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HINDUÍSMO – O MITO

HINDUÍSMO E BUDISMO

  • O mito, ou verdade penúltima que reflete toda a experiência temporal, fundamenta a Revelação e possui uma validade atemporal e aespacial absoluta, não configurando uma invenção poética no sentido moderno, mas uma realidade universal passível de narração sob múltiplas perspectivas dotadas de idêntica autoridade.
    • A narrativa mítica espelha o princípio da criação fundamentado em um começo sempiterno que transcende a cronologia histórica, de modo análogo à concepção cristã de que a criação operada por Deus ocorreu no nascimento eterno de Cristo, independentemente dos milênios que separam as enunciações literárias datáveis.
    • As expressões clássicas que remetem a um princípio, como no cume ou na causa primeira, indicam que o relato de outrora significa estritamente uma temporalidade que ocorre para sempre.
    • A universalidade da narrativa permite a sua articulação a partir de variados pontos de vista sem qualquer perda de legitimidade.
  • O começo sempiterno abriga de modo indiviso a Identidade Suprema sem qualquer diferenciação entre ser e não ser, de onde emerge o Matador do Dragão como um princípio correlato destinado a suplantar o Pai e a libertar as potencialidades do reino através de uma paixão sacrificial que institui a inseparabilidade essencial entre o sacrificador e a vítima por trás das aparências do conflito cosmológico fenomênico.
    • A totalidade encontra-se inicialmente encerrada no princípio primeiro, designado alternativamente como Pessoa, Progenitor, Montanha, Árvore, Dragão ou Serpente infinita, não havendo separação entre luz e obscuridade ou entre céu e terra.
    • O Matador do Dragão configura-se mais como um alter ego do que como um princípio distinto, assumindo o papel imperativo de libertar os tesouros e destruir a prisão original para que o mundo possa efetivamente existir.
    • A submissão do Pai à paixão sacrificial pode ocorrer de modo voluntário, por amor aos filhos, ou por imposição dos Deuses, constituindo variações narrativas que não se contradizem, mas que ilustram a mesma dinâmica em que inimigos mortais no palco da manifestação representam uma unidade inseparável nos bastidores da realidade.
    • O Pai-Dragão preserva a sua condição de Pleroma inesgotável, não sofrendo qualquer diminuição ou acréscimo em sua substância por intermédio de suas emanações exaladas ou inaladas.
    • A deidade primordial identifica-se com a Morte da qual depende a vida manifesta, permanecendo singular em sua origem, mas multiplicando-se em sua descendência terrena, o que exige a sua pacificação para que se converta em um aliado do herói já estabelecido como amigo da humanidade.
  • A paixão imposta à Serpente infinita compreende o desmembramento e a exaustão de sua unidade primeva, comparável à derrubada da Árvore do Mundo que fornece a matéria-prima para a edificação do cosmos, forçando o Progenitor esgotado a infundir-se em suas próprias emanações inanimadas mediante a fragmentação de seus poderes perceptivos a fim de despertá-las à plena consciência e convertê-las em receptáculos vivos.
    • O Dragão agia como um aprisionador implacável do Fogo e da Água da Vida, personificado por Namuci, constrangendo todos os Deuses, seres, ciências e bens, exigindo ser golpeado para que de sua boca emanassem as Escrituras, o Sacrifício e os mundos figurados como a fumaça de um fogo recém-apagado.
    • A exaustão de suas possibilidades de manifestação finita reduz o ser primordial a uma pele vazia e o submete temporariamente à Morte, embora ele sobreviva a essa aflição em uma profunda inversão de papéis cosmológicos.
    • O Dragão Ígneo penetra no interior do herói não para consumi-lo, mas para vivificá-lo e despertar a sua capacidade de assimilação.
    • A impossibilidade de animar os filhos mantendo a sua forma singular obriga o Progenitor a dividir-se em múltiplas Medidas de Fogo identificadas com Agni, estendendo-se desde a caverna do coração até os sentidos corporais para experimentar o contato com os objetos externos.
    • A entrada dos Deuses no indivíduo mortal confere aos corpos a consciência e a energia vital, transferindo a natureza passível da deidade para a humanidade e dificultando o processo de reintegração da totalidade divina originária.
  • O ser humano empírico constitui a montanha, a prisão psicofísica e a pele reptiliana que soterram e ocultam a deidade primeira, consumando uma profunda inversão cosmológica na qual o Homem Interior se torna prisioneiro do Homem Exterior, o que transfere o campo da batalha mítica para o íntimo da alma, onde a ressurreição divina e a vitória sobre a ilusão identitária dependem do autoconhecimento genuíno.
    • O indivíduo opera como o combustível e a pedra geradora da centelha, confinando o princípio primordial em uma caverna ou casa estruturada pela dicotomia egóica entre o eu e o tu.
    • A superação do aprisionamento exige que o Matador do Dragão devore e assimile o seu adversário íntimo correspondente ao próprio sujeito enganoso, tomando posse dos tesouros originais através de uma comunhão eucarística.
    • A etimologia da palavra sânscrita giri para montanha fundamenta a doutrina da absorção do adversário através da raiz gir de engolir, estabelecendo que a alma composta deve engolir a sua própria individualidade nefasta para libertar a divindade.
    • A guerra milenar entre o Deus e o Titã trava-se ininterruptamente dentro de cada indivíduo dividido contra si mesmo.
    • O triunfo salvífico requer uma consagração mútua na qual o homem se reconhece como o vinho a ser sorvido pela deidade restaurada e atuante no centro de sua própria constituição existencial.
  • O sacrifício voluntário da deidade fundamenta o rito terreno e instaura o pecado original de crueldade compartilhado por todas as criaturas em virtude de sua existência separada e de sua cognição dualística, exigindo a entrega pessoal do sacrificador como expiação ininterrupta para que a divindade desmembrada cotidianamente pela ignorância seja reedificada e as multiplicidades finitas retornem à sua unidade primordial.
    • A dinâmica sacrificial impõe a necessidade estrutural de obter o consentimento da vítima, refletindo a premissa infalível de que o nascimento múltiplo da deidade nos seres vivos e o renascimento destes na divindade pressupõem obrigatoriamente a ocorrência da morte.
    • A apreensão da realidade segmentada em sujeito e objeto e em bem e mal configura a ignorância divisiva que perpetua a dilaceração divina e barra o acesso do Homem Exterior à verdadeira compreensão do néctar sagrado do Soma.
    • A operação expiatória no Sacrifício encarrega-se de reunificar os si mesmos fragmentados ao princípio gerador único, o que ocorre de forma consciente nos indivíduos salvos e de modo puramente mecânico ou inconsciente nos condenados.
    • O ciclo contínuo de multiplicação do Uno inesgotável e de posterior assimilação dos múltiplos seres delineia a trajetória completa de todas as manifestações universais, que partem de uma dimensão imaterial sem data ou duração para, após o cumprimento de seus destinos, regressarem invariavelmente ao oceano absoluto que lhes deu origem.
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