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evola:sexo-mitologia

MITOLOGIA, ONTOLOGIA E PSICOLOGIA

METAFÍSICA DO SEXO

  • O tema de uma dualidade ou polaridade original, associada à dos sexos, aparece em quase todas as partes nos ensinamentos do mundo tradicional.
    • É uma dualidade que se apresenta umas vezes em termos puramente metafísicos, e outras vezes aparece na forma da dualidade de figuras mitológicas, de elementos cósmicos, de princípios, de deuses e deusas.
    • Até há pouco tempo, a história das religiões interpretava isto como um caso evidente de antropomorfismo: como o homem tinha criado os deuses à sua imagem e semelhança, teria transferido e projetado neles a diferenciação sexual própria dos mortais deste mundo.
    • Assim, todas as díades e dicotomias divinas considerava-se que eram apenas produtos da imaginação que tinham por único conteúdo concreto a experiência humana do sexo.
  • A verdade é exatamente o contrário.
    • O homem tradicional tratou de descobrir na divindade mesma o segredo e a essência do sexo.
    • Para ele, os sexos, antes de existir fisicamente, existiam como forças supraindividuais e como princípios transcendentais; antes de aparecer na “natureza” existiam na esfera do sagrado, do cósmico, do espiritual.
    • E na múltipla variedade das figuras divinas diferenciadas em deuses e deusas, aquele homem tratou de captar precisamente a essência do eterno masculino e do eterno feminino, da qual a sexualização dos seres humanos não é mais que um reflexo e uma manifestação particular.
    • Por isso há que adotar o ponto de vista inverso ao da história das religiões: em vez de ser a sexualidade humana o fundamento para captar o que de real e positivo há nas figuras divinas e mitológicas sexualmente diferenciadas, é precisamente o conteúdo destas figuras o que proporciona a chave da compreensão dos aspectos mais profundos e universais da sexualidade do homem e da mulher.
    • Só estas figuras — criações de uma intuição clarividente e muitas vezes mesmo de formas de percepção suprassensível efetivas, individuais ou coletivas — são precisamente as que podem indicar-nos o sentido do que denominamos virilidade absoluta e feminilidade absoluta, nos seus aspectos fundamentais; e também são elas, por conseguinte, as que podem tornar-nos capazes de reconhecer e distinguir certas “constantes” objetivas nas formas derivadas e híbridas nas quais aparece a sexualidade nos indivíduos empíricos, conforme a modalidades que dependem das raças e também dos diversos tipos de civilização.
    • Mais particularmente, do sacrum sexual e da mitologia do sexo poderão extrair-se as bases de uma caracterologia e uma psicologia do sexo verdadeiramente profundas.
    • É esse o problema que vamos abordar, não podendo o nosso estudo deixá-lo de lado, ainda que a matéria a examinar pareça às vezes, para o leitor corrente, abstrusa e insólita.
  • Como premissa, há que assinalar desde já que o ponto de vista tradicional, que é o que seguimos aqui, se bem seja oposto ao das interpretações naturalistas de que acabamos de falar, também é muito distinto de algumas correntes psicanalíticas recentes.
    • Já dissemos que o princípio da virilidade absoluta e o da feminilidade absoluta não são simples conceitos, úteis como medidas para o estudo das formas empíricas, mistas e parciais do sexo, mas em si mesmos abstratos e privados de realidade.
    • Tampouco os tomamos como simples “ideais” ou “tipos ideais” que só existam na medida em que os realize de forma mais ou menos aproximada tal ou qual ser humano.
    • O que são, na realidade, é princípios reais no sentido do termo grego archai: entia, princípios-potência de tipo transindividual que condicionam conforme a diversas modalidades o que faz que cada homem seja um homem e cada mulher, uma mulher; por conseguinte, princípios que existem antes e por cima de todo homem e toda mulher mortais, e para além da sua efêmera individuação.
    • Estes princípios têm, pois, uma existência metafísica.
    • Esta ideia foi expressa com grande força pelas escolas tântricas e sahajiya, que atribuem à divisão das criaturas em machos e fêmeas um carácter rigorosamente ontológico, derivado do carácter metafísico dos princípios denominados Shiva e Shakti, ou de personificações mitológicas como Krishna e Radha.
  • Pode aplicar-se, pois, a este âmbito particular, a própria doutrina platônica das ideias, interpretada em sentido realista e mágico, a concepção da “ideia” ou “arquétipo”, entendido não como abstração conceptual ou mental, mas verdadeiramente como raiz do real e como realidade de ordem superior.
    • As forças de que falaremos estão invisivelmente presentes em todas as individuações por elas revestidas, nas quais se manifestam ou se transparecem; estes deuses ou entes do sexo vivem e aparecem diversamente, em diversos graus de intensidade, na multidão de homens e mulheres, no espaço e no tempo; e tal multiplicidade de formas transitórias, aproximativas, às vezes mesmo larvárias, não afeta a sua identidade e a sua eternidade.
  • É por conseguinte muito clara a divergência entre o ponto de vista que adotamos e as interpretações das correntes modernas, que partem de um plano não metafísico, mas psicologista.
    • Jung, por exemplo, não é que reduzisse as figuras do mito sexual a simples fantasias e invenções poéticas, até pressentiu nelas a dramatização — precisamente — de “arquétipos” com um alto grau de universalidade e uma realidade autônoma; mas esta realidade compreendeu-a em termos meramente psicológicos, reduzindo tudo a projeções mentais do inconsciente coletivo e às “exigências” que no homem a parte obscura e atávica da psique esgrime contra a parte consciente e pessoal.
    • Não só há aí uma evidente confusão de planos, mas também — mediante o recurso abusivo à noção de inconsciente e a utilização de uma fenomenologia de psicopatas — a confirmação da tendência geral moderna a reduzir todas as coisas a medidas puramente humanas.
    • Se bem que todo princípio, ao ter de um modo ou outro caráter transcendente, deve converter-se em “fenômeno psicológico” para poder experimentar-se, há contudo uma diferença fundamental entre fazer que tudo comece e termine na psicologia, e compreender, pelo contrário, a psicologia em função da ontologia.
    • De fato, todas as interpretações de Jung terminam num plano muito trivial, e a sua intuição da realidade supraindividual e eterna dos “arquétipos” sexuais torna-se vã ou bem cai ao nível de algo falsificado devido a uma deformação profissional da mentalidade (trata-se de um psiquiatra e psicanalista) e à ausência de referências doutrinais adequadas.
  • A divergência entre os dois pontos de vista é ainda mais visível na ordem das consequências práticas.
    • Jung tem em vista o tratamento de neuropatas e crê seriamente que o objeto das religiões, dos Mistérios e das iniciações antigas não era distinto: tudo isso servia segundo ele para curar indivíduos afetados de problemas psíquicos, atazanados pela parte inconsciente do seu ser.
    • Em definitivo, para ele, do que se trata é de “dessaturar” os arquétipos, de os privar da sua carga mítica e fascinante — do mana — que lhes confere um carácter obsessivo, e reduzi-los a funções psíquicas normais: e isso até no caso do arquétipo masculino e do arquétipo feminino que afloram aqui e ali na consciência ordinária.
    • Em cambio, à humanidade tradicional, o conhecimento da realidade metafísica dos arquétipos sexuais serviu-lhe de premissa positiva para as múltiplas variantes da sacralização do sexo, das práticas e dos ritos destinados, não a que um ser dilacerado e presa dos seus “complexos” recobrasse uma trivial normalidade, mas a favorecer um sistema de evocações e participações para além do humano, a provocar aberturas do Eu próprias dessas “cargas” que em Jung se reduzem a simples e inexplicáveis reflexos das imagens do inconsciente.
  • Há que acrescentar que, como no mundo tradicional existia um sistema de correspondências entre realidades e símbolos, entre ações e mitos, o mundo das figuras divinas sexuadas não só permitia penetrar as dimensões mais profundas da sexualidade humana, como implicava relações capazes de proporcionar princípios normativos para as relações que em toda civilização sã hão de estabelecer-se entre ambos os sexos, entre o homem e a mulher.
    • A partir daí, estas relações adquiriam um significado profundo, eram conformes a uma lei e uma nomos superiores ao mundo da contingência, do arbitrário e das situações puramente individuais.
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