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BÁCULO EPISCOPAL

HANI, Jean. Mythes, rites et symboles: les chemins de l’invisible. Paris: G. Trédaniel, 1992.

  • Em uma organização tradicional, incluindo as Igrejas apostólicas apesar das deformações sofridas no mundo moderno, todo instrumento e todo objeto, sobretudo os do culto, porta um simbolismo ligado ao seu uso e à função de quem o emprega, seja artesão, seja sacerdote.
    • Igrejas apostólicas como organizações tradicionais
    • Objetos de culto como portadores de função simbólica
    • Relação entre uso do objeto e função do usuário
  • O báculo episcopal ilustra esse princípio, e embora seus tipos tenham sido examinados arqueologicamente, sua consideração pela história das religiões, pela simbólica e pelo pensamento mítico recebeu pouca atenção, ainda que esse insígnia exigisse uma análise semiológica sistemática, aqui apenas indicada como abertura de vias de reflexão.
    • Báculo episcopal como objeto cultual
    • Arqueologia versus história das religiões e simbolismo
    • Necessidade de análise semiológica sistemática
  • A exposição retoma primeiro o sentido mais imediato do báculo episcopal para depois buscar um simbolismo mais profundo diretamente vinculado ao pensamento mítico.
    • Prioridade do significado imediato
    • Passagem ao nível profundo do simbolismo mítico
  • O báculo episcopal é comumente chamado de “cajado” por metonímia derivada da forma do topo no Ocidente, mas a designação preferida é báculo episcopal ou báculo pastoral por sua generalidade e por razões relacionadas ao desenvolvimento posterior do tema.
    • Uso ocidental do termo associado ao topo curvo
    • Preferência por “báculo episcopal” e “báculo pastoral”
    • Termos como escolha metodológica para a análise
  • A expressão “báculo pastoral” remete ao simbolismo mais evidente indicado pelos textos do rito de entrega, pois na consagração de um bispo na Igreja romana o consagrante entrega o báculo ao recipiendário com fórmula que define o insígnia como sinal da função pastoral e exige severidade misericordiosa na correção dos vícios, julgamento sem ira, cultivo suave das virtudes e censura de abusos sem perder a paz da severidade.
    • Consagração episcopal na Igreja romana
    • Fórmula ritual como interpretação imediata do objeto
    • Correção de vícios, governo de espíritos e censura de abusos
  • O papa Inocêncio III interpreta o simbolismo do báculo pastoral afirmando que ser pontiagudo embaixo, reto no meio e recurvado no alto significa corrigir indolentes, dirigir fracos e reunir os que se desviaram, leitura típica de explicação eclesiástica que preserva elementos válidos, em especial a curvatura como convite ao recolhimento dos desgarrados conforme o modelo primitivo da vara do pastor.
    • Papa Inocêncio III como intérprete do Pontifical
    • Tripla forma: ponta inferior, retidão média e curvatura superior
    • Curvatura como função prática da vara do pastor para recuperar ovelhas
  • A curvatura superior se mostra correta quando a vara do pastor, o pastor, é recordada como modelo primitivo do báculo episcopal, pois ela permite laçar pelo pescoço ou pelas patas os animais que se afastam do rebanho, fundamento da alusão ritual ao recolhimento dos que se extraviam.
    • Modelo do pastor como origem funcional
    • Rebanho e animais desgarrados como imagem operativa
    • Base prática gerando símbolo religioso
  • O simbolismo do Cristo Bom Pastor, representado desde a época das catacumbas portando a vara, sustenta o conjunto do rito e do sentido pastoral, e a ideia de Inocêncio III sobre a forma reta permanece reservada para retomada posterior.
    • Cristo Bom Pastor e catacumbas
    • Vara do pastor como atributo iconográfico
    • Retidão do báculo como ponto a ser aprofundado
  • O báculo também pertence ao ancião e ao mestre de ensino na Antiguidade clássica, pois os pedotribas atenienses portavam um bastão recurvado chamado rabdos e os gramáticos que comentavam Homero usavam bastões coloridos em aula, vermelho para explicar a Ilíada e amarelo para explicar a Odisseia.
    • Pedotribas atenienses e o rabdos
    • Gramáticos e o ensino de Homero
    • Ilíada e Odisseia como conteúdos identificados por cores
  • A dignidade do ancião se liga intimamente à do sacerdote, pois o nome do sacerdote deriva do termo grego para o ancião, presbyteros, e a função do mestre de ensino se mostra também eminentemente sacerdotal, enquanto o bastão, sob a forma de cetro, é o insígnia da autoridade real.
    • Presbyteros como designação do ancião e do presbítero
    • Magistério e sacerdócio como funções correlatas
    • Cetro como sinal de realeza
  • Essa convergência delineia uma significação geral associada à forma reta do bastão independentemente de detalhes como a curvatura terminal, exigindo que o símbolo seja abordado primeiro em seu núcleo antes dos acréscimos ornamentais.
    • Retidão como núcleo comum do símbolo
    • Curvatura e ornamentos como motivos secundários
    • Prioridade do fundamento sobre os detalhes
  • O simbolismo do báculo pastoral não se reduz ao texto do Pontifical romano, pois a compreensão de sua amplitude requer investigar o sentido profundo do bastão ou do cetro em si, comum aos diferentes usos, e só depois examinar motivos secundários que sublinham, completam ou modificam o sentido geral, lembrando que em sociedades tradicionais o simbolismo de objetos e ritos remete a pensamento mítico e a mitos de origem ou cosmogônicos, conferindo sacralidade por referência mítica mais do que por considerações psicológicas ou morais como as de Inocêncio III.
    • Bastão e cetro como fundamento transcontextual
    • Motivos ornamentais como especificações do sentido
    • Referência a mito de origem e mito cosmogônico como fonte do sagrado
  • Em termos gerais, o bastão ou o cetro é sinal de autoridade, como se vê na Ilíada quando o cetro real de Agamêmnon é dito obra de Hefesto e dado por Zeus ao rei para reinar sobre o povo, de modo que o cetro confere caráter sagrado vindo de Zeus para comandar ou julgar e faz do portador mediador e intérprete da divindade, constatação válida para todos os cetros e também para o do bispo, restando explicar por que o objeto suporta tal significado.
    • Ilíada e o cetro de Agamêmnon
    • Hefesto como artífice e Zeus como doador
    • Mediação entre divino e humano por meio do insígnia
  • A origem divina do cetro, formulada em linguagem mítica em Homero, explicita-se por referência à cosmologia e à antropologia, isto é, à estrutura do cosmos e à estrutura física do ser humano.
    • Homero como linguagem mítica de uma realidade religiosa
    • Cosmologia e antropologia como chaves explicativas
    • Cosmos e corpo humano como estruturas correlatas
  • O bastão materializa essencialmente uma linha vertical, e a verticalidade desempenha papel fundamental no psiquismo porque comanda a estrutura somática do ser humano e, de certo modo, a estrutura do cosmos, como observa Gilbert Durand ao relacionar a noção de verticalidade à postura ereta e ao definir o cetro como encarnação sociológica dos processos de elevação.
    • Bastão como vertical materializada
    • Gilbert Durand e a verticalidade ligada à estação ereta
    • Cetro como símbolo social da elevação
  • A linha vertical orienta para o alto e significa poder recebido do alto e superioridade daquele que o detém, articulando assim autoridade e transcendência no próprio traço geométrico.
    • Alto como direção simbólica do poder
    • Superioridade como consequência da investidura
    • Vertical como signo de procedência superior
  • O vínculo com a estrutura somática se evidencia porque o bastão e a bengala funcionam como suportes verticais que duplicam não apenas as pernas mas sobretudo a coluna vertebral, eixo do equilíbrio corporal e do centro de gravidade, de modo que o bastão opera como eixo suplementar que auxilia o eixo principal, permanecendo assinalada a retomada específica do vínculo entre bastão, cetro e coluna vertebral.
    • Bengala do caminhante e do ancião como suporte
    • Coluna vertebral como eixo do corpo
    • Bastão como eixo secundário auxiliar
  • A transposição espiritual do bastão decorre da passagem da ideia de linha reta à ideia de retidão, visível em raízes linguísticas que associam correção e endireitamento à verticalidade, como ortos e diorthosis no grego, rectus, correctio e rex no latim, e qawam, qawwam e taqwim no árabe, de modo que a vara do pastor e o bastão do magister se tornam sinais de endireitamento por participação na retitude.
    • Grego: ortos e diorthosis
    • Latim: rectus, correctio e rex
    • Árabe: qawam, qawwam e taqwim
    • Endireitamento como núcleo de sentido do símbolo
  • Trata-se de símbolo enraizado na realidade, pois a vertical é a própria retidão no mundo dos corpos e por isso permite apreensão intuitiva da retidão, explicando a majestade e nobreza dos objetos que materializam a vertical, como lança e espada, cujo simbolismo se assemelha ao do cetro, em contraste com um revólver, como um colt, que expressaria apenas força mecânica sem referência ao espírito.
    • Vertical como retidão corpórea
    • Majestade e nobreza como conteúdo espiritual
    • Lança e espada como forças com retidão e lei
    • Colt como exemplo de força mecânica sem espiritualidade
  • No bastão pastoral, a retidão indica que o sacerdócio guarda a retidão como doutrina sagrada e lei suprema, e que o pontífice é imagem viva dessa lei por representar o Cristo, pontífice único, identificado com a própria Lei.
    • Sacerdócio como guardião da doutrina e da lei
    • Pontífice como imagem viva da lei
    • Cristo como pontífice único e Lei
  • A lei aqui não se reduz à moral, pois designa o princípio pelo qual Deus governa e sustenta a criação, e essa ampliação conduz à forma do báculo episcopal na Igreja bizantina, cujo topo traz dois serpentes enroscados na parte superior e um globo coroado por cruz, formando um caduceu que instrui diretamente sobre o nível cosmológico da lei.
    • Lei como governo e manutenção da criação
    • Igreja bizantina e seu báculo específico
    • Dois serpentes, globo e cruz como configuração de caduceu
  • O caduceu sugere vínculo com a Antiguidade helênica por ter surgido em ambiente grego e por ser atributo de Hermes, e sua presença além da área grega é indicada por ocorrências nas catacumbas romanas, mas o foco recai sobre o mito de origem do caduceu no qual Hermes, ao ver dois serpentes em combate no monte Citéron, lança entre eles a varinha mágica recebida de Apolo e os serpentes se enrolam nela e se imobilizam com as cabeças frente a frente.
    • Ambiente grego e Antiguidade helênica
    • Hermes como portador do caduceu
    • Catacumbas romanas como difusão do símbolo
    • Monte Citéron, Apolo e a varinha mágica
    • Serpentes em combate e pacificação pela varinha
  • Esse mito não se apresenta como explicação tardia de um objeto incompreendido, pois sua estrutura revela elemento cosmogônico ao narrar a passagem do caos ao cosmos, do desordem simbolizada pela luta dos serpentes ao ordem criacional simbolizada por Apolo como doador e pela simetria final dos répteis, e Hermes aparece como hipóstase do Logos criador, desempenhando papel demiúrgico.
    • Cosmogonia: caos e cosmos como polos narrativos
    • Apolo como doador do princípio ordenador
    • Hermes como hipóstase do Logos e função demiúrgica
  • Os serpentes do caduceu designam duas forças fundamentais do universo em todos os níveis, descritas como positiva e negativa, ou mais exatamente como aspectos opostos e complementares da energia universal polarizada para produzir o universo, harmonizando-se ao redor do bastão como axis mundi imóvel, imagem do princípio criador que sustenta equilíbrio dinâmico gerador de formas e estruturas.
    • Forças opostas e complementares
    • Energia universal como polarização produtora
    • Axis mundi como eixo imóvel
    • Equilíbrio dinâmico e geração de formas
  • O eixo do caduceu corresponde a outro símbolo vertical universal do axis mundi, a árvore sagrada, e o caduceu se associa à árvore da vida na Índia e no Oriente Próximo.
    • Árvore sagrada como axis mundi
    • Árvore da vida como associação simbólica
    • Índia e Oriente Próximo como áreas tradicionais
  • O equilíbrio no nível mais alto reflete-se nos níveis inferiores, como na vida social onde produz paz e seus benefícios, incluindo relações pacíficas, viagens, comércio e intercâmbios colocados sob proteção de Hermes.
    • Paz como fruto social do equilíbrio
    • Viagens e comércio como atividades herméticas
    • Hermes como protetor de trocas
  • No plano microcósmico, o esquema do caduceu corresponde à anatomia humana ao associar o bastão à coluna vertebral com seu canal central e os dois serpentes aos canais simétricos de onde partem correntes nervosas, de modo que o equilíbrio desses fluxos condiciona a saúde e justifica o caduceu como atributo da arte médica, especialmente a medicina tradicional vinculada às ciências herméticas.
    • Coluna vertebral e canal central
    • Canais simétricos e correntes nervosas
    • Saúde como equilíbrio de fluxos
    • Medicina hermética como ciência tradicional
  • Essa medicina tradicional se funda no conhecimento das energias vitais e das correspondências entre corpo humano e realidades cósmicas e reconhece uma anatomia sutil subjacente à anatomia física, hoje divulgada pelo ioga tântrico e familiar também a médicos herméticos e espagíricos do Ocidente.
    • Energias vitais e correspondências macro-micro
    • Anatomia sutil como fundamento
    • Ioga tântrico como referência contemporânea
    • Médicos herméticos e espagíricos no Ocidente
  • Na anatomia sutil, a coluna corresponde ao canal central sushumna, em torno do qual se enroscam os canais ida e pingala que veiculam formas sutis de energia vital positiva e negativa, equivalentes a yin e yang na terminologia chinesa, cruzando-se seis vezes para formar seis chakras que se resolvem em um sétimo chakra coronal, o sahasrara ou brahmarendra.
    • Sushumna como canal central
    • Ida e pingala como canais secundários
    • Yin e yang como equivalentes terminológicos
    • Seis cruzamentos e seis chakras
    • Sahasrara ou brahmarendra como chakra coronal
  • A correspondência entre o eixo do caduceu e a árvore cósmica reaparece ao se assimilar a coluna e o sushumna ao eixo sob o nome Meru-danda, árvore do Meru, sendo Meru a montanha cósmica mítica que representa o axis mundi, de modo que coluna e sushumna refletem no indivíduo o Eixo do Mundo.
    • Meru-danda como árvore do Meru
    • Meru como montanha cósmica mítica
    • Reflexo microcósmico do axis mundi
  • A evolução espiritual se inicia quando a energia Kundalini, adormecida na base do sushumna no chakra inferior, desperta e ascende pelo canal central ativando os chakras até atingir o topo e unir-se às energias de ida e pingala, culminando no despertar do chakra coronal cujo esplendor é figurado na iconografia hindu como flor de mil pétalas, equivalente ocidental do nimbo ou auréola dos santos.
    • Kundalini como energia fundamental
    • Ascensão pelo sushumna e ativação dos chakras
    • Coroamento no chakra coronal
    • Flor de mil pétalas e equivalência com auréola
  • O mesmo esquema se inscreve em objetos rituais como o bastão dos brâmanes, o Brahmadanda, ornado por dupla espiral e sete nós que representam ida e pingala, o sushumna e os chakras, e reaparece no bastão de bambu dos taoístas chineses cujos nós são assimilados aos Sete Céus como graus iniciáticos, bem como na bengala companheirística que pode mostrar dois serpentes cruzando-se seis vezes e um pomo esférico correspondente ao chakra coronal, ou ainda fitas entrecruzadas em losangos substituindo serpentes.
    • Brahmadanda e brâmanes
    • Taoístas chineses e bastão de bambu
    • Sete Céus como etapas iniciáticas
    • Bengala companheirística e estrutura de chakras
    • Serpentes, nós e losangos como variações figurativas
  • Essas correspondências aprofundam o sentido do báculo pastoral bizantino, cuja analogia com o caduceu e com bastões rituais se torna evidente, e o globo coroado pela cruz substitui o pomo como sinal do Cristo Pantocrator, indicando seu império universal no plano macrocosmico com fruto de paz, Rex Pacis, e no plano microcosmico como pax profunda quando o Cristo reequilibra o ser humano e o estabelece em seu estado verdadeiro.
    • Báculo bizantino como bastão-caduceu
    • Cristo Pantocrator e o globo com cruz
    • Rex Pacis no macrocosmo
    • Pax profunda no microcosmo
  • O pontífice, nas funções rituais, é assimilado ao Cristo e transmite aos fiéis a influência espiritual dos sacramentos como modos de ação do Cristo, e o bastão-caduceu exprime tanto a maestria do Cristo sobre o mundo e o ser humano quanto a harmonia do Homem-Deus como arquétipo do homem novo ao qual o indivíduo deve identificar-se ao fim do itinerário espiritual.
    • Pontífice como figura do Cristo no rito
    • Sacramentos como ação do Cristo
    • Harmonia do Homem-Deus e arquétipo do homem novo
  • O simbolismo do caduceu pode ainda associar-se ao domínio sacerdotal da cura, pois a medicina tradicional integra o âmbito sacerdotal e remete à missão do Cristo e à missão confiada por ele aos Apóstolos na cura de enfermidades, ponto apenas indicado.
    • Medicina e sacerdócio como vínculo tradicional
    • Cristo e Apóstolos como agentes de cura
    • Cura como dimensão missionária
  • A reflexão sobre o caduceu não afasta do báculo latino com crosse, também usado no Oriente fora do rito bizantino, pois essa crosse é antes de tudo uma espiral desenvolvida a partir da curvatura da vara do pastor mas dotada de sentido mais amplo, e a espiral é motivo universal do art tradicional com modelos no vegetal como videira, trepadeiras e samambaia e no animal como conchas e teia de aranha.
    • Báculo latino e crosse
    • Crosse como espiral com alcance simbólico ampliado
    • Modelos naturais: videira, trepadeiras, samambaia, conchas e teias
  • O pensamento mítico reconhece na espiral um símbolo sugestivo da criação e da dinâmica vital, como entre os Lulua e os Balula do Congo onde ela figura a Grande Serpente como deus criador, o movimento cíclico da vida e a peregrinação cíclica das almas por nascimentos e renascimentos, e entre os Dogons onde a espiral é imagem do Verbo criador.
    • Lulua e Balula no Congo
    • Grande Serpente como deus criador
    • Ciclo vital e transmigração por renascimentos
    • Dogons e o Verbo criador
  • Na Índia, a concha é atributo de Vishnu como princípio conservador da manifestação e representa Lakshmi como shakti do deus, sendo considerada nas Upanishads origem da manifestação, e a espiral teve papel central na cosmogonia e na arte dos celtas, com destaque para a atribuição das primeiras cruzes episcopais aos bispos pelos celtas da Irlanda segundo muitos historiadores da arte.
    • Índia, Vishnu, Lakshmi e shakti
    • Upanishads e origem da manifestação
    • Celtas e cosmogonia da espiral
    • Irlanda e primeiras cruzes episcopais no Ocidente
  • A espiral consiste em linha que se enrola sobre si mesma e manifesta o movimento circular saindo do ponto de origem e prolongando-o indefinidamente como linha sem fim que liga extremos do devir, simbolizando emanação, extensão, continuidade do ciclo e ritmos repetitivos da vida, e a espiral logarítmica se destaca por crescer sem alterar a figura total, exemplificada pela concha de amonita e pela teia da aranha epeira, sendo para Gilbert Durand um glifo universal da temporalidade e da permanência do ser através das flutuações da mudança.
    • Ponto de origem e movimento circular
    • Devir cíclico e ritmos repetitivos
    • Espiral logarítmica e crescimento sem mudança de forma
    • Amonita e aranha epeira como exemplos
    • Gilbert Durand e temporalidade com permanência
  • A dupla espiral explicita a espiral simples ao distinguir evolução e involução, aparecendo no art celta, românico e grego, como no capitel jônico, e na China na figura do yin-yang, ornando báculos em forma de T e em forma de S em portais românicos, como em Auxerre, o que revela que o motivo da espiral corresponde ao do caduceu e remete à figura da hélice em torno de um eixo como expressão matemática do desenvolvimento do ser através dos graus da existência universal.
    • Evolução e involução como dupla polaridade
    • Capitel jônico como exemplo grego
    • Yin-yang na China
    • Auxerre e portais românicos
    • Hélice e eixo como figura fundamental do movimento universal
  • Em um volume natural como a concha de caracol, um corte vertical produz eixo vertical com linha espiral ascendente ao redor, figura do bastão de Asclépio como atributo médico semelhante ao caduceu mas sem a segunda espiral, enquanto um corte horizontal dá a espiral plana materializada na crosse de samambaia, e a dupla espiral plana corresponde à estrutura do caduceu.
    • Concha de caracol como matriz geométrica
    • Bastão de Asclépio como atributo da medicina
    • Espiral plana e crosse vegetal
    • Dupla espiral plana e caduceu
  • A crosse desempenha no báculo pastoral o mesmo papel dos serpentes do caduceu e conserva a mesma significação ligada à função pontifical, podendo variar por ornamentos que acrescentam, especificam ou modulam o simbolismo geral.
    • Crosse como equivalente funcional dos serpentes
    • Função pontifical como foco do símbolo
    • Ornamentos como especificações
  • O tipo mais simples de crosse é a espiral isolada, geométrica ou vegetal, e na forma vegetal confere ao conjunto aspecto de bastão florido, simbolismo particular apenas assinalado.
    • Espiral geométrica e espiral vegetal
    • Bastão florido como variação imagética
  • Um tipo relevante faz a crosse em forma de serpente, retornando ao caduceu, e essa forma não implica sentido satânico por ser o símbolo do serpente ambivalente, sendo o serpente entendido como imagem do Cristo quando traz cruz entre os dentes ou porta cabeça de cordeiro, interpretação fundada na aproximação com o Serpente de bronze que o Evangelho de João apresenta como símbolo do Cristo.
    • Crosse serpentiforme
    • Ambivalência do símbolo do serpente
    • Abbé Auber como referência interpretativa
    • Serpente de bronze e Evangelho de João como base
  • As representações do Serpente de bronze com o animal enroscado na haste vertical da cruz se identificam ao bastão de Asclépio e se relacionam ao Cristo como médico, mas o sentido fundamental do serpente espiralado remete ao movimento cósmico e ao ouroboros aplicado ao Cristo, de modo que o serpente na crosse pode significar o Cristo como Verbo cósmico, fonte do universo e primeira revelação do mistério do ser único manifestando-se na multiplicidade e no circuito incessante da vida que cria, devora e cria de novo.
    • Serpente de bronze e bastão de Asclépio como equivalência formal
    • Cristo como médico e cura
    • Ouroboros como ciclo cósmico aplicado ao Cristo
    • Verbo cósmico e multiplicidade como revelação primordial
  • Uma crosse em que o serpente se volta contra o cordeiro, muitas vezes com a boca aberta sobre ele, costuma ser interpretada como Satanás atacando o Cristo, mas pode encobrir sentido em que o serpente representa o ciclo cósmico que parece devorar o Cordeiro de Deus, vítima imolada desde o princípio do mundo segundo o Apocalipse, de modo que o cordeiro devorado expressa o Verbo involuindo no ciclo do mundo e do tempo como encarnação em vista da redenção, ou ainda dois aspectos do Verbo em unidade, Verbo-cordeiro celeste e Verbo-serpente cósmico, indicando simultaneamente criação e redenção.
    • Serpente e cordeiro como dupla leitura
    • Apocalipse e o Cordeiro imolado desde o princípio
    • Encarnação como involução do Verbo no tempo
    • Dois aspectos do Verbo como unidade simbólica
  • Há casos com dois serpentes na crosse, incluindo variante com cruz e dois serpentes ao pé da haste vertical à direita e à esquerda como versão do caduceu, e há forma mais frequente em que um segundo serpente nasce do corpo do primeiro, podendo aparecer um anjo com lança pisando o segundo serpente, o que indica polaridade negativa sob aspecto maléfico e remete à iconografia de São Miguel derrotando o dragão, símbolo da vitória da luz sobre as trevas e da ordem sobre o caos.
    • Dois serpentes e cruz como variação do caduceu
    • Segundo serpente como derivação do primeiro
    • Anjo com lança e São Miguel como motivo iconográfico
    • Luz versus trevas e ordem versus caos
  • Existem casos mais ambíguos em que a crosse contém a Anunciação, tema frequente, e o anjo coloca o pé sobre o segundo serpente, mas o animal pode aparecer ereto entre a Virgem e o anjo, o que dificulta lê-lo como serpente esmagado e permite entender a cena como análoga ao motivo serpente e cordeiro, isto é, como expressão da encarnação, reafirmando que o simbolismo fundamental dessas variações é a descida do Verbo no ciclo cósmico.
    • Anunciação como tema ornamental recorrente
    • Virgem e anjo como personagens centrais
    • Serpente ereto como sinal de ambiguidade
    • Encarnação como interpretação alternativa
  • O resumo afirma que o báculo episcopal, como cetro do sacerdócio, pertence ao mestre que ensina, dirige e corrige e é sinal de autoridade espiritual vinda do alto, o que sua verticalidade exprime como lembrança do axis mundi e como imagem do Verbo cosmocrator que governa o mundo por sua lei, enquanto ornamentos espiralados ligados a mito cosmogônico da criação recordam que essa lei realiza equilíbrio e harmonia no indivíduo orientando a evolução espiritual até o cumprimento total em consonância com Deus e com o mundo, e o porte do cetro pelo pontífice significa missão de atualizar por ritos o reinado do Cristo no ser humano e na sociedade.
    • Báculo como cetro do sacerdócio
    • Verticalidade: axis mundi e autoridade do alto
    • Verbo cosmocrator e lei governante
    • Espirais: criação, equilíbrio e harmonia
    • Atualização ritual do reinado do Cristo
  • A crosse episcopal desempenha no cristianismo o papel de objetos rituais em sociedades tradicionais ao oferecer ensino concreto e sintético, pois não se dirige apenas ao mental racional e apresenta a verdade como evidência a ser meditada, e sua função utilitária revela verdade mais geral quando se torna imagem do mundo ligada a mito cosmogônico, como na cabaça do pastor dogon que resume cosmogonia por formas e figuras gravadas e funciona como arca de salvação no dilúvio, constituindo um mito-objeto legível como liber mutus.
    • Objeto ritual como ensino concreto e sintético
    • Verdade como evidência a ser meditada
    • Dogons e a cabaça do pastor como cosmogonia concreta
    • Terra, céu, estrelas, animais, criação e dilúvio como motivos
    • Liber mutus e mito-objeto como leitura visual
  • Objetos simbólicos combinados criam ambiência própria ao redor do portador e devem ser vistos como catalisadores do sagrado e suportes de meditação, de modo que o báculo episcopal auxilia o pontífice a tomar consciência de forças supra-humanas manejadas e conduz os fiéis a meditar sobre a função pontifical, pois segurar o báculo significa situar-se no eixo figurado pelo bastão, no centro do mundo, dominando o devir simbolizado pelas espirais e assumindo o eixo por onde passam influências espirituais.
    • Catalisador do sagrado e suporte meditativo
    • Consciência de forças supra-humanas e função pontifical
    • Centro do mundo e eixo das influências espirituais
    • Devir e espirais como figura do tempo e do ciclo
  • Segurar a crosse episcopal manifesta a origem celeste e o fundamento da autoridade e do poder, analogamente ao rei que segura o cetro para indicar que se encontra no meio invariável onde reina o Rei do Mundo, do qual o rei humano é representante visível.
    • Origem celeste como fundamento do poder
    • Rei e cetro como analogia política do símbolo
    • Meio invariável e Rei do Mundo como referência tradicional
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