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OPINIÕES DE GORSLEBEN, HOHLENBERG E LEWIS SPENCE SOBRE A INICIAÇÃO

A REVELAÇÃO PRIMITIVA

Segundo alguns autores contemporâneos, a iniciação antiga teria, por vezes, assumido formas ainda mais próximas da doutrina cristã do que se supõe. John Gorsleben, por exemplo, ao tratar de um culto de mistério na América pré-colombiana, escreve (em Hoch-Zeit der Menschheit, Leipzig, 1929): “Aqui, o crucificado é atacado por quatro abutres, que correspondem aos quatro braços da cruz sobre o mundo, aos quatro elementos — fogo, ar, terra e água —, os quais deviam ser vencidos, entre temíveis provações, por todos aqueles que se iniciavam nos antigos mistérios, após terem sido estendidos sobre o solo na posição de crucificação, atados à cruz, mortos pela morte mística, sepultados e mergulhados em uma contemplação solitária de três dias para ressuscitar para uma nova vida do espírito, na qualidade de nascidos pela segunda vez e renovados por esse segundo nascimento”. R.-J. Gorsleben possui certamente um conhecimento excepcional da proto-história, mas teme-se sempre que seu dom para aproximações o leve longe demais. Sobre o ponto considerado, desejam-se, consequentemente, provas ou, ao menos, presunções sérias. Uma de suas grandes ideias é que, muitos milênios antes da descoberta da América, existia entre certos povos americanos, graças à irradiação de uma cultura superior, um verdadeiro cristianismo primitivo, porém sob forma distinta do cristianismo atual. De fato, se a passagem mencionada concernente à crucificação do iniciado repousa sobre fatos controlados, a analogia é impressionante.

O.-E. Briem, em Les Sociétés Secrètes de mystères (tradução francesa, 1941), cita extensamente páginas de Hohlenberg que seguem a mesma direção das visões de Gorsleben. Destaquem-se, por exemplo, as seguintes linhas (pp. 205-206): “Encontra-se o símbolo da cruz em toda parte nos mistérios, quer se trate da cruz gamada ou da cruz em tau dos egípcios, da svastika dos hindus, da terminologia filosófico-simbólica de Platão ou dos instrumentos de tortura da Paixão. O corpo do iniciado fora estendido em cruz sobre o solo — talvez estivesse ligado a uma cruz verdadeira — e ele perdera a consciência. Quando se encontrava em estado de catalepsia e aparentemente sem vida, era desatado da cruz, transportado para a Câmara do Rei (trata-se aqui da iniciação egípcia) e colocado no sarcófago de granito. As cortinas eram então baixadas, todas as saídas fechadas, e ele repousava três dias em um isolamento e silêncio absolutos. Durante esse lapso de tempo, operava-se nele a transformação que era o objetivo e a justificativa da iniciação”.

Por mais interessantes que possam ser textos desse gênero, não se julga que estejam suficientemente amparados pela documentação para serem validados. Nada estabelece de modo decisivo um papel tão preciso da cruz nas iniciações e nos mistérios. O símbolo cruciforme possuiu, inegavelmente, nas tradições antigas, um alto valor, que se buscará destacar mais adiante, apoiando-se em considerações de outra ordem. No entanto, seria prematuro, em nossa opinião, fazê-lo intervir no presente capítulo. Seria forçar os fatos, ao menos tais como estão atualmente acessíveis.

Cite-se ainda, a respeito dos Mistérios egípcios, esta página de Lewis Spence, em The Mysteries of Egypt or the Secret Rites and Traditions of the Nile (Londres, 1930, p. 35): “O lugar dos mistérios egípcios na tradição secreta é claro e nítido. Neles encontravam-se reunidas e expressas toda a sabedoria e a ciência oculta da antiguidade, cristalizadas e sistematizadas de tal sorte que, se tivessem sido conservadas em forma não alterada, teriam sem dúvida poupado às épocas posteriores muitas catástrofes religiosas e diversas manifestações de falso misticismo. Mas, devido à negligência e à incúria daqueles que haviam recebido a incumbência de preservar esses valores, e talvez ainda mais em razão da influência dos cínicos, que se impunha do exterior, sua beleza divina foi gradualmente destruída, de modo que, em definitivo, nada mais restou senão um esqueleto descarnado de rituais e cerimônias. Não tenho dúvida de que a religião cristã constituiu uma tentativa prática de fazer reviver as suas ideias principais, hipótese em favor da qual falam todos os fatos. O traço característico desse esoterismo era a união pessoal com a divindade, realizada por uma ressurreição mística, tal como se manifesta nos relatos dos patriarcas, na religião de Osíris, entre os sábios da Índia e, em suma, em todas as grandes religiões do mundo”.

Aqui, como anteriormente, devem-se fazer reservas. As fontes egípcias conhecidas não confirmam, com efeito, a existência de profundas doutrinas esotéricas que teriam sido transmitidas em sociedades fechadas (veja-se sobre este ponto V. Sourdille, Hérodote et la Religion de l'Egypte, Paris, 1910, pp. 290 seq., e Wiedmann, Herodots Zweites Buch, Leipzig, 1890, pp. 29 seq.). Segundo a observação de O. E. Briem (loc. cit. p. 148), os mistérios egípcios, os quais, sem dúvida, constituíam o ponto culminante da vida religiosa do país, eram estreitamente aparentados aos mistérios babilônicos. Não possuíam, portanto, nada de oculto, embora obrigassem os iniciados ao segredo.

Por outro lado, Lewis Spence não parece dar-se conta da inovação radical introduzida pelo cristianismo. Ele não percebe que o homem recriado, graças à intervenção transcendente de um Eu incriado, ao intercalar-se no centro do sistema fundado por e sobre o homem caído, modifica totalmente o espírito e as perspectivas desse sistema, embora adotando e continuando as suas formas. No axioma nihil innovatur nisi quod traditur, ele percebe apenas o traditur; o innovatur escapa-lhe. Em outros termos, ele permanece na ocultação; não parece suspeitar da modalidade nova da revelação. As profundezas da evolução humana permanecem-lhe fechadas.

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