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PREFÁCIO

REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS

  • Desde a publicação de “A Crise do Mundo Moderno”, os eventos confirmaram amplamente as vistas então expostas, as quais, como toda consideração deste tipo, só valem enquanto aplicação dos princípios a circunstâncias particulares, ao contrário das atitudes negativas ou dos remédios insignificantes propostos por aqueles que julgam as insuficiências da época sem a conhecimento dos verdadeiros princípios.
    • Os eventos posteriores à publicação de “A Crise do Mundo Moderno” confirmaram as vistas então expostas, que foram tratadas fora de qualquer preocupação de “atualidade” imediata ou de intenção de “crítica” vã.
    • Considerações deste tipo só valem enquanto aplicação dos princípios a circunstâncias particulares.
    • Aqueles que julgaram as insuficiências da mentalidade moderna sem a conhecimento dos verdadeiros princípios limitaram-se a uma atitude negativa ou a remédios insignificantes, incapazes de deter o desordem crescente.
  • Mais do que denunciar erros, importa explicá-los segundo o ponto de vista tradicional, mostrando como o mundo moderno, embora uma anomalia em si mesmo, corresponde exatamente às condições de uma fase do ciclo histórico, a do Kali-Yuga, cujas leis só podem ser compreendidas por quem esteja inteiramente desembaraçado da mentalidade moderna, e é com este propósito doutrinal que se dá seguimento a “A Crise do Mundo Moderno”, aguardando o momento oportuno para a realização de tal projeto, independentemente da pressa moderna.
    • É mais interessante e instrutivo explicar as erros, mostrando como e por que se produziram, pois tudo o que existe, mesmo o erro, tem sua razão de ser, e o desordem mesmo deve encontrar seu lugar na ordem universal.
    • O mundo moderno, considerado em si mesmo, é uma anomalia, mas, situado no conjunto do ciclo histórico, corresponde exatamente às condições da fase extrema do Kali-Yuga, não podendo ser diferente do que é.
    • Para ver o desordem como elemento da ordem, ou reduzir o erro a uma vista parcial e deformada da verdade, é preciso elevar-se acima do nível das contingências.
    • Para compreender a significação do mundo moderno segundo as leis cíclicas, é preciso estar inteiramente desembaraçado da mentalidade moderna, que implica a ignorância dessas leis e de todas as verdades tradicionais.
    • O propósito de dar a “A Crise do Mundo Moderno” uma continuação mais estritamente doutrinal, para mostrar a explicação da época atual segundo o ponto de vista tradicional, foi adiado por circunstâncias diversas, mas tudo o que deve acontecer acontece em seu tempo, independentemente da pressa moderna.
  • O traço característico da mentalidade moderna que servirá de ponto central ao estudo é a tendência a reduzir tudo ao ponto de vista quantitativo, tendência fundamental que traduz as condições da fase cíclica atual, o “reino da quantidade”, que é a expressão do movimento de “descida” que afasta gradualmente do princípio ao longo de um Manvantara, tendo a quantidade pura como limite inferior jamais atingido, e é em virtude da lei da analogia que o ponto mais baixo é um reflexo obscuro ou uma imagem invertida do ponto mais alto.
    • A tendência a reduzir tudo ao ponto de vista quantitativo, tão marcada nas concepções científicas e na organização social dos últimos séculos, é um dos traços mais visíveis e fundamentais da mentalidade moderna, podendo a época ser definida como o “reino da quantidade”.
    • Esta tendência traduz rigorosamente as condições da fase cíclica a que a humanidade chegou nos tempos modernos, sendo a que conduz logicamente ao termo da “descida” que se efetua, com velocidade sempre acelerada, do começo ao fim de um Manvantara.
    • A “descida” é o afastamento gradual do princípio, inerente a todo processo de manifestação, e, no nosso mundo, o ponto mais baixo reveste o aspecto da quantidade pura, desprovida de toda distinção qualitativa, limite que, no percurso do ciclo, jamais pode ser atingido.
    • Em virtude da lei da analogia, o ponto mais baixo é como um reflexo obscuro ou uma imagem invertida do ponto mais alto, donde resulta que a ausência mais completa de todo princípio implica uma espécie de “contrafação” do princípio mesmo.
    • Esta observação ajuda a compreender as enigmas do mundo moderno, que, para se manter, precisa negá-las, pois se os contemporâneos pudessem ver o que os dirige e para onde tendem realmente, o mundo moderno cessaria de existir.
    • Até que o ponto de paragem da “descida” seja atingido, estas coisas só poderão ser compreendidas pelo pequeno número dos que preparam os germens do ciclo futuro, aos quais exclusivamente se dirige a exposição.
  • Aplica-se a observação da analogia inversa à distinção entre a ciência tradicional e a ciência profana, mostrando que as similitudes exteriores, como o uso dos números, provêm de correspondências invertidas, sendo a ciência tradicional essencialmente qualitativa e a profana quantitativa, reduzindo a realidade ao inferior, e as ciências profanas modernas são apenas “resíduos” degenerados das antigas ciências tradicionais, assim como a quantidade é o “resíduo” de uma existência esvaziada de sua essência.
    • A observação sobre a analogia inversa serve para evitar a confusão entre a ciência tradicional e a ciência profana, quando certas similitudes exteriores poderiam induzir a ela.
    • As similitudes provêm de correspondências invertidas: a ciência tradicional considera o termo superior e só dá valor relativo ao inferior por sua correspondência com aquele, enquanto a profana só vê o termo inferior e pretende reduzir a realidade a ele.
    • Os números pitagóricos, como princípios das coisas, não são os números dos matemáticos modernos, assim como a imutabilidade principial não é a imobilidade de uma pedra, nem a verdadeira unidade é a uniformidade de seres desprovidos de qualidades.
    • Os partidários da ciência quantitativa quiseram contar os pitagóricos entre seus “precursores” por também falarem de números.
    • As ciências profanas modernas são “resíduos” degenerados das antigas ciências tradicionais, assim como a quantidade é o “resíduo” de uma existência esvaziada de sua essência, sendo por isso incapazes de fornecer a explicação real de qualquer coisa.
    • Assim como a ciência tradicional dos números difere da aritmética profana, há uma “geometria sagrada”, essencialmente qualitativa, base de todo simbolismo figurado, dos caracteres alfabéticos aos yantras iniciáticos, que difere profundamente da geometria “escolar”.
  • O estudo visa mostrar a verdadeira natureza das ciências tradicionais e o abismo que as separa das ciências profanas, demonstrando como a decadência da mentalidade humana segue a marcha descendente do ciclo, e que, apesar da incompreensão de muitos, devido a hábitos mentais adversos, o modo de expressão simbólica, necessário ao ensino iniciático, permanece o único veículo para tais considerações.
    • O estudo pretende mostrar a verdadeira natureza das ciências tradicionais e o abismo que as separa das ciências profanas, que são sua caricatura ou paródia, permitindo medir a decadência da mentalidade humana e ver como esta segue a marcha descendente do ciclo.
    • Estas questões são inesgotáveis por natureza, mas se procurará dizer o suficiente para que cada um possa tirar conclusões sobre o “momento cósmico” da época atual.
    • As considerações podem parecer obscuras para alguns por estarem muito afastadas de seus hábitos mentais e da educação recebida.
    • O modo de expressão simbólica é o único possível para certas coisas, e por isso não serão compreendidas por aqueles para quem o simbolismo é letra morta.
    • O modo de expressão simbólica é o veículo indispensável de todo ensino de ordem iniciática, e os que não têm “qualificação” intelectual não penetrarão o verdadeiro sentido dos símbolos, mesmo que possuam graus iniciáticos “virtuais”.
  • Apesar da expansão mundial do estado de espírito moderno, ele permanece de origem puramente ocidental, e sua influência no Oriente não passa de uma “ocidentalização”, não invalidando a distinção entre espírito oriental (tradicional) e ocidental (moderno), e a atual preponderância do Ocidente, fundada na força material, é em si mesma uma expressão do “reino da quantidade”, correspondendo simbolicamente ao ocaso, ao ponto onde o sol se põe.
    • O estado de espírito especificamente “moderno”, por mais que se expanda pelo mundo, permanece de origem puramente ocidental, e sua influência no Oriente é uma “ocidentalização”.
    • Não se pode opor essa influência à diferença entre espírito oriental e ocidental, que é a mesma que entre espírito tradicional e espírito moderno.
    • A preponderância do Ocidente corresponde simbolicamente à “fim de um ciclo”, pois o Ocidente é o ponto onde o sol se põe, onde “o fruto maduro cai ao pé da árvore”.
    • Os meios pelos quais o Ocidente estabeleceu sua dominação, cuja última consequência é a “modernização” dos Orientais, repousam unicamente sobre a força material, o que é uma expressão do “reino da quantidade”.
  • A verdade é necessariamente coerente, ao contrário dos “sistemas” filosóficos e científicos profanos, que traduzem a insuficiência de mentalidades individuais; a falsa unidade do indivíduo, concebido como um todo completo, corresponde, na ordem humana, à do “átomo” na ordem cósmica, ambos considerados como “simples” do ponto de vista quantitativo, e o movimento de descida cíclica se efetua da unidade principial (qualidade pura) para a multiplicidade puramente quantitativa (quantidade pura), polos que expressam, respectivamente, os princípios universais de “essência” e “substância” entre os quais se produz toda manifestação.
    • A verdade é necessariamente coerente, ao contrário dos “sistemas” filosóficos e científicos profanos, que traduzem a insuficiência de mentalidades individuais, mesmo as de “gênio”.
    • A falsa unidade do indivíduo concebido como um todo completo corresponde, na ordem humana, à do pretenso “átomo” na ordem cósmica: ambos são elementos considerados “simples” do ponto de vista quantitativo, supostos suscetíveis de repetição indefinida, o que é uma impossibilidade.
    • Essa repetição indefinida é a multiplicidade pura, para a qual o mundo atual tende sem jamais poder atingi-la, pois ela está num nível inferior a toda existência manifestada, sendo o extremo oposto da unidade principial.
    • O movimento de descida cíclica se efetua entre esses dois pólos, partindo da unidade (ou do ponto mais próximo dela no domínio da manifestação) e tendendo para a multiplicidade considerada analiticamente, sem relação com nenhum princípio.
    • A multiplicidade principial está contida na verdadeira unidade metafísica; as “unidades” aritméticas ou quantitativas estão contidas na multiplicidade de baixo, que é a quantidade pura, separada de toda qualidade.
    • A multiplicidade de cima (qualitativa) é o conjunto das qualidades ou atributos que constituem a essência dos seres e das coisas.
    • A descida se efetua da qualidade pura para a quantidade pura, limites exteriores à manifestação, que são, respectivamente, uma expressão dos dois princípios universais, “essência” e “substância”, polos entre os quais se produz toda manifestação.
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