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MECANISMO E MATERIALISMO
REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS
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O primeiro produto do racionalismo, no domínio dito científico, foi o mecanicismo cartesiano, do qual o materialismo surgiu mais tarde por filiação direta, apesar de o termo e a formulação histórica do materialismo só se fixarem propriamente no século XVIII.
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As ideias de Descartes permitem derivações lógicas que conduzem a teorias entre si contraditórias, sem impedir a continuidade entre mecanicismo e materialismo.
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As concepções atomistas de Demócrito e sobretudo de Epicuro podem ser chamadas mecanicistas, mas não constituem ainda materialismo no sentido moderno.
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O materialismo pressupõe a noção moderna de matéria, inexistente na antiguidade.
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O materialismo corresponde à metade do dualismo cartesiano em que a concepção mecanicista foi aplicada.
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Negar a outra metade do dualismo, ou reduzir toda a realidade a uma só metade, conduz naturalmente ao materialismo.
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Leibniz mostra a insuficiência de uma física mecanicista, que só descreve aparências externas e não alcança a essência, exemplificando isso no caso do movimento ao distinguir descrição recíproca de causalidade efetiva.
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O mecanicismo possui valor apenas representativo, não explicativo, e isso caracteriza a ciência moderna.
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Considerado apenas como mudança de posição, o movimento admite reciprocidade entre dois corpos.
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Considerada a razão do movimento, apenas o corpo em que essa razão se encontra é verdadeiramente o que se move, enquanto o outro permanece passivo.
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A razão do movimento escapa às considerações mecânicas e quantitativas.
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O mecanicismo descreve o movimento, mas é incapaz de exprimir seu aspecto essencial e qualitativo, único capaz de explicação real.
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Quanto mais complexo o fenômeno e quanto mais a qualidade predomina sobre a quantidade, mais evidente se torna a impotência de uma ciência assim constituída.
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Uma ciência confinada a tais limites não tem valor de conhecimento efetivo nem mesmo no domínio relativo em que se encerra.
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Descartes pretende aplicar essa concepção insuficiente a todos os fenômenos corporais ao reduzir os corpos à extensão entendida quantitativamente e ao não distinguir, nesse plano, corpos inorgânicos e seres vivos, culminando na teoria dos animais-máquinas e no impasse do dualismo.
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A natureza inteira dos corpos é reduzida à extensão e tratada sob ponto de vista puramente quantitativo.
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A ausência de distinção entre inorgânico e vivo reduz o ser ao corpo, conforme a teoria dos animais-máquinas.
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Ao tratar do ser humano, a restrição ao corpo do homem torna-se inconsistente, pois os processos corporais seriam os mesmos mesmo sem espírito.
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O dualismo separa o humano em duas partes absolutamente heterogêneas que não podem comunicar-se, inviabilizando ação efetiva de uma sobre a outra.
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A explicação mecânica aplicada aos animais, inclusive a manifestações de caráter psíquico, favorece a extensão do mesmo esquema ao homem.
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A negligência do lado espiritual do dualismo tende a tornar-se negação, sobretudo em mentalidades voltadas ao sensível, e assim o mecanicismo cartesiano prepara inevitavelmente o materialismo.
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A redução ao quantitativo já estava teoricamente posta no domínio corpóreo pela própria física cartesiana e, a partir do racionalismo, foi estendida à realidade entendida como apenas individual, convertendo-se em redução do espírito à matéria para permitir a redução integral à quantidade.
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O dualismo fornece a forma dessa redução como passagem do espírito para a matéria.
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O aspecto essencial é relegado e suprimido, admitindo-se apenas o aspecto substancial das coisas.
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Espírito e matéria figuram como imagens diminuídas e deformadas de essência e substância.
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Descartes introduz metade do mundo no domínio quantitativo, movido por intenção principalmente física.
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O materialismo pretende introduzir o mundo inteiro no domínio quantitativo.
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A ciência moderna aplica-se à elaboração progressiva dessa redução, mesmo quando não se declara materialista.
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Além do materialismo explícito, existe um materialismo de fato mais amplo, derivado do materialismo doutrinário e análogo, em sua difusão social, à relação entre racionalismo filosófico e racionalismo vulgar, produzindo uniformização prática das condutas e pensamentos.
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Muitas pessoas não se declaram materialistas, mas agem como se nada existisse além da existência corporal.
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O materialista de fato costuma rejeitar o rótulo, enquanto o racionalista vulgar tende a reivindicá-lo e a chamar-se livre-pensador, embora permaneça preso a preconceitos correntes.
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O materialismo doutrinário torna possível e contribui para formar um estado mental geral materialista.
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A formação científica moderna reforça essa influência mesmo em sábios que não professam materialismo.
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A separação entre religião e atividade científica permite que um cientista dito religioso produza obra indistinguível da de um materialista declarado.
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A ação antitradicional utiliza até aqueles que deveriam ser seus adversários, produzindo seres contraditórios e incapazes de perceber suas contradições.
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A tendência à uniformidade realiza-se quando todos passam a pensar e agir de modo semelhante, restando diferenças sem efeito real.
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Nesse estado, um cristão pratica como se só houvesse realidade corpórea, e um sacerdote que faz ciência pouco difere de um acadêmico materialista.
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Pergunta-se se ainda resta grande distância até o ponto mais baixo final dessa descida.
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