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CONHECIMENTO E PODER

Ioga do Poder

  • Tantrismo e a ênfase no autofortalecimento e no conhecimento tradicional
    • Recuperação e ênfase no “conhecimento tradicional” de natureza metafísica em oposição à profana.
    • Presença desse conhecimento nas origens das civilizações tradicionais superiores, anteriores ao advento da civilização moderna.
    • Necessidade de esclarecer as implicações desse tipo de conhecimento.
  • A natureza da revelação (shruti) na tradição hindu
    • Compreensão da metafísica hindu baseada na “revelação” (shruti), distinta da concepção das religiões monoteístas.
    • Shruti como exposição do que foi “visto” e revelado pelos rishi, indivíduos de elevada “estatura” que fundamentam a tradição.
    • Etimologia de rishi a partir de dric (“ver”), significando “aquele que viu”.
    • Os Vedas como fundamento da tradição ortodoxa hindu e a relação etimológica entre Veda e o radical vid (“ver”, “saber”).
    • Paralelo ocidental no conceito de “ideia” na Hélade, com a raiz id análoga ao sânscrito vid.
    • A tradição como registro e proposta da visão direta dos rishi em um plano superindividual e super-humano.
  • Atitudes possíveis perante o conhecimento revelado
    • Comparação com a atitude perante um explorador ou um físico que apresenta descobertas.
    • Possibilidade de crença, confiando na autoridade e veracidade do interlocutor.
    • Possibilidade de verificação pessoal da verdade anunciada, através da reprodução da experiência.
    • Caráter experimental do conhecimento metafísico tradicional, que oferece os meios para sua verificação direta.
    • Contraste com a filosofia moderna e aproximação com a cognitio experimentalis dei da mística cristã, embora com diferenças de fundo (emocional/noético, religioso/metafísico).
  • A orientação prática dos Tantras como sadhana-shastra
    • Afirmação tantrica da inutilidade da mera exposição teórica da doutrina.
    • Importância central do método prático de autorrealização (sadhana) e dos meios rituais para o reconhecimento de verdades ocultas.
    • Definição dos Tantras como sadhana-shastra, onde sadhana implica esforço, treinamento e atividade para alcançar um resultado.
    • Citação de um autor tântrico: “At the present time the general public are ignorant of the principles of the Tantra Sastra. The cause of this ignorance is the fact that the Tantra Sastra is a Sadhana Sastra, the greater part of which becomes intelligible only through Sadhana.”
  • A necessidade da transformação pela ação (kriya)
    • Insuficiência da teoria da identidade entre atman e brahman sem a prática transformadora.
    • Negação do valor do conhecimento puramente teórico.
    • A ação (kriya) como palavra de ordem para a obtenção do verdadeiro conhecimento.
    • Expressão no Budismo Tântrico (Vajrayana) através do símbolo da união sexual entre o “caminho eficaz” (upaya), de papel masculino, e o conhecer.
  • A aplicação do ponto de vista experimental ao culto (puja) e às ciências da natureza
    • Extensão do experimentalismo tântrico ao culto e ao conhecimento da natureza.
    • Noção de que não se pode adorar um deus sem “tornar-se” esse deus, substituindo o dualismo religioso pelo experimentalismo.
    • Oposição entre o conhecimento “tradicional” e o conhecimento científico moderno, seguindo tradições anteriores.
  • A perspectiva moderna de conhecimento e suas limitações
    • Apreensão da realidade apenas através dos sentidos físicos e instrumentos científicos (aspectos “fenomênicos”).
    • Caráter indireto, condicionado e abstrato do conhecimento científico, carente de intuição ou evidência intrínseca.
    • A filosofia moderna como abstração e especulação conceitual, destituída de realidade.
    • Abandono do ideal de “visão” direta da realidade (intuitio intellectualis).
    • A filosofia crítica de Kant e a intuição intelectual como faculdade negada ao homem, limitando-o ao conhecimento sensorial e científico.
  • A superação das limitações no ensinamento esotérico hindu
    • Possibilidade de superar a limitação através de métodos como os do yoga clássico (yoganga).
    • Visão de uma realidade única e multidimensional, acessível através de uma hierarquia de experiências.
    • Preservação do ideal de conhecimento direto (sakshastra, aparokshajnana), de experiência real e evidência imediata (anubhava).
    • Acesso a níveis superiores de realidade por parte do rishi, do yogi ou do siddha tântrico, em um experimentalismo integral e transcendental.
    • Distinção entre um método relativo e condicionado de perceber a realidade e um método absoluto.
  • A conexão entre epistemologia tradicional e as preocupações do Tantrismo
    • Dependência do conhecimento superior em relação à autotransformação e a uma mudança existencial e ontológica de nível.
    • Centralidade da ação (sadhana) nesse processo.
    • Contraste com o conhecimento moderno, que confere poder prático, mas não altera a condição humana existencial.
  • O conhecimento científico moderno e a condição humana inalterada
    • Aplicações técnicas da ciência com consequências materiais impressionantes, mas sem mudança na situação existencial do homem.
    • Elementos fundamentais da física como entidades algébricas abstratas, sem imagem intuitiva ou conceito.
    • Relação inalterada com os fenômenos naturais após o conhecimento científico.
    • Dessacralização e petrificação do mundo em meras aparências mudas pela formação científica moderna.
    • Restrição das experiências qualitativas ao domínio estético e lírico, sem valor científico ou metafísico.
  • O poder (shakti) como alibi da ciência moderna e sua concepção no Tantrismo
    • Reivindicação de poder como prova da validade da ciência moderna.
    • Distinção entre um poder relativo, externo, inorgânico e condicionado (o da tecnologia) e o poder verdadeiro.
    • Poder tecnológico como algo precário, que não representa uma posse do Eu e não altera a condição humana.
    • Vulnerabilidade do homem moderno sem suas máquinas, devido à atrofia de suas verdadeiras forças.
  • O poder autêntico como aquisição direta de seres superiores
    • Poder que dobra, muda e suspende as leis naturais, em oposição ao poder tecnológico que as obedece.
    • Condição para esse poder: a superação da condição humana, do limite representado pelo “Eu físico” (bhutatman).
    • O axioma de todo yoga e sadhana tântrica como a superação do homem.
    • Siddhis como consequência natural de um status existencial e ontológico superior, e não como objetivo final.
    • Siddhis como “perfeições”, características de uma superioridade espiritual, intransferíveis e não “democratizáveis”.
  • O hiato entre o mundo tradicional e o moderno: conhecimento e poder “democráticos” versus “esotéricos”
    • Conhecimento e poderes modernos como disponíveis a qualquer um através de treinamento institucional, sem envolver o núcleo do ser.
    • “Democratização” como princípio orientador da organização da ciência e tecnologia modernas.
    • Diferenciação real dos seres como condição para um conhecimento e poder inalienáveis, intransferíveis e exclusivos por sua própria natureza.
    • Oportunidades inferiores desenvolvidas no Kali Yuga em contraste com as orientações superiores das civilizações tradicionais.
  • Considerações introdutórias sobre a ciência da natureza tradicional
    • Exclusão das qualidades secundárias pela ciência moderna e foco nas qualidades primárias (extensão e movimento).
    • Desenvolvimento na Índia de uma física qualitativa-psicológica, com “átomos” (paramanu) e “elementos” (mahabhuta, tanmantra) correspondentes a qualidades sensoriais.
    • Esses princípios como objetos potenciais de experiência direta através de faculdades desenvolvidas pelo yoga e sadhana.
    • Evidência especial ou iluminação correspondente à percepção desses princípios.
  • O grau liminar do conhecimento superior e a metafísica tântrica da shakti
    • Estado de samadhi no Jnana yoga como identificação entre ser e conhecer, superando a oposição sujeito-objeto.
    • A essência como shakti (poder) na metafísica tântrica, conectando-se com a doutrina dos siddhis.
    • Processo cósmico de explicitação, obnubilação, despertar e união da Shakti com o princípio masculino (Shiva).
    • Repetição desse processo no praticante do hatha yoga tântrico como base de uma doutrina da certeza.
  • A crítica tântrica ao Vedanta de Shankara e a doutrina da maya
    • Argumento de um comentarista tântrico: as coisas são poder e a “força de uma coisa não espera pelo reconhecimento intelectual”.
    • Citação: “karma, a força da ação, forçá-lo-á a acreditar nela [no mundo]”.
    • Fim dos problemas metafísicos apenas com a ativação do princípio Shiva no indivíduo através da sadhana.
    • Citação sobre a Escritura como meio: “Toda Escritura é apenas um meio. Não é útil para aquele que ainda não conheceu a Devi [deusa = Shakti] e não é útil para aquele que já a conheceu.”
    • Menção ao tema Upanishadico de abandonar os livros após atingir o verdadeiro conhecimento.
  • A polêmica contra a doutrina da maya e a reafirmação da concretude tântrica
    • Crítica à doutrina vedantina de Shankara que considera o mundo como falso (maya) em relação ao nirguna-brahman.
    • Argumento dialético: se o vedantino é um ser humano finito (jiva), ele próprio é maya, e assim também sua doutrina.
    • Afirmação tântrica de que o mundo é maya apenas do ponto de vista do brahman ou do siddha, mas não da consciência finita comum.
    • Impossibilidade do yoga e da sadhana se houver um hiato absoluto entre o princípio supremo e o mundo.
    • Citação de um comentário à Isha-Upanishad: “é impossível que algo se transforme em sua própria contradição”.
    • Questionamento: “Somos mente e corpo: se a mente e o corpo (por pertencerem ao mundo da maya) são falsos, como se pode esperar alcançar através deles aquilo que é verdadeiro?”.
    • Necessidade de uma certa continuidade entre o indivíduo e o princípio para possibilitar a realização espiritual.
    • Formulação tântrica de uma doutrina do “brahman ativo” através da noção de shakti e do reformulação da teoria da maya.
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