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gordon:hermafrodite
HERMAFRODITE
GORDON, Pierre. Le Mythe d’Hermès. Paris: Arma Artis, 1984.
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O Hermes duplo marcava primitivamente, em sua dualidade-unidade transcendente, a fusão de caracteres sexuais opostos, e esse Hermes bissexuado diferenciou-se em Hermafrodite, personagem que fez ressaltar mais nitidamente a indivisão inicial do homem e da mulher; Hermafrodite foi apresentado como filho de Hermes e Afrodite, e banhando-se numa fonte perto de Halicarnasso avistou a ninfa Salmacis, com quem se apaixonou, pedindo aos deuses que tornassem indivisos os dois seres, tendo a prece sido atendida; todo aquele que se banhava na mesma fonte sagrada beneficiava-se de metamorfose análoga; isso não é uma fábula, pois à beira da água santa realizou-se, sem dúvida por longa série de séculos, a união hierogâmica com sacerdotisas que encarnavam a energia divina, a ninfa Salmacis existiu como as demais e foi repetida por grande número de exemplares ao longo das eras; os homens que vinham submeter-se aos ritos da água (ritos por afogamento) acediam em seguida, por uma hierogamia, ao estado edênico e reencontravam a indivisão primordial.
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Essa noção, que foi a dos casamentos sagrados antes de sua degradação em prostituição sagrada e depois em libertinagem profana, presidiu à instituição das ilhas de mulheres, das quais o Mont Saint-Michel foi, antes de sua cristianização, um ilustre exemplo; o mito de Hermafrodite, embora transcrito tardiamente em obras literárias, refere-se, como todos os mitos, a realidades rituais, e a ideia fundamental que exprime é muito antiga, colocando em causa um casamento sacrossanto análogo ao do flamen Dialis romano, e não uma união hierodúlica.
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Nos grupos sociais onde a influência do matriarcado permaneceu por longo tempo preponderante, tratou-se de uma superfemme androgyne: nas religiões sírio-fenícias, a Grande Deusa Astarté foi uma divindade bissexuada que comunicou seu androginat ao proto-iniciado que deu à luz, tornando Adônis por consequência um hermafrodita; em Cartago, Dido-Astarté foi igualmente homem e mulher ao mesmo tempo, como o atesta a barba que orna tão frequentemente seu rosto (a Vênus barbue é sempre andrógina), e Dol, o proto-iniciado cartaginês, é bissexuado como Adônis; quanto à Afrodite de Chipre, os dois epítetos que lhe são acrescidos, biformis e arsenothelus (= macho-fêmea), proclamam suficientemente seu androginat; quando as profundas concepções do neolítico cessaram de ser compreendidas e o elemento masculino prevaleceu no bissexuado primordial, imaginou-se um Aphroditos masculino, barbudo e falóforo, que se tornou, como Adônis e Dol, um ser andrógino com tronco de mulher e trajes femininos; segundo Macróbio (Saturn. III, 83), a Lua, antiga Mãe, era considerada em Atenas a um tempo fêmea e macho.
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