Action unknown: copypageplugin__copy
evola:masculino-feminino
MASCULINO E FEMININO NA MANIFESTAÇÃO
-
Nos parágrafos anteriores, passamos já mais de uma vez da consideração estática do masculino e do feminino como princípios, categorias ou formas divinas, à consideração dinâmica dos dois como poderes que mantêm diferentes relações.
-
Se queremos tratar mais especificamente este aspecto particular, impõe-se previamente uma precisão importante.
Não há nenhuma doutrina metafísica e tradicional completa que tenha considerado a Díada como supremo ponto de referência da visão do mundo.-
Para além do yin e do yang, a tradição extremo-oriental conhece a “Grande Unidade”, Tai Yi, ou Tai ki.
-
Plotino fala do Um superior e anterior à dualidade divina do nous e da hyle, do ser e da potência-vida.
-
O tantrismo conhece o Nirguna-Brahman, ou outro princípio equivalente, para além da díada Shiva-Shakti, e assim sucessivamente.
-
E isso precisamente é o que faz que não se lhes possa reconhecer igual dignidade aos dois princípios.
-
O princípio masculino, o yang, Shiva ou o ser enquanto termo da Díada, reflete o Um, o ser transcendente; representa e encarna esse Um no processo da manifestação universal, na relatividade, na corrente das formas (em qualidade de Logos em Plotino).
-
Quanto à Natureza, pode dizer-se, em termos teológicos, que não é um princípio coexistente com Deus, mas que deriva de Deus e que por tanto tem uma “realidade segunda”.
Daí uma preeminência de direito, ontológica e metafísica, do masculino sobre o feminino, o qual não quer dizer, no entanto, que lhe corresponda sempre uma preeminência de facto.-
A primeira fase da manifestação, pelo contrário, unicamente pode estar caracterizada pela liberação e a ação da força feminina desprendida, a qual, precisamente por isso, prevalece sobre o princípio do ser puro e do idêntico; este predomínio manter-se-á em toda a fase que podemos denominar descendente ou de emanação, no proodos plotiniano, no pravritti-marga, ao qual nos temos referido quando falávamos das duas vias, a da Mão Direita e a da Mão Esquerda.
-
Esta fase desenvolve-se até um limite marcado por um equilíbrio dos dois princípios, imediatamente seguido de uma viragem, de uma crise ou rutura.
-
A potência, a Shakti, pode liberar-se ou dispersar-se no ilimitado, ou bem pode ser progressivamente recuperada e dominada pelo princípio oposto em formas e situações nas quais este último predomina cada vez mais, até uma posse completa e transparente do “devindo”, levado pelo feminino, no masculino, despertador de todo devir, e até uma síntese superior que reproduz de certa forma a unidade primordial.
-
Esse é o possível arco ascendente passado o ponto mais baixo do ciclo, arco pelo qual a tendência se orienta para o que pudera chamar-se, com um termo cristão, a “consumação”, que pode pôr-se em relação com a “Via da Mão Esquerda” e que tem que ver com Shiva em sentido próprio, ou seja, enquanto deus da “transcendência”; enquanto que a primeira fase tem que ver com Shakti, mas também com as divindades da criação e da preservação (Brahma e Vishnu).
É importante destacar que estas distintas fases não há que concebê-las em forma de sucessão temporal, mas como multiplicidade de situações possíveis, com distintos tipos de relação entre o masculino e o feminino, entre forma e matéria, entre Céu e Terra, entre yang e yin, conforme a um predomínio, já do primeiro princípio, já do segundo.-
São situações que encontramos um pouco por todas as partes: no cosmos e os períodos cósmicos; na história e as épocas da história; na estrutura e o espírito dos cultos, das civilizações e das sociedades; no caso destas últimas, em forma de oposição entre civilização do Pai e civilização da Mãe, entre culturas androcráticas e culturas ginecocráticas, entre instituições fundadas no puro direito paterno e culturas matriarcais.
-
Situações, finalmente, que encontramos também nos indivíduos: porque é o predomínio de um ou outro princípio o que origina a sexualização (como sexo tanto do corpo como da alma), o que causa os “homens” e as “mulheres”.
-
De modo que os conceitos aqui expostos, que podem parecer abstratos, proporcionam na realidade os fios condutores fundamentais para orientar-se no estudo de todas as dimensões da realidade.
Cabe assinalar que detrás de muitas versões do mito da “queda” costuma ocultar-se a ideia de uma identificação e uma perdição do princípio masculino no princípio feminino (ou “cósmico”), até o ponto de que o primeiro termina por adotar o modo de ser do segundo.-
Isso produz-se necessariamente durante a primeira fase da manifestação, fase que para o ser puro não pode ter outro sentido que o de um estado de esquecimento, de obscurecimento .
-
Diz-se no Corpus Hermeticum: “Ainda que macho-fêmea (andrógino) como o Pai [como o “Um”, do qual o macho é um reflexo] e superior ao sono, é dominado pelo sono”.
-
O despertar, o regresso a si mesmo (em termos soteriológicos: a “redenção”, a “cura”) somente poderá produzir-se nas situações da segunda fase, a fase ascendente ou shivaica.
-
Mas isso pressupõe a superação do ponto de rutura, a vitória sobre a resistência oposta pela força feminina constringente ou tendente ao ilimitado; reclama a rutura do nível “cósmico”.
Seria longo enumerar os mitos típicos que expressaram este conjunto de ideias.-
Já aludimos, por exemplo, à concepção cabalística do exílio da Shekinah, símbolo do estado de “rutura” no reino das potências divinas (é a fase da desligadura, do “ser para si” da Shakti cosmogónica), e à concepção paralela de Sabbat eterno no qual tudo será reconduzido à sua raiz original: trata-se de um estado entendido como reunião do Santo com a sua Shekinah; as bodas do Santo e a Shekinah restabelecerão a unidade do Nome Divino destruído com a queda.
-
A isso, segundo a tradição em questão, haveria de ir encaminhado todo preceito sagrado, até o ponto de que a fórmula pronunciada pelos hasidim antes de cumprir todo mandamento é: Lechem jichud Kutria, berich Hu u-Shekinte (“Em nome da unidade do Santo — bendito seja — com a sua Shekinah”).
No gnosticismo cristão, encontramos o tema das peripécias da Sofia cósmica no mundo inferior até que a despose Cristo, o Logos, o que reflete ou “leva” o Um (o “filho” do ser transcendente), e a devolva ao mundo da luz.-
O contexto simbólico segundo o qual Simão o Gnóstico via na mulher que tinha escolhido — Helena (Selene, a Lua), antiga prostituta a que converteu na sua esposa — a encarnação de Sofía, é verdadeiramente transparente.
-
Num plano mais geral, da gnose de Marção fica-nos este importante fragmento: “Eu sou o filho do Pai, que está para além de toda existência, enquanto que eu estou na existência. Eu vim [à existência] para ver [as coisas] minhas e não minhas [estas coisas hão de relacionar-se, respectivamente, com o masculino e o feminino da Díada primigénia] e também não inteiramente minhas [na fase de emanação], porque eu sou de Sofia, que é a [minha contraparte] feminina, e ela as fez para si mesma. Mas eu atribuo o meu nascimento àquele que está para além da existência e regresso ao princípio de onde vim”.
-
As distintas fases, ou situações, estão bem indicadas no ensino dos Mistérios, referido por Ireneu, acerca de Adamas, o “inquebrantável”, também chamado “pedra de fundamento” e “homem glorioso”.
-
Fala-se da última barreira que em todo homem encontra o homem interior, o homem que deriva do arquétipo celeste, Adamas, o qual, “caído numa obra de argila e creta”, “esqueceu-se de tudo”.
-
Estes ensinos, pois, que se referem à mitologia clássica, falam da dupla direção, do fluxo e o refluxo em sentido oposto, de Oceano, das Águas, cujo efeito é o nascimento dos homens num caso, e dos deuses no outro (trata-se respectivamente das situações da fase descendente e da fase na qual as Águas são contidas e devolvidas ao céu, de modo que termina então o “reino da mulher”); e diz-se: “Em primeiro lugar, há a bem-aventurada natureza do homem celestial, Adamas; logo, a morte natural aqui em baixo; em terceiro lugar, há a raça dos sem rei que ascendeu ao céu, onde está Mariam, a que é buscada [o feminino como princípio de reintegração]”.
-
O ser produzido pela corrente rejeitada para o alto é chamado o “homem andrógino, arsenothelus, que está em cada um”.
-
Fala-se finalmente de duas estátuas de homens desnudos itifálicos (com o phallus ereto) do templo de Samotrácia, que são interpretadas, uma como imagem do macho primigénio, Adamas, e a outra como imagem do homem renascido, “que é em tudo e para tudo de igual natureza que o primeiro”.
Esta sabedoria sobreviverá sem mudanças na tradição hermética, na Idade Média e ao começo dos tempos modernos.-
Pernety fala da “Prostituta”, identificada com a Lua, que a Arte Régia devolve ao estado de Virgem; fala da “Virgem, animada pelo sémen do primeiro macho e que, unida a um segundo macho [o homem como representante do macho primigénio que fecundou no princípio a substância-vida], conceberá de novo por meio do sémen corporal deste, dando finalmente à luz um filho hermafrodita que será a fonte de uma raça de reis muito poderosos”.
-
Trata-se do mesmo mistério que, quando falávamos da tradição extremo-oriental, denominávamos o “mistério do Três”, pelo qual o Um, unido ao Dois feminino, regressa a si mesmo.
-
O símbolo hermético do “filho que engendra a Mãe” e a curiosa expressão de Dante a propósito da Virgem — “Virgem Mãe, filha do teu filho” — podemos relacioná-los com a retificação ou transmutação da polaridade do feminino, implícita em tudo isso.
Respeito ao primeiro ponto, o tema que descobrimos isolado em Platão, e que nos serviu de fundamento para compreender a metafísica do eros — ou seja o mito do andrógino — apresenta-se, pois, integrado num contexto que possui carácter universal e que se define com arranjo a um trasfundo cósmico.-
Por isso talvez não careça de interesse proporcionar documentação complementar a respeito.
O Corpus Hermeticum fala do estado de androginia primigénia, que desaparece num momento dado, quando, diz o texto: “cumpriu-se o período”; tomam forma então o macho por um lado e a fêmea por outro.-
À parte a já mencionada doutrina da Shekinah, a exegese cabalística do Génesis fala do mesmo tema.
-
Segundo o Bereshit Rabbâ (I, i, 26), o homem primigénio é andrógino.
-
A mulher sacada de Adão chama-se Aisha, por estar sacada de Aish (o homem); logo, Adão dá-lhe o nome de Eva (a vida, a viva), porque ele pode regressar à unidade através dela.
-
Neste texto, como mais tarde em Maimônides, encontramos a fabulação platônica do ser dividido em duas partes, e o tema, que há que entender no plano metafísico, do ser “que num aspecto é um e no outro aspecto é dois”.
-
León Hebreo (Yehudá Abardanel), além disso, fará referência explícita a Platão, tratando de remeter a doutrina do andrógino ao mito bíblico da queda do homem primigénio e conservando a interpretação platônica do sentido mais profundo de todo eros.
-
O facto de o homem deixar a pai e mãe para unir-se à mulher, formando com ela uma só carne — como se diz na Bíblia — explica León Hebreo como a tendência das duas partes, às quais o ser das origens deu nascimento por dissociação, a recompor a unidade original, posto que os dois “foram divididos a partir de um mesmo indivíduo”.
Este tema, que se origina nos Mistérios, não foi ignorado pelos representantes da patrística grega, de onde passou, provavelmente por intermédio de Máximo o Confessor, a Escoto Erígena, a quem devemos uma formulação digna de mencionar-se.-
Ensina Escoto que “a divisão das substâncias começa em Deus mesmo e define-se através de um descenso progressivo até esse termo que é a divisão entre homem e mulher. Por isso a reunificação das substâncias há de começar-se no homem e percorrer as mesmas etapas até Deus, em quem não há divisão, pois nele tudo é um . A unificação das criaturas, pois, nasce no homem”.
-
Como em Plotino, também em Escoto apresenta-se o tema metafísico em termos morais, relaciona-se com a “queda” (já vimos a que corresponde este conceito, metafisicamente falando: à situação ontológico-dinâmica da fase descendente ou de emanação).
-
Também ensina Escoto que “se o primeiro homem não tivesse pecado, a sua natureza não teria sofrido a diferenciação sexual”, pois esta só apareceu após a queda.
-
Daí a contrapartida escatológica: “À reunificação do ser humano sexualmente dividido na sua unidade original, na qual não havia nem homem nem mulher, mas simplesmente ser humano, seguir-se-á a reunificação do mundo terrestre com o paraíso no momento da consumação dos tempos”.
-
Afirma que Cristo anunciou esta reunificação restauradora da dignidade ontológica original do ser.
-
Escoto evoca a tradição legada pelos Mistérios e cita a respeito a Máximo o Confessor, segundo o qual Cristo uniu na sua natureza os sexos divididos, e na sua Ressurreição não era “nem homem nem mulher, ainda que tinha nascido e morrido homem”.
-
Pela graça da redenção, o homem também recebeu a capacidade virtual de realizar esta obra.
Em Escoto Erígena, estas abordagens unicamente têm carácter doutrinal e escatológico.-
Não há nenhuma referência ao eros como possível instrumento da reintegração, nem a nenhuma prática concreta.
-
Em cambio, cabe pensar que o mistério da androginia recolheu — com a maior fidelidade à tradição iniciática na qual tinha aparecido já antes do cristianismo — a tradição hermético-alquímica, e isso no plano operativo.
-
Desde o começo, desde os textos helenísticos, esta tradição tinha remetido a essência da Grande Obra à união do masculino e do feminino.
-
Na literatura medieval, assim como nas suas prolongações até um período relativamente recente, a tradição em questão concede grande importância ao enigmático símbolo do Rebis, que remete ao “ser duplo”, ao ser andrógino que reúne em si as duas naturezas, a masculina e a feminina, a solar e a lunar.
-
De entre todas as figuras andróginas, pode destacar-se, pois é muito expressiva, a figura que corresponde ao epigrama XXXIII do Scrutinium chymicum de Michel Maier, com a seguinte legenda: “O hermafrodita, como morto, já jaz nas trevas, tem necessidade do Fogo”.
A seu devido momento já voltaremos a falar dos ensinos práticos, ou suscetíveis de aplicações práticas no quadro da magia sexual, que se referem a este tema.-
Para concluir esta digressão, indicaremos somente que, na linha desta mesma tradição, a associação estabelecida por Escoto Erígena entre Cristo e o andrógino volta a aparecer em Khunrath.
-
A tabela II do seu Amphitheatrum Eternae Sapientiae (1606) mostra de facto o Adão-Eva regenerado como andrógino, acompanhado desta legenda: “O homem que rejeita o binário [a Díada], revestido de Cristo, imitando a Cristo — Homo binarium repellens, Christo indutus, et eum imitans”.
-
O mesmo tema aparece de forma ainda mais explícita na tabela III da mesma obra.
-
Esta tabela representa a “pedra filosofal”: na sua parte central está o Rebis, Hombre-Mulher, Sol-Lua, com a fórmula Etiam mundos renovabitur igne.
Podemos recordar finalmente que a existência de um esoterismo em Leonardo da Vinci é dificilmente discutível.-
Pois bem, resulta que o tema do hermafrodita desempenha um papel importante nos seus quadros, pelo menos nos mais significativos, que evocam a São João e a Baco (Dioniso).
-
Vê-se neles, além disso, um símbolo enigmático e recorrente, como uma espécie de “signatura”: a aquileia, planta que se considerava andrógina.
evola/masculino-feminino.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
