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SOU O GUARDIÃO DE MEU IRMÃO?
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Caim, que matou Abel (o pastor) e fundou uma cidade, prefigura a civilização moderna, descrita de dentro como máquina mortífera, anomalia ou monstruosidade, comparável a um cadáver cujos últimos movimentos são convulsivos e sem significado, e cujo problema central não é suicídio, mas crime.
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Descrições internas da civilização moderna citadas: “máquina mortífera, sem consciência nem ideais” (G. La Piana), “nem humana nem normal nem cristã” (Eric Gill), “anomalia, para não dizer monstruosidade” (René Guénon), “os valores da vida estão minguando lentamente” (A. N. Whitehead).
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O paralelo com Caim estabelece a tese do capítulo: a civilização ocidental como civilização do crime, não do suicídio.
O viajante moderno que pergunta se um “paraíso perdido” como Bali já foi “contaminado” faz uma confissão trágica ao não perceber que condena a si mesmo, pois reconhece implicitamente que é um agente de envenenamento das fontes do equilíbrio e da graça.-
Covarrubias descreve os balineses como vivendo sob sistema cooperativo autossuficiente com base na assistência recíproca; prevê que a drenagem de sua riqueza e a destruição de suas instituições os converterão em coolies, ladrões, mendigos e prostitutas.
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Covarrubias reconhece a inutilidade de recomendar medidas contra a “marcha implacável da Ocidentalização”: turistas não podem ser mantidos afastados, as necessidades do comércio não serão restringidas por razões sentimentais, e as sociedades missionárias são muitas vezes muito poderosas.
Sir George Watt (1912) afirma que o progresso em linha com a empresa de civilização manufatureira deve ter curso livre, mesmo que danifique a arte indiana; no mesmo ano, Gandhi declara que a Índia é esmagada não pela bota inglesa, mas pela civilização moderna; Rabindranath Tagore, em carta aberta a Gilbert Murray, afirma que não há povo em toda a Ásia que não olhe para a Europa com medo e desconfiança.-
O relato pessoal de uma mulher trabalhadora que equiparou o que os alemães faziam na Bélgica ao que “devia ser feito” com os negros do Congo ilustra a lógica interna da civilização moderna.
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O episódio da mulher trabalhadora não é atribuído a ignorância marginal, mas é apresentado como expressão coerente dos valores da civilização dominante.
A civilização moderna pressupõe que quanto mais coisas os povos desejam e conseguem obter, melhores são; seus valores são quantitativos e materiais, e um conferencista do Boston College a descreveu recentemente como “maldição para a humanidade”.-
Henry A. Wallace, então vice-presidente, prometeu que, terminada a guerra, nações mais velhas ajudariam as mais jovens a industrializar-se, e que quando suas massas aprendessem a ler, escrever e tornarem-se mecânicos produtivos, seu nível de vida se dobraria ou triplicaria.
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Wallace não mencionou o preço a pagar, nem refletiu que um “progresso” incessante que nunca termina em contentamento condena todos os homens a um estado de pobreza irremediável.
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São Gregório Nacianceno: ainda que alguém pudesse procurar toda a riqueza do mundo, sempre restaria mais, cuja falta o deixaria pobre.
A associação da leitura e da escrita com a “mecânica produtiva” é significativa: ler e escrever só têm importância máxima para as massas em uma cultura quantitativa, onde é preciso ser capaz de ler avisos e anúncios publicitários para ganhar dinheiro e “elevar o nível de vida”; se a alfabetização serve para capacitar as massas indiana e chinesa a ler o que o proletariado ocidental lê, elas estarão melhor com sua própria literatura clássica, de que todos possuem conhecimento oral.-
Sir George Birdwood (1880) já observara que a educação ocidental destruiu o amor dos povos colonizados por sua própria literatura, seu deleite em suas próprias artes, e sobretudo seu repouso em sua própria religião tradicional e nacional, além de ter levado o descontentamento a cada família onde suas influências mortíferas chegaram.
Os sistemas de educação devem ser extensões das culturas dos povos concernidos, mas o educador ocidental sabe pouco e se importa menos com esses povos; O. L. Reiser assumia que, após a guerra, os ideais e a política americanos dominariam o mundo e que todas as religiões e filosofias divergentes podiam e deviam ser suprimidas em favor do “humanismo científico”.-
A única resposta possível a essa pretensão é que as raças ocidentais, antes de fazer qualquer coisa pelos povos cujas culturas demoliram, devem renunciar à sua “fúria proselitista”: “hipócritas, pois percorreis por mar e por terra para fazer um só prosélito” (Mateus 23:15).
Passa-se por cima do fato de que muitos povos asiáticos não estão de modo algum desprovidos das necessidades da vida, e de que uma concepção asiática fundamental é que, uma vez cobertas as necessidades, supor que quanto mais se avança nesse sentido tanto melhor é uma falácia.-
O europeu busca tornar-se economicamente independente na velhice; o mapa indiano da vida propõe para a velhice uma independência da economia.
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Um escritor indio (J. C. Kumarappa) comparou o consumidor ocidental ao burro na cuja frente o arrieiro pendurou uma cenoura presa a um pau fixado em seu próprio arreio: quanto mais corre, mais puxa o carro, ou seja, mais altos os dividendos pagos ao manufatureiro.
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A situação do “coelho da Índia” (o consumidor) é descrita como querida pelo próprio consumidor, que, em sua bondade, quer fazer burros também dos balineses, enquanto ainda pergunta se eles já foram “contaminados”.
Ao abordar o problema das relações interculturais, é necessário partir do conceito platónico e universalmente humano de arte como princípio da manufatura, ciência da confecção de coisas para o bom uso do homem, físico e metafísico; nessa perspectiva, agricultura, culinária, tecelagem e pesca são artes tão nobres quanto pintura e música.-
A desintegração da arte de um povo é a destruição de sua vida, reduzindo-o ao estatuto de proletariado de cortadores de madeira e carregadores de água a serviço de um comerciante estrangeiro.
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O emprego de malaios nas plantações de borracha não contribuiu em nada para sua cultura; eles não devem nada ao Ocidente.
Marco Pallis é citado como exemplo europeu de responsabilidade: ao escolher presentes para seus amigos tibetanos, teve cuidados infinitos para não levar nada que pudesse tender à destruição da integridade de seu modo de vida.-
Indianos que se recusavam a comprar participações numa lucrativa companhia hoteleira, por não querer ganhar dinheiro à custa da hospitalidade, e uma mulher indiana que se recusou a comprar uma máquina de lavar por preocupação com o meio de vida do lavadeiro, ilustram o sentido de responsabilidade que o Ocidente abandonou.
O mundo moderno abandonou o conceito de “meio de vida reto”, segundo o qual um homem não podia considerar-se bom cristão se se sustentava da usura ou da especulação, nem bom budista se fabricava armas ou bebidas alcoólicas; Aldous Huxley observou recentemente esse abandono.-
Ocupações incongruentes com a dignidade humana e manufaturas que não são de uso real, por mais lucrativas que sejam, devem ser abandonadas por toda sociedade que visa à dignidade de todos os seus membros.
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Um “nível de vida” só pode chamar-se “alto” quando medido em termos de dignidade e não apenas de conforto.
As bases da civilização moderna estão corrompidas a tal ponto que mesmo pessoas instruídas esqueceram que o homem quis viver uma vez não só de pão; Platão afirmava que é contrário à natureza das artes buscar o bem de algo além de seu objeto; Santo Tomás de Aquino, que o artesão está naturalmente inclinado por justiça a fazer seu trabalho fielmente.-
Gilbert Murray, numa carta aberta a Rabindranath Tagore, ao elogiar como “fato maravilhoso” que mecânicos e homens de terra que servem aviões tenham se tornado tão confiáveis e responsáveis, e ao atribuir isso à Idade das Máquinas, revelou a que nível o industrialismo rebaixou o senso de honra do artesão.
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O que o episódio dos aviões revela é simplesmente que onde a produção é realmente para o uso, e não primordialmente para o lucro, o trabalhador se inclina naturalmente a fazer seu trabalho fielmente.
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Mrs. Handy observou que a perfeição técnica continua sendo o ideal do artesão das Ilhas Marquesas; o instinto da artesania não foi extinto na natureza humana, mas apenas suprimido em seres humanos que trabalham irresponsavelmente.
Os antropólogos, como observadores imparciais, não poupam palavras ao descrever os efeitos dos contatos ocidentais sobre as culturas tradicionais: Mrs. Handy registra que os aspectos externos da cultura das Ilhas Marquesas foram apagados quase inteiramente pelas devastadoras atividades do homem branco.-
Raymond Firth afirma que a arte dos “selvagens” da Nova Guiné, como expressão de valores sociais complexos, é de importância básica, mas que sob influência europeia sua qualidade começou a desaparecer em quase todos os casos.
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C. F. Iklé escreve que, devido à influência do mundo ocidental pronto a inundar o globo com seus produtos de massa inferiores, destruindo entre os povos nativos os conceitos de qualidade e de beleza junto com a alegria da criação, é um problema saber se a bela arte da tecelagem ikat poderá sobreviver muito tempo nas Índias Holandesas Orientais.
O Ocidente aprendeu a apreciar as “artes primitivas”, mas apenas quando as “colecionou”; conserva os cantos folclóricos ao mesmo tempo que seu modo de vida destrói o cantor; orgulha-se de seus museus, onde exibe a evidência reprobatória de um modo de vida que ele mesmo tornou impossível.-
G. A. Reichard observa que, “devido à demolição da cultura nas ilhas onde se fizeram os objetos, estes podem ser estudados mais satisfatoriamente nos museus”, enquanto na fonte “essas técnicas altamente desenvolvidas e belas morreram, ou estão morrendo”.
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A exclamação “Morrendo!” contrapõe-se à resignação fatalista de Sir George Watt (“deve dar-se curso livre ao progresso em linha com a empresa de civilização manufatureira”), ao que só cabe responder com o evangelho: “Ai daquele por quem vem o escândalo”.
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Levanta-se a pergunta sobre o que afinal aconteceu às cidades que Caim construiu, e a advertência: não se presuma que “isso não pode acontecer aqui”.
O “amor da arte” e o “apreço” pelo primitivo, assim chamado todo o art que é abstrato e impessoal em vez de autoexpressivo ou exibicionista, não despertou nos corações ocidentais nenhum amor pelo artista primitivo ele mesmo.-
Uma cultura mais carente de amor, e ao mesmo tempo mais sentimentalmente cínica, do que a da Europa e América modernas seria impossível de imaginar: quando “vela por tudo”, na realidade não cuida de nada exceto de si mesma.
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A razão carente de paixão da erudição “objetiva”, aplicada ao estudo “do que os homens têm crido”, é uma frivolidade em que sempre se elide o problema real: saber o que deve ser crido.
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Os valores inverteram-se a tal ponto que a ação, cuja intenção é propriamente para um fim, tornou-se fim em si mesma, e a contemplação, pré-requisito da ação, passou a ser desprezada como um “escape” das responsabilidades da atividade.
O artigo não trata de relações políticas ou econômicas, mas das relações culturais que de fato subsistem entre os povos que se chamam adiantados e aqueles a quem estes chamam atrasados, nomenclatura que pertence ao gênero do “leão pintado por si mesmo”.-
Existe o perigo iminente de que, mesmo conformando suas intenções a estabelecer relações políticas e econômicas justas com outros povos, os ocidentais continuem acreditando que lhes foi confiada uma “missão civilizadora”.
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Por trás da fúria proselitista há um fanatismo que não pode suportar nenhum tipo de sabedoria que não seja a de sua própria data e tipo; como diz Hermes Trismegisto: “há um rancor que odeia a imortalidade, e que não nos deixará reconhecer o que é divino em nós”.
A exportação da “educação” ocidental é ainda mais abominável do que o tráfico de armas: o que os ingleses tentaram na Índia ao pretender fazer uma classe de pessoas que fossem “indianos de sangue e de cor, mas ingleses quanto a gostos, opinião, costumes e intelecto” (Lord Macaulay) é o que Middletown quer fazer hoje, substituindo “ingleses” por “americanos”.-
O que os britânicos tentaram na Irlanda, onde em trinta anos o número de falantes da língua nativa foi reduzido a menos do que a pequena província de Connaught continha sozinha trinta anos antes, é descrito por Douglas Hyde: às crianças ensinava-se a envergonhar-se de seus pais, de sua nacionalidade, de seus próprios nomes.
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O modelo se repete igualmente no caso dos índios “educados à inglesa” e no dos índios americanos submetidos à crassa ignorância de mestres de escola pública que sequer podiam falar sua língua materna.
Esses são os frutos da “civilização”, e o fruto sempre revela a árvore; tudo isso só pode ser expiado com arrependimento, recantação e restituição, sendo a última virtualmente impossível, pois as sequoias cortadas não podem ser replantadas.-
Uma cultura tradicional sobrevive ainda, precariamente, em oásis “não contaminados”; o mínimo que se pode dizer ao mundo moderno é que guarde sua “educação colegial” e suas “escolas preparatórias” para consumo doméstico.
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O que os ocidentais chamam de “missão civilizadora” é uma forma de megalomania; tudo o que os povos orientais necessitam aprender dos ocidentais, eles virão perguntar quando sentirem a necessidade; se os ocidentais escolherem visitar, serão hóspedes bem-vindos, e se admirarem algo, a resposta será: “É seu”.
O mundo moderno deve “mudar de mente” (isto é, arrepender-se) muito mais para seu próprio benefício do que para fazer restituição; como disse Philosophia a Boécio em sua aflição: “Vós esquecestes quem sois”.-
A questão é como esta mentalidade extrovertida pode despertar, lembrar-se de si mesma e converter-se de sua sentimentalidade e de sua exclusiva confiança no conhecimento estimativo para a vida do intelecto; não por retorno às formas exteriores da Idade Média, nem por assimilação a algum modelo de vida sobrevivente.
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Os princípios sobre os quais ainda se apoia a vida “não contaminada” do oriente devem pelo menos ser apreendidos, respeitados e compreendidos, se o provinciano ocidental alguma vez há de tornar-se um cidadão do mundo.
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A bondade do mundo moderno carece de princípios; seu “altruísmo” já não se funda num conhecimento do Si mesmo de todos os seres, mas apenas numa inclinação egoísta.
Se o abismo entre oriente e ocidente há de ser salvo, isso só será possível por um acordo sobre os princípios, não por alguma participação em formas de governo ou em métodos de manufatura e de distribuição comuns; como dizia Kierkegaard, o que o mundo necessita não são novas formas de governo, mas outro Sócrates.-
Uma filosofia idêntica à de Platão ainda é uma força viva no oriente; nos livros orientais há uma doutrina de como repor as cabeças novamente sobre os corpos; trata-se de uma doutrina de sacrifício e de recuperação das realidades: exteriormente é um rito e interiormente um nascer de novo.
Propor um acordo sobre os princípios não implica que o mundo ocidental se orientalize; a propaganda está fora de questão como entre cavalheiros, e cada um deve fazer uso das formas adequadas à sua própria constituição psicológica; é o europeu que quer praticar o yoga, e o oriental aponta que ele já tem disciplinas contemplativas próprias.-
O reconhecimento dos princípios pelos quais o oriente ainda vive poderia conduzir de novo ao “mundo moderno de realidade empobrecida” ao filósofo Platão, que negava a dependência do conhecimento em relação à sensação e sustentava que todo aprender é só recordação.
Não podem ajudar aqueles que, nas palavras de Platão, “pensam que nada é, exceto o que podem agarrar firmemente com suas mãos”; o europeu, por seu próprio benefício e pelo de todos os homens num mundo futuro, não só deve deixar de prejudicar e explorar os demais povos, mas também abandonar sua querida e autoaduladora crença de que pode fazê-los algum bem de outro modo que sendo bom ele mesmo.Para concluir, os poucos trabalhadores europeus no campo oriental a quem as críticas não se aplicam serão os últimos a discordar delas; o que foi dito não é o que se ouvirá dos orientais já educados à inglesa e muitas vezes “contaminados”, com quem os ocidentais podem conversar.-
Coomaraswamy fala por uma maioria, letrada e iletrada, que não fala, em parte por inclinação, e em parte porque, em mais de um sentido, não fala a língua do Ocidente.
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Fala pelos que uma vez “se inclinaram ante o ocidente em paciente e profundo desdém” e que não são menos um poder hoje pelo fato de os ocidentais não poderem conhecê-los nem ouvi-los.
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