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TEMPO E ETERNIDADE

Le Temps et l'Éternité

  • Dionisio exige compreender o sentido em que a Escritura fala de Tempo e Eternidade, e a doutrina será examinada nos contextos védico, budista, grego, cristão e islâmico, pois ambos os termos são ambíguos.
    • O “tempo” designa a totalidade ou parte do continuo de duração passada e futura, ou o ponto presente (nunc fluens) que distingue as duas durações.
    • A eternidade, vista do ângulo temporal, é duração sem começo nem fim; em si mesma, é o ponto inextenso que é o Agora (nunc stans).
    • Boécio formula a distinção: nunc fluens faz o tempo, nunc stans faz a eternidade.
  • Do ponto de vista fundamentalista o tempo teria tido começo e caminharia para um fim, em contraste com a eternidade como duração sem limite, mas a absurdidade dessa posição é demonstrada pela pergunta de Agostinho sobre o que fazia Deus antes de criar o mundo.
    • Tempo e mundo se pressupõem mutuamente e são “con-criados”, tornando sem sentido a palavra “antes” nessa pergunta.
    • Na exegese cristã, in principio não implica começo no tempo, mas origem no Primeiro Princípio.
    • Disso se deduz que Deus está criando o mundo agora, tal como sempre.
  • A doutrina metafísica contrasta o tempo como continuo com a eternidade que não está no tempo e que coincide com o presente real, cuja experiência temporal é impossível.
    • A consciência que funciona no tempo percebe uma série interminável de agoras, cuja soma aparente constitui o “tempo”.
    • Nenhum desses agoras tem duração; como medidas, são todos zeros, e a soma de zeros é impensável.
    • Somos nós que nos movemos; o Agora permanece imóvel, assim como o sol parece nascer e se pôr apenas porque a terra gira.
  • O problema central é o do locus da realidade (satyam / ens), isto é, se o ser pode ser predicado de uma coisa que existe no fluxo do tempo e nunca é idêntica a si mesma, ou apenas de entidades atemporais que são sempre as mesmas.
    • Nota 3: “real” deriva do latim res e provavelmente de reor (“pensar”); “coisa” (thing) relaciona-se a “pensar” (think, denken), sugerindo que as aparências recebem realidade ao serem nomeadas.
    • O sânscrito e páli nama-rupa (nome e fenômeno) designa todos os objetos dimensionados e individualidades; o ser real, em sentido próprio, é “sem nome”.
    • Para o Vedanta toda diferenciação é questão de terminologia; para Platão, as modificações não “são”, pois mudam enquanto se fala delas, sendo apenas “tais e quais” (Timeu 50 A, B).
  • O sânscrito satyam (raiz as, “ser”), como o grego equivalente, significa o real, o verdadeiro e o bom, sendo os entes existentes portadores de uma verdade relativa de nome-e-aparência pela qual Deus está presente no mundo como o Imortal oculto.
    • Nota 4: “existe” e “existente” são usados em sentido estrito de ex alio sistens, distinguindo-se de “ser” ou essência in seipso sistens; a distinção remonta a Platão e sobrevive em Agostinho e Tomás de Aquino.
    • A Verdade do Si mesmo é a “Realidade da realidade” (satyasya satyam, BU 2.1.20), e “essa Realidade, esse Si mesmo, que tu és” (CU 6.10.3).
    • Satyam é sinônimo de Dharma, Justiça, Lex Aeterna, nome de quem é o único em ser hoje e amanhã (BU 1.5.23).
    • Dante confirma: o intelecto jamais se sacia a menos que brilhe nele a Verdade além da qual nenhuma verdade cabe (Paradiso 4.124-126).
    • Nota 5: a distinção védica e budista entre conhecimento empírico e verdade axiomática é a mesma que a distinção grega entre opinião e verdade (Parmenides, Platão, Timeu 28-29), sobrevivendo em Leibniz e já presente em Demócrito (Sextus Empiricus, Adv. Dogm. 1.138).
  • Da verdade relativa do nome-e-forma o Conhecedor se liberta (Mu. Up. 3.2.8), pois essa verdade, válida para fins práticos, é falsidade quando comparada com a Verdade absoluta, e é por essa falsidade que os Verdadeiros Desejos são obscurecidos.
    • O Vedanta não nega a existência dos temporalia: “a não-existência dos objetos externos é refutada pelo fato de nossa apreensão deles” (BrSBh. 2.2.28).
    • Sankara malinterpreta a postura budista, que evita os extremos “é” e “não é” (S. 2.17; BG. 2.16).
    • A postura vedantica coincide com a platônica: as coisas são “falsas” no sentido em que uma imitação, embora exista, não é a coisa real da qual é imitação.
    • Agostinho formula o mesmo em Conf. 7.11 e 11.4: os entes têm existência porque provêm de Deus, mas não têm existência porque não são o que Deus é; só é realmente o que permanece sem mudança.
    • A doutrina vedantica de que o mundo é maya-maya (“do material da arte”) não é doutrina de ilusão, mas distingue a realidade relativa do artefato da realidade maior do Artífice (mayin, nirmatri-kara) em quem subsiste o paradigma.
    • A “ilusão” não pode ser predicada do objeto, pois só pode surgir no perceptor; a sombra é uma sombra independentemente do que se faça com ela.
    • Nota 6: Anaxagoras afirma que “as coisas visíveis são a visão das coisas invisíveis” (Sextus Empiricus, Adv. Dogm. I.140); cf. Romanos 1.20.

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