A manifestação universal procede de um duplo Princípio — uma polarização que se efetua no seio do Ser: o Princípio ativo ou masculino, chamado Essência universal, e o Princípio passivo ou feminino, chamado Substância universal; toda manifestação procede desse duplo Princípio, e a geração humana não é senão o reflexo do que se passa na ordem principial.
    • A unidade é a raiz de todo número e contém toda manifestação em si mesma; a dualidade é a única produtiva e reencontra a unidade na manifestação comum a seus dois termos.
    • A polarização Essência-Substância é a primeira das dualidades, e todas as outras delas derivam; essa dualidade não é dualismo, pois não afeta de modo algum a Unidade do Ser e não é irredutível — resolve-se na unidade do Ser.
    • O Princípio masculino é ativo mas não produz; o Princípio feminino é passivo e produz sob a influência do masculino; o Princípio masculino age por seu não-agir, tornando fecundo o Princípio feminino — ao qual deve ser referido tudo o que é produção, mudança e multiplicidade na manifestação universal.
    • A Substância universal é a raiz e a mãe da manifestação universal; como a mãe na geração humana, é fecundada pelo Princípio masculino ou Essência universal, que deve ser considerado a causa real de tudo o que é produzido.
    • A primeira produção da Essência e da Substância é o Intelecto universal, que pertence à manifestação informal e é o reflexo direto do Intelecto divino; análogo ao eixo que une os dois polos ou ao raio de sol que liga o sol ao seu reflexo na água, o Intelecto universal liga toda coisa ao Princípio e opera a continuidade essencial na manifestação no seio mesmo da descontinuidade.
  • Aristóteles fala de forma e matéria: eidos, traduzido por forma, significa também espécie — e a espécie é uma essência comum a uma multitude de indivíduos; hylé, traduzido por matéria, não é de modo algum a matéria no sentido dos físicos do séc. XIX, mas uma potência de ser — escura, ininteligível em si mesma, suscetível de passar da potência ao ato sob a influência da forma.
    • A matéria desprovida de toda qualidade e de todo elemento inteligível é chamada materia prima — princípio de manifestação não manifestado em parte alguma; a matéria que está na base de nosso mundo é a materia secunda, que Tomás de Aquino diz ser signata quantitate; a qualidade deve ser referida à Essência, cuja tradução é a forma, e a quantidade deve ser referida à Substância; qualidade e quantidade são correlativas apenas no mundo submetido à quantidade.
    • Aristóteles fala também de ato e potência: toda a manifestação é constituída pela passagem da potência ao ato, e o Princípio supremo pode ser chamado ato puro, pois nele nada é potencial.
    • Os escolásticos fazem da matéria o princípio de individuação: é à matéria que deve ser referido o fato de uma essência ser participada por muitos indivíduos, pois a matéria é raiz da quantidade; descendo em direção à quantidade pura, chega-se a uma multidão de indivíduos com qualidade mínima, análogos aos átomos dos filósofos gregos; do lado da Essência, a separatividade é mínima e alia-se à suprema distinção.
    • Todo ser manifestado participa a um só tempo da Essência e da Substância universais segundo modalidades chamadas condições de existência; para reintegrar o Princípio divino, o ser manifestado deve sair dessas condições, tomando apoio nos Princípios que as manifestam.
  • O problema da alma — criada ou incriada — é uma fonte de falsos problemas, e Mestre Eckhart o aborda da maneira mais metafísica e vedântica possível.
    • A teologia cristã, a partir da concepção bíblica do Deus Criador e do conceito de causa, ensina que a alma é criada; essa alma criada é imortal — começa com o corpo, mas nunca morre; se se concebe a eternidade como uma indefinidade temporal, surgem problemas do tipo o que fazia Deus antes da Criação; se se concebe a eternidade como a perfeita simultaneidade do não-tempo, o problema de quando começa a alma perde seu sentido.
    • Eckhart afirma: segundo seu modo de natividade eterna, ele foi eternamente, é agora e permanecerá eternamente; o que é como criatura temporal morrerá e se aniquilará, pois está entregue ao tempo; mas na natividade eterna nasceram todas as coisas — ali o homem foi causa de si mesmo e de todas as coisas, e se Deus é Deus, o homem é uma causa disso; esse trecho, não condenado pela Bula de João XXII, mostra que para compreender o mistério da alma é preciso ir além da causa e do Deus criador concebido como Deus-causa.
    • Mesmo no plano teológico simples, é impossível sustentar que fomos outrora no nada: estamos, como todas as coisas, eternamente no pensamento divino — o Verbo concebido como Intelecto divino; o efeito está sempre contido eminentemente na causa.
    • Adotando-se a perspectiva teísta, é preciso manter que a alma criada não é um pequeno absoluto posto diante do Criador e que lhe escaparia após sua criação; permanece sempre a relação de causa a efeito; no domínio espiritual fala-se de graças e dons como vínculos reais, e os místicos falam da cume extrema da alma como o lugar onde Deus opera.
    • Adotando-se a perspectiva metafísica e sustentando que o efeito não é essencialmente diferente da causa, é preciso explicar a descontinuidade no seio da continuidade sem confundir a identidade metafísica ou essencial com a identidade cosmológica ou substancial — que é o panteísmo; essa confusão é frequente entre os ocidentais, ao passo que a metafísica dos Upanishads não pode ser confundida com os devaneios panteístas de certos autores modernos.
    • A perspectiva metafísica funda a essência individual de modo mais radical do que qualquer concepção criacionista: é apenas relacionando o ser que se manifesta na condição humana ao Um que é seu Si que parece possível fundar a permanência relativa do aspecto individual desse ser; essa permanência só pode ser relativa, pois toda individuação — inclusive a do Absoluto — sendo uma negação do Infinito, deve ser negada por sua vez para que o Infinito seja realmente infinito.
    • A perspectiva criacionista pertence antes à evidência racional, enquanto a perspectiva metafísica sonda o mistério da alma; Çamkara e Râmânuja se opuseram nesse ponto; a teologia clássica da Igreja é criacionista, mas certas escolas espirituais adotaram uma perspectiva mais ampla, não sem riscos; Mestre Eckhart conclui seu sermão sobre a alma afirmando que ele só se dirige àqueles que já o possuem com a vida ou como disposição do coração.
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