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EXISTÊNCIA, PROJEÇÃO NO MUNDO

Cavalgar o Tigre

  • O existencialismo de Heidegger define o ser-aí (Dasein) como uma nua possibilidade de ser lançada no nada, na qual a angústia metafísica surge não do medo de perigos externos, mas da percepção da natureza problemática do próprio ser que ainda não é, podendo vir a ser ou falhar nessa atualização.
    • Diferenciação entre o medo (físico e externo) e a angústia (ontológica e interna)
    • O indivíduo como um projeto lançado cujas potencialidades são incertas
    • Caracterização do Dasein como uma existência traumatizada e sem base prévia
    • Incompreensibilidade desse estado de angústia para o tipo humano integrado
  • A ausência de uma base metafísica preexistente no existencialismo secular conduz à tese de que o ser só se realiza no tempo, resultando em uma transcendência puramente horizontal onde a historicidade é a condição absoluta da natureza humana.
    • Conceito de êxtase horizontal na temporalidade em Heidegger
    • O devir como única fonte para a busca do próprio ser
    • Limite extremo de uma filosofia da crise integrada ao niilismo moderno
    • Insignificância da existência inautêntica e socializada diante do tempo
  • O homem integrado deve excluir a temporalidade limitadora e a ideia de ser um mero projeto realizável, relativizando a natureza problemática do ser, uma vez que sua dimensão transcendente não está em jogo e prescinde da angústia sentida pelo tipo humano fragmentado.
    • Rejeição do valor fundamental do ser-no-mundo para o homem de tradição
    • Definição da modalidade determinada do ser como algo reconhecido e assumido, não incerto
    • Dissolução da angústia metafísica através da solidez da constituição interna
  • O conceito de projeto no existencialismo admite implicitamente um ato pretemporal não dedutível que determina o esquema da existência, assemelhando-se a temas da metafísica tradicional sobre a natureza própria (svadharma), mas invertendo a relação ao afirmar que a existência precede a essência.
    • Referência à predeterminação atemporal em Plotino e nas doutrinas hindus
    • Conexão entre o projeto original e o rosto original do pensamento extremo-oriental
    • Crítica à inversão existencialista: a essência deveria designar a preformação potencial a ser realizada na autenticidade
  • Sartre reconhece um projeto fundamental derivado de uma liberdade original que sustenta todos os planos particulares, comparando a escolha inicial ao lançamento de uma bola na roleta, onde tudo já está decidido antes que as circunstâncias tragam os fatos à luz.
    • Existência de uma síntese unitária de possibilidades latentes no ser
    • Analogia entre a escolha atemporal e o amor fati ou o estado dionisíaco
    • Bloqueio da consciência existencialista para o caminho de retorno ao absoluto
    • Sensação de que as apostas já estão feitas no momento da decisão racional
  • O existencialismo reflete um contraste entre a liberdade vazia fundada no nada e um destino primal que anula essa liberdade, espelhando a sensação interna de uma era de dissolução onde a determinação absoluta convive com a ausência de sentido.
    • Conflito entre a liberdade sem forma e a determinação fatalista
    • Caráter ilusório da liberdade diante de uma predeterminação impenetrável
    • Espelhamento das tensões psíquicas do homem moderno desenraizado
  • Os conceitos de decisão (Entschlossenheit) e de instante em Heidegger apresentam apenas uma correspondência exterior com a conduta do homem de tradição, assemelhando-se mais à teologia teísta que limita a liberdade à aceitação ou recusa de uma vontade superior já dada.
    • A decisão como despertar da vivência anódina e semiconsciente
    • O instante como abertura ativa para a realização de possibilidades
    • Paralelismo entre a liberdade existencialista e o livre-arbítrio da criatura perante o Criador
  • O existencialismo de orientação religiosa, como o de Jaspers, limita a liberdade à atuação de um projeto imutável, culminando em uma passividade frente às situações-limite e em uma dependência absoluta da divindade sentida como uma exigência incerta.
    • Imperativo moral de ser fiel a si mesmo como obediência a um dado
    • Definição do mal como a vontade que contradiz a escolha primordial
    • Abdicação da soberania individual em favor do Fiat Voluntas Tua cristão
  • Heidegger recorre ao conceito de voz da consciência como um apelo que vem de cima do eu, falhando em reconhecer a relatividade desse fenômeno já demonstrada pela crítica niilista e mantendo uma passividade na experiência do Dasein.
    • A consciência como chamado contra a distração da vida inautêntica
    • Falta de valor normativo ou objetivo na voz da consciência
    • Permanência em um estado de entrega ao enigma inexorável do ser-aí
  • Enquanto Sartre vê a mudança do projeto original como uma ameaça abissal constante, a perspectiva tradicional sustenta que tais despertares são a confirmação suprema da liberdade e da transcendência como soberania, distinguindo-se radicalmente da angústia de Jaspers.
    • Ameaça abissal versus legitimação suprema da autonomia
    • O despertar como segundo grau do conhecimento de si
    • Oposição entre o controle absoluto do Dasein e o vacilo existencialista
  • A exigência incondicionada de Jaspers, embora assemelhada à ação pura, reintroduz categorias morais de bem e mal no terceiro nível, onde a vontade de destruição niilista é condenada em favor de um amor que cria relações com a transcendência.
    • Persistência do moralismo social e religioso sob a máscara do incondicionado
    • Incapacidade de conceber uma ruptura de descondicionamento que inclua a dureza ou a lei própria
    • Limitação do sistema de Jaspers perante a verificação da soberania ontológica
  • O existencialismo falha em resolver o problema da relação central com a transcendência, sentindo a existência e o Dasein como uma queda, uma falta ou uma dívida irracional (Schuld), fruto de uma liberdade da qual não se tem a chave.
    • Influência de resíduos religiosos sobre as ideias de pecado e queda em Heidegger e Sartre
    • Analogia com o pessimismo órfico e schopenhaueriano sobre o ser lançado ao mundo
    • Angústia causada pela responsabilidade por uma escolha atemporal incompreensível
  • A noção de que a determinação do ser é uma culpa decorre de uma visão descentrada da transcendência, típica de quem se sente separado do princípio de sua própria escolha e experimenta a liberdade como uma condenação alheia.
    • Axioma de Espinosa sobre a determinação como negação aplicada à culpa de existir
    • Absurdidade de sentir-se devedor por ter escolhido uma direção e excluído outras
    • Diferença entre a neurose da angústia existencial e a transparência do fundamento (Grund) no homem livre
  • A verdadeira infinitude é poder de autodeterminação e afirmação do limite, não uma flutuação indeterminada no possível; a visão tradicional grega via na forma a perfeição e o reflexo do Absoluto, contrariamente ao conceito de existência como falha.
    • O infinito como livre potência de definição
    • Valorização da forma e do limite como manifestações de completude
    • Crítica à visão da finitude como pecado ou queda substancializada
  • O existencialismo apela a um tipo humano de vontade fraturada, incapaz de reunir a liberdade pretemporal da origem com a liberdade da situação presente, mantendo-se em uma dialética paradoxal e trágica entre o eterno e o temporal.
    • A imagem da espada quebrada como símbolo da separação entre o homem e sua origem
    • Incapacidade de Jaspers em possibilizar-se através do conhecimento da escolha original
    • A aceitação kierkegaardiana do fragmento e do acaso contra a restauração da unidade
  • A transcendência no existencialismo atua como um convidado de pedra que paralisa e angustia, alimentando complexos de culpa, náusea e desraizamento, sendo apenas um prolongamento da crise do mundo religioso em vez de uma abertura afirmativa.
    • Projeção externa da transcendência resultando em dependência e insegurança
    • Falta de uma fundação de calma e decisividade absoluta na ação
    • Contaminação da filosofia por sentimentos de abandono e solidão perante Deus (Barth, Kierkegaard)
    • O perigo de ser destruído por sentimentos de liberdade sem possuir a estatura necessária para sustentá-la
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