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A EXPLICAÇÃO DOS FENÔMENOS

O ERRO ESPÍRITA

  • A explicação dos fenômenos espíritas pode ser abordada sem recorrer à hipótese espiritualista, existindo razões lógicas para rejeitá-la antes mesmo de considerar os fenômenos, embora a mentalidade experimental da época possa ser mais receptiva a essa rejeição se for apresentada a inutilidade da teoria espírita e a existência de alternativas explicativas.
    • O objetivo não é um estudo aprofundado dos fenômenos espíritas, mas sim demonstrar que é possível prescindir da hipótese espiritualista.
    • Razões decisivas para rejeitar a hipótese espiritualista existem independentemente da consideração dos fenômenos.
    • A mentalidade contemporânea, voltada para o experimental, é mais propensa a aceitar a impossibilidade de uma teoria se for demonstrada sua inutilidade e a existência de teorias substitutivas.
  • Os fenômenos psíquicos, em sua maioria, não são objeto da ciência ordinária, nem da fisiologia ou psicologia clássicas, e não possuem caráter transcendente, sendo comparáveis à magia como ciência experimental, ao passo que a causa dos fenômenos, e não o fenômeno em si, pode ser transcendente, como exemplificado pela diferença entre fenômenos de santos e de feiticeiros.
    • Muitos fatos escapam aos quadros estreitos da ciência moderna, não se limitando à fisiologia ou à psicologia clássica.
    • Nenhum fenômeno possui caráter transcendente em si mesmo, incluindo a magia, que é uma ciência experimental.
    • A causa de um fenômeno pode ser transcendente, como na teurgia, diferenciando fenômenos exteriormente semelhantes, a exemplo dos casos de santos e feiticeiros.
  • A análise dos fenômenos psíquicos deve se limitar àqueles relacionados ao espiritismo, excluindo-se aqueles já explicáveis por sugestão ou magnetismo, para, após delimitar a questão, apresentar as principais teorias explicativas dos fenômenos espíritas, classificadas pelo Dr. Gibier em quatro tipos: a teoria do ser coletivo, a teoria demoníaca, a teoria gnômica e a teoria espírita.
    • Não serão examinados todos os fenômenos psíquicos, mas apenas os ligados ao espiritismo.
    • Fenômenos de “encarnação” e de “médiuns curadores” são redutíveis à sugestão ou ao magnetismo.
    • As quatro teorias principais, segundo o Dr. Gibier, são: do ser coletivo, demoníaca, gnômica e espírita.
  • A teoria demoníaca, que atribui os fenômenos ao diabo, é rejeitada tanto por espíritas quanto por “cientistas”, mas pode ser associada à teoria gnômica por envolver a ação de seres não humanos, cuja existência é reconhecida por diversos povos e épocas, embora a concepção popular sobre esses seres seja antropomórfica e corresponda mais às aparências do que à realidade profunda.
    • Espíritas e “cientistas” rejeitam a teoria demoníaca por não acreditarem no demônio.
    • A teoria demoníaca poderia ser associada à gnômica, pois ambas tratam da ação de seres não humanos.
    • A existência de seres como gênios, fadas e gnomos é reconhecida em diversas culturas, mas as concepções populares sobre eles são antropomórficas e esotéricas.
  • A teoria dos “elementais”, originada dos “espíritos dos elementos” da magia antiga, foi adotada e modificada pelos teosofistas e ocultistas, resultando em interpretações variadas e confusas que vão desde a identificação com as mônadas de Leibniz até a assimilação às hierarquias espirituais da Cabala, demonstrando uma tendência a misturar concepções díspares.
    • Os “elementais” derivam dos “espíritos dos elementos” da magia antiga (salamandras, silfos, ondinos, gnomos).
    • Teosofistas e ocultistas modificaram e expandiram a teoria, gerando interpretações divergentes e antropomórficas.
    • Alguns ocultistas tentaram dar à teoria uma roupagem “científica”, identificando os elementais com mônadas, forças inconscientes ou centros de força, enquanto outros os confundiram com hierarquias espirituais.
  • A teoria das “cascas astrais”, omitida pelo Dr. Gibier e oriunda do teosofismo, e a teoria dos “elementares”, cujo significado é flutuante no ocultismo, representam tentativas de explicar a intervenção dos mortos nos fenômenos, seja como um simulacro do ser real ou como os princípios inferiores do defunto ainda ligados aos princípios superiores, mas ambas são rejeitadas pelos espíritas.
    • A teoria das “cascas astrais” é uma deformação de uma concepção tradicional sobre a intervenção dos mortos.
    • A teoria dos “elementares” é imprecisa, podendo confundir-se com a das cascas ou com a própria hipótese espírita.
    • Para Papus, o “elementar” seria formado pelos princípios inferiores do ser humano iluminados pela inteligência da alma, enquanto outros ocultistas o consideram o ser humano completo durante sua permanência no “plano astral”.
  • As teorias que explicam os fenômenos pela ação de seres humanos vivos baseiam-se na ideia de que algo no homem pode exteriorizar-se, uma “força” ou “fluido”, que, em vez de recorrer a fatores estranhos, pode ser suficiente para explicar fenômenos como pancadas ou movimentos de objetos, não havendo necessidade de localizar a alma, pois a ação do ser se dá onde ele atua.
    • A exteriorização de algo do ser humano é constatada em experiências como as do coronel de Rochas.
    • A noção de “fluido” (nervoso ou vital) é adotada por ocultistas, magnetizadores e espíritas, mas é criticável por materializar algo que seria melhor denominado “força”.
    • A ideia de que a alma é limitada pelo corpo ou localizável é rejeitada, pois a ação do ser se estende aonde ele atua.
  • Muitos fenômenos atribuídos a espíritos podem ser explicados pela ação da força exteriorizada do médium ou dos assistentes, manifestando, por meio do subconsciente, memórias latentes, pressentimentos ou conhecimentos adquiridos por vias ignoradas, sem necessidade de intervenção espiritual.
    • As respostas obtidas em sessões raramente ultrapassam o nível intelectual do médium ou dos assistentes.
    • O médium, em estado especial, pode refletir a pensamento de qualquer um dos presentes, consciente ou subconscientemente.
    • O subconsciente abrange a memória latente, pressentimentos e a capacidade de acesso a seres e coisas desconhecidos pela consciência comum.
  • A teoria do “ser coletivo”, admitida por alguns espíritas, explica os fenômenos como resultantes da combinação dos fluidos ou subconscientes do médium e dos assistentes, formando uma entidade temporária que se fortalece com a repetição das sessões, sendo preferível interpretar esse ser coletivo como o conjunto das ações e reações dos subconscientes em presença.
    • O “ser coletivo” seria formado pela combinação dos perispíritos ou fluidos dos participantes.
    • A concepção se aproxima da ideia de “egrégoras” de Éliphas Lévi, mas os ocultistas a interpretam de forma literal.
    • A explicação mais adequada para o ser coletivo são as interações dos diversos subconscientes, sem necessidade de invocar fluidos.
  • Os fenômenos de “aportes” e “materializações”, que envolvem deslocamento de objetos através de obstáculos ou aparecimento de formas tangíveis, podem ser explicados sem a intervenção de espíritos, respectivamente, por propriedades do ser vivo, como a desmaterialização e rematerialização, ou pela teoria da “ideoplastia”, segundo a qual a forma materializada é moldada a partir de uma imagem mental do médium ou de um assistente.
    • Os “aportes” são deslocamentos de objetos que podem ser explicados por propriedades do ser vivo, como a capacidade de operar mudanças de estado na matéria.
    • A teoria da “ideoplastia” explica as “materializações” como a concretização de uma imagem mental, geralmente subconsciente.
    • Casos de materializações de personagens imaginários ou baseadas em gravuras conhecidas corroboram a teoria da ideoplastia.
  • A noção de um “duplo” ou “corpo astral” exteriorizado pelo médium é criticada por ser uma representação grosseira de um “estado sutil” incorpóreo do ser vivo, que, após a morte, deixa apenas um vestígio desse estado, não devendo ser confundido com o ser real nem com um corpo de matéria rarefeita.
    • O “corpo astral” dos ocultistas é uma concepção materialista e inadequada do “estado sutil”.
    • O “estado sutil” é incorpóreo, relacionado a forças, e não a um corpo de matéria menos densa.
    • O que se manifesta após a morte é um vestígio desse estado sutil, não o estado em si, analogamente ao cadáver em relação ao organismo vivo.
  • A possibilidade de evocação de mortos implica logicamente a possibilidade de evocação de vivos, uma vez que o elemento evocado no morto é apenas um vestígio do estado sutil que o vivo também possui, podendo a evocação de um vivo, especialmente durante o sono, afetar seu ser real e acarretar consequências graves, como a morte súbita.
    • Se é possível evocar o vestígio do estado sutil de um morto, é igualmente possível evocar o estado sutil de um vivo.
    • A evocação de um vivo pode afetar seu ser real, ao contrário da evocação de um morto.
    • Experiências de materialização da identidade física de uma pessoa distante podem, se mal conduzidas, causar sua morte.
  • O “estado sutil” do ser humano, denominado *taijasa* na doutrina hindu e associado ao elemento ígneo, possui possibilidades que transcendem em muito os fenômenos espíritas, incluindo a transferência da consciência individual, a localização à distância, a materialização de formas e a transposição dos elementos do corpo, explicando fenômenos como a bilocação e a licantropia.
    • O *taijasa* é o princípio correspondente ao “estado sutil” na doutrina hindu, ligado à natureza do elemento fogo (têjas).
    • As possibilidades desse estado incluem a exteriorização da consciência, a condensação de uma aparência corporal e a transposição dos elementos do corpo.
    • Fenômenos como a bilocação e as aparições sob formas animais encontram explicação nessas possibilidades.
  • O “estado sutil” individual corresponde a um meio cósmico igualmente sutil, um “campo de forças” incorpóreo, onde atuam “influências errantes” não individualizadas, algumas das quais podem ser consideradas demoníacas, sendo captadas e manipuladas pela magia, mas também atraídas involuntariamente pelas práticas espíritas, com as quais o médium estabelece contato.
    • O ser vivo, em cada um de seus estados, relaciona-se com um meio cósmico correspondente.
    • O “plano astral” dos ocultistas é uma deturpação do meio cósmico sutil, que pode ser concebido como um campo de forças.
    • As “influências errantes” são forças não individualizadas do meio sutil, incluindo as de natureza demoníaca, que podem ser manipuladas pela magia e atraídas por práticas espíritas.
  • O manejo das “influências errantes” pelo mago, que as capta e individualiza temporariamente como um reflexo de sua própria consciência, permite explicar as comunicações espíritas como manifestações incoerentes dessas influências quando não dirigidas por uma vontade, sendo o médium um “condensador” passivo, à semelhança das práticas de feitiçaria, mas com a diferença fundamental de que os espíritas ignoram a verdadeira natureza das forças que evocam.
    • O mago pode captar e fixar as influências errantes, emprestando-lhes uma consciência temporária.
    • As comunicações espíritas resultam da expressão desordenada dessas influências, sem direção consciente.
    • O médium atua como um “condensador” de influências, similar ao papel do feiticeiro, mas os espíritas confundem essas influências com espíritos dos mortos.
  • As explicações oferecidas, embora sintéticas, são suficientes para demonstrar a possibilidade de uma compreensão dos fenômenos espíritas sem recorrer à hipótese espiritualista, mas não devem servir de incentivo a práticas experimentais, que são sempre desaconselháveis e perigosas.
    • O capítulo oferece uma base explicativa para os fenômenos, sem a pretensão de ser exaustivo.
    • As considerações apresentadas visam contrapor-se às divagações “neo-espiritualistas” contemporâneas.
    • É expressamente advertido que tais explicações não têm utilidade prática e não devem incentivar experimentações.
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