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GILBERT DURAND E O NOVO ESPÍRITO ANTROPOLÓGICO

GEAY, Patrick. Hermès trahi: impostures philosphiques et néo-spiritualisme d'après l'oeuvre de René Guénon. Paris: Ed. Dervy, 1996

  • Gênese e Influências Fundamentais do “Novo Espírito Antropológico”
    • Definição do “Novo Espírito Antropológico” como corrente filosófica resultante do cruzamento de tendências e ideias extremamente diversificadas.
    • Principais influências na obra de Gilbert Durand: a teoria jungiana dos arquétipos do inconsciente coletivo, os trabalhos dos historiadores Mircea Eliade e Georges Dumézil, e as contribuições de André Leroi-Gourhan e Roger Bastide.
    • Incorporação decisiva, a partir de 1962, das noções do esoterismo islâmico trazidas pela obra de Henry Corbin, as quais eram quase totalmente desconhecidas do mundo acadêmico ocidental.
    • “Várias noções-chave do esoterismo islâmico, até então quase totalmente desconhecidas do mundo acadêmico contemporâneo, foram introduzidas no aparato conceptual da antropologia ocidental.”
  • A Problemática Conciliação de Doutrinas Heterogêneas
    • Caracterização dos escritos de Gilbert Durand como resultado de uma coabitação difícil e problemática entre doutrinas fundamentalmente heterogêneas.
    • Identificação da ambiguidade central: a equiparação entre o “Imaginativo” de Durand e o mundo “Imaginal” (alam al-khayal) de Corbin, uma tradução de um dado fundamental do sufismo.
    • Questões críticas sobre a assimilação de conceitos de esferas intelectuais radicalmente diferentes e a viabilidade de conciliar ciências humanas e pensamento tradicional.
    • “Em que medida é concebível, consequentemente, assimilar ou fazer sobrepor-se conceitos que pertencem a esferas intelectuais radicalmente diferentes?”
    • “Como preservar, nesse sentido, a coerência interna de um pensamento, desde que ele se encontre inserido numa rede de referências contraditórias?”
    • “Em que medida esta tentativa, característica da modernidade última, que visa conciliar ciências humanas e pensamento tradicional, é simplesmente viável?”
  • Objetivos e Fundamentos Teóricos da Antropologia de Gilbert Durand
    • Necessidade de analisar as teses de Gilbert Durand a partir dos seus principais estudos teóricos para compreender a natureza dos seus objetivos e o seu lugar na filosofia moderna.
    • Assimilação da oposição bachelardiana entre cosmologia antiga e “poética filosófica”, reinterpretada por Durand como o anúncio de uma “nova espiritualidade”.
    • Adoção do conceito de “complementaridade” como base para um “retorno de Hermes”, embora este conceito possa comprometer tal retorno desde o início.
    • Foco de Durand no universo do simbolismo e dos mitos tradicionais, em oposição ao agnosticismo de Claude Lévi-Strauss, com o objetivo de restaurar uma “gnose” ou “philosophia perennis”.
    • “Contra o agnosticismo de Claude Lévi-Strauss”, tratava-se em particular de restaurar uma “gnose” senão uma “philosophia perennis” capaz de conter um positivismo tornando-se asfixiante.
    • Crítica arqueológica aos fundamentos da modernidade: iconoclasmo, historicismo, secularização, dualismo alma/corpo, mecanismo, criticismo, progressismo.
    • Apelo a um esoterismo tradicional implicitamente redefinido pela psicologia das profundezas, visto como único capaz de contribuir para a renovação do homem ocidental.
  • O Enquadramento Pós-Racionalista e Neoespiritualista
    • Enquadramento do “Novo Espírito Antropológico” numa ótica pós-racionalista e neoespiritualista largamente inspirada pela psicanálise junguiana.
    • Aceitação da origem inconsciente das “grandes imagens” simbólicas tradicionais, apesar de eventuais confusões na terminologia junguiana.
    • Problema da conciliação particularmente nebulosa entre o hermetismo e as principais teorias de Jung, dificuldade pouco comentada, inclusive por François Leperlier.
    • Uso de uma dupla linguagem por Durand, misturando fraseologia psicológica e discurso espiritual ou “iniciático”, o que dificulta a identificação precisa do seu pensamento.
    • Percepção de Gilbert Durand como um “suporte sólido da tradição” por James Hillman, que qualifica Eranos de “comunhão invisível” ou “círculo imaginal”.
    • “Gilbert Durand parece deixar interferir os 'níveis' — imaginário/Imaginal, imaginação conjunta/dissociável — dispondo prioritariamente de um ou de outro, reintroduzindo uma ambiguidade eminentemente 'junguiana'.”
  • A Fusão Conceitual entre o Imaginal e o Imaginário
    • Questão central sobre a fertilidade intelectual do recurso ao hermetismo e a noções islâmicas, como o alam al-khayal (Imaginal), quando associado ao movimento psicanalítico.
    • Dificuldade de avaliação da obra de Durand devido ao seu caráter proteiforme e ao gosto pós-moderno pela “coabitação dos contrários”.
    • Proposta de análise de obras sistemáticas, como “As Estruturas Antropológicas do Imaginário” e “A Imaginação Simbólica”, para compreender as suas concepções sobre o simbolismo.
    • Definição do símbolo como um esquema organizador e funcional que “modela inconscientemente o pensamento”, seguindo Jung e Bachelard.
    • “O símbolo 'nunca é um signo arbitrariamente escolhido, mas é sempre intrinsecamente motivado'.”
    • “A 'imaginação humana' como o foco central dos 'arquétipos fundamentais' que dinamizam a consciência.”
    • Consideração da interpretação pan-sexualista de Jung como “demasiado limitada”, embora o arquétipo seja a verdadeira matriz das ideias.
  • A Prática Terapêutica e a Interpretação do Simbolismo
    • Continuação da linha de Bachelard no crédito atribuído à terapêutica de Robert Desoille, associada a uma “completude metafísica”.
    • “Método de 'elevação psíquica, senão moral' associado à ideia de uma 'completude metafísica' resultante da 'meditação imaginária dos símbolos ascensionais'.”
    • Paralelismo entre esta prática e os ritos xamânicos, aos quais Durand atribui um papel idêntico.
    • Comparações regulares entre interpretações tradicionais e psicanalíticas do simbolismo, como o cetro real motivado pela “noção edipiana do Deus Pai” ou o lírio como “atributo nitidamente fálico”.
    • “A 'noite escura' é um 'símbolo do inconsciente'.”
    • Convergência afirmada entre “tradição romântica ou alquímica e análise psicológica para evidenciar uma estrutura arquetipal, e reencontrar a imemorial tradição religiosa.”
    • Combinação doutrinal entre pensamento alquímico e psicanálise, que recobraria, de forma trivial, as secretas intuições dos alquimistas.
    • Tentativa de encontrar “raízes tecnológicas e finalmente sexuais deste arquétipo quase semiológico da união dos contrários”.
  • A Fantástica Transcendental e a Função Mitológica
    • A “fantástica transcendental” de Durand, retomando uma expressão de Novalis, permanece encerrada em categorias psicológicas que não acedem a uma verdadeira metafísica da Imagem simbólica.
    • Afirmação de que “a mitologia é primeira relativamente não apenas a toda a metafísica, mas a todo o pensamento objetivo.”
    • Definição da “função fantástica” como “marca originária do Espírito”, simultaneamente “imaginação criadora” e “fabulação”, cujo “sentido supremo” reside no eufemismo.
    • “O eufemismo, ou seja, no poder humano de 'melhoria do mundo'.”
    • Desejo de reabilitação terapêutica da mitologia, hermetismo ou alquimia, comandado pela necessidade premente de um quadro imaginário para atenuar a dureza do mundo.
    • O mito, enquanto produto humano da imaginação, é constitutivo do comportamento do homo sapiens e sinal da sua capacidade para “instaurar o sentido”.
    • Projeto de “remitização” das sociedades ocidentais, característico do Novo Espírito Antropológico, através de um “recurso ao Oriente”.
    • “Recurso ao Oriente”, único capaz “de restabelecer um equilíbrio humanista verdadeiramente ecumênico.”
  • A Crítica ao Pluralismo Lógico e à “Cohabitação dos Contrários”
    • Crítica ao recurso a “valores outros que o verdadeiro e o falso” e à rejeição do “grosseiro princípio de identidade em prol de uma pluralização mais fina dos procedimentos da razão”.
    • “Valores outros que o verdadeiro e o falso”, sobretudo capazes de rejeitar “o grosseiro princípio de identidade em prol de uma pluralização mais fina dos procedimentos da razão”.
    • Esta “ênfase no contraditorial”, ao pretender captar a complexidade do real, pulveriza a identidade das ideias que tenta reunir numa síntese impossível.
    • Distinção crucial entre contrário e contraditório: os contrários podem equilibrar-se e gerar um processo dinâmico, enquanto os contraditórios são estéreis.
    • A coabitação de elementos contraditórios só pode ser ilusória, apesar da vontade concordista de conjugar o antigo e o moderno.
    • Análise de Gilles Lipovetsky sobre o “sincretismo” generalizado na filosofia a partir dos anos sessenta, que levou à reivindicação de uma cultura “tigrada”.
    • A imagem do tigrado, um “paradigma” do Novo Espírito Antropológico, expressa uma tendência para a rejeição da Autoridade, implicitamente associada à coação e ao dogma.
    • Metáfora do caduceu hermético: a aspiração ao livre jogo dos dois serpentes, libertos da presença do Eixo central, símbolo universal de Ordem e Paz.
    • No mito de Hermes, é a intervenção deste elemento mediano que permite ao par de opostos não se confundir nem destruir, mantendo-se distinto apesar de uma necessária interpenetração.
    • A Dyade procede do Uno que, segundo o ensino platônico, age como “potência determinante e informante” face à Dualidade indefinida.
    • “É um grande absurdo dizer que a harmonia é uma oposição ou que se forma de elementos que permanecem opostos (…), pois quem diz harmonia diz consonância e quem diz consonância diz acordo, e o acordo não pode resultar de elementos opostos, enquanto eles permanecem opostos.”
    • O princípio de contradição de Aristóteles — “não é possível que a mesma coisa, num só e mesmo tempo, seja e não seja” — expressa a estrutura essencial de todo o pensamento coerente e unificado.
    • Possibilidade de uso de outras lógicas para integrar níveis de realidade igualmente verdadeiros, mas aparentemente opostos, sem anular os princípios clássicos.
    • “A complexidade do mundo exige, de facto, que a linguagem que tenta restituí-la se modele fielmente, na medida do possível, sobre a multidão dos seus lineamentos que desdobram, segundo uma disposição crucífera, a 'amplitude' e a 'exaltação' das formas.”
  • A Receção de Conceitos Orientais e a Técnica do Entrecruzamento
    • O “Novo Espírito Antropológico” promove uma “pluralitude” lógica que reflete mais a “alma tigrada do mortal” que um verdadeiro avanço do pensamento.
    • Justificação de uma situação sem precedentes na Universidade moderna: revalorizar o hermetismo mantendo a credibilidade face ao racionalismo psicológico.
    • Papel de primeiro plano de Jung e Bachelard no advento desta “mutação do espírito”.
    • Fonte de redutíveis equívocos na recepção de conceitos orientais descobertos através de Henry Corbin, em particular a assimilação do imaginário com o imaginal.
    • François Leperlier observou que “Gilbert Durand parece deixar interferir os 'níveis' — imaginário/Imaginal, imaginação conjunta/dissociável — dispondo prioritariamente de um ou de outro, reintroduzindo uma ambiguidade eminentemente 'junguiana'.”
    • Técnica do entrecruzamento: valorização do intermundus da tradição oriental (Avicena, Ibn Arabi, Sohrawardi) ao mesmo tempo que se fala de uma “função gnóstica da imaginação humana”.
    • “A imaginação corporifica as formas.”
    • Apresentação de “Jung e Corbin” como os dois “polos complementares” para esta “redescoberta filosófica do Imaginário”.
    • Bachelard como aquele que reconciliou “o Ocidente cientista e a poética das imagens”.
    • Jung teve “o imenso mérito (…) de ter ligado a pregnância simbólica — na e pela noção de arquétipo — e o processo ontológico de individuação, isto é, de acesso aperfeiçoante ao presente do destino humano.”
    • Confirmação do compromisso: “O imaginário aparece portanto desde Jung como o conhecimento privilegiado onde o objeto psíquico se revela a si mesmo enquanto vocação e consentimento individuais. Esta sobreeminência do Imaginário como lugar das epifanias antropológicas, pode portanto bem portar aqui o nome de Imaginal.”
    • A psicologia junguiana viria confirmar “a ontologia mais tradicional: aquela que nos revela H. Corbin.”
    • Comparação da deontologia psicanalítica a uma “busca iniciática” e o imaginal ao “lugar das individuações”.
    • O Mundus Imaginalis é percebido como o conjunto “das manifestações dos Imperativos do ser humano”.
    • Intenção de se situar numa zona interpretativa distinta “duma formalização meta-humana” como “duma historicização infra-humana”.
    • Recuperação de um léxico espiritual com considerações extrametafísicas, ratificando o caráter paradoxal desta empresa.
    • “O falso reside sempre numa composição”, tornando inconcebível uma hermenêutica que “compõe” em detrimento de um esoterismo islâmico que pretende acolher.
  • A Visão do Islam Espiritual e a Equivalência Duvidosa
    • Reconhecimento da importância da intervenção do Islam na cena intelectual ocidental, embora se afirme que “toda a revelação não é finalmente senão um 'bricolage', 'uma retomada do sentido'”.
    • “Toda a revelação não é finalmente senão um 'bricolage', 'uma retomada do sentido'.”
    • Conceitos como barzakh, Malakut, Qaf, etc., permanecem, no contexto da teoria de Durand, produções imaginárias do psiquismo humano, sem referente Inteligível.
    • Imprecisão terminológica: comparação da “espiritualidade islâmica à parapsicologia”.
    • “Espiritualidade islâmica à parapsicologia”.
    • Equivalência mais que duvidosa entre o mundus imaginalis do Islam e um mundus archetypus, provavelmente junguiano.
    • Afirmação, por outro lado, justa, de que a criação não é senão uma “teofania (tajalli), isto é, uma imaginação divina criadora”.
    • “Teofania (tajalli), isto é, uma imaginação divina criadora.”
    • Questão sobre se há adesão ao sentido profundo destas palavras ou simulação circunstancial de um registo místico.
    • O pluralismo aberto do “Novo Espírito Antropológico” compromete definitivamente a reconstituição de uma autêntica “hermetica ratio”.
  • O “Grande Misto” e as Contrafações de Espiritualidade
    • Comparação das procedências do “Novo Espírito Antropológico” com o “Grande Misto” designado pelo Zohar, princípio da confusão simbolizado pela árvore do conhecimento do bem e do mal.
    • A aparência dual da árvore ilustra o fenômeno de afastamento da “Coluna Central”, figura do “Axis Mundi” no Zohar, resultante de uma “sedução” por entidades divergentes.
    • Este misto de erros e verdades seria o fruto de uma deficiência do Discernimento que, separado da Unidade, reconstrói artificialmente uma falsa unidade a partir de elementos díspares.
    • Esta “queda” na multiplicidade bigarrada de pensamentos contraditórios, pelo seu caráter vertiginoso e instável, arrisca conduzir a investigação a um impasse.
    • O fenômeno centrífugo descrito poderia, em certos casos, resultar em contrafações de espiritualidade, estéreis no plano iniciático, mas com capacidades dissolventes e destruidoras.
  • A Autoapresentação como Solução e a Crítica das Três Vias
    • Apresentação do “Novo Espírito Antropológico” como algo que deve “modificar profundamente sob os nossos olhos o destino intelectual e filosófico do Ocidente”, conferindo-lhe uma dimensão quase salvífica.
    • Inventário de Antoine Faivre das “três possibilidades” de retorno à Tradição: via “severa” ou “purista” (René Guénon), via “histórica” ou “sincretista”, e via “humanista” ou “alquímica” (Nova Antropologia).
    • Críticas à via guénoniana: desinteresse por correntes teosóficas (apesar do reconhecimento do valor de Jacob Böhme), falta de curiosidade pelos modos de emergência da Tradição, adesão a uma teoria dos ciclos apresentada como pessimista, atitude “dualista” e de “fusão no Mesmo”.
    • Acusação de que o objetivo guénoniano conduziria, “como na tradição védica, a uma visão atônica, plana, amorfa do Mundo”.
    • Crítica à posição hierárquica de Guénon sobre a Arte Real, que coloca a tradição hermética num plano cosmológico e de pequenos mistérios, secundária face aos grandes mistérios e à Arte Sacerdotal.
    • Revelação do aspecto “nemrodiano” do “Novo Espírito Antropológico”, que parece reclamar independência dos pequenos mistérios face a uma autoridade espiritual brahmânica.
    • Definição por Guénon de uma “revolta dos Kshatriyas”, ou seja, a promoção de teorias naturalistas que privilegiam o “devir” em detrimento do Imutável, e a autonomia na interpretação dos mitos.
    • Valorização do “ta'wil” por Faivre e Durand como “interpretação espiritual” ou esotérica dos símbolos, embora esta noção seja considerada perigosa por grandes sufis como Ibn Arabi ou Junayd, por conter elementos individuais e arbitrários.
    • A segunda via, “histórica”, é associada a organizações pseudo-iniciáticas como a A.M.O.R.C. ou a Sociedade Teosófica, às quais Faivre parece atribuir certa legitimidade.
    • A terceira via, “humanista” ou “alquímica”, identifica-se com o “Novo Espírito Antropológico”, com pretensões ecuménicas e de “transmutação de nós mesmos e do mundo”.
    • Numa ótica “evolucionária” e não “devolucionária”, propõe-se assimilar a cultura e a ciência, “recolhendo a modernidade para a colocar no athanor”.
    • Afirmação de que esta via não é conciliável “com o dualismo das teologias criacionistas ou com o monismo da Unidade indiferenciada”, como se Jacob Boehme tivesse ignorado a não-dualidade do “Ungrund” (Sem-Fundo).
    • Refutação: “a multiplicidade está compreendida na unidade primordial, e ela não cessa de aí estar compreendida pelo facto do seu desenvolvimento em modo manifestado.”
    • Ênfase na importância da teoria junguiana do inconsciente coletivo, “conferindo-lhe uma dimensão propriamente esotérica, a de um transconsciente ligado ao mundo imaginal”.
    • Dificuldade de reabilitação da imaginação criadora devido à imprecisão terminológica e conceptual subjacente a esta promiscuidade paradigmática.
    • Advertência de Christian Jambet: “longe de conduzir a Jung, Corbin afasta-nos dele, (…) é preciso evitar tratar o”mundus imaginalis“ como imaginário, se se quer ter alguma hipótese, um dia, de compreender algo do facto religioso. Eis porque, por mais sofisticada que possa ser, toda a leitura junguiana está aqui fora de circuito.”
    • “Longe de conduzir a Jung, Corbin afasta-nos dele, (…) é preciso evitar tratar o”mundus imaginalis“ como imaginário, se se quer ter alguma hipótese, um dia, de compreender algo do facto religioso. Eis porque, por mais sofisticada que possa ser, toda a leitura junguiana está aqui fora de circuito.”
  • O Diálogo com a Ciência Contemporânea e a Reconfiguração do Hermetismo
    • Preocupação em englobar a modernidade e parte da ciência contemporânea, resultante do cansaço face à ruptura entre cultura e saber.
    • Colóquio de Córdova (1979), com a participação de Gilbert Durand, como emblema maior desta empresa de reunificação de perspectivas.
    • Análise crítica de Henri Atlan sobre a dimensão sincrética e talvez ilusória deste esforço, baseado numa necessidade irracional de acreditar na unificação da mística e da ciência.
    • Concepção de uma alquimia tecnológica e mística capaz de reunir o profano e o sagrado numa síntese estranha.
    • Proposta de um Hermes irreconhecível, que assume a modernidade, a sua cultura e a sua ciência, e não apenas metamorfoseado.
    • Incompatibilidade com o hermetismo histórico, entendido como uma gnose revelada, transmitida por iluminação divina, e não como produto de estruturas neuropsíquicas ou da “matéria energética” do cérebro.
    • O abandono relativo do materialismo, previsto por Guénon, terá resultado num amálgama inextricável de pseudo-esoterismo, psicanálise e microfísica.
    • Percepção do imaginal no quadro de um “materialismo transposto”, como um fenômeno que manifesta o “jogo dos fotões” perante o experimentador.
    • Implementação de uma espiritualidade falsificada que, aparentemente retornando ao simbolismo e à iniciação, falsifica os seus conteúdos.
    • Expressão das turbulências reconhecidas tradicionalmente como uma das características do mundo intermédio.
    • A difusão do “Novo Espírito Antropológico” produzirá apenas os frutos de uma “legítima dessacralização do cosmos”.
    • Para Guillaume de Champeaux e Dom Sterckx, “a cosmografia do Livro de Enoque (…) fez o seu tempo”, indicando que os contemporâneos já não têm acesso à essência doutrinal.
    • Conclusão decisiva: o convite de Durand ao leitor para se fazer “sonhador de palavras, sonhador de poemas, sonhador de mitos” e instalar-se “plenariamente, nesta realidade antropológica bem mais vital, bem mais importante para o destino e sobretudo para a felicidade do homem que a verdade objetiva”.
    • “A exemplo de Bachelard, sonhador de palavras, sonhador de poemas, sonhador de mitos e a instalar-se por aí, plenariamente, nesta realidade antropológica bem mais vital, bem mais importante para o destino e sobretudo para a felicidade do homem que a verdade objetiva.”
    • Oposição do “medicamento” mitológico à ciência e à verdade, como se o mito e a gnose não pertencessem à esfera do conhecimento, mas ao sonho bachelardiano.
    • O “Novo Espírito Antropológico” representa, assim, um novo iconoclasmo, mais refinado, mas igualmente destruidor.
  • As Raízes Culturais e a “Materialização” do Imaginário na Pós-Modernidade
    • Cristalização, em modo filosófico, de um longo processo cultural iniciado no Renascimento, com o aparecimento do romance.
    • Desaparecimento lento do “Maravilhoso”, das “Visões celestes” e do milagroso, permitindo a emergência de um substituto intramundano do extraordinário, encerrado no campo do imaginário humano.
    • Ascensão do fantástico no final do século XVIII e fascínio por temas da mística judaica, como o Golem, partilhado pela cibernética nascente.
    • A modernidade alimentou-se da substância morta dos antigos mitos, transpondo-os sob a forma de ficções romanescas.
    • Obsessão demiúrgica pela fabricação de pequenos universos subjetivos, sucedânea de uma mitologia “não feita por mão humana”.
    • Reabertura, através das técnicas cinematográficas, de um espaço encantador onde o homem moderno pode reencontrar o fabuloso.
    • A tecnologia vem em auxílio de um psiquismo ocidental ávido de prodígios, materializando o imaginário como porta de saída do mundo.
    • Exemplo da empresa de produção “Industrial Light and Magic” de George Lucas.
    • Complexidade crescente dos “efeitos especiais” simula o ritual mágico tradicional das metamorfoses.
    • Teorias da “arte intermédia” conferindo à imagem uma “quase-vida” ou vitalidade autônoma, ilustram os objetivos da cultura informática.
    • Aparição das imagens virtuais e a possibilidade de “entrar” na imagem e interagir como personagem do filme.
    • A “existência mediática” tornar-se-ia a existência verdadeira, encerrando o indivíduo numa “existência outra que a sua”, o cúmulo da ilusão.
    • O computador, como máquina de visão contemporânea, tenta imitar um “além” do mundo, recompondo as estruturas vivas do universo pela imagem.
  • A Geometria Fractal e a Bibliologia Contemporânea como Exemplos de Apropriação
    • Exemplo de Benoît Mandelbrot e da sua geometria fractal, que visa “contrafazer” montanhas, árvores, nuvens, etc., por meios informáticos.
    • “Contrafazer”, segundo a sua própria expressão, as montanhas, as árvores, as nuvens, etc., com a ajuda de meios informáticos.
    • Reivindicação explícita de Norbert Wiener, autor de “God and Golem, Inc.”.
    • A representação fractal constitui uma grosseira aproximação da realidade, devido ao conceito de iteração, que dá uma impressão de repetição monótona.
    • “Não há dois indivíduos idênticos” no plano biológico, devido à “infinita diversidade e ao eterno renovar-se das teofanias”.
    • A arte fractal apresenta um aspecto alucinatório notável, proveniente das suas “zebraduras equipotenciais”.
    • A restauração da imagem na investigação científica mostra como a fascinação pós-moderna pela imaginação é assumida pela tecnologia informática.
    • A bibliologia contemporânea participa no mesmo processo de recuperação pseudo-tradicional de figuras simbólicas, como o ouroboros, para a esquematização dos conhecimentos.
    • Dupla referência a Norbert Wiener e Benoît Mandelbrot, ambos evocados pela importância que reconheceram aos sonhos e às imagens mentais espontâneas.
    • Concepção holística de Wiener — “tudo está ligado a tudo o resto” — justificaria uma aproximação com a ideia alquímica da unidade do mundo.
    • Reunião da doutrina dos alquimistas com a autopoiese de Humberto Maturana e Francisco Varela, ilustrando a extensão das confusões conceptuais.
    • O ouroboros é tomado arbitrariamente como ilustração dos “sistemas autopoiéticos” que organizam o vivo, ou seja, operações biológicas auto-criadoras.
    • Reformulação hermética do Mecanicismo, que vê o organismo como um “sistema fechado” e autônomo, tomando o símbolo do retorno à Origem pela representação de uma circularidade fechada.
    • Redescoberta das “raízes biológicas do conhecimento”, senão da consciência, revelando uma mesma tendência para o imanentismo naturalista.
  • Conclusão: O “Novo Espírito Antropológico” como Trompe-l'oeil Iniciático
    • Facilidade em encontrar outras manifestações das características mentais do “Novo Espírito Antropológico”, para lá dos indivíduos.
    • Apego desmedido à teoria dos arquétipos do inconsciente e, mais profundamente, à ideia de uma auto-organização do universo.
    • A confusão entre imaginário e imaginal torna absolutamente impossível um eventual retorno à intelectualidade sagrada em geral.
    • Comparável às tentativas discutíveis de reabilitação de uma arte tradicional, vagamente inspirada no número de ouro, o “Novo Espírito Antropológico” só propõe um “trompe-l'oeil” iniciático.
    • Um labirinto desprovido de centro, uma via cuja saída poderá revelar-se perigosa.
    • O facto de este movimento se dedicar agora aos arcados mais ocultos da ciência dos Números prova que ele se inscreve, à revelia dos indivíduos que o dirigem, numa subversão inédita do esoterismo universal.
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