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AS ORIGENS DO ESPIRITISMO
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O espiritismo data exatamente de 1848, data importante por refletir a mentalidade especial da época e por ser em períodos conturbados que tais coisas nascem e se desenvolvem com preferência.
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A necessidade de marcar essa data devido às particularidades das teorias espíritas que refletem a mentalidade de sua época de origem.
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A lembrança de que as circunstâncias do início do espiritismo são bastante conhecidas, bastando um breve relato com insistência nos pontos mais instrutivos e menos notados.
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O ponto de partida do espiritismo deu-se na América, com a família Fox em Hydesville, no ano de 1847, onde fenômenos comuns de casas assombradas, como ruídos e deslocamentos de objetos, ganharam um novo desenvolvimento quando se começou a interrogar o agente misterioso e a obter respostas, inventando-se assim o telégrafo espiritual.
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A menção da origem alemã da família Fox (antiga Voss) como uma indicação para futuras pesquisas sobre as causas reais do movimento espírita.
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A natureza involuntária e passiva do papel da família Fox no início, como instrumentos de uma força qualquer, à semelhança de todos os médiuns.
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A novidade introduzida por Isaac Post, um Quaker, ao inventar o meio de comunicação por letras do alfabeto, através do qual o espírito se identificou como um colportor assassinado na casa.
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A descoberta da mediunidade a partir da observação de que os fenômenos ocorriam principalmente na presença das jovens Fox, e a consequente fundação do modern spiritualism, termo depois abreviado para spiritualism nos países anglo-saxões e substituído por spiritisme na França.
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Rapidamente se constituíram reuniões ou círculos espirituais, onde novos médiuns surgiam e onde se afirmava que o movimento havia sido preparado por espíritos de cientistas e filósofos, como Benjamin Franklin, com o objetivo de estabelecer relações regulares entre os dois mundos, refletindo tendências características da época, como o recurso a fluidos imponderáveis.
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A afirmação de que espíritos como Benjamin Franklin teriam dado indicações para aperfeiçoar as comunicações entre vivos e mortos, levando à invenção de mesas girantes, cadranos alfabéticos e outros instrumentos.
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A caracterização da escolha de Benjamin Franklin como patrocínio adequado às tendências do novo movimento, dadas a sua origem americana e a sua natureza de moralista de incrível platitude.
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A relação entre as teorias espíritas sobre fluidos e as concepções do final do século XVIII, particularmente a hipótese do fluido elétrico e o mesmerismo, que pode ser visto como um precursor do espiritismo.
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A família Fox, expulsa da Igreja Metodista Episcopal, estabeleceu-se em Rochester, onde, após enfrentar hostilidade e uma tentativa de linchamento, foi salva pela intervenção de um Quaker, George Willets, o que sugere afinidades entre o quakerismo e o espiritismo, tanto nas tendências humanitárias quanto em certas manifestações de inspiração.
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A expulsão da família Fox da Igreja Metodista devido à sua missão de espalhar o conhecimento dos fenômenos espiritualistas.
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A intervenção de um Quaker pela segunda vez na história do espiritismo, indicando possíveis afinidades entre as duas correntes.
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A sugestão de que a existência de seitas como a dos Quakers pode ter contribuído para a aceitação das primeiras manifestações espiritualistas, assim como o magnetismo animal se relacionou com os convulsionários jansenistas.
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É curioso que a historiadora dos primórdios do spiritualism moderno, Emma Hardinge-Britten, fosse membro da sociedade secreta H. B. of L. (Hermetic Brotherhood of Luxor), a qual afirmava ter provocado diretamente os primeiros fenômenos espiritualistas por meio de homens vivos agindo à distância, e não por espíritos de mortos, uma tese considerada plausível independentemente das contingências históricas da própria organização.
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A identificação de Emma Hardinge-Britten, autora do relato histórico sobre os inícios do spiritualism, como membro da H. B. of L., sociedade secreta já mencionada a propósito das origens da Sociedade Teosófica.
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A tese da H. B. of L. de que os primeiros fenômenos foram provocados por membros vivos do seu círculo interior, agindo por meios conhecidos apenas de iniciados, e não por espíritos de mortos.
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A dificuldade em estabelecer a antiguidade da H. B. of L. anterior a 1870, mas a certeza de que ela herdou organizações anteriores ao meio do século XIX, como a Fraternidade de Eulis, dirigida por Paschal Beverly Randolph.
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A declaração de que, independentemente do nome ou forma da organização, a tese da H. B. of L. sobre sua intervenção nos eventos parece, em si mesma, fortemente plausível.
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A fim de examinar a plausibilidade da tese da H. B. of L., formulam-se observações gerais sobre casas assombradas ou lugares fatídicos, distinguindo-se dois casos principais: o primeiro, que parece aplicar-se a Hydesville, envolve um lugar onde alguém pereceu de morte violenta e o corpo ficou oculto, ligando-se os fenômenos a algo proveniente do morto que não é o seu espírito; o segundo envolve a ação de um homem vivo, um feiticeiro, que utiliza um sujeito passivo como instrumento, o que se assemelha à mediunidade mas tem origem diversa.
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A constatação de que os fenômenos de casas assombradas são conhecidos desde a antiguidade e apresentam uma constância notável em seus traços característicos.
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A descrição do primeiro caso, o da verdadeira assombração, onde a produção dos fenômenos está ligada ao local de um crime com corpo não sepultado, e onde a realização de certos ritos fúnebres podia fazê-los cessar, como exemplificado por Plínio, o Jovem.
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A menção da importância de determinar o que os antigos entendiam por manes e outros termos, para esclarecer a questão das evocações.
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A descrição do segundo caso, exemplificado pelos fatos do presbitério de Cideville, onde a ação de um feiticeiro se exerce sobre um local por meio de um instrumento humano inconsciente, um fenômeno de feitiçaria que difere da mediunidade espírita mas envolve forças análogas.
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A crítica à tendência dos ocultistas contemporâneos, influenciados pela teoria espírita, de sempre procurar um médium em casos de assombração, quando há exemplos de lugares desertos onde os fenômenos ocorrem na ausência de qualquer ser humano.
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A distinção final entre a assombração sem médium, ligada ao lugar, e a ação de um feiticeiro, que requer condições específicas e um sujeito passivo.
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No primeiro caso, que parece explicável por algo proveniente de um morto, mas não pelo seu espírito, essa explicação não exclui a possibilidade de intervenção de homens vivos que conheçam as leis dessas forças e possam dirigi-las, como feiticeiros ou iniciados, sendo plausível que tais agentes tenham aproveitado as condições favoráveis em Hydesville para dar uma direção determinada aos fenômenos, que por si mesmos não teriam gerado o movimento espírita.
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A consideração de que forças preexistentes num local poderiam ser dirigidas e utilizadas por homens que conhecem as suas leis, talvez com mais facilidade do que agir onde tais forças não existem.
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A referência ao discurso de Annie Besant a espíritas, onde ela atribui a adeptos o uso das almas dos mortos para provocar o movimento, interpretação que pode ser entendida como o algo proveniente do morto, aproximando-se da tese da H. B. of L.
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A opinião de que é exagerado falar em adeptos no sentido estrito, mas que é possível que iniciados de algum tipo tenham provocado ou orientado os fenômenos de Hydesville.
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A hipótese mais simples de que os agentes da organização em causa tenham apenas aproveitado o que se passava para criar o movimento espiritualista, agindo por sugestão sobre os habitantes e visitantes.
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A necessidade de admitir ao menos um mínimo de intervenção externa, pois, se o fato de Hydesville fosse condição suficiente para o nascimento do espiritismo, este teria surgido muito antes, dados os casos similares anteriores.
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A reflexão geral de que movimentos espontâneos são raros, sendo sempre necessária uma impulsão, ainda que os chefes aparentes a ignorem, aspecto que os historiadores que só se apoiam em documentos escritos tendem a negar.
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A existência de casos similares ao de Hydesville em épocas mais recuadas, como o espectro batedor de Dibbelsdorf em 1762 e o caso da vidente de Prevorst, ambos na Alemanha, sugere que o solo alemão, com suas tradições de sociedades secretas dedicadas à magia e evocações no século XVIII, poderia ter gerado o movimento, mas foi na América que ele encontrou o meio mais favorável.
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A menção do caso de Dibbelsdorf, na Saxônia, em 1762, como extremamente semelhante ao de Hydesville, com respostas a perguntas, o que poderia ter feito nascer o espiritismo naquela ocasião.
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A referência ao livro do Dr. Kerner sobre a vidente de Prevorst, publicado poucos anos antes do espiritismo, como mais um caso alemão de fenômenos do mesmo gênero.
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A lembrança das atividades de certos ramos da alta Maçonaria alemã na segunda metade do século XVIII, como no caso de Schrœpfer, que se ocupavam de evocações e magia, práticas que, vulgarizadas, poderiam ter gerado um movimento como o espiritismo.
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A indicação de que a H. B. of L. esteve em relação com sociedades secretas alemãs do início do século XIX que se ocupavam de magia, evocações e magnetismo, conforme sugerido no livro anônimo Ghostland, editado sob seus auspícios.
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A conclusão de que o movimento espírita, embora pudesse ter surgido na Alemanha, eclodiu na América por encontrar ali um meio mais favorável, como prova a proliferação de seitas neoespiritualistas naquele país.
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Uma questão final é o objetivo dos inspiradores do modern spiritualism, que parece ter sido o de combater o avanço do materialismo, chamando a atenção para fenômenos que ele não podia explicar; no entanto, mesmo considerando essa motivação, é possível que o movimento tenha rapidamente escapado ao controle de seus criadores, degenerando em uma vulgarização que combateu um erro por outro, ou que essa tenha sido uma estratégia deliberada de uma política que utiliza o erro como contrapeso, reservando a verdade para poucos.
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A definição do provável objetivo dos inspiradores: lutar contra a invasão do materialismo, opondo-lhe um contrapeso no seu próprio terreno, o que só teria sentido na época moderna.
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A ressalva de que há diferentes tipos de iniciados, alguns dos quais professavam teorias materialistas de tipo alargado, o que explica possíveis contradições e oposições entre escolas.
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A consideração de que o movimento pode ter desviado ao se popularizar, escapando ao controle dos seus inspiradores e assumindo um caráter diverso das intenções iniciais.
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A hipótese de que os promotores, mesmo prevendo as consequências, possam ter considerado o espiritismo um mal menor em comparação com o materialismo, ou que a coexistência de dois erros opostos fosse preferível à expansão de um só.
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A possibilidade de que diferentes correntes de ideias tenham tido uma origem análoga, servindo a um jogo de equilíbrio característico de uma política muito especial, que não se atém às aparências.
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A referência ao adágio vulgus vult decipi, ergo decipiatur, como um traço dessa política que reserva a verdade para si e espalha erros considerados oportunos.
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A contraposição dessa atitude com a de dizer a verdade para quem é capaz de compreendê-la, sem se preocupar com os outros, ambas possivelmente justificáveis em diferentes casos.
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A conclusão de que essas são apenas possibilidades deduzidas, sem pretensão de resolver completamente todas as questões, mas afirmando-se que foi dito mais sobre o assunto do que jamais se dissera até então.
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