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CORRENTE DE DEGRADAÇÃO

DAUGE, Yves-Albert. Virgile, maître de sagesse: essai d'ésotérisme comparé. Milano: Arche, 1984

  • O problema da degenerescência e da reconstituição das elites como elemento central da antropologia criacional
    • O problema da degenerescência e da reconstituição das elites constitui um elemento essencial daquilo que se pode designar por antropologia criacional, enquanto tem relação com a dinâmica das sociedades e das civilizações.
  • O testemunho universal sobre o papel necessário dos grandes homens e das elites
    • Sobre o papel necessário dos grandes homens e das elites na criação, no desenvolvimento, na manutenção ou nas mutações de toda a comunidade importante de vida e de cultura, afluem os testemunhos da experiência, dos filósofos da história, dos pensadores e dos poetas.
    • Entre os filósofos da história da época moderna e contemporânea, mencionam-se J.-B. Vico, Hegel, O. Spengler com O Declínio do Ocidente, José Ortega y Gasset com A Revolta das Massas, Arnold J. Toynbee com Um Estudo da História, Gonzague de Reynold com A Formação da Europa, Raymond Aron com Dimensões da Consciência Histórica, Karl Jaspers com Origem e Sentido da História, Lucien Duplessy com O Espírito das Civilizações, Paul Rostenne com Deus e César: Filosofia da Civilização Ocidental, Luis Diez del Corral com O Rapto da Europa, Jacques Leclercq com Nós Outras Civilizações… e Guy Dingemans com Psicanálise dos Povos e das Civilizações, devendo-se assinalar particularmente os brilhantes expositivos de Toynbee sobre a natureza e a evolução das “minorias criadoras” e os juízos equilibrados de J. Leclercq sobre a função das elites e o contributo das massas.
    • Entre os que refletiram sobre a condição humana e as mutações das sociedades, notam-se Nietzsche, V. Pareto, R. Guénon, Bergson, P. Valéry, H. de Keyserling, Max Scheler com O Santo, o Génio, o Herói, N. Berdiaeff, C.G. Jung com Presente e Futuro, Ernst Jünger com Heliópolis, R. Abellio com Rumo a um Novo Profetismo, Shrî Aurobindo, G. Friedmann com O Poder e a Sabedoria, H. Corbin e G. Durand.
    • Hermann Hesse, cujo esplêndido romance O Jogo das Contas de Vidro se encontra inteiramente consagrado ao problema das elites, faz a observação, de ressonância toda romana, de que “a história social tem sempre por motor a tentativa de constituir uma aristocracia, sendo esse o seu cume e a sua coroação, e parecendo que uma espécie de aristocracia qualquer, de reino dos melhores, seja sempre o objetivo e o ideal verdadeiros, se não sempre confessados, de todas as tentativas feitas para constituir uma sociedade”.
    • Para os poetas, no sentido mais lato do termo, nomeiam-se Hölderlin, Novalis, Victor Hugo, A. de Vigny, Baudelaire, Milosz, Stefan George, Rilke, Patrice de la Tour du Pin com Suma de Poesia e Pierre Emmanuel.
    • D.H. Lawrence, no seu romance A Serpente Emplumada, de maneira eminentemente poética, faz expor pelo seu herói, Ramon, a concepção de uma “aristocracia universal”, que recorda as ideias de Cícero, de Horácio, de Virgílio e de Sêneca, ao afirmar: “Precisamos de uma aristocracia, não é verdade? (…) As folhas de uma árvore, por maior que seja, não podem pendurar dos ramos de outra árvore; e do mesmo modo, as raças deste mundo não podem nem misturar-se nem confundir-se. (…) Só as flores se podem misturar entre si, e a flor de cada raça é a aristocracia natural, a elite dessa raça. O espírito do mundo pode voar de flor em flor como um beija-flor e fertilizar lentamente as florações das grandes árvores. Só a aristocracia natural pode elevar-se acima da sua raça, só ela pode ser internacional, ou cosmopolita, ou cósmica. (…) Então, enquanto flores, partilhamos o mesmo mistério com as outras flores, um mistério para além do saber das folhas, dos ramos e das raízes”.
  • A consciência aguda do papel das elites na mentalidade e no realismo políticos romanos
    • Os Romanos tinham uma consciência aguda desse papel das elites, tanto pela sua mentalidade, de tipo aristocrático, quanto pela sua lucidez e pelo seu realismo políticos, como demonstra, entre outros, o estudo fundamental de Pietro de Francisci, Espírito da Civilização Romana, e como se procurou ilustrar na obra O Bárbaro.
    • Roma atribuiu sempre a sua grandeza a uma sucessão ininterrupta de homens superiores, a uma elite coerente e constantemente renovada, que soube criar e desenvolver um império arquitetônico e adaptar o seu ideal às vicissitudes da história, recordando-se a célebre reflexão de Salústio: “À força de meditar sobre estas questões, cheguei a convencer-me de que era o valor eminente de alguns cidadãos que tinha feito tudo…”, fórmula de aparência talvez paradoxal, mas fundamentalmente justa.
    • Para interpretar a história universal, o Romano colocava naturalmente na origem das sociedades e das civilizações “grandes Instrutores da humanidade” — como Kronos/Saturno, Apolo, Dionísio/Baco, Mercúrio/Hermes/Thoth ou Orfeu —, que os seus benefícios faziam reconhecer como “deuses” ou “divinos”, e cuja ação se perpetuava graças a elites de inspiração tradicional.
  • O caráter e as particularidades das elites enquanto contactantes com energias psico-espirituais
    • Certos homens, pelas suas capacidades próprias, entram em contacto com energias psico-espirituais não utilizadas pelo comum dos mortais, inserindo-se então em circuitos de forças cuja intensidade podem suportar e cujo dinamismo podem transformar em criações benéficas, ligando-se assim a uma fonte de sabedoria e de potência supra-individual e supratemporal.
    • Estes homens têm, efetivamente, algo mais que os outros: mais vontade, mais imaginação, mais conhecimento, mais amor, mais espírito de sacrifício, mais autoridade; o seu “capital divino” é mais importante, os seus “talentos” pesam com maior peso, o seu grau de evolução é mais avançado, ideias estas que os antigos explicavam pelos seus relações privilegiadas com o Divino e pela qualidade excepcional do fogo que os animava.
    • Tais seres não constituem, a rigor, uma espécie à parte, uma raça separada, apresentando, relativamente ao resto da humanidade, uma diferença de estatura, e não de natureza, aspecto capital na ótica romana.
  • O problema crucial da duração, do desenvolvimento e da transmissão dos poderes recebidos pelas elites
    • O problema crucial, para estas elites, é o da duração, do desenvolvimento e da transmissão dos “poderes” recebidos, interrogando-se sobre como fazer frutificar o dinamismo originário, como manter um alto nível de criatividade, como permanecer fiel à sua missão e adaptar-se, sem trair, às variações da história, e como vencer o desgaste do tempo e perpetuar-se através das gerações.
    • As elites não podem subsistir em circuito fechado, sob pena de decadência rápida, necessitando sem cessar de aportes novos para realizar a “circulação” das energias indispensável à sua permanência, tal como Roma, em todos os momentos importantes da sua evolução, teve perfeita consciência da necessidade de uma regeneração contínua na mesma orientação.
  • As sete qualidades complementares da antropologia criacional para a progressão ou manutenção das elites
    • A antropologia criacional enumera sete qualidades complementares que permitem assegurar a progressão ou a manutenção das elites, a saber: a Memória, ou o “reconvocar de si e de Deus”, a firme consciência do seu papel e da sua responsabilidade; a Vontade, a concentração rigorosa da energia, o desejo ardente de cooperar com os “deuses” para “fazer o que deve ser feito”; a Vocação sacrificial, ou Kenosis, força de purificação e de libertação que visa rejeitar as formas inferiores do ser e da ação; o Intelecto, ou aptidão para o conhecimento uno e indivisível da Lei cósmica; o Amor, ou aptidão para dar e receber, para deixar circular sem obstáculo a Vida universal; a Criatividade, que consiste em incarnar sem descanso neste mundo móvel e rebelde as Ideias, os Arquétipos contemplados ao nível do mundus imaginalis; e a Sabedoria unificadora, a capacidade de fusão que visa reconduzir o complexo ao simples, o múltiplo ao uno.
    • Estas sete faculdades, enquanto permanecem ativas, conferem a toda a elite que delas é detentora o poder de satisfazer as exigências da sua mais alta missão, a saber, trabalhar simultaneamente à sua própria metamorfose e à do seu universo, qualidades que os Romanos sempre conheceram e cujo exercício pleno os melhores entre eles se esforçaram por realizar.
  • O processo de degenerescência das elites e a análise do seu suicídio interior
    • É raro que uma mesma elite permaneça bastante evoluída e numerosa, suficientemente mestra do seu destino e da sua perpetuação, para evitar durante muito tempo o enfraquecimento ou a queda, sendo a posse das sete qualidades salvíficas apenas o facto de personalidades fora do comum.
    • Inexoravelmente, as forças de baixo alteram as comunidades que parecem mais sólidas e arrastam-nas para a decadência, acabando o pesadume da matéria e as agitações da psique por ter razão das virtudes do Coração e do Espírito, barbarizando-se a “minoria dominante”.
    • O processo de degenerescência das elites foi admiravelmente analisado por Arnold J. Toynbee e por J. Leclercq, devendo-se salientar nitidamente que uma elite se corrompe sempre a partir do interior, por uma grave deficiência da sua Memória, da sua Vontade, do seu Intelecto, ou de qualquer outra qualidade fundamental, podendo portanto falar-se do suicídio das elites.
  • Fenomenologia exaustiva da decadência das minorias criadoras
    • É possível estabelecer uma fenomenologia exaustiva da decadência das minorias criadoras, observando-se em primeiro lugar a degradação da energia, ou o aumento da entropia, tendendo o dinamismo originário, a potência devida aos fundadores e o ímpeto inicial “naturalmente” a reduzir-se.
    • Existe a força de atração das psiques e dos corpos, dos elementos rajasicos e tamasicos, que procuram, como a água ou a terra, abafar o “fogo sagrado”, acrescentando-se o peso dos privilégios, das riquezas e do poder, que depressa transformam uma elite numa oligarquia opressiva.
    • Deve notar-se igualmente a transformação frequente da criação em tradição, a qual, se é útil para preservar os princípios e formar os homens, torna-se nefasta desde que substitui totalmente a liberdade inventiva, o contacto pessoal com o Divino e a Vida universal e a inspiração, conduzindo a uma ruptura com a fonte transcendente de energia.
    • Para além disso, as altas qualidades indispensáveis à sobrevivência das elites rareiam à medida que decresce o vigor da comunidade, que se enfraquece a vontade coletiva e que predominam os interesses elementares e as massas, ocorrendo também a inflexão para baixo do “fiat” primordial, a perda da memória das origens e o obscurecimento da revelação e da missão, o que, na linguagem de Israel, se chama infidelidade e, na ideologia romana, constitui a falta imperdoável que é o “desprezo dos deuses”.
    • Finalmente, surge, no seio da elite, o aparecimento de vontades de potência individuais, a virtus anexada pela paixão e o encadeamento dos conflitos, o que corresponde ao secamento da raça dos heróis desinteressados.
  • O mecanismo da degenerescência como perda de contacto com uma fonte criadora superior
    • O processo de degenerescência das elites, apesar de uma aparente complexidade, releva de um mecanismo relativamente simples, tratando-se de uma perda progressiva de contacto com uma “fonte criadora” superior — divina ou demoníaca, supratemporal, supra-individual —, fonte primeiro descoberta e metodicamente explorada, depois, baixando as forças, de acesso cada vez mais difícil, e finalmente abandonada ou temida.
  • Exemplos característicos da corrupção das elites na literatura antiga: o ciclo dos quatro anos e a decadência da Atlântida
    • A literatura antiga propõe vários exemplos característicos deste processo de corrupção das elites, citando-se em primeiro lugar o esquema “mito-histórico” do ciclo dos quatro anos, que responde precisamente ao fenômeno de involução, como se a instauração de um novo ciclo coincidisse com o aparecimento de uma nova autoridade divina, ou melhor, de uma nova raça teândrica capaz de fazer reinar a paz na aliança com os deuses, declinando depois, pouco a pouco, até à idade do ferro, da subversão total e da negatividade.
    • Outro exemplo bem conhecido dos Romanos é a decadência dos reis da Atlântida evocada por Platão no seu Crítias, onde, “durante numerosas gerações, e enquanto neles dominou a natureza do Deus”, os sacerdotes-reis vindos de Posídon reinaram sabiamente, mas, “quando a parte do Deus veio a diminuir neles, pelo efeito do cruzamento repetido com numerosos elementos mortais, quando dominou o caráter humano”, se deixaram progressivamente ir à imoralidade, à avidez e à injustiça.
  • O tema da decadência da elite troiana no contexto virgiliano como advertência a Roma
    • No contexto virgiliano, há sobretudo o tema da decadência da elite troiana, que se desenvolve no início do poema como uma explicação da transferência da herança para uma Troia melior e como um advertência solene a Roma.
    • O livro II da Eneida sugere que, antes da sua destruição pelo fogo, Troia já estava morta espiritualmente, sendo a sua desaparição material a consequência lógica desse suicídio moral, residindo a falta essencial da sua elite em ter usado mal as energias divinas que lhe foram oferecidas.
  • A reconstituição das elites nos momentos cruciais da história e o aparecimento da “raça de diamante”
    • Apesar de tudo, a momentos cruciais da história, sob o impulso dos “deuses” e dos “heróis”, as elites reconstituem-se, aparecendo no fim do ciclo involutivo a “raça de diamante” que remonta a corrente da degradação para se libertar, completando-se assim o quadro dos quatro anos com um quinto, o do Diamante, dominado por Júpiter.
    • Eneias, representando essa raça de Diamante, superará o Ferro, o Arão e a Prata, refundará um novo Ouro e sairá do determinismo cíclico pela deificação.
  • A necessidade da desaparecimento das antigas elites e a subsistência de um “pequeno resto” para o renascimento
    • Para que se forme e se imponha uma nova minoria criadora, as “elites” precedentes devem, em grande parte, desaparecer, sendo no poema virgiliano a morte de Príamo, de Ripeu, de Creusa, de Palinuro, de Misano, de Niso e de Euríalo, de Palas, de Amata, de Turno e de tantos Troianos e Italianos necessária ao nascimento de algo mais importante que Troia e que a Itália originária.
    • Subsiste apenas um “pequeno resto”, em quem sobrevive a verdadeira Troia, imortal enquanto “forma” do Espírito divino, mas vivificada por uma inspiração e um dinamismo novos, representado essencialmente por Anquises, Eneias e Ascânio, destinados a instaurar um novo ciclo e a fundar um novo centro espiritual.
  • Os fatores de atualização do princípio-germe de grandeza: a impulsão criadora e o desenraizamento
    • Para que este princípio-germe de grandeza se atualize, devem intervir dois fatores: a impulsão criadora e o desenraizamento, sendo o imperativo transmutador um motivo musical sem cessar retomado no poema, através das interpelações divinas, dos signos celestes, dos prodígios, das tentações e das conversões humanas, dos sonhos, das provas e dos encontros.
    • Quanto ao desenraizamento, de tipo quase abraâmico, traduz-se principalmente por uma sucessão de partidas que são outros tantos despertares, e nesta “ascese do mar” imposta a Eneias por Júpiter como a prova libertadora por excelência, tratando-se, no fundo, de um reenraizamento no céu e na terra.
  • A questão da decadência e da reconstituição da elite romana no século I a.C.
    • Após a crise das guerras civis e o drama da agonia republicana, fazia-se sentir a necessidade de uma reflexão aprofundada, de uma espécie de “meditação operativa” sobre a romanidade, para tirar as lições da “experiência destruidora” e tentar engajar uma “experiência libertadora”.
    • Tratava-se então de elucida a essência da Roma eterna, de explicitar as leis da sua energética, da sua imperialidade e da sua arte soberana, e de pôr em luz uma “metafísica da romanidade” ao uso de toda a elite presente e futura.
  • A análise da decadência pela perspectiva de Cícero, Salústio, Horácio e Virgílio
    • A análise da decadência, desde Políbio, tinha exercitado os melhores espíritos, tendo Cícero denunciado o desaparecimento das qualidades fundamentais da elite, a infidelidade do Romano à sua missão e a subversão de tipo “catilinário” ou “antoniano”.
    • Salústio, no início do Catilinária, mostrou a degradação da virtus pela importância crescente dos bens materiais e a desagregação da cidade pelas rivalidades individuais.
    • Horácio insistiu sobre a inversão da energia tradicional que, de criadora, se tinha tornado nociva, sobre o desprezo dos deuses, a imoralidade, a perda dos princípios aristocráticos e o suicídio da elite romana.
    • O próprio Virgílio, nas suas Bucólicas e Geórgicas, deplorou os estragos das lutas civis, o reino da desordem, da impietas e da crueldade, e a barbarização do “povo-rei”.
  • As três tentações principais que causaram o colapso da elite romana
    • Dessas reflexões depreende-se uma evidência: três tentações principais podem acabar com o Romano, a saber, a tentação das riquezas e da felicidade, a tentação da dominação e a tentação da desmedida, cuja conjunção, particularmente violenta na época das guerras civis, foi fatal a Roma.
  • A ascese necessária para o “pequeno resto” reenraizar o seu ideal e rejeitar as tentações
    • Se um “pequeno resto” quer reenraizar o seu ideal, incarnar de novo os mais altos valores e exercer plenamente um imperium de tipo jupiteriano, deve rejeitar totalmente estas tentações por uma ascese apropriada, desenvolvendo a consciência de si e a vontade reta, disciplinando o desapego e a renúncia, conquistando a uera uirtus e processando a deificação.
  • A necessidade imperativa de retomar contato com a “fonte criadora” superior e transcender o tempo
    • Para ter êxito nesta empresa, é imperativo retomar contacto com a “fonte criadora” superior, invertendo o curso “natural” das coisas para reencontrar as estruturas “normais” do ser e, sobretudo, libertando-se das contingências históricas para transcender o tempo.
    • Tal atitude de espírito é muito difícil de alcançar, tendendo-se, perante um presente de demasiada desintegração, a refugiar-se no passado, o “arcaísmo”, ou no futuro, o “futurismo”, como se vê em Augusto e Varrão, por um lado, e no Virgílio das Bucólicas, por outro.
  • A gnose virgiliana na Eneida como esforço para fazer emergir a minoria criadora da barbárie
    • Na Eneida, a gnose virgiliana representa um imenso esforço para fazer emergir a minoria criadora da barbárie das guerras civis, do materialismo, da impiedade e das quimeras, e para render à elite heroica e hegemônica dos verdadeiros Romanos toda a confiança na sua vocação.
    • A Eneida visa precisamente instituir uma autêntica “experiência libertadora”, para além do arcaísmo e do futurismo, a fim de recriar uma potência universal cuja energia tome a sua fonte a um nível supratemporal.
  • Eneias como arquétipo do “Homem Perfeito” e modelo para a nova elite
    • O homem que tem êxito na “grande guerra santa” contra as três tentações principais, que transcende o tempo e o espaço para se religar ao “Olimpo” e que se deifica por uma dupla dialética entre audácia e humildade, distanciamento e devotamento, é Eneias, arquétipo do “Homem Perfeito”, modelo para a nova elite.
  • O programa virgiliano para a transformação duradoura de Roma
    • Virgílio, muito melhor que os seus contemporâneos, compreendeu qual programa se impunha a Roma para se transformar duravelmente, a saber: desengajar do seu invólucro histórico o núcleo essencial do “povo metafísico”, encontrar a Fonte superior e perene da energia criadora e reconstituir uma elite de bons recetores dessa energia.
  • A função criadora ou recriadora da epopeia heroica e mística
    • A função criadora, ou recriadora, da epopeia heroica e mística consiste em transformar a época transcendendo-a e fazer passar a fé visionária numa obra que seja ela mesma uma fonte de luz e de energia.
  • A epopeia como gênero literário privilegiado para dominar o plano do evento e evidenciar os princípios
    • Uma só forma literária podia assumir um tal conteúdo: a forma épica, que, enquanto gênero poético participando ao mesmo tempo da história, da hierohistória e da metahistória, permite dominar o plano do evento, do fenômeno e da confusão para pôr em evidência os princípios, os arquétipos, as estruturas fundamentais e as ideias-força.
  • O conteúdo iniciático da epopeia e a sua apresentação da doutrina essencial sobre o homem
    • Tendo um conteúdo iniciático, a epopeia apresenta de maneira profunda e estimulante, como um drama de ressonâncias infinitas, a doutrina essencial sobre a estrutura e a vocação do homem, o Imperativo criador, a ascese purificadora, a formação das elites e o desenvolvimento das sociedades.
  • A excelência da epopeia segundo Henry Corbin e a sua introdução a uma leitura da Eneida
    • No seu magistral ensaio “Da epopeia heroica à epopeia mística”, Henry Corbin mostra toda a excelência deste género literário, salientando que, se a epopeia tem por objetivo reativar e atualizar um passado exemplar, é incitando a religar-se pessoalmente à fonte mesma da Energia divina, e insistindo no papel fundamental destas obras inspiradas, que é o de criar uma “linhagem” de eleitos capazes de se transfigurarem a si mesmos e de orientar vitoriosamente todo um povo.
  • A Eneida como epopeia iniciática tipo destinada a uma comunidade eleita
    • A Eneida, quanto a ela, aparece como a epopeia iniciática tipo, destinada a uma comunidade que tem consciência de ser eleita, mas da qual é preciso arrancar os seus demônios e libertar da sua barbárie para a restabelecer na sua total superioridade.
    • Virgílio contemplou a Roma celeste no mundus imaginalis, e esse encantamento anima o poema inteiro, que foi fabricado para fazer conhecer e comunicar essas forças divinas que estão à disposição dos homens.
  • A intenção constante de Virgílio de mostrar como criar uma cavalaria de piedade e de coragem
    • A intenção constante de Virgílio foi, por assim dizer, constranger Roma a ressuscitar e a realizar-se, e ele quis mostrar, com esse fim, como criar uma cavalaria de piedade e de coragem e como elaborar uma raça espiritual e universal de “filhos de Deus”.
  • A profundidade universal da Eneida como poema da energia criadora e da elite em si
    • Esta epopeia, que se dirige ao povo romano, é tão profunda e convincente que pode tocar todos os povos do mundo, sendo a da formação e do trabalho da elite exemplar, poema por excelência da energia criadora, de natureza fundamentalmente igual a muitos outros livros essenciais ou sagrados.
  • A concepção da elite necessária a Roma segundo Virgílio à luz de O Jogo das Contas de Vidro de Hesse
    • Para apreciar a posição de Virgílio, é interessante examinar a contribuição trazida por Hermann Hesse ao problema das elites no seu romance O Jogo das Contas de Vidro, onde um tema maior percorre toda a obra: o divórcio entre a Ordem dos Castalianos, elite hiperselecionada, e as ordens ou partidos ligados à cidade dos homens.
    • A solução do problema encontra-se ao mesmo tempo no conceito de artifex e na noção de linhagem, devendo o artifex viver simultaneamente acima e dentro do mundo, praticando a fuga mundi para realizar a transformatio mundi.
    • Mas um só artifex não basta para recriar o mundo, sendo preciso instituir uma “linhagem” para perpetuar, com coerência e eficácia, a ação do Fogo divino.
  • O “projeto” virgiliano de uma elite aberta e transformadora na Eneida
    • À luz destas considerações, pode constatar-se que Virgílio apresenta, na Eneida, um “projeto” desta natureza, onde a fuga mundi é necessária, mas tem por objetivo a transformatio mundi, sendo absolutamente necessária um artifex e uma linhagem de heróis.
  • Roma como minoria criadora no coração dos processos evolutivos e incarnação das Energias celestes
    • Roma, para Virgílio, deve ser a minoria criadora no coração dos processos evolutivos, a incarnação das Energias celestes no “homem nobre” e na “cidade santa”, a vontade e a inteligência traduzidas numa arte soberana ao serviço da humanidade, devendo ser o Eu artista emergindo do caos para transfigurar o cosmos.
  • Eneias como protótipo da elite a remodelar e a Eneida como Livro inspirado contendo a regra da minoria criadora
    • Aos olhos de Virgílio, profeta de uma melhor raça romana, Eneias é essencialmente o protótipo da elite a remodelar, exemplo para as gerações futuras, representando o “Homem Universal”, a vocação mesma de Roma.
    • Assim, a Eneida pode ser compreendida como Livro inspirado, Livro santo, como uma espécie de Torah encerrando a “regra” da minoria criadora e a virtude de construir o futuro.
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