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BUDISMO – O MITO
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A compreensão do budismo é introduzida a partir do mito condensado na vida do Fundador, cuja narrativa épica representa a vitória sobre a morte e cuja personalidade histórica permanece obscurecida pela substância eterna do akālika dharma com a qual se identifica o Buddha, concebido não como homem, mas como manifestação antropomórfica de uma divindade solar junta ao próprio tempo.
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A vida do Fundador, de cerca de oitenta anos, assume forma mítica que reúne a totalidade da epopeia da libertação da mortalidade.
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A remoção dos elementos milagrosos da narrativa deixa apenas um núcleo histórico mínimo referente a um possível mestre individual.
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A personalidade individual do mestre é eclipsada pela substância eterna do dharma atemporal (akālika dharma).
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O Buddha é descrito como antropomórfico, não como um homem comum.
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A posição de eruditos modernos evemeristas sustenta que teria sido um homem posteriormente divinizado.
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A interpretação tradicional afirma o Buddha como deidade solar descendida para salvar homens e deuses da mortalidade.
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O nascimento e o despertar do Buddha são considerados coetâneos do próprio tempo.
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A distinção entre os epítetos Bodhisattva e Buddha estabelece a diferença entre o ser em processo de despertar e o ser plenamente desperto, sendo o Bodhisattva originalmente mortal que, pela atualização de virtudes e conhecimentos transcendentais, alcança o despertar total de um Buddha.
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Bodhisattva significa “ser que desperta” ou de natureza em despertar.
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Buddha designa “o Desperto”.
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O Bodhisattva é originalmente mortal e torna-se apto ao despertar por virtudes e conhecimentos transcendentes.
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Gautama Siddhārtha permanece Bodhisattva até o momento do oni-despertar.
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Cada eón sucessivo conhece o nascimento de um Buddha.
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Gautama Siddhārtha é o sétimo de uma série de encarnações proféticas.
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Maitreya é o Bodhisattva que sucederá futuramente.
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Bodhisattvas como Avalokiteśvara permanecem voluntariamente fora da plena Buddheidade até que todos os seres sejam redimidos.
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Antes de seu último nascimento terreno, o Bodhisattva reside no céu de Tuṣita e, instado pelos deuses a libertar o universo do sofrimento, escolhe conscientemente o tempo, o lugar e a linhagem de seu nascimento, determinando nascer da rainha Mahā Māyā, esposa do rei Śuddhodana do clã Śākya em Kapilavastu no País do Meio.
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O Bodhisattva habita o céu de Tuṣita antes de encarnar.
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Os deuses solicitam sua descida para libertar o universo do sofrimento.
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A escolha do nascimento envolve decisão sobre época, local e mãe.
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Um Buddha deve nascer de casta sacerdotal ou real.
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A predominância da casta real determina o nascimento entre os Śākyas.
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Mahā Māyā concebe após o sonho do elefante branco que desce do céu.
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Intérpretes de sonhos anunciam a possibilidade de nascimento de um Imperador Universal ou de um Buddha.
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O giro da roda indica domínio universal em sentido espiritual.
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O nascimento do Bodhisattva ocorre no Parque de Lumbini de modo milagroso, sem dor e de forma lateral, seguido por sinais cósmicos que revelam sua natureza extraordinária.
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Mahā Māyā dá à luz apoiando-se na rama inclinada de uma árvore.
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O nascimento ocorre pelo costado da mãe.
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A possibilidade de nascimento virginal é sugerida.
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São Jerônimo menciona tradição semelhante em estudo sobre a virgindade, associando-a também aos nascimentos de Platão e de Cristo.
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Deidades guardiãs dos quatro quadrantes recebem o recém-nascido.
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O menino dá sete passos e proclama sua primazia no mundo.
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O universo inteiro se ilumina.
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Nascem simultaneamente os “sete conaturais”, incluindo Yaśodharā, o cavalo e o discípulo Ānanda.
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Tais eventos são considerados normais sempre que nasce um Buddha.
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Após a morte de Mahā Māyā uma semana depois do parto, a criação do príncipe continua em Kapilavastu sob proteção real, acompanhada por presságios de seu destino e por sinais sobrenaturais de sua natureza.
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Prajāpatī assume o lugar de Mahā Māyā.
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Brâmanes adivinhos predizem que o menino será Imperador ou Buddha aos trinta e cinco anos.
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A divindade tutelar dos Śākyas inclina-se diante dele no templo.
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Śuddhodana procura impedir sua vocação espiritual criando-o em reclusão luxuosa.
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A sombra do árvore sob a qual repousa permanece imóvel enquanto o sol se move.
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O príncipe demonstra aprendizado sobrenatural.
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Aos dezesseis anos vence prova de arco e flecha atravessando sete árvores.
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Casa-se com Yaśodharā e nasce Rahula.
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A visão sucessiva dos quatro sinais — velhice, doença, morte e vida monástica — conduz o príncipe à decisão de abandonar o mundo para buscar libertação da mortalidade.
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Os quatro sinais aparecem apesar da tentativa real de ocultar o sofrimento.
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Os deuses assumem as formas de velho, enfermo, cadáver e monge.
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A serenidade do monge revela possibilidade de superação da mortalidade.
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O príncipe anuncia a Śuddhodana a decisão de abandonar o mundo.
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As portas do palácio são mantidas fechadas.
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Durante a noite parte silenciosamente após despedir-se de esposa e filho.
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O cavalo e o auriga acompanham a fuga.
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A partida do Bodhisattva é seguida pela primeira tentação de Māra e pela renúncia definitiva aos sinais da realeza.
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Māra oferece o domínio do mundo em troca do retorno.
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O Bodhisattva corta turbante e cabelos.
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Deuses elevam esses objetos ao céu como relíquias.
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Vestes de peregrino são fornecidas pelos deuses.
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O auriga retorna à cidade.
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O cavalo morre de tristeza.
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O Bodhisattva dedica-se ao aprendizado com mestres brâmanes e às austeridades extremas, abandonando-as posteriormente ao reconhecer sua ineficácia.
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Cinco discípulos acompanham a prática ascética inicial.
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Os discípulos abandonam-no quando cessa os jejuns.
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Sujātā oferece arroz com leite impregnado de ambrosia pelos deuses.
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O alimento é recebido em recipiente de ouro.
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O Bodhisattva banha-se no rio antes de alimentar-se.
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O alimento deve sustentá-lo por sete semanas.
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O recipiente lançado ao rio flutua contra a corrente, sinal de triunfo iminente.
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O Bodhisattva retorna ao Árbol do Despertar.
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Indra, associado a Agni e ao modelo do sacrificador, oferece feixes de erva sacrificial.
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O Bodhisattva circunda a árvore e toma assento voltado para o leste.
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O trono situa-se no “umbigo da terra”, local tradicional do despertar dos Buddhas anteriores.
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O confronto com Māra culmina na vitória espiritual do Bodhisattva, confirmada pelo testemunho da Terra e pela derrota das forças demoníacas.
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Māra reclama o trono.
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A Terra testemunha as virtudes do Bodhisattva.
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Demônios atacam com fogo, trevas e tempestades.
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Todas as armas caem desarmadas aos pés do Bodhisattva.
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Os deuses retornam após a retirada de Māra.
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Durante a noite do despertar o Bodhisattva compreende plenamente a origem causal (pratītya samutpāda) e alcança o estado de Buddha, proclamando a vitória sobre o ciclo da morte.
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A realização ocorre gradualmente ao longo da noite.
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A compreensão da causalidade universal conduz ao despertar completo.
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O universo inteiro se transfigura.
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O canto de vitória anuncia a destruição da sede e da construção da “casa” da existência.
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O Buddha permanece sete semanas junto à Árvore do Despertar e enfrenta novas tentações antes de decidir ensinar.
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As filhas de Māra tentam seduzi-lo.
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Surge hesitação diante da possibilidade de ensinar a Lei.
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O temor de incompreensão humana suscita vacilação.
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Brahmā e os deuses insistem que alguns estão preparados para compreender.
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O Buddha dirige-se a Benarés.
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A Primeira Predicação põe em movimento a Roda da Lei.
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A doutrina do anātmya afirma a ausência de um eu permanente.
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O Cogito ergo sum é rejeitado como ilusão.
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Os cinco antigos discípulos tornam-se Arhats.
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A atividade missionária continua em direção a Uruvelā, onde novos episódios de conversão e domínio espiritual ocorrem.
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Trinta jovens são conduzidos à busca do verdadeiro si mesmo.
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Surge a referência ao ātman como realidade autêntica.
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Em Uruvelā encontra comunidade bramânica adoradora do fogo.
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Um Dragão habita o templo do fogo.
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O Buddha vence o Dragão assumindo forma ígnea.
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O Dragão domado aparece na tigela de esmolas.
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Os brâmanes abandonam o agnihotra e tornam-se discípulos.
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A chama interior substitui o sacrifício externo.
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O ensinamento relaciona-se ao Agnihotra interno descrito no Āraṇyaka Brahmânico segundo observação de Keith.
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A vida posterior do Buddha caracteriza-se pela formação de uma comunidade monástica, pela pregação constante e pela preparação para a morte.
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Comunidade de monges errantes forma-se gradualmente.
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Mulheres são admitidas como monjas.
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Mosteiros e conventos são doados por leigos.
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Debates com brâmanes terminam sempre em vitória do Buddha.
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Diversos milagres são realizados.
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A morte iminente é anunciada.
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Ānanda expressa tristeza.
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A impermanência das coisas compostas é reafirmada.
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Honra verdadeira consiste em viver segundo a Via.
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O Buddha afirma que ver a Lei é ver o Buddha.
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A última exortação recomenda ter o ātman como lâmpada e refúgio, juntamente com o dharma.
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A prática espiritual central consiste em vida de constante recordação consciente (smṛti), na qual toda ação deve ocorrer em plena presença de consciência.
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Nada deve ser feito sem presença consciente.
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O pecado inadvertido é considerado pior que o deliberado.
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O comportamento instintivo é rejeitado.
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Platão exprime princípio semelhante ao afirmar que nada deve ser feito contra o princípio imanente que governa o corpo.
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O autodomínio consiste na submissão aos princípios superiores.
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A ética da presença consciente repousa sobre fundamento metafísico segundo o qual o conhecimento é recordação de uma onisciência latente, paralela às doutrinas das Upanishads e de Platão.
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O reconhecimento é recuperação de conhecimento previamente possuído.
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A doutrina lembra a teoria platônica da reminiscência.
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Ensino e experiência funcionam como recordadores do que foi esquecido.
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A distinção entre o espírito imortal e a alma mortal, presente no brahmanismo e na Philosophia Perennis, expressa a verdadeira identidade espiritual do ser humano.
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Platão fala de dois princípios ou almas no homem.
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Apenas o imortal constitui o verdadeiro si mesmo.
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O espírito retorna a Deus enquanto o pó retorna ao pó.
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A máxima gnōthi seauton expressa o autoconhecimento essencial.
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A negação de si mesmo aparece nas palavras atribuídas a Cristo.
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São Bernardo descreve a dissolução completa do eu.
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Meister Eckhart afirma que o Reino de Deus pertence ao completamente morto.
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A palavra divina separa alma e espírito.
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A entrega da alma à morte elimina a egoidade.
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