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INICIAÇÃO ENTRE OS "PRIMITIVOS" E OS SEMI-CIVILIZADOS

A REVELAÇÃO PRIMITIVA

Mesmo entre as populações consideradas selvagens, a iniciação consiste essencialmente em revelar a existência de um mundo real, de um universo divino, e em estabelecer o contato dos noviços com ele, após destituí-los de sua personalidade antiga. Em uma tribo muito primitiva, os Kurnai do sudeste da Austrália, pratica-se, por exemplo, durante a festa de iniciação dos jovens chamados yeraeil, na qual se reúnem todas as tribos, a seguinte cerimônia arcaica descrita por A. W. Howitt: os supervisores seguram os noviços, elevando-os com os braços estendidos em direção ao céu como se os confiassem ao Ser Supremo; os guardiães são, em seguida, eles próprios levantados, com o rosto voltado para as suas respectivas terras. Durante esse tempo, todos os assistentes mantêm o braço estendido para a luz do céu, e os noviços fazem o mesmo durante sua elevação. Trata-se, por esse meio, de vincular os jovens ao Ser Soberano, denominado, na tribo em questão, Moungan ngaoua (nosso Pai).

Nas populações vinculadas ao totemismo, a ideia mais difundida é a de que a iniciação deve tornar o homem tão semelhante quanto possível ao totem, a fim de fazê-lo participar da energia invisível que caracterizava o ancestral. Veste-se, portanto, a sua pele, arruma-se o cabelo e chega-se a praticar mutilações para aproximar-se dele pelo aspecto. Os Minitarees revestem-se de peles de lobos. No Peru, utilizam-se penas de condor. Entre os Omahas, os homens portam duas mechas de cabelo que imitam os chifres do búfalo totem. O clã da tartaruga imita, no corte de cabelo, a própria tartaruga. Em outros locais, removem-se dois dentes ou lixam-se os mesmos para assemelhar a mandíbula à do animal totem. A tatuagem do animal totem sobre o corpo é muito difundida. Geralmente, também se absorve o mana veiculado por esse animal, imitando-o por meio da dança. Ou, ainda, introduz-se o seu sangue em ferimentos feitos nos jovens. Em todos os casos, a iniciação é uma adesão mais íntima ao mana preternatural contido no totem.

A América do Norte, onde o totemismo se encontra mesclado ao animismo oriundo do matriarcado, oferece ritos de iniciação mais complexos, sobretudo nos agrupamentos de grandes médicos, que apresentam os traços mais típicos das sociedades ameríndias de Mistérios. A grande associação Midewiwin, dos Algonquinos, é uma das mais conhecidas. Supõe-se que tenha sido fundada por um espírito poderoso e benevolente, Minabozho, o mais próximo do Grande Espírito (Kitschi Marrido). Ela conserva, à semelhança de todos os agrupamentos análogos, a tradição relativa às origens do mundo (tradição incorporada ao ritual de criação); e as cerimônias de recepção comportam a representação cênica dos ensinamentos confiados por Minabozho aos primeiros grandes médicos. É no decorrer do jejum dito da puberdade, no momento em que se supõe que ele receba seu espírito protetor, que o jovem é convidado a entrar na sociedade: o que custa muito caro e pode conduzir o interessado à miséria. A associação comporta, além disso, quatro graus, aos quais se acede por longos estágios. O iniciado vangloria-se de exercer sobre o dinamismo atualmente oculto um poder tanto maior — ou seja, de manejar uma quantidade de energia sagrada tanto mais abundante — quanto mais elevado for o escalão ao qual pertença. No topo da escala, o midé consegue assemelhar-se a Minabozho e detém a faculdade sobrenatural de conversar com o próprio Grande Espírito. Assim, como indica A. B. Alexander, todo o pano de fundo mitológico dos mistérios midewiwin é uma representação do caminho da terra ao céu, tal como foi estabelecido aquando da criação; a memória disso conservou-se nos mistérios graças ao conhecimento das forças criadoras secretas que eles proporcionam. É o conhecimento desse caminho que constitui a fonte dos poderes espirituais possuídos pelos iniciados. É por meio dele, igualmente, que se tem acesso à vida que a morte não atinge.

Esta conclusão situa de maneira muito exata o cerne do assunto e mostra claramente que a sobrevivência é um ponto não inicial, mas derivado. Trata-se, primeiramente, de obter aqui na terra o acesso ao mundo sobrenatural, ou melhor, ao Éden, que a ocultação velou; é por esse meio que se assegura, como consequência, uma vida mais feliz após a morte. Tal é a essência de todos os Mistérios e de todas as iniciações.

Esta visão depreende-se igualmente da etnografia melanésia e da etnografia africana. Em toda parte, o que predomina é a crença em uma existência energética de ordem superior, capaz de animar o homem com virtudes particulares. A essa existência acede-se ao perceber que a vida anterior foi uma vida de ignorância e de morte, uma vida de opacidade, não tendo nada em comum com a existência verdadeira: é necessário, portanto, morrer para essa vida de trevas para renascer para a da luz e da potência. Daí as dores e as provações, por vezes terríveis, infligidas aos noviços, a fim de melhor lhes fazer sentir que o passado está abolido e que uma existência nova se inaugura para eles. Frequentemente, os iniciados recebem, inclusive, novos nomes. Com frequência também, os jovens adeptos são mergulhados em um sono hipnótico, prolongado ou repetido, do qual saem sem se recordarem de sua vida passada: devem aprender tudo novamente.

Monsenhor Le Roy (em La Religion des Primitifs) descreve assim a iniciação ao Bwiti (Bouiti), que é o Grande Fetiche, na região africana de Setté Cama: Para entrar na sociedade, o postulante deve primeiro mastigar raízes e beber uma decocção de cascas de um arbusto que os botânicos conhecem pelo nome de Strychnose Ikaja: ele não tarda a adormecer e a cair em um estado de completa inconsciência. Coloca-se-lhe então uma liana no pescoço e, quando, três dias depois, ele começa a voltar a si, o feiticeiro convida-o a olhar em um pedaço de vidro fixado ao ventre do Bouiti. Ali verá certas figuras que deve detalhar: se disser corretamente, é recebido; caso contrário, é porque o fetiche não quis mostrar-se a ele.

No baixo Congo, a iniciação dura por vezes vários meses. Ela efetua-se fora das aldeias, nas florestas, e comporta, além de diversas provações, o ensino de uma língua nova, danças rituais, o conhecimento de remédios e de fórmulas sacrossantas. Quando o iniciado retorna entre os seus, supõe-se que ele volta do mundo dos Espíritos e, sob outro nome, recomeça outra vida. A ocultação primitiva perdeu, ao menos em parte, o seu domínio sobre ele.

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