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MISTÉRIO DA LANÇA E DA VINGANÇA

MISTÉRIO DO GRAAL

Já foi aludido ao complementarismo existente entre lança e taça. Nas figurações tradicionais do “duplo poder”, o cetro frequentemente se confunde com uma lança, e o simbolismo da lança, a par do do cetro, interfere frequentemente com o simbolismo do “eixo do mundo” e, por essa via, remete aos já conhecidos significados “polares” e regais. Agora, no ciclo do Graal, a lança aparece, justamente e propriamente, junto a figuras regais e apresenta um duplo caráter: ela fere e ela cura. Isso requer alguma explicação adicional.

Na saga, a lança do Graal é frequentemente ensanguentada; às vezes, mais do que estar embebida de sangue, ela mesma dá origem a uma corrente de sangue. De tal sangue, no Diu Crêne, o rei se nutre. Nos textos mais tardios, o sangue vai assumir uma parte cada vez mais importante, a ponto de fazer passar para segundo plano o recipiente que o contém e que originalmente tinha a parte essencial. Em tais textos, o Graal se torna Sangreal, com o duplo sentido de sangue real do Cristo e de sangue regale. Nos elementos cristianizados da saga, a lança do Graal é de fato explicada, às vezes, como aquela com a qual Jesus foi ferido, e o sangue que dela escorre seria “o sangue da redenção”, ou seja, simbolizaria um princípio regenerador. Isso não explica, porém, o fato de que a lança fira quem, como Nescien, quis conhecer o mistério do Graal de muito perto, ficando por isso, além de ferido, cegado. A vista retorna e a ferida se fecha em virtude do sangue que jorra do ferro da lança, uma vez que se tenha conseguido extraí-lo da chaga. No Grand St. Graal, ao se produzir tal fenômeno, um anjo resplandecente declara que este é o início das maravilhosas aventuras que se desenrolarão no país para onde se dirigirá José de Arimateia, ou seja, na região nórdico-ocidental. Graças a essas aventuras “os verdadeiros cavaleiros se distinguirão dos falsos cavaleiros, a cavalaria terrestre se tornará cavalaria celeste”, e então se repetirá o milagre do sangue que brota do ferro da lança. Também o último rei da dinastia de José será ferido em ambas as coxas pela lança e só sarará com a chegada daquele que descobrirá o segredo do Graal, tendo a qualificação para isso requerida.

Em tal conjunto, o sangue da lança pareceria, portanto, estar em relação com a virtude do herói restaurador. Mas neste texto se encontra também a referência de que a lanche aventureuse fere, no sentido de infligir um castigo destinado a recordar a ferida de Jesus. Tudo isso parece adumbrar o tema “sacrificial”, ou seja, seria lembrada a necessidade de uma “mortificação”, de um “sacrifício” como condição preliminar para que a experiência do Graal não seja letal. Contudo, em outros textos, um tal tema se cruza com o da vingança: a lança, com seu sangue, recorda uma vingança que o predestinado deve cumprir: só então se terá, junto com o cumprimento do mistério, a paz, o fim do estado crítico de um reino. Em relação a esta variante, a restauração assume o caráter de uma reafirmação, de uma retomada vitoriosa da mesma força ou tradição, que outros assumiram, mas caíram ou foram feridos. O tema “sacrificial” cristão, a tal ponto, se retifica em um sentido mais viril, a ser considerado, também neste caso, como originário. Em Vaucher, o ferro da lança se encontra cravado no corpo de um cavaleiro morto. Quem o extrai, deve vingá-lo. E o vingador é o restaurador. Em todo caso, de um sangue de caracteres enigmáticos — sangue de redenção, de sacrifício ou de vingança — se passa ao sangue como sangue regale, e a lança, no final, conduz à “paz triunfal”. A veia central, solar, da tradição aqui estudada, sempre de novo, relampejando através dos labirínticos meandros do simbolismo e da opacidade das estratificações, se reconforma.

O tema la pes sera pas ceste lance se encontra já na saga céltica de Peredur ab Evrawc junto com o da vingança, e por essa via provavelmente influiu nos relatos do Graal. Como Parsifal, o herói Peredur é amaldiçoado por não ter “feito a pergunta”, o que, aqui, significa: por não ter perguntado sobre a “lança extraordinariamente grande” de onde brotam três correntes de sangue. Em algumas formas da saga, o castelo onde se encontram estes objetos se confunde com um segundo castelo cujo rei é um cavaleiro manco já grisalho. Peredur declara: “Pela minha fé, não terei mais noites tranquilas antes que eu conheça a história da lança”, e a explicação, com a qual a saga se conclui, é que as mulheres amazonas sobrenaturais de Kaerlayw tinham ferido um rei, o qual se revela ser o cavaleiro manco grisalho, matando-lhe o filho, a quem corresponde a cabeça decepada. Peredur se dirige significativamente a rei Arthur e com ele cumpre a vingança, extermina as mulheres sobrenaturais, com o que o rei manco readquire a saúde e o reino, a paz. Aqui é interessante em primeiro lugar relevar que as mulheres reconhecem em Peredur “aquele que tinha estado em sua escola para aprender a cavalaria mas que era destino que devesse matá-las” — o inteligente leitor entenderá facilmente o que isso quer dizer; e, quanto à “ferida” do rei causada pelas mulheres, ele poderá recordar o que já dissemos, de um duplo ponto de vista interpretativo, a propósito da ferida de Amfortas.

Mais em geral, aqui se tem o aspecto, segundo o qual o tipo “heroico” é sempre o superador da “mulher”. A amazona, simbolicamente, não é outra coisa senão o princípio feminino enquanto usurpa uma função de domínio; e se o “herói” necessita da mulher e através dela se torna tal, ele deve também destruir nela os traços segundo os quais — na nossa lenda — ela foi fatal para a dinastia precedente. Em segundo lugar, a qualidade que torna possível a vingança e, em geral, a missão de Peredur, se conecta àquela prova da espada, da qual já sabemos no que diz respeito a rei Arthur e que teremos de encontrar ainda repetidamente. No castelo do ancião, Peredur tinha de fato quebrado sua espada ao bater em um poste de ferro, mostrando-se capaz de soldar de imediato os pedaços, mas, depois de duas vezes, na terceira prova, a espada permanece em pedaços, e o velho rei diz: “Você não possui senão os dois terços da força, lhe resta conquistar o último terço. Quando o tiver inteiro, ninguém será capaz de competir com você.” Esta carência no contexto da saga, aparece implicitamente como a causa, pela qual Peredur “não faz a pergunta” e, portanto, nem mesmo concebe a tarefa da vingança. Trata-se de três graus de uma prova, que poderia ser assinalada pela fórmula “Percutido, ressuscito”: capacidade de retomar e reafirmar uma energia, quebrada — se se quer, “sacrificialmente” (de onde, eventualmente, também uma reconexão com o tema cristão) — em um primeiro tempo, ou seja, em uma sua forma elementar material. Quanto à “vingança”, ela é um tema que provavelmente tem relação com algum elemento histórico absorvido pela saga, à “ferida” do rei correspondendo sempre alguma prevaricação de forças ou correntes que lhe usurparam ou tentaram usurpar a função. A forma completa da saga então segue este esquema: o sangue que goteja da lança pede vingança; recompor a espada quebrada é a primeira tarefa, ela conduz a “fazer a pergunta”, e daí procedem finalmente a vingança, a restauração, a glorificação. Então a lança se torna um símbolo luminoso de paz.

Os temas fundamentais da antiga saga céltica de Peredur correspondem exatamente aos da saga de Parsifal, que, portanto, também por essa via remete a elementos antigos, de origem e espírito não-cristão. Um último referência nesse sentido pode ser indicada na Destruction of Dà Dargas Hostel e no Musca Ullad, antigas lendas célticas onde, entre outras coisas, figura igualmente uma poderosa e letal lança junto a um recipiente contendo sangue misturado a uma substância venenosa flamejante. A lança, logo que imersa neste recipiente, extingue as chamas. Em Wolfram, Amfortas deve o tormento de sua ferida e a insanabilidade dela a um veneno ardente do qual o ferro da lança estava coberto — e nisso, é dito: “Deus manifestou seu poder maravilhoso e terrível.” É o equivalente da substância sanguínea envenenada e ardente, da qual na antiga saga céltica agora citada, substância que a lança, em seu aspecto positivo (aspecto “cetro”), resolve, apaga, diríamos quase segundo a mesma conjuntura, pela qual Héracles como herói olímpico se torna o libertador do herói titânico Prometeu. As trevas e a tragédia então se desvanecem, se desperta a “memória do sangue”, hiperbórea, servindo de custódia para a espada. Se realiza o mistério do “Sangue Real”.

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