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EROS E VARIEDADE DA EMBRIAGUEZ
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Platão, através de Diotima, expõe uma teoria do amor que pressupõe a compreensão do eros como forma superior de estado de consciência, designado em “O Banquete” como “possante demônio” e “intermediário entre a natureza de Deus e a natureza de mortal”, preenchendo a distância entre uma e outra.
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Em “Fedro” o conceito central é a mania, de difícil tradução, aproximável de estado de exaltação, “entusiasmo divino” ou embriaguez lúcida, correspondendo ao que foi dito sobre a matéria-prima de todo estado erótico.
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Platão distingue duas formas de mania: uma derivando de doença humana e outra de exaltação divina que faz sentir estranhos às leis e normas habituais, sendo a segunda fonte de grandes benefícios.
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O eros tomado como mania se insere em um contexto mais vasto que evidencia sua possível dimensão metafísica, pois Platão distingue quatro espécies de mania positiva relacionando-as com quatro divindades: a mania do amor ligada a Afrodite e Eros, a mania profética de Apolo, a mania dos iniciados de Dionísio e a mania poética das Musas.
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Marsílio Ficino dirá que são “as espécies de furores que Deus inspira em nós ao elevar o homem acima do homem — e que o transformam em Deus”.
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O fundo comum a todas essas formas é um estado de embriaguez capaz de provocar uma autotranscendência nas várias experiências suprassensíveis: no amante, no iniciado dionisíaco, no visionário que transcende o limite do tempo e no que se submete à experiência mágica.
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É estranho que nem Platão nem seus comentadores tenham mencionado a embriaguez heróica sob o signo de Marte, tanto mais que na Antiguidade se consideraram casos em que a experiência heroica podia oferecer possibilidades iniciáticas.
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Platão reconhece um tronco do qual o eros sexual é um ramo e uma especialização, sendo a matéria-prima uma embriaguez animadora e libertadora cuja possibilidade suprema, obedecendo à sua metafísica definida pelo mito do andrógino, seria uma telet, equivalente da iniciação dos Mistérios.
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É significativo que à palavra “orgia”, correntemente associada ao desvario dos sentidos, se tenha na origem unido o epíteto de “sagrada”: orgia designava o estado de exaltação entusiástica que constituía o ponto de partida da experiência iniciática nos antigos Mistérios.
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Quando essa embriaguez do eros se especializou em cobiça e por fim somente cobiça física, ligando-se completamente aos determinismos biológicos e às sensações turvas da natureza inferior, acabou por se degradar em síncope sob a forma de prazer e de voluptuosidade venérea.
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Devem-se distinguir diversos graus na degradação do estado erótico: o prazer tem caráter difuso e ainda extático quando intenso o momento “magnético” do amor, mas ao diminuir essa intensidade ou quando o ato sexual com a mesma pessoa se torna hábito, o prazer tende a localizar-se fisicamente em zonas ou órgãos sexuais.
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O homem está mais predisposto do que a mulher a essa degradação ulterior.
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A voluptuosidade é de modo geral a síncope ou o colapso do estado de mania, da embriaguez pura, exaltada e lúcida, transportada por um elemento suprassensível.
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Esse prazer constitui a contrapartida da dimensão do eros como impulso para o ser absoluto e imortal no círculo da procriação, ao que corresponderá a segunda teoria do amor exposta por Diotima.
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A oposição platônica entre duas espécies de mania permite desenvolver que, desde que se verifique o estado erótico, as qualidades comuns do indivíduo ficam suspensas e o manas é excluído ou transportado e submetido a uma força diferente, que pode ser ontologicamente superior ou inferior ao princípio da personalidade humana.
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Dessa distinção deriva a possibilidade e o conceito de uma embriaguez extática de caráter nitidamente regressivo, e é nesse limite muito sutil de fronteira que se situa especialmente a magia sexual.
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Ludwig Klages, retomando em parte os pontos de vista platônicos e reconhecendo a dimensão não física do eros, situa no entanto o fulcro de sua interpretação nas camadas inferiores, quase inconscientes, do ser humano, correspondentes à parte yin (feminina, obscura, noturna) e não yang (masculina, luminosa e diurna); o êxtase por ele considerado pode chamar-se telúrico, quase demoníaco, designado na tradição hindu por rasasvadana.
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A possibilidade negativa de uma mania telúrica e a possibilidade positiva de uma mania divina estão igualmente afastadas da mania de origem patológica e do impulso brutal e cego do eros animalizado, distinções importantes que os etnólogos, historiadores das religiões e psicólogos atuais quase inteiramente ignoram.
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