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OFÍCIOS ANTIGOS E INDÚSTRIA MODERNA
REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS
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A oposição entre os antigos ofícios e a indústria moderna reflete o antagonismo fundamental entre os pontos de vista qualitativo e quantitativo, evidenciando-se na distinção moderna entre arte e artesanato como um sintoma de degenerescência profana.
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O termo antigo artifex designava indistintamente aquele que exercia uma arte ou um ofício, pois ambas as atividades vinculavam-se a princípios metafísicos profundos e de ordem qualitativa.
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Na mentalidade contemporânea, a arte é segregada em um domínio fechado e considerada uma atividade de luxo, despida de qualquer alcance prático ou realidade ontológica.
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A redução do trabalho humano ao domínio do útil, em seu sentido mais rasteiro, caracteriza a depreciação do real que define a época atual.
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Nas civilizações tradicionais, toda atividade humana deriva de princípios superiores, transformando o trabalho em um meio de participação efetiva na tradição e conferindo-lhe um caráter sagrado e ritual.
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O axioma dos construtores medievais, ars sine scientia nihil, refere-se à dependência da prática técnica em relação à ciência tradicional, em oposição à aplicação da ciência profana que gera a indústria.
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A ausência de distinção entre o sagrado e o profano na origem permitia que cada ocupação fosse exercida como uma função sacerdotal, integrando a vida social ao domínio religioso.
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A existência de iniciações ligadas aos ofícios comprova que o trabalho manual servia de suporte para o acesso a estados superiores de consciência, possibilidade fundamentada na natureza qualitativa das artes tradicionais.
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A noção hindu de swadharma ilustra a necessidade de que cada ser cumpra uma atividade conforme à sua própria natureza essencial, princípio que é negado pela concepção mecânica e intercambiável do indivíduo moderno.
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No mundo tradicional, a função social é determinada pelas qualidades intrínsecas do ser; no mundo profano, os indivíduos são tratados como unidades numéricas desprovidas de características próprias.
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O desrespeito à natureza individual gera desordem social e repercute no próprio ambiente cósmico, dada a correlação rigorosa entre todos os estados de existência.
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A indústria moderna, ao exigir apenas atividades mecânicas, anula o que há de humano no trabalhador e atua como um impedimento ao desenvolvimento de qualquer espiritualidade autêntica.
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O ofício tradicional, como expansão da natureza humana, permite que o trabalho seja o ponto de partida da iniciação, despertando as possibilidades latentes que o ser traz em si mesmo conforme a doutrina da reminiscência de Platão.
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A qualificação iniciática requer que a atividade exterior traduza efetivamente a natureza interior, estabelecendo uma correspondência perfeita entre o conhecedor e a obra produzida.
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O verdadeiro mestre de um ofício realiza o “chefe de obra” quando sua produção é a expressão adequada e consciente de seu princípio interior, unificando a arte e o conhecimento.
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Ao contrário do acúmulo quantitativo de informações do saber profano, o ensino tradicional visa a atualização das potências do Espírito através do suporte da ação.
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O trabalho industrial anula a iniciativa humana e transforma o operário em servo da máquina, reduzindo sua atividade a movimentos mecânicos e repetitivos que despojam o indivíduo de suas qualidades humanas.
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A formação profissional moderna é, em realidade, uma deformação que ensina o homem a agir como um autômato, sem compreensão das razões ou do resultado final da produção.
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A fabricação em série visa à produção de objetos idênticos para homens que se supõe serem todos iguais, consolidando o triunfo da uniformidade e da quantidade pura.
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As moradias modernas, descritas por certos arquitetos como máquinas de habitar, representam o desaparecimento das regras rituais e da ciência da construção em favor de colmeias uniformes.
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O progresso celebrado pela mentalidade contemporânea é, sob a ótica tradicional, um movimento de queda acelerada em direção aos baixos-fundos da manifestação, onde impera a quantidade desprovida de qualidade.
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O ambiente artificial criado pela indústria reflete a cegueira da humanidade atual para com as leis cíclicas e a ordem cósmica.
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A substituição da qualidade pela quantidade no meio de vida e nos objetos de uso cotidiano é o sinal visível da degradação final deste ciclo humano.
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