Action unknown: copypageplugin__copy
hani:altar
ALTAR DO SENHOR
HANI, Jean. La divine liturgie: aperçues sur la messe. Paris: Éditions de la Maisnie, 1981.
-
O altar é o objeto mais sagrado do templo – sua razão de existência e sua própria essência –, pois a liturgia pode ser celebrada fora de uma igreja, mas jamais sem um altar de pedra.
-
Nicolau Cabasilas afirma que o altar é o ponto de partida de toda função sacramental e o verdadeiro templo; o restante do edifício é apenas complemento e imitação do altar.
-
A forma autêntica do altar cristão é o altar cúbico de pequenas dimensões, de pedra única ou placa sobre quatro colunas – forma ainda preservada no Oriente onde não houve imitação latina.
-
O altar cristão é herdeiro e síntese dos altares hebraicos: do altar dos holocaustos, da mesa dos pães de proposição, do altar dos perfumes e da pedra shethiyah sobre a qual repousava a Arca da Aliança.
-
A grande prefácio do Pontifical Romano vincula ritualisticamente o altar cristão ao altar de Moisés, ao de Jacó, ao de Abraão e a todos os altares da humanidade, desde o de Abel até o de Melquisedeque.
-
A pedra de Betel, ungida por Jacó, revela o aspecto mais essencial do altar: sua situação no “centro do mundo” e sobre o eixo terra-céu.
-
Jacó dormiu tendo uma pedra por travesseiro, viu a escada dos anjos ligando a terra ao céu e ao despertar exclamou: “Este lugar é a Casa de Deus e a Porta do Céu”, ungindo então a pedra.
-
O “centro do mundo” não é um centro geográfico, mas simbólico: o universo representado por esfera ou círculo tem seu centro como ponto mais precioso, gerador de toda a figura; nesse centro simbólico situa-se todo objeto ou lugar sagrado que permite entrar em contato com Deus, centro, origem e fim de toda a criação.
-
O ritual de consagração repete o gesto do Patriarca; por ele, o altar cristão torna-se o “centro do mundo” e se situa sobre o eixo terra-céu, tornando-se apto a ser lugar de teofania.
-
O Salmo 73 é citado: “Tu operaste a salvação no centro da terra.”
-
O altar cristão é identificado pelos Padres ao próprio Cristo, que é a pedra shethiyah, a pedra angular e o rochedo espiritual do qual beberam os israelitas no deserto.
-
Santo Inácio de Antioquia escreve: “Acorrei todos a reunir-vos no mesmo templo de Deus, ao pé do mesmo altar, isto é, em Jesus Cristo.”
-
São Cirilo de Jerusalém e Simeão de Tessalônica identificam o altar ao Cristo como “pedra escolhida”, “pedra angular” e “rocha da vida.”
-
São Paulo afirma (Heb 13,10): “Nós temos um altar”, e (1 Cor 10,4): “bebiam de um rochedo espiritual que os acompanhava, e esse rochedo era o Cristo.”
-
A pedra de fundação (shethiyah) é cúbica e representa o Verbo no mundo; a pedra angular, no topo do edifício, representa o Cristo glorioso assentado à direita do Pai – as duas pedras situam-se sobre uma mesma linha vertical, o “pilar axial” virtual em torno do qual se ordena todo o edifício.
-
O baldaquino reproduz e precisa o simbolismo do altar: quatro colunas (cubo) surmontadas por uma semiesfera repetem o esquema do santuário, do templo inteiro e do universo.
-
O pilar axial que religa as duas pedras cristológicas é a “via da salvação”; a chave de abóbada é a “porta do céu” – teologicamente, é a Via, isto é, o próprio Cristo que disse: “Eu sou o Caminho.”
-
Os degraus do altar recordam que ele se ergue sobre a “Santa Montanha”, imagem do mundo e do paraíso; o salmo Judica me, recitado pelo sacerdote no início da missa, era cantado pelos israelitas ao subirem o Monte Sião.
-
A montanha é um dos grandes símbolos universais do sagrado: lugar onde a terra mais se aproxima do céu, imagem da theofania e símbolo da ascensão espiritual.
-
Reduzida a seu esquema, a pirâmide é um volume ordenado em torno de um eixo, enraizado na terra e tocando o céu, religando os três “andares” do mundo: infernos, terra e céu.
-
Em diversas tradições aparece a montanha cósmica: o Monte Alborj no Irã, com o lago de vida e a Árvore da vida no centro e quatro rios; o Monte Meru na Índia, ponto mais alto da terra, polo fixo do mundo, com jardim de delícias e pomar; a montanha onde a arca de Noé se deteve no Ararat.
-
O templo hindu tem por modelo o Monte Meru: escadas permitem subir ao cume, e os fiéis realizam uma ascensão ritual ao céu.
-
Durand de Mende explica que as degraus do altar cristão recordam as quinze degraus do Templo de Salomão e simbolizam as quinze virtudes que conduzem ao céu – que são também os degraus da Escada de Jacó.
-
O Sacrifício do Calvário: Jesus quis que sua morte, pela qual se operava a nova criação, se fizesse sobre a montanha, imagem sintética, centro e cume do mundo, onde reaparece o Paraíso original.
-
O simbolismo da luz determina a luminária do altar: os seis (ou sete) círios são a versão cristã da menorá hebraica e representam o mundo transfigurado pela presença divina do Cristo.
-
A menorá havia sido executada segundo um modelo celeste visto por Moisés na montanha (Nm 8,4); no Apocalipse, o Cristo aparece rodeado de sete candelabros (Ap 2,1), em imagem que relembra a visão do profeta Zacarias (Zc 3,9).
-
O número sete, considerado como 3+4, é o sinal das relações do divino com a criação: 3 é o mundo divino, 4 o mundo criado; daí os sete dias da Criação e os sete planetas.
-
Fílon e Clemente de Alexandria afirmam que os sete ramos da menorá representam os planetas, sendo o do meio o sol; Clemente identifica-o ao Cristo, “Sol de Justiça.”
-
As sete sefirot inferiores são as irradiações de Deus, as Energias ou Potências que presidem à Criação; no Apocalipse (5,6) o Cordeiro tem sete olhos que são os sete espíritos de Deus; na profecia de Zacarias (3,9) sete olhos estão gravados na pedra mística que designa o Messias.
-
As sete luzes sobre o altar representam o mundo total transfigurado pela presença divina; esse mundo espiritualizado é a Igreja com seus sete sacramentos, o Corpo místico que é já “a nova terra e os novos céus.”
-
A orientação do altar para o Oriente é universal e primordial: o sacerdote e os fiéis oram e sacrificam voltados para o nascente, porque o Oriente é o símbolo da luz que surge das trevas, do Cristo-Sol.
-
A regra está atestada desde a alta antiguidade cristã, por exemplo nas Constituições Apostólicas (2,7) e na casa de Hipparco, onde uma cruz estava pintada na parede oriental.
-
Clemente de Alexandria declara: “O Oriente é a imagem do dia nascente… é desse lado que cresce a luz que surge das trevas.”
-
No Antigo Testamento: Ezequiel viu a Glória de Deus avançando do Oriente e entrando no Templo pela porta oriental (Ez 43,2.4); o Paraíso primordial estava situado no Oriente (Gn 2,8).
-
Os profetas anunciaram Cristo como “sol nascente” e “sol de justiça” (Ml 3,20); Zacarias chama o Messias de “Oriente” (Zc 3,4); o outro Zacarias proclama: “O Sol nascente nos visitou do alto” (Lc 1,79).
-
Cristo anunciou seu retorno escatológico: “Como o relâmpago parte do Oriente e brilha até o Ocidente, assim será a vinda do Filho do Homem” (Mt 24,27).
-
A missa “face ao povo” em igrejas corretamente orientadas é uma aberração e uma inversão do símbolo: opera uma ruptura do caminhar das trevas para a luz; a origem dessa prática repousa em equívoco arqueológico – nas basílicas romanas o celebrante ficava de frente aos fiéis não por teoria, mas porque a abside estava a Oeste e ele se voltava para o Oriente.
-
A inversão voluntária de um símbolo sacralizado pelo rito arrisca veicular uma influência de natureza oposta à original.
-
A estrutura da missa se organiza segundo dois esquemas integrados: um eixo horizontal (a terra, o tempo, a extensão da redenção a todos os povos e épocas) e um eixo vertical (o céu, os infernos, a ascensão e descida redentoras).
-
O eixo horizontal engloba o celebrante, a assembleia e todo o tempo desde Adão até a Parusia; a missa romana evoca o tempo de Abel, a missa síria faz memória de Adão e Eva.
-
O eixo vertical engloba Deus, os Anjos e os Eleitos no alto, e o “lugar” dos defuntos ainda não inteiramente libertados embaixo.
-
A combinação dos dois esquemas produz a figura da Cruz, que se integra com o plano dos quatro pontos cardinais para formar a cruz sólida ou volumétrica – estrutura de seis dimensões constituindo o espaço qualificado pelas direções cardinais.
-
Clemente de Alexandria ensina que de Deus, “Coração do universo”, partem as seis extensões do espaço: acima, abaixo, direita, esquerda, diante, atrás – e é dEle que recebem sua extensão indefinida: tal é o segredo do número sete.
-
O templo cristão não é senão a cristalização da dinâmica gestual da celebração litúrgica, que adere harmoniosamente à estrutura e dinâmica do cosmos, manifestação “natural” do Verbo divino criador.
-
A Cruz do Cristo é a Cruz cósmica que recapitula todo o devir do universo: São Irineu, São Paulo e o hino de Santo André de Creta expressam a extensão da Redenção ao cosmos inteiro pelas quatro dimensões da Cruz.
-
São Paulo escreve (Ef 3,18-19): “para que possais compreender com todos os santos qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o Amor do Cristo.”
-
Os Padres compreenderam essas palavras em referência à Cruz, lembrando a passagem do Timeu de Platão onde toda a abóbada celeste gira em torno do grande X formado pelo plano do equador e o da eclíptica, aplicado por eles ao Cristo Logos construtor do mundo.
-
Santo Irineu formula: “O Cristo foi pendurado na Cruz de modo a resumir em Si o universo”; Santo André de Creta canta: “Ó Cruz, reconciliação do cosmos, delimitação das extensões terrestres, altura do céu, profundidade da terra, laço da criação.”
-
A Cruz é também a Árvore da Vida, plantada no centro do Éden e reencontrada no centro da Jerusalém celeste (Ez 47,12; Ap 22,2), que a Escritura identifica à Sofia divina e ao Verbo (Pr 3,18).
-
Hipólito de Roma canta: “Esta Árvore, grande até o céu… é o sólido ponto de apoio do Todo, o ponto de repouso de todas as coisas, a base do conjunto do mundo, o ponto polar cósmico.”
-
O ponto central da Cruz cósmica é simultaneamente o coração do mundo e o Coração de Deus: o eixo vertical é o eixo da Redenção, trajetória teantropica por onde Deus desce ao homem e o homem sobe a Deus; o eixo horizontal indica o sentido da “amplitude”, a extensão do mistério a todas as épocas e regiões.
-
O rito da incensação articula os três movimentos estruturais da missa: a circumambulação (eixo horizontal), o encensamento cruci-circular (concentração do universo ao centro) e o encensamento vertical (oferta ascendente ao céu).
-
O papel apotropaico: a circumambulação ao redor do altar afasta as influências maléficas; o incenso tem, em toda parte e desde sempre, o poder de afastar os demônios.
-
O papel catártico: o incenso purifica do mal e do pecado; certos aromas, reduzidos pelo fogo a seus elementos mais sutis, criam um meio propício para receber as influências benéficas.
-
O encensamento cruci-circular envia o incenso para os quatro pontos cardinais (Oriente, Ocidente, Norte, Sul) e depois em círculo – figura da Cruz inscrita no círculo, diagrama do universo, símbolo do Paraíso e da montanha cósmica com seus quatro rios orientados.
-
O encensamento vertical sobe em direção ao pilar axial, une a pedra de altar à pedra angular, ultrapassa simbolicamente a abóbada e alcança o trono divino: “Que este incenso suba até Ti e que a Tua misericórdia desça sobre nós.”
-
O mesmo esquema encontra-se no sacrifício védico (a fumaça é assimilada ao eixo do mundo) e no rito do cachimbo dos índios Sioux (cada pitada de erva aromática concentra simbolicamente todo o criado para ofertá-lo a Deus).
-
A missa é verdadeiramente a integração espiritual do universo e do homem, e sua Transmutação: segundo o eixo horizontal, todo o universo e todos os homens de todas as épocas são reconduzidos à unidade ao redor da pedra de altar; sobre essa pedra se realiza a segunda fase, a assunção do universo e do homem integrados ao Cristo, que se elevam pelo pilar axial até a “porta do céu.”
-
A estrutura numeral da missa confirma e aprofunda sua estrutura geométrica, com cada número principal desempenhando função precisa no desdobramento da Liturgia.
-
O três (Kyrie, Agnus Dei, mea culpa): número trinitário e criador; elevado ao quadrado no triple ternário do Kyrie dá o nove – número da criação múltipla anunciando a plenitude do dez; os nove coros dos Anjos expressam esse simbolismo.
-
O cinco (cinco sinais da Cruz no Quam oblationem e no Per Ipsum): número da vida no mundo e do homem; anuncia o passar dos Dons da matéria inerte à vida e a presença dAquele que disse “Eu sou o Caminho, a Luz e a Vida.”
-
O sete (luminária, sete Dominus vobiscum): número da perfeição e da plenitude segundo Santo Agostinho; exprime as relações do divino (3) com a criação (4).
-
O oito (oito beijamentos do altar): número da Ressurreição segundo Santo Agostinho, pois designa a união do homem (5) ao Criador (3); daí a forma octogonal dos batistérios nos primeiros séculos.
-
O dez (dez menções da sociedade dos santos no Canon romano): símbolo da totalidade e do universo; o Um é a unidade sintética – a Causa primeira; o dez é o efeito total, reflexo da Causa.
-
O doze (doze apóstolos no Communicantes): número do funcionamento cósmico pelos 12 signos do Zodíaco e 12 meses; os apóstolos ao redor de Jesus como os signos ao redor do “Sol de Justiça”; acrescidos de 12 mártires romanos formam o 24, número dos Anciãos do Apocalipse (Ap 4,4).
-
O quinze (quinze nomes no Nobis quoque peccatoribus): plenitude da ciência segundo São Jerônimo; união dos dois Testamentos segundo Santo Agostinho (7+8); número do Nome divino Yah (Y=10, H=5), abreviatura do Tetragrama.
-
O dezessete (dezessete preces ao pé do altar; dezessete versículos do Gloria): oitavo número primo; sua triangulação produz 153, número dos peixes da segunda pesca milagrosa (Jo 21,11); Santo Agostinho decifra: 17 = 10 (Lei) + 7 (Espírito Santo), o Espírito vivifica a letra da Lei; 153 = (50×3)+3, número simbólico dos santos que vivem do espírito de Deus em acordo com a Lei; por redução, 17=1+7=8, número cristológico da Ressurreição; no Gloria, 8 versículos para o Pai, 8 para o Filho, 1 para o Espírito Santo: 8+8+1=17, e 17=8, donde três vezes 8 = 888, número do Nome de Jesus em grego.
-
O trinta e três (trinta e três sinais da Cruz durante a missa): número dos anos do Cristo e estrutura da Divina Comédia de Dante.
-
O Pai-Nosso é construído segundo estrutura septenária: sete pedidos, três concernindo a Deus e quatro concernindo ao homem – harmonia idêntica à da Criação segundo o Gênesis (3+4=7) e correspondente às três virtudes teologais e às quatro virtudes cardinais; a figura geométrica correspondente é o triângulo (3) sobre o quadrado (4), a “pedra cúbica a ponta” dos construtores, onde o quadrado das virtudes cardinais serve de base ao triângulo que aponta para o céu das virtudes teologais.
-
/home/mccastro/public_html/perenialistas/data/pages/hani/altar.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
