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CRUZ
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A cruz de braços iguais constitui uma representação pré-histórica vinculada ao conceito das quatro regiões do espaço e ao emblema de Anu, a divindade suméria mais antiga do céu.
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Charles Autran analisa o silabário acádio onde cada braço da cruz é formado por um signo ideográfico independente.
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O agrupamento cruciforme remete invariavelmente à ideia de vivificação pelo céu através de seu líquido fecundador.
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A presença de monólitos funerais cruciformes na Índia, descritos por W. King, associa-se a esse mesmo simbolisme de animação vital.
A eficácia simbólica do emblema de Anu reside na quadruplicação de elementos selecionados por seus significados, o que gera a forma da cruz.-
A quadruplicação é a fórmula iconográfica das quatro regiões do céu sumério, termo ritual para designar o universo.
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O termo núbio para o mundo, conforme assinalado, refere-se aos quatro lados da extensão espacial.
A intersecção de duas retas perpendiculares em partes iguais expressa uma força central cujo influxo se distribui simultaneamente nas quatro direções espaciais.-
O símbolo manifesta o processo de ocultação, diluindo a unidade da energia transcendente, originalmente representada por um ponto, em um plano espacial.
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A ausência do ponto central nos símbolos caldeus enfatiza que a força animadora é extrínseca à matéria e invisível em sua essência.
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Esta energia inacessível constitui o foco de coesão de elementos difusos que, sem sua presença oculta, careceriam de existência.
Os elementos espaciais foram posteriormente reduzidos a quatro componentes constitutivos que derivam de uma quinta essência inacessível situada no cerne das coisas.-
O signo cruciforme expressa as relações fundamentais entre o universo dinâmico e o universo fenomenal em contextos cronológicos remotos.
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O cosmos físico, figurado pelas quatro linhas da cruz, repousa sobre um substrato extraspacial que atua como princípio vivificante.
O caráter sagrado da cruz fundamenta sua importância nas iniciações antigas e pré-colombianas como instrumento de qualificação do adepto.-
A identificação com a fonte transcendente de vida exige que o iniciado se posicione no ponto central do símbolo.
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A maestria sobre o mundo fenomenal é provada pela resistência aos assaltos oriundos das quatro direções espaciais.
A evolução das concepções ligadas ao signo cruciforme, como a noção dos Reis Guardiões ou Maharajas, confirma a interpretação extraída do silabário acádio.-
As divindades postadas nas regiões espaciais antropomorfizam a ideia de uma energia transcendente cujo acesso ao centro é impedido pelo próprio espaço.
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Na Índia e no Extremo Oriente, figuras como Shiva ou Avalokiteshvara são cercadas por quatro divindades ou apresentam quatro faces voltadas aos pontos cardeais.
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A Tara budista e suas emanações reforçam o desenho de um foco inacessível de onde irradiam forças substanciais subjacentes ao mundo físico.
O culto a Svantovit na ilha de Rugen exemplifica a persistência do simbolismo quaternário através de uma estátua de quatro faces que portava uma cornucópia com licor de imortalidade.-
O exame anual do vinho pelo sacerdote servia para a obtenção de presságios antes da destruição da imagem pelo rei Waldemar dos dinamarqueses.
Registros históricos como os de J. Scheffer sobre a Lapônia descrevem conjuntos esculturais onde uma figura central de alta estatura é ladeada por quatro menores.A existência pretérita de uma igreja dedicada a São João das quatro faces em Milão atesta a sobrevivência das concepções pré-históricas no contexto cristão.A importância e a continuidade das tradições ligadas ao número quatro e ao centro sagrado são verificáveis em narrativas diversas coletadas de forma assistemática.O mito dos povos originários americanos sobre a saída da montanha sagrada ilustra a transição da ocultação para a expansão das forças vitais através de canais rituais.-
Dois músicos mudos, representando o Sol e a Lua, iniciam a abertura do mundo opaco junto a animais sagrados como a traça e o rato malhado.
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Quatro cisnes vindos dos cantos do horizonte perfuram a terra com flechas, criando os quatro canais por onde as águas escoam para permitir a saída dos seres.
A identidade de sangue entre a traça central e os cisnes periféricos simboliza a unidade entre a energia divina central e sua expansão espacial pelos ventos.A condição humana atual é simbolizada pelos homens encerrados na montanha que possuem abundância material mas carecem de visão espiritual clara.-
A narrativa transcende a classificação de fábula naturalista para se revelar como um mito de caráter estritamente iniciático.
A origem dos povos nahuas nas Sete Cavernas e a migração para Tollan reiteram a estrutura espacial onde o ponto de chegada constitui a quinta região ou meio do mundo.-
A análise de Seler sobre as quatro estações da viagem identifica-as como as extremidades do mundo que circundam o centro irradiante de luz.
A reiteração desses temas demonstra a permanência em um mesmo círculo de ideias tradicionais sobre a estrutura do cosmos.Concepções posteriores complexificaram o simbolismo original ao acrescentar pontos colaterais à imagem central, resultando nos números sagrados nove e treze.-
O deus Maui dos Maoris, com suas oito cabeças nos ombros, exemplifica a expansão do centro para a periferia numericamente organizada.
O número treze ganha relevância ao considerar o espaço não em um plano único, mas como uma combinação de três planos superpostos que abrigam a totalidade dos seres.-
A divisão vertical em céu, atmosfera e terra relaciona-se às três gunas hindus analisadas por Emile Senart: sattva, rajas e tamas.
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Tríades divinas como Júpiter, Marte e Quirino na Roma primitiva refletiam essa segmentação vertical e a hierarquia das funções sociais.
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O número doze, que se torna treze com o foco central, designa o conjunto do universo e precede a fixação dos signos do zodíaco.
A cruz serviu como fundamento para a construção da imagem do cosmos na antiguidade, figurando a dependência do mundo sensível em relação ao mundo invisível.-
O swastika complementa o signo cruciforme ao representar o movimento dinâmico das coisas em torno de um polo fixo.
O emprego da cruz em ritos essenciais permitia a manipulação da energia transcendente, como observado na prática dos áugures etruscos ao dividirem o templo celeste.-
A orientação do decumanus e do cardo estabelecia as regiões favoráveis e nefastas para a observação de presságios e o exame de vísceras pelos harúspices.
O rito etrusco de divisão cruciforme presidiu a fundação de cidades e acampamentos, projetando o templo do céu sobre a terra na configuração da Roma quadrada.-
A potência de Roma edificou-se sobre o signo da cruz como estrutura de orientação primordial.
Práticas análogas de orientação urbana de acordo com os pontos cardeais são encontradas desde a Caldeia e a China até as civilizações do Vale do Indo.-
As pesquisas de Frobenius sobre os Iorubás no Benim revelam analogias identitárias com os ritos etruscos e com as tradições dos índios Pueblos e coreanos.
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A organização do espaço em relação a um ponto fixo imutável dirige a evolução das coisas em diversas culturas sob uma mesma tradição.
A astrologia fundamenta-se na estrutura cruciforme do horóscopo, onde o astrólogo traça sobre a terra as linhas direcionais ao redor do indivíduo central.-
Os quatro pilares do horóscopo — Meio do Céu, Fundo do Céu, Ascendente e Ocidente — formam a armadura sobre a qual se assenta a vida humana.
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O recém-nascido é descrito como portador de sua própria cruz, que representa o fardo das condições espaciais.
A subdivisão das quatro regiões intermediárias em três partes gera as doze casas do horóscopo, expressando a pressão da totalidade do espaço sobre o ser.-
Planetas e graus zodiacais são inscritos nessas bases de acordo com a longitude no momento do nascimento.
A representação tradicional da astrologia conserva-se em vertentes britânicas e hindus, enquanto o modo circular continental prioriza a clareza técnica em detrimento do vínculo simbólico espacial.O universo também foi concebido sob a forma de um plano único prolongado ao zênite e ao nadir, resultando no número sete que une as seis direções ao centro.-
Clemente de Alexandria descreve Deus como o coração do universo de onde partem seis extensões infinitas que compõem o segredo do número sete.
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A continuidade dessa concepção manifesta-se no portal da Virgem em Notre-Dame de Paris, onde uma cruz com quatro rosas simboliza a transfiguração do espaço pelo Cristo.
O símbolo cruciforme permaneceu no cristianismo com um sentido de liberação, onde a morte de Cristo aperfeiçoa o valor da cruz ao promover o destaque da energia divina.-
A revelação superpõe-se à ocultação antiga, anulando o poder de absorção do mundo opaco sobre o dinamismo primordial.
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A cruz do Gólgota transforma o espaço e o tempo humanos, deixando de ser uma prisão para se tornarem meios de reabsorção em Deus.
A simbólica cristã do Apocalipse, como o Tetramorfo que circunda o trono divino, demonstra influências de estruturas pagãs antecedentes integradas ao fluxo tradicional.-
O simbolismo mineral e as funções do fogo e do dragão apresentam analogias com o hermetismo e o orfismo.
A influência dessa corrente tradicional persistiu no Ocidente até o século XVI, sendo reconhecida pela iconografia medieval e por hinos como o Dies Irae.-
A filiação hebraica não era considerada exclusiva, admitindo-se o vínculo com tradições sibilinas e pré-cristãs.
A ruptura com a tradição universal consumou-se no século XVII através do jansenismo e do cartesianismo, que fragmentaram a percepção da unidade doutrinária.-
O jansenismo excluiu as doutrinas não cristãs como obras de danação, enquanto o cartesianismo confundiu a extensão espacial com a essência material.
O pensamento francês e europeu sofreu as consequências dessas correntes que se afastaram da compreensão metafísica da energia e da extensão.A ocultação da energia divina ocorre não apenas no espaço, mas também no tempo, gerando um paralelismo entre ciclos temporais e regiões espaciais nas tradições antigas.-
Sistemas quaternários de idades do mundo ou ciclos de sete e doze períodos derivam da aplicação dos números sagrados à dimensão temporal.
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Segmentações baseadas em castas sociais ou sistemas decimais entremesclam-se aos esquemas arcaicos sem invalidar a ideia fundamental da atividade divina encoberta.
A ideia de uma atividade metafísica manifestada através do véu do espaço-tempo constitui o legado da tradição primitiva transmitido via símbolos cruciformes.A datação precisa do surgimento desses signos permanece indeterminada devido à ausência de pesquisas arqueológicas nas regiões de origem das primeiras civilizações.O símbolo do coração na pré-história corresponde ao ponto central da cruz, representando a identidade ontológica com a luz primordial e a fonte eterna de energia.-
No cristianismo, o coração do universo assume uma dimensão humana e redentora, comunicando ao homem o ritmo do amor ilimitado e da luz sem sombras.
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