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CONCEITO DE VALOR

Teoria do Indivíduo Absoluto

  • A doutrina da imanência tem como tarefa primária definir o conceito e o estado de valor, entendido como instância extrema no problema da certeza, além da qual nenhum critério ulterior pode ser pensado.
    • O valor é definido pela relação absoluta entre o princípio nu do Eu e tudo aquilo que, na experiência ou consciência do Eu, se distingue desse princípio.
    • O que se designa como “ser” é o correlativo distinto do Eu na relação que constitui o valor.
    • O valor é a forma em que a relação entre Eu e ser se apresenta como incondicionada, sem admitir mediação ulterior.
  • O “ser”, em seu limite ideal, é tudo que na experiência interna ou externa está simplesmente presente como puro fato, como um Da-sein independente da potência do Eu e de qualquer relação com um significado.
    • O ser, nesse sentido, é incondicionado, mas segundo uma incondicionalidade que significa privação de condição.
    • O valor define-se como a mediação subjetiva dessa incondicionalidade, sua resolução no Eu, o transparecer do Eu naquilo que no ser enquanto ser é em si e por si como “outro”.
    • Essa resolução ocorre necessariamente, de fato, sem uma razão ulterior.
  • A natureza dos conceitos de ser e valor é essencialmente formal, entendendo-se por forma o modo ou a função segundo o qual uma dada determinação da consciência ou experiência é vivida pelo Eu.
    • Ser e valor são os limites da série das possíveis qualidades do viver e do viver-se.
    • Ambos os conceitos são indiferentes ao seu objeto e contrassinalizam substancialmente níveis do espírito.
  • O valor pode ser entendido, em seu limite, como a completa resolução da matéria na forma, exigindo que tudo o que uma dada qualificação da experiência é seja interiorizado e consumido sem resíduo em um lampejo do espírito.
    • A relação absoluta que define o valor é, em si mesma, idêntica e simples.
    • Três aspectos dessa relação podem ser considerados para sugerir sua essência.
  • No ato de compreender, há um momento de perfeita transparência em que, diante de algo, o Eu se concilia consigo mesmo, e o ponto desse significato puro constitui uma instância extrema na ordem do conhecer.
    • O que foi compreendido e a síntese intelectiva são, em relação ao momento do puro significado, algo secundário e material.
    • No compreender pode-se captar uma simplicidade que permanece idêntica a si mesma em todas as compreensões e que transcende o “ser” do objeto.
    • O ponto do significado é essencialmente individual, interior e vivo, estando para a compreensão lógico-conceitual como ato para potência, alma para corpo.
    • F. Schlegel e H. Keyserling são evocados em relação à imediatez do significado e ao símbolo da visão.
  • O mesmo tipo de relação absoluta se realiza na experiência do puro domínio, em que o objeto, permanecendo correlativo necessário, torna-se em certo modo indiferente, e o Eu transparece em um puro e absoluto retomar-se a si mesmo.
    • O possesso que é domínio perfeito ama apenas a si mesmo e anula o objeto em uma relação de identidade-diferença.
    • O posse, a evidência do “Eu posso” e a potência são a extrinsecação mais próxima desse estado.
  • Há um possível aspecto da vontade que não é vontade disto ou daquilo, mas vontade de si mesma, determinação pura e absoluta que tem essencialmente a si mesma como fundamento de sua afirmação e de seu prazer.
    • Nesse estado, a vontade se mantém e se impõe a si mesma, fecundando-se em e por si mesma.
    • O que vem a existir ou é assumido em função desse possível determinar-se permanece ligado ao Eu segundo uma relação absoluta.
  • Os três fenômenos do compreender, do domínio e da vontade pura comunicam entre si, pois algo idêntico pode ser vivido nos três casos, e a distinção não concerne ao ponto mais profundo, mas ao objeto ainda em certo modo distinto da relação.
    • O compreender implica o domínio e a identidade-diferença em relação a todos os elementos que o significado compreende e resolve.
    • O ponto do puro determinar-se implica uma evidência-significado como persuasão.
    • Onde essa redução ao idêntico se efetua, atinge-se o que se entende por valor.
  • O valor aparece na ordem do conhecimento como sentido, na ordem prática como vontade nua e como domínio, e em ambos os casos como redução do incondicionado do “ser” ao incondicionado do Eu.
    • O incondicionado do “ser” é designado como alogon, incondicionalidade privativa.
    • O incondicionado do Eu é designado como logos, incondicionalidade positiva.
    • Esse plano define a certeza absoluta, o puro estado de direito ou estado de justiça.
  • O plano do valor tem como pressuposto essencial o princípio da liberdade, ao qual o espírito só pode chegar por absoluta espontaneidade, mediante um movimento interior que não pode amadurecer de nada e que procede de uma iniciativa pura.
    • Tudo o que venha a ser assumido em função de valor resulta igualmente constituído de liberdade.
    • Já na experiência comum, dadas circunstâncias se impõem por necessidade ao homem, mas depende de sua livre iniciativa o modo como são vividas e o sentido que lhes é conectado.
  • Não é possível entender a passagem ao significado sem pressupor, em alguma medida, a presença do ato de apreender mesmo em seu antecedente, pois o apreender puramente existencial já é, a seu modo, um compreender.
    • A unidade simples está já no início e não pressupõe o ser, mas a este se pressupõe de direito.
    • Dado que a forma enquanto valor esteja presente em uma experiência, ela condiciona de direito toda a experiência.
    • Onde o momento da necessidade ainda estivesse presente, só poderia sê-lo como elemento do ser ligado ao Eu segundo relação absoluta, isto é, como algo querido e dotado de sentido.
    • Onde haja real intervalo entre a forma da experiência e a experiência mesma, isso significa que o Eu não vive no nível do valor e é, em certa medida, exterior a si mesmo.
  • Nada poderia ser experimentado que não incorpore já, em algum grau, o momento do valor, sendo a participação no valor a condição transcendental para a possibilidade de toda certeza e conhecimento.
    • Apresenta-se assim um conceito de “categoria” que vai além do conceito incompletamente formal de Kant e do conceito completamente formal, mas exaurido no plano do sujeito puramente gnoseológico, do idealismo absoluto pós-kantiano.
    • Georg Simmel é evocado pela definição de filósofo como aquele que possui um órgão de reação para a totalidade do ser.
    • O órgão cuja reação define o Eu como indivíduo absoluto desloca o centro próprio ao nível do valor, determinando uma potência ulterior do princípio transcendental condicionador de certeza e experiência.
    • Revela-se uma afinidade entre esse ponto de vista e as formas mais altas de ascese, pois no asceta trata-se de uma tomada de posição vivente diante de toda a vida e da experiência na totalidade de suas formas reais e possíveis.
  • O problema do valor pode surgir em um mundo onde a simples existência esgota a validade em sentido genérico, mas essa ordem de vida passiva pode representar ela mesma uma solução do problema.
    • Nessa situação, o que é de fato vale como tal, sem mediação ulterior, e a presença, enquanto simplesmente presença, contém o critério da validade.
    • Tal situação pode ser considerada como negação do problema, pois o Eu não está determinativamente presente na relação incondicionada que a define.
    • Cabe perguntar se essa ausência do Eu é originária ou reflete um significado particular por proceder da natureza especial de uma relação absoluta na qual a situação pode ser assumida.
  • No limite do puro dado existencial, apresenta-se uma ambiguidade ela mesma significativa, que permite afirmar que o problema do valor contém em si sua própria mediação.
    • O ponto do surgimento do problema constitui um início absoluto, pois junto ao “ser” o problema não é posto.
    • Se o problema é posto, o ser enquanto ser não é mais posto, aparecendo não como antecedente, mas como possibilidade de valor condicionada e dissolvida por uma relação absoluta.
    • O não pôr-se do problema só pode valer como uma solução particular e tudo permaneceria fechado em um círculo.
    • A única resposta possível para como o problema pode em geral se pôr é o reenvio ao ato de absoluta liberdade, ato do qual não se deve buscar uma razão ulterior, pois todas as razões vêm depois.
  • Quando a vontade de valor é posta, o Eu é liberado do mundo e toda condicionalidade é suspensa, mas simultaneamente toda coisa vai gravitar sobre o Eu, que se torna um centro de responsabilidade universal.
    • No círculo que o Eu traçou ao pedir certeza absoluta e valor, toda matéria deve sublimar-se até a completa transparência.
    • Resta analisar e explicitar tudo o que se conecta a tal reviravolta.
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