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VIA DA AÇÃO

CHENIQUE, François. Le yoga spirituel de St. François d’Assise: symbolisme du Cantique des créatures. Paris: Dervy-Livres, 1978.

* A via de ação impõe-se a todo homem pelo simples fato de ser dotado de faculdades de ação, as quais convém integrar à vida espiritual, sendo que a ação só tem sentido se finalizada por um aspecto sacrificial ou ritual que a integre numa perspectiva votiva ou contemplativa que a ultrapasse e lhe dê sentido.

  • Na via de ação, a Terra simboliza a Morte, o Ar simboliza o Combate espiritual, a Água simboliza a Paz, o Fogo simboliza a Caridade ativa, a Lua simboliza o Sacrifício e o Sol simboliza a Ascese.
  • A Terra é símbolo da Morte — da terra o homem foi tirado (Gn 2,7) e a ela retornará (Gn 3,19) —, e a certeza da morte é o ponto de partida apto a fortalecer o sentimento da precariedade do mundo criado.
    • A velhice, o sofrimento e a morte testemunham o caráter efêmero da vida humana e incitam a buscar o que não está sujeito ao nascimento e à morte, conforme os Salmos 103,15-16 e 90,5-6.
    • O desapego dos bens do mundo é a única atitude razoável para o homem espiritual, que na terra é apenas peregrino e viajante sem morada permanente; a contemplação dos grandes espetáculos da natureza reforça o sentimento de sua pequenez e faz perceber tragicamente a indiferença do cosmos ao destino dos seres que o habitam.
    • Paulo (1Cor 7,29-31) exorta a viver como se não se vivesse: os casados como se não o fossem, os que choram como se não chorassem, os que compram como se não possuíssem, pois a figura deste mundo muda.
  • O Ar é símbolo do Combate espiritual: não se trata apenas de retirar-se do mundo e fugir do mal, mas de afirmar no mundo a presença do Divino e praticar o bem.
    • O tema do combate por Deus e do asceta soldado de Cristo é familiar na literatura cristã, fundamentado em Ef 6,13-17 — que descreve a armadura de Deus: cinto da verdade, couraça da justiça, calçado do Evangelho, escudo da fé, capacete da salvação e espada do Espírito — e em 1Ts 5,5-8.
    • A sobriedade (nepsis) é a grande virtude ascética dos anacoretas e eremitas que, como o nome indica, retiravam-se ao deserto para combater o demônio nos seus redutos na natureza selvagem, conforme Mt 12,43.
    • O homem move-se no ar, razão pela qual o Ar é símbolo do movimento e do combate, e também do mundo intermediário e das potências que o habitam: segundo Ef 6,12-13, a luta não é contra adversários de carne e sangue, mas contra principados, potestades e espíritos do mal que habitam os espaços celestes.
  • A Água — uma extensão de água calma que reflete o céu azul — é símbolo da Paz, estado da alma certa da presença divina e, de certa forma, o amor espontâneo que ela dirige ao Divino presente nela.
    • A paz é também o estado que se segue ao combate vencido e à vitória sobre si mesmo e sobre o mundo; é ainda o estado de contentamento do homem resignado e perfeitamente submetido à vontade divina, preservando-o tanto da ambição espiritual quanto da ardência inquieta no combate ou nas boas obras.
    • A paz reflete a filiação divina, conforme Mt 5,9 (sétima bem-aventurança: bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus); é a paz de Cristo que supera todo sentimento (Fl 4,7), que ele deixou aos apóstolos (Jo 14,27) e que os anjos de Belém prometeram aos homens de boa vontade (Lc 2,14).
    • Sob outro aspecto, a água é símbolo de pureza e de regeneração corporal, psíquica e espiritual; o Cristianismo não valoriza as abluções em si (Mt 15,18-20), mas porque após o banho público do batismo o corpo deve ser mantido limpo como templo do Espírito Santo (1Cor 6,11-20); cada contato com a água é como um lembrete e uma imagem do banho de regeneração (Tt 3,5).
  • O Fogo é símbolo do Amor ou da Caridade — amor de Deus e amor ao próximo —, significando na via de ação a ação praticada pelo próximo em razão do amor que se tem a Deus.
    • É em nome de Jesus que se deve dar (At 3,6), pois o próximo é para nós Deus presente; Mt 10,42 e 1Jo 4,20-21 afirmam que quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus que nunca viu, e que o amor a Deus implica necessariamente o amor ao irmão.
    • O Juízo Final não incidirá sobre os milagres realizados, mas sobre o que se fez ou deixou de fazer ao próximo, conforme Mt 25,31-46; o maior mandamento é amar a Deus de todo o coração, e o segundo é semelhante — amar o próximo como a si mesmo —, e em ambos consiste toda a Lei e os Profetas (Mt 22,37-40).
    • O bom uso da riqueza decorre naturalmente: Paulo (1Tm 6,17-19) recomenda aos ricos que não ponham confiança em riquezas precárias mas em Deus, que pratiquem o bem e saibam partilhar, acumulando assim um bom tesouro para o futuro; mas tal perfeição da caridade é inacessível ao homem entregue a suas próprias forças — é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus —, pois para Deus tudo é possível (Mc 10,24-27).
  • A Lua, cuja luz desaparece ao nascer o Sol, é símbolo do Sacrifício oferecido a Deus: além do sacrifício eucarístico, fundamental no Cristianismo, toda ação e todo trabalho podem ser oferecidos a Deus como sacrifício, recebendo caráter sagrado pelo retorno a Ele que é origem de tudo (1Cor 10,31; 1Pd 4,10-11).
    • Cristo reconciliou o mundo com o Pai, e o mundo profano não é mais que o resíduo de sombra que permanece provisoriamente sob o domínio do pecado ou da ignorância; Ef 1,9-10 enuncia o mistério da vontade divina de reunir em Cristo todas as coisas, do céu e da terra, na plenitude dos tempos.
    • Os cristãos são convidados a adquirir uma mentalidade crística: Fl 2,5-11 descreve Cristo que, sendo de condição divina, esvaziou-se a si mesmo tomando a condição de escravo, humilhando-se até a morte de cruz, razão pela qual Deus o exaltou dando-lhe o nome acima de todo nome.
    • A abnegação exigida por Cristo aos discípulos (Mc 8,34-35) — renegar-se a si mesmo, carregar sua cruz e segui-lo — admite todos os graus segundo as diversas vocações: em Jo 14,2, Cristo anuncia que há muitas moradas na casa do Pai; mas não há yoga sem esforços e sem virtudes.
  • O Sol é símbolo da divindade e, no caso particular da via de ação, simboliza a Ascese que vai das simples austeridades até o martírio — físico ou mental — sofrido pelo Evangelho.
    • Lc 12,49 e Mc 9,49 anunciam o fogo que Cristo veio lançar à terra e a necessidade de ser salgado pelo fogo; Ap 3,14-22 condena a mornidão e convida à fervura e ao arrependimento, prometendo ao vencedor sentar-se com Cristo em seu trono.
    • O yoga de Cristo é, todavia, suave e seu fardo leve (Mt 11,28-30): ele convida os que estão cansados e sobrecarregados a vir a ele para encontrar alívio, pois é manso e humilde de coração.
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