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VIA DO CONHECIMENTO

CHENIQUE, François. Le yoga spirituel de St. François d’Assise: symbolisme du Cantique des créatures. Paris: Dervy-Livres, 1978.

* A via de conhecimento ou de gnose corresponde no Cristianismo a um ensinamento preciso do Evangelho de João: o conhecimento da verdade é a vida eterna (Jo 17,3) e é libertador (Jo 8,32), mas não é um sistema de conceitos, e sim uma realização existencial do ensinamento divino — aquele que faz a verdade vem à luz (Jo 3,21).

  • Não há ciência ou gnose verdadeira sem moral e sem virtude, conforme 1Cor 8,1, e o homem pecador que busca realizar sua vocação espiritual encontra auxílio na moral, na doutrina e nos ritos.
    • A moral apresenta-se externamente sob a forma do decálogo; a doutrina, pelos rudimentos da fé e pelos dogmas da Igreja; os ritos consistem nos sacramentos e sacramentais.
    • O homem espiritual deve penetrá-los por dentro, descobrir seu simbolismo e contemplar sua significação profunda: à lei moral substitui-se a virtude gnóstica; aos rudimentos da fé sucede a inteligência contemplativa das verdades reveladas; aos ritos exteriores acrescenta-se o rito interior da comunhão ao Verbo divino.
    • É necessário lembrar que um símbolo é um símbolo e uma chave é uma chave: a chave não é a porta, a porta não é o templo, o templo não é o santuário.
  • A via de conhecimento compreende três etapas: a via de estudo ou de ciência, a via de meditação contemplativa e a via de contemplação unitiva.
    • Não se trata em nenhum caso de um exercício da razão entregue a suas únicas forças naturais ou de um conhecimento adquirido pela luz natural da razão.
    • O adepto da via de conhecimento é o cristão regenerado pelo batismo, iluminado pela confirmação e em quem os dons do Espírito Santo aperfeiçoam o exercício das três virtudes teologais de fé, esperança e caridade.
  • Na via de conhecimento, a Terra simboliza o estudo de toda a Natureza como obra divina, o Ar simboliza os diferentes sentidos da Escritura inspirada pelo Espírito Santo, a Água é símbolo sacramental e materno, o Fogo significa a Luz e o Conhecimento, a Lua é símbolo da Treva divina e do Sacrifício, e o Sol é por excelência o símbolo da Deificação.
  • Na meditação da Terra, esta simboliza toda a Natureza — a natura naturans, que é Deus criador e princípio de tudo, e a natura naturata, que é o conjunto dos seres criados —, dividida em macrocosmo e microcosmo, ambos dependentes do metacosmo ou mundo divino.
    • A visão contemplativa opera um duplo movimento de interiorização do mundo exterior e de exteriorização do mundo interior; por isso é preciso a um só tempo amar o próximo como a si mesmo (Mt 22,39) e odiar a própria alma individual (Lc 14,26) para ser um discípulo verdadeiro.
    • O que era fervor e intensidade nas outras vias torna-se aqui certeza; os princípios primeiros derivados do conhecimento das coisas sensíveis não bastam para fundar essa certeza, pois tudo o que vem do criado está sujeito às vicissitudes do criado; somente as razões eternas contempladas pela alma purificada ao elevar os olhos para a Sabedoria eterna fornecem a certeza perfeita do conhecimento eterno e imutável.
    • A intuição fundamental da via de conhecimento é a da alma presente a si mesma num conhecimento imediato; conhecendo-se, a alma descobre em si a imagem e semelhança que a ligam a Deus criador e contempla no Verbo as ideias e os protótipos do que Deus cria e produz.
    • Tal pensamento situa-se além de toda abordagem filosófica: é necessária a luz da fé para atingir o segredo das ideias exemplares em Deus; a porta única é o Verbo encarnado e sua doutrina: a chave do conhecimento é a doutrina do Verbo incriado pelo qual tudo foi feito, do Verbo encarnado pelo qual tudo foi reparado e do Verbo inspirado pelo qual tudo foi revelado.
    • Na via de amor ou de beleza, a alma ia das criaturas ao Criador; na via de conhecimento, essa abordagem subsiste e se completa por um movimento que vai do Criador às criaturas, nas quais o mundo criado se torna uma ilustração do Conhecimento principial e imutável: trata-se de reconhecer e não de pesquisar, de mostrar e não de demonstrar, de despertar no outro o mesmo conhecimento e não de argumentar.
    • As condições da via de conhecimento são severas, segundo Boaventura: é necessário orar, viver santamente e tender a atenção para as imagens da verdade, elevando-se por graus até o monte supremo onde o Deus dos deuses se revela em Sião.
  • O Ar, símbolo do Espírito Santo, convida a meditar os diversos sentidos da Escritura, a relacionar as bem-aventuranças aos dons do Espírito Santo e a conhecer Deus pelos sentidos espirituais.
    • A Escritura inspirada tem quatro sentidos tradicionais: o sentido histórico ou literal, que reconstitui os eventos ou explica o significado das palavras; o sentido alegórico ou espiritual, de cunho dogmático, que busca no Antigo Testamento a figura do Novo e o que ambos significam sobre a Igreja; o sentido anagógico ou místico, de alcance escatológico, sobre os mistérios do além; e o sentido tropológico ou moral, sobre as realidades da vida moral e espiritual.
    • Nos dois últimos sentidos, a Escritura, assim como o simbolismo litúrgico, torna-se meio de exploração do universo interior e método de ensino capaz de despertar no outro as mesmas experiências vividas pelos escritores inspirados e pelos grandes mestres da vida espiritual.
    • A Escritura deve ser meditada segundo os quatro sentidos com o auxílio dos comentários tradicionais; são menos as palavras que importam do que as coisas numa lógica de participação e num simbolismo efetivamente vivido; a Escritura torna-se então o sacramento do Verbo de Deus, tão necessário para a nutrição da alma quanto o sacramento do Corpo de Cristo.
    • As sete bem-aventuranças (Mt 5,1-12) correspondem aos sete dons do Espírito Santo: a primeira (os pobres em espírito) ao dom de Temor; a segunda (os mansos) ao dom de Piedade; a terceira (os que choram) ao dom de Ciência; a quarta (os famintos de justiça) ao dom de Força; a quinta (os misericordiosos) ao dom de Conselho; a sexta (os puros de coração) ao dom de Inteligência; a sétima (os pacificadores) ao dom de Sabedoria; a oitava bem-aventurança (os perseguidos) confirma as sete anteriores, pois todas supõem alguma forma de perseguição ou sofrimento.
    • As bem-aventuranças são como o selo divino na alma, testemunho da ação dos dons e sinal visível do progresso espiritual; Boaventura, citando Hugues de Saint-Victor, distingue os três graus da via de conhecimento: crença de um piedoso assentimento (fé), aprovação de uma reta razão (dom de inteligência) e uso de uma pura contemplação (pureza de coração).
    • Deus pode ser apreendido pelos cinco sentidos espirituais, que são funções especiais dos dons de Inteligência e de Sabedoria; Agostinho, nas Confissões, descreve o que ama em Deus: não a beleza dos corpos nem as melodias sensíveis, mas uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um enlace do homem interior, insusceptíveis de qualquer limitação espaço-temporal.
    • Boaventura explica que os sentidos espirituais são as percepções mentais da verdade contemplada; na contemplação, o homem percebe a soberana beleza de Cristo como Esplendor, ouve a soberana harmonia como Verbo, saboreia a soberana doçura como Sabedoria, sente o soberano perfume como Verbo inspirado no coração e enlaça a soberana suavidade como Verbo encarnado habitando corporalmente em nós, numa ardente caridade que pelo êxtase transporta o espírito deste mundo ao Pai.
  • A Água é, em todas as tradições, símbolo por excelência da Substância universal: purifica das impurezas por ser um elemento simples e primordial, portanto incorruptível, e pelo contato com ela o crente entra em relação com a Substância universal pela analogia dos símbolos e pelas repercussões do mundo sensível ao espiritual.
    • Essa Substância é sempre virgem por ser inafetada por suas produções; por ela o mundo foi purificado no dilúvio (1Pd 3,19-21) e os hebreus na passagem do Mar Vermelho (1Cor 10,1-3).
    • Pelo contato com as águas do batismo e pela virtude das fórmulas sagradas, o neófito é regenerado: as águas fecundas produzem, numa espécie de alquimia espiritual, uma verdadeira transmutação dos elementos sutis do indivíduo, abrindo-lhe acesso aos estados superiores; enterrado com Cristo nas águas batismais, o neófito ressuscita com ele para caminhar numa vida nova (Rm 6,4).
    • A água simboliza ainda a substância individual que deve ser transmutada na Substância universal; a alma é essa substância individual que deve adquirir a qualidade divina para ser reintegrada na família trinitária — o que Paulo chama de adquirir a conformidade à imagem do Filho (Rm 8,29).
    • No Cristianismo, os sacramentos são as substâncias capazes de produzir essa transformação: a água do batismo, o pão e o vinho da eucaristia, o óleo da confirmação, da unção dos enfermos e da ordem, todas ligadas à vida cotidiana como reflexo direto da substância primordial.
    • Segundo João Clímaco, o arrependimento é uma renovação do batismo e a fonte das lágrimas após o batismo é algo maior do que o próprio batismo, pois o dom das lágrimas é sinal certo de que o coração foi fundido pelo amor divino e o início da alegria espiritual, segundo a antinomia da terceira bem-aventurança e a promessa de Jo 7,38.
    • A piscina batismal pode ser comparada às águas fecundas do Gênesis e ao seio da Virgem no qual nasceu Jesus Cristo e no qual nascem misticamente as almas dos cristãos regenerados; a alma deve primeiro realizar as perfeições virginais — pureza, bondade e beleza — e opera-se então uma transubstanciação da alma individual na Substância universal, seguida de uma transformação pela realização das virtudes crísticas por meio da graça deificante do Espírito Santo, que torna a substância fecunda e faz engendrar o Filho de Deus, momento em que o Pai reconhece na alma a imagem de seu Filho e pronuncia as palavras de adoção.
  • O Fogo, símbolo de calor e bondade na quarta meditação da via de devoção, é aqui símbolo de Luz e Conhecimento, sendo o coração representável tanto como coração flamejante — símbolo de calor e amor — quanto como coração radiante — símbolo de luz e conhecimento.
    • O coração é como um sol espiritual, fonte de calor e de vida, e também de luz, conforme Jo 1,4; o fogo que reside no centro do ser humano é a um só tempo amor e conhecimento, o que explica que os termos afetivos possam ser transpostos analogicamente para descrever a experiência das realidades profundas da vida espiritual em todas as doutrinas tradicionais.
    • O coração simboliza a faculdade de conhecimento direto — a intuição intelectual —, enquanto o cérebro é o instrumento do conhecimento discursivo ou racional, funcionando como transmissor ou transformador, assim como a lua transmite e reflete a luz do sol sem ser luminosa por si mesma.
    • René Guénon articula a distinção entre intuição intelectual e razão discursiva: a razão é o modo propriamente humano da inteligência; a intuição intelectual é suprahumana, participando diretamente da inteligência universal que, residindo no coração — ponto de contato do ser com o Divino —, ilumina-o por dentro; a luz solar representa o conhecimento intuitivo do intelecto puro, e a luz lunar representa o conhecimento discursivo da razão, que só funciona validamente sob a garantia dos princípios que recebe do intelecto superior.
    • A luz incriada contemplada pelos Apóstolos no Monte Tabor permanece para a Igreja do Oriente a promessa da visão de glória que os cristãos realizarão coletivamente no fim dos tempos, sendo a Transfiguração antecipação da segunda vinda; enquanto isso, a vida sacramental e a experiência espiritual atestam que o Reino vindouro já está em nosso interior.
    • O homem não possui, enquanto homem, uma faculdade capaz de ver Deus; se há visão da luz divina, é porque Deus faz o homem comungar no conhecimento que ele tem de si mesmo: a faculdade contemplativa torna-se ela mesma toda luz, assimilando-se ao que vê, de modo que aquele que vê não pode mais distinguir o meio, o fim nem a essência, tendo apenas consciência de ser luz e de ver uma luz distinta de toda criatura.
  • Às trevas das noites obscuras da via de devoção, a tradição patrística prefere a Treva divina, símbolo da alma que não pode apreender a essência divina, cuja transcendência impede que seja jamais inteiramente compreendida pela inteligência criada, mesmo vivificada pelas energias divinas.
    • Dionísio Areopagita, na Teologia Mística, dirige-se à Trindade supersensível pedindo ser conduzido além de toda luz e além da própria ignorância até o cume das Escrituras místicas, onde os mistérios da teologia se revelam na Treva mais que luminosa do Silêncio, que brilha de luz esplêndida no seio da mais negra escuridão e enche de esplendores as inteligências que sabem fechar os olhos.
    • Gregório de Nissa, no comentário ao Cântico, descreve a alma-esposa que, crendo ter atingido o cume de suas esperanças, descobre que está ainda tão longe da perfeição quanto os que não começaram: penetrando nas realidades invisíveis, envolta na noite divina, ela busca aquele que se esconde na treva — e o amado escapa ao enlace de seus pensamentos.
    • A Lua é também símbolo do Sacrifício: tanto o sacrifício do ego (Mt 16,24) quanto o sacrifício cósmico pelo qual Deus é como desmembrado e dado em alimento para a criação e a redenção do mundo.
    • Outra forma de sacrifício é o abandono das ideias falsas que ligam a divindade ao tempo, ao espaço e à causalidade; Mestre Eckhart, na teologia apofática ou negativa, distingue Deus — que opera e é enunciado por todas as criaturas — da Deidade — que não opera, é unidade pura e da qual nada se pode dizer; na percepção, o retorno ao Fundo da Deidade é mais nobre que a saída por emanação, e lá ninguém pergunta de onde se vem nem onde se esteve.
    • Eckhart descreve ainda o homem que deve ser tão pobre que não seja um lugar onde Deus possa operar: seu ser essencial está acima de Deus enquanto Deus é concebido como origem das criaturas; em sua natividade eterna, o homem foi causa de si mesmo e de todas as coisas, é não-nascido e não pode mais morrer, pois o que é como criatura temporal morrerá e se aniquilará, mas na natividade eterna tudo permanece.
  • No grau da Deificação, o homem torna-se por graça o que Deus é por natureza — theôsis —, tornando-se participante da natureza divina (2Pd 1,4) e unido ao Senhor em um único espírito (1Cor 6,17): tudo o que o Pai tem é do Filho (Lc 15,31) e o Pai e o Filho são um (Jo 10,30).
    • Dionísio Areopagita, ensinamento comum ao Oriente e ao Ocidente cristãos, afirma que o fim da hierarquia é conferir às criaturas, tanto quanto possível, a semelhança divina e uni-las a Deus; a Similitude divina retorna à sua causa todos os seres que produz.
    • Tomás de Aquino expressa a deificação numa metafísica baseada na participação à natureza divina (2Pd 1,4); Boaventura, à maneira de Dionísio, descreve a redução — o retorno a Deus causa primeira e final —; para uma criatura racional, a deiformitas é poder retornar à origem pela memória, inteligência e vontade; essa trindade de potências na unidade de uma essência constitui, para Boaventura e Agostinho, a imagem de Deus no homem, que só se exprime claramente quando o homem se volta para Deus e só atinge pleno florescimento na união a Deus pelas virtudes teologais, correspondentes às três potências da alma.
    • Máximo Confessor insiste que a visão de Deus na treva constitui participação e deificação: nenhum aspecto da deificação é produto da natureza, pois a natureza não pode compreender Deus; somente a graça divina possui a faculdade de comunicar a deificação de modo analógico; então a natureza resplandece de luz sobrenatural e se vê transportada acima de seus próprios limites por uma superabundância de glória; Deus e os que são dignos de Deus não têm mais senão uma única e mesma atividade — energia de Deus só, pois ele inteiro se comunica aos que, inteiros, dela são dignos; Melquisedeque, possuindo em si o único Verbo de Deus vivendo e agindo, tornou-se sem princípio e sem fim, vivendo não mais a vida temporal mas a vida divina do Verbo, eterna e não limitada por nenhuma morte.
    • Gregório Palamas, defendendo os santos hesicastas, ensina que Deus se deixa ver face a face (Nm 12,8), une-se aos dignos como a alma ao corpo e habita todo inteiro neles todos inteiros, de modo que, por sua parte, eles habitam todo inteiros nele; Deus, transcendente a todas as coisas, incompreensível e inefável, consente em tornar-se participável à inteligência e invisivelmente visível em sua potência supersensível.
    • Mestre Eckhart descreve a alma que conhece Deus sem retorno sobre si mesma e se vê transformada em Deus: o fundamento primeiro da beatitude espiritual é a alma contemplar Deus sem véus; a vida eterna consiste unicamente em conhecer Deus como o único e verdadeiro Deus, não em saber que se conhece Deus; se o homem se torna bem-aventurado até o fundo e a raiz de sua beatitude, ele não se conhece mais a si mesmo nem conhece nada — só conhece a Deus; as mais altas potências da alma devem ser despojadas de sua essência e transformadas em Deus só, nascendo em Deus e de Deus, para que Deus seja seu único Pai.
    • O texto conclui com a oração que encerra o Breviloquium de Boaventura: o conhecimento, o amor e a alegria dos bem-aventurados são proporcionais entre si e superam tudo o que o olho viu, o ouvido ouviu e o coração humano pressentiu; a prece pede que o conhecimento de Deus se desenvolva aqui embaixo e se desabroche no alto, que o amor cresça aqui e chegue à plenitude lá, e que a alegria seja grande em esperança aqui e plena em realidade lá, até a entrada na alegria do Senhor trino e uno, bendito nos séculos dos séculos.
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