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UNICIDADE E SIMPLICIDADE
REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS
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A mentalidade moderna caracteriza-se por um necessidade ilegítima e abusiva de simplificação que, aplicada ao domínio científico, conduz à formulação do pseudo-princípio segundo o qual “a natureza age sempre pelos meios mais simples”.
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Trata-se de um postulado gratuito, pois nada obriga a natureza a agir segundo a simplicidade em detrimento de outras condições que podem prevalecer.
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Atribui-se à natureza uma conformidade à comodidade intelectual humana, ainda que seus modos de operação frequentemente pareçam complexos.
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Tal pseudo-princípio exprime uma espécie de preguiça mental que deseja a simplicidade para facilitar a compreensão.
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Essa tendência harmoniza-se com a concepção moderna e profana de uma ciência “ao alcance de todos”, reduzida a um nível quase infantil e desprovida de profundidade superior.
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A máxima escolástica entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem antecipa esse estado de espírito, mas só encontra aplicação legítima no domínio das construções mentais puramente matemáticas, não podendo reger a ordem efetiva da manifestação.
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Nas matemáticas puras opera-se sobre a quantidade abstraída, sem confronto com dados de fato.
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No domínio da natureza constata-se, ao contrário, a multiplicidade prodigiosa de espécies animais e vegetais.
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A possibilidade universal, sendo infinita, comporta tudo o que não é impossibilidade pura e simples.
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A limitação da possibilidade universal pelos sistemas filosóficos revela a mesma necessidade abusiva de simplificação.
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A falsa unificação por meio da uniformidade constitui caricatura da verdadeira unidade.
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A indivisibilidade atribuída aos “átomos” por certos filósofos e físicos contradiz a natureza corpórea, pois todo corpo, sendo extenso, é indefinidamente divisível.
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A busca de simplicidade extrema conduz a noções que já não correspondem a qualquer realidade.
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A unidade principial, embora absolutamente indivisível, contém eminentemente a plenitude qualitativa de todas as essências, ao passo que a descida na manifestação implica progressiva limitação e simplificação até a pura quantidade.
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Na unidade encontram-se transformadas e plenificadas todas as qualidades, livres de separatividade.
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A manifestação impõe condições limitativas próprias de cada estado ou modo.
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A descida para níveis inferiores restringe as possibilidades e simplifica a essência dos seres.
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A simplificação culmina na quantidade pura, com supressão de toda determinação qualitativa.
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A aplicação dessa simplificação ao domínio espiritual manifesta-se exemplarmente no Protestantismo.
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No Protestantismo observa-se supressão de ritos, primazia da moral sobre a doutrina e redução desta a fórmulas rudimentares.
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O Protestantismo constitui a única produção religiosa do espírito moderno, já orientado por tendências antitradicionais.
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A substituição da religião pela “religiosidade” sentimental é considerada progresso e espiritualização, mas resulta em vacuidade.
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A alegada “simplicidade primitiva” invocada por reformadores encobre inovações e contradições com a ideia de progresso.
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O germe contém virtualmente todas as possibilidades do ser, revelando complexidade qualitativa originária.
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A tradição contém desde a origem a totalidade da doutrina e de seus desenvolvimentos legítimos.
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As intervenções humanas apenas restringem, diminuem ou desnaturam a tradição, caracterizando a obra dos “reformadores”.
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Os “modernistas”, tanto ocidentais quanto orientais ocidentalizados, exaltam a simplicidade doutrinal como progresso religioso, vinculando-a à ideia democrática de tornar tudo acessível e rejeitando o esoterismo.
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Afirmar a simplicidade de uma doutrina não constitui razão válida para sua adoção por inteligências mais elevadas.
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A democratização da ciência e da religião acompanha a negação do esoterismo.
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O esoterismo dirige-se à elite e não se submete à exigência de simplicidade.
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A religião, enquanto parte exterior da tradição, deve oferecer compreensão proporcional às capacidades individuais, sem reduzir-se ao mínimo acessível ao menos inteligente.
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A dimensão exterior serve de suporte ao aspecto interior iniciático, complementar e necessário.
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A rejeição da iniciação conduz ao literalismo mais estreito.
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A pretensa espiritualização culmina na ausência de espírito, ilustrando o paradoxo formulado por Pascal.
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A expressão “simplicidade primitiva” poderia aplicar-se apenas à indistinção do “caos”, base substancial da manifestação, mas tal estado não corresponde ao verdadeiro retorno à origem.
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Toda manifestação pressupõe correlativamente essência e substância, sendo o “caos” apenas a base substancial.
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A tendência à simplificação conduz logicamente à indistinção caótica, abaixo da manifestação.
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O mundo formado a partir do “caos” é considerado sob o ponto de vista substancial e intemporal.
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O tempo existe apenas no “cosmos”, não no “chaos”.
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O desenvolvimento manifestado, segundo leis cíclicas, afasta-se do polo essencial em direção ao polo substancial.
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A resolução do “chaos” corresponde ao Fiat Lux bíblico.
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A origem verdadeira do “cosmos” reside na Luz primordial, o “espírito puro” que contém as essências de todas as coisas.
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A partir dessa origem, o mundo manifesta-se em processo de progressiva descida em direção à materialidade.
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