User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
evola:genese-condicionada

GÊNESE CONDICIONADA

DOUTRINA DO DESPERTAR

O problema das «origens», correspondendo à segunda verdade dos árias, foi posteriormente aprofundado pela doutrina dita «da gênese condicionada» — paticca samuppada — que considera particularmente os graus e os estados através dos quais chega-se até uma existência condicionada. «Profunda, difícil de perceber, difícil de entender, geradora de calma, elevada, irredutível ao pensamento discursivo, sutil, acessível somente aos sábios»: assim é apresentada esta doutrina. Considerando propriamente a dificuldade que experimenta o homem comum a entendê-la, parece que o príncipe Siddharta tinha, a princípio, visualizado a determinação de não divulgá-la: «Doutrina que remonta a corrente, que é interior e profunda, ela se oculta àqueles que estão sujeitos à concupiscência, envelopados em uma espessa treva». É o que deveriam ter presente ao espírito todos aqueles que, a este respeito, desejassem avançar «um pouco contra toda interpretação profunda e metafísica». Ora é um fato, ao contrário, que se trata dos resultados de uma enquete transcendental, obtidos — segundo a tradição — ao longo de estados especiais de consciência, correspondendo às três vigílias noturnas, durante a mesma ação espiritual que conduziu o príncipe Siddharta à iluminação, à bodhi. Eis porque deve avançar igualmente a objeção, segundo a qual este discurso sobre os estados transcendentais, apesar do ostracismo declarado para com toda especulação, se baseia em simples hipóteses filosóficas. O budismo entra em uma civilização, na qual, em princípio, era reconhecida a possibilidade de um olhar, «com o qual se vê, não somente este mundo, mas também o mundo do além», e logo apreender, em condições determinadas, seja os estados que precedem a aparição do homem em uma existência corporal, seja aqueles que intervêm, quando esta forma de manifestação se esgota. Os horizontes de nossos contemporâneos são naturalmente diversos, razão pela qual a impressão que se trata simplesmente de teoria e de especulações não pode ser totalmente eliminada.

Todavia, de uma maneira ou de outra, importa no entanto penetrar este conhecimento, posto que se trata de um ponto capital, tanto da parte doutrinal quanto da parte prática do ensinamento budista. «Quem vê a origem a partir de causas» — é dito com efeito — «eis a verdade, e quem vê a verdade, vê a origem desde as causas». E ainda: «De todas as coisas que procedem de causas, o Realizado explicou as causas e, da mesma forma, também a destruição. Tal é a doutrina do grande asceta. Ela serve, além do mais, de base imediata à ação prática e ela é «geradora de calma» (o estado oposto a dukkha), porque tal é sem sentido: «Se isso é, isto decorre; com a origem disso, tem origem isto; se isso não é, isto não decorre; com o fim disso, acaba isto». Conhecendo isso, pela via do qual se chegou ao estado da existência sansarica, isto, igualmente, vem a ser conhecido: isto, cuja rejeição faz que por sua vez, é rejeitado o estado da existência samsarica. Eis porque a doutrina do paticca samuppada constitui a premissa das duas outras verdade dos árias — da terceira relativa a norodha, quer dizer à possibilidade de destruição do estado definido por dukkha, e da quarta, relativa a magga, quer dizer aos métodos a seguir para efetuar uma tal destruição.

O paticca samuppada — que significa literalmente: «gênese» ou «formação condicionada» — tem em consideração uma série de doze estados ou elementos condicionantes. O termo empregado é nidana, que quer dizer «condição», e não hetu, que significa «causa» — logo trata-se de uma condicionalidade, e não de uma causalidade propriamente dita, de sorte que poderia ser retomada a imagem de uma substância que passa transformativamente por diversos estados, em cada um dos quais está contida a potencialidade de dar lugar, em circunstâncias apropriadas, a outra, ou ainda, se é neutralizada, de impedir o desenvolvimento da outra. Mas sobre qual plano se desenvolve esta série?

A este respeito, as opiniões dos comentadores orientais e mais ainda, naturalmente, aquelas dos orientalistas europeus, foram frequentemente discordantes. Mas isto depende do fato de não se aperceber que a série é suscetível a duas interpretações diversas, as quais não se excluem, nem não se contradizem, posto que elas se referem a dois planos distintos. Segundo a primeira interpretação — seguida unilateralmente por aquele que se põe em defesa contra a «metafísica» — toda a série se desenrolaria sobre o plano da existência samsarica e serviria a precisar o processo que se desenrola no tempo — por assim dizer: horizontalmente — segundo o qual uma existência particular finita é determinada por outras existências precedentes, e por sua vez, determina uma ulterior, a ponto de ser simultaneamente efeito a um certo respeito, e causa, a um certo outro. Todavia uma interpretação mais profunda é igualmente possível.

A série inteira pode ser concebida em termos transcendentais, e não somente temporais, segundo um desdobramento, não sobre a horizontal, mas essencialmente sobre a vertical, partindo de estados pré-individuais e pré-natais, até chegar ao plano da existência samsarica, sobre o qual se desenvolve, por sua vez, a série «horizontal», considerada pela primeira interpretação. Posto que os nidanas eles mesmos, nos textos, são visivelmente considerados, seja segundo o primeiro e seja o de acordo com o segundo ponto de vista, por esta razão veio se criar uma situação favorável a confusões e a interpretações divergentes, cada vez que não se reportou a princípios gerais de ordem doutrinal.

Logo temos, aqui, essencialmente a considerar o paticca samuppada segundo o sentido de uma série transcendental, vertical e descendente, a qual, se não acaba por se gravar no tempo, não é, todavia, ela mesma temporal.

VIDE: NIDANA

O grande significado prático da doutrina de paticca-samuppada reside no fato de que, por meio dela, vê-se que o mundo condicionado e contingente não existe como algo absoluto, mas é, por sua vez, condicionado e contingente; é o efeito de um processo no qual causas externas não intervêm; uma mudança, portanto, ou uma remoção, ou uma destruição, é sempre possível. Criadas por ações, as formas condicionadas de existência podem ser dissolvidas por ações. O ensinamento budista considera, além da série descendente das “formações” oriundas da ignorância — denominada a “via falsa” —, a série ascendente das dissoluções, chamada a “via reta”. Enquanto, na primeira série, resultante da ignorância, formam-se as sankhara, e destas, a “consciência”, e da consciência, o “nome-e-forma”, e assim sucessivamente até o nascimento, a decadência, o sofrimento e a morte — na segunda série, quando a “ignorância” é destruída, as sankhara são destruídas; quando as sankhara são destruídas, a “consciência” é destruída, e assim até a remoção condicionada dos efeitos últimos, isto é, do nascimento, da decadência, do sofrimento e da morte, ou, em outras palavras, da lei da existência samsarica.

Pode-se agora compreender por que a obtenção da verdade da gênese condicionada pelo Príncipe Siddharttha — a verdade, isto é, de que o samsara “não é”, mas “tornou-se” — foi concebida por ele como uma iluminação libertadora: “'Tornou-se, tornou-se': como algo jamais ouvido antes, este conhecimento surgiu em mim, a visão surgiu em mim, a intuição surgiu em mim, a sabedoria surgiu em mim, a luz surgiu em mim.” E também se disse nesta mesma ocasião: “Quando a verdadeira natureza das coisas se torna clara para o asceta ardente e meditativo, todos os seus desejos caem por terra, após haver compreendido o que é essa natureza e qual é a sua causa.” E ainda: “Quando a verdadeira natureza das coisas se torna clara para o asceta ardente e meditativo, ele se ergue e dispersa as hostes de Mara, como o sol que ilumina o céu.” Neste ponto, o demonismo samsarico chega ao fim.

Agora que a cadeia descendente dos doze nidana nos levou ao plano da existência samsarica vivida por um ser finito, pode-se considerar a outra interpretação desses mesmos nidana, que foi denominada “horizontal”. Devem-se agora subdividir os doze nidana em quatro grupos e referi-los a mais de uma existência individual. O primeiro grupo consistirá então dos dois primeiros nidana (avijja e sankhara), que correspondem a uma hereditariedade samsarica transmitida a um determinado ser a partir de outra vida. Avijja, inconsciência, refere-se, então, às “quatro verdades” e significa tanto a ignorância quanto à contingência do mundo como a respeito do caminho que conduz para fora dele, enquanto as sankhara são as predisposições criadas em uma vida anterior vivida nessa ignorância.

O segundo grupo refere-se, ao contrário, à existência presente e inclui os três nidana “consciência”, “nome-e-forma” e “base dos seis sentidos”, todos relacionados com a formação e o desenvolvimento da nova vida que assume essa hereditariedade. O terceiro grupo é composto pelos quatro nidana: “contato”, “sensações”, “sede” e “apego”, e refere-se à vida normal do homem comum, na medida em que esta confirma o estado samsarico de existência, nutrindo o desejo preexistente com novo desejo e gerando, por meio de pensamentos e ações, energias que se manifestarão em uma nova vida. Por fim, os três últimos nidana — “(novo) devir”, “nascimento” e “decadência e morte” — referem-se a essa nova vida como sendo, por assim dizer, efeitos.

Com relação a essa interpretação, as explicações individuais de alguns dos nidana são as seguintes: a ignorância é a ignorância das quatro verdades; as sankhara são as formações ou predisposições que se manifestam nos três campos da ação, da palavra e do pensamento; consciência — vinnana — é a consciência que se relaciona com a base sêxtupla (com os seis sentidos); “nome-e-forma” é o conjunto psicofísico do homem vivo; contatos e sensações referem-se novamente à experiência sensorial; finalmente, upadana é o apego ao desejo, às opiniões, à crença no “eu” ou à crença na eficácia miraculosa das regras e dos ritos.

Embora essa interpretação “horizontal” deva ser mantida em mente a fim de esclarecer certos contextos canônicos, deve-se recordar que, em seu caráter, ela é inferior e mais externa do que a outra interpretação vertical e transcendental, pois refere-se exclusivamente ao plano samsarico; tampouco pode reivindicar completa coerência. Por exemplo, é difícil compreender por que “devir”, “nascimento” e “decadência e morte” não estão incluídos no grupo intermediário, que se refere à existência presente, mas aplicam-se, ao contrário, a uma existência sucessiva, quase como se não fossem válidos nem para a vida presente nem para aquela na qual se situam a ignorância e as sankhara; como se a existência sucessiva não contivesse novamente a ignorância e as sankhara, a consciência, a base sêxtupla etc., isto é, os nidana que se referem apenas a uma existência anterior ou à existência presente que herda da anterior. O fato de a maioria dos orientalistas, apesar disso, haverem-se detido nesta segunda interpretação sem perceber tais incoerências, demonstra apenas a superficialidade de suas mentes e a completa ausência de sensibilidade metafísica.

evola/genese-condicionada.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki