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ÍCONE DE SÃO JORGE
HANI, Jean. Mythes, rites et symboles: les chemins de l’invisible. Paris: G. Trédaniel, 1992.
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A popularidade de São Jorge no Oriente e no Ocidente se manifesta no grande número de ícones, frequentemente de alta qualidade estética, em que a cena do cavaleiro romano cravando a lança no dragão diante do palácio e sob o fundo dourado culmina com a princesa conduzindo a besta e um anjo descendo para coroar o vencedor em uma composição dominada por ouro e vermelho vivo.
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Difusão iconográfica como medida de veneração e presença cultual
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Elementos visuais recorrentes: montanha, palácio, cavalo, lança, dragão sinuoso, princesa, anjo e coroa
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Conjugação de arabescos do desenho com o brilho das cores sobre fundo de ouro
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O julgamento de um ícone não se fundamenta primariamente no valor estético, porque a beleza sensível funciona como suporte de um conteúdo espiritual e de um mistério oferecido à meditação, e no caso de São Jorge esse conteúdo supera a fama popular ligada aos quatorze santos auxiliares, sendo decisiva para a investigação sua adoção como patrono da cavalaria e de uma ordem cavaleiresca na Rússia.
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Finalidade espiritual do ícone como mensagem e mistério contemplativo
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Limitação do critério puramente estético diante da função religiosa da imagem
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Patronato cavaleiresco como chave interpretativa, com referência a um contexto russo de ordem militar
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O relato da vida de São Jorge funciona por si mesmo como orientação decisiva para a interpretação, na medida em que fornece a sequência narrativa que será considerada adiante.
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Função diretiva do enredo biográfico para o sentido do culto e da imagem
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Encadeamento narrativo como guia para a leitura simbólica
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A tradição muito antiga retomada no século XIII no Ocidente por J. de Voragine descreve Jorge como nobre da Capadócia, filho de Gerontius pagão e de Polychronia cristã, educado por ela e tornado tribuno do exército imperial, chegando à Líbia onde um dragão de um lago exigia vítimas até que o sorteio recaísse sobre a filha do rei, sendo a jovem salva quando Jorge faz o sinal da cruz, subjuga o monstro, manda que ela passe o cinto ao seu pescoço e o conduz à cidade para matá-lo diante do povo, após o que batiza o rei e vinte mil súditos, variando o epílogo entre afastamento ou casamento com a princesa e sendo certo o martírio posterior durante a perseguição de Diocleciano.
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Personagens nomeados: Jorge, Gerontius, Polychronia, o rei, a princesa e Diocleciano
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Espaços do enredo: Capadócia, serviço imperial e Líbia, com lago e cidade real
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Motivos narrativos: tributo de ovelhas e jovens, sorteio, sinal da cruz, cinto no pescoço do dragão, morte pública do monstro, batismo coletivo
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Variantes finais: afastamento de Jorge ou casamento com a princesa, com martírio posterior como desfecho comum
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Independentemente da realidade histórica pouco conhecida por trás da narrativa, a questão central reside na legenda compreendida como relato verdadeiro em plano distinto da historicidade concreta, e no caso de São Jorge trata-se de um mito propriamente dito, reconhecível como mito heroico no qual um personagem humano ou sobrenatural mata um monstro e ascende a um estado superior figurado por casamento simbólico ou por glorificação correspondente à heroização.
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Distinção entre verdade mítica e verificação histórica literal
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Estrutura do mito heroico: combate, vitória e elevação de estado
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Figuras da elevação: casamento com sentido simbólico e glorificação como heroização
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A legenda de São Jorge se vincula a tradições anteriores disseminadas na Grécia e no Próximo Oriente, constituindo variante de um mito heroico fundamental exemplificado por Héracles contra Ladon no Jardim das Hespérides e as Pomos de ouro, por Jasão contra o dragão da Toison de ouro com auxílio e casamento com Medeia, e sobretudo por Perseu, filho de Zeus e Danaé, que vence provações com ajuda de Atena e Hermes e salva Andrômeda na Etiópia ao matar o monstro marinho destinado a devorá-la, casando-se com ela, episódio amplamente celebrado em pinturas e relevos gregos.
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Personagens e nomes próprios: Héracles, Ladon, Hespérides, Jasão, Éson, Iolcos, Pélias, Toison de ouro, Medeia, Perseu, Zeus, Danaé, Polidectes, Górgona, Medusa, Atena, Hermes, Etiópia, Andrômeda e Cassiopeia
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Esquema recorrente: prova imposta, monstro guardião, vitória e casamento como elevação
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Celebração artística na Grécia como indício de difusão e fixação imagética do motivo
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O mito de Perseu integra um conjunto extenso de relatos análogos do Indo à Europa ocidental em que o agente principal é um deus, como Indra matando o serpente Vritna, Apolo matando Python em Delfos e, no Ocidente romanizado, monumentos que figuram Júpiter derrotando um monstro anguípede, sendo especialmente relevantes os contextos do Próximo Oriente, da Assíria-Babilônia ao Irã e ao Egito.
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Extensão geográfica do motivo e persistência do combate contra o monstro
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Exemplos indo-europeus e mediterrâneos: Indra, Apolo, Python, Delfos, Júpiter e monstro anguípede
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Ênfase no Próximo Oriente como campo decisivo para desdobramentos cosmológicos
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No Próximo Oriente o combate contra o monstro adquire dimensão cósmica e escatológica como luta da luz contra as trevas, aparecendo na Assíria-Babilônia como Marduk contra Tiamat e em versões tardias como Bel domando um dragão descrito por Bérose, e no Irã como Ahriman suscitando o dragão tricéfalo Azdaha contra a criação, enfrentado por Ormazd e destinado a ser engolido no Juízo final.
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Personagens e nomes próprios: Marduk, Tiamat, Bel, Bérose, Ahriman, Azdaha e Ormazd
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Luta cosmogônica como ordenação do mundo e conflito primordial
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Horizonte escatológico: combate final e destino do mal no dia do Juízo
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No Egito, Horus, deus solar e vingador de Osíris morto por Seth, é figurado na Baixa Época trespassando Seth como crocodilo ou o serpente gigante Apófis, frequentemente a cavalo e vestido como oficial romano, com estelas desse motivo preservadas em museus egiptológicos, havendo também imagens do rei assimilado a Rê ou a Horus abatendo Apófis.
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Personagens e nomes próprios: Horus, Osíris, Seth, Apófis e Rê
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Motivo iconográfico do cavaleiro romano como antecedente formal de santos cavaleiros
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Circulação material do tema em estelas e representações régias
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Esses contextos míticos influenciaram reconhecidamente literatura e arte judaicas e cristãs, pois Leviatã e Beemote do Antigo Testamento, dos Salmos e de textos apocalípticos remontam a herança babilônica, o Evangelho da Infância apresenta o Maldito como dragão análogo ao domado por Bel, tais monstros reaparecem no Livro de Henoc e no Pastor de Hermas, e o combate escatológico de Ormazd contra Ahriman influenciou por via apocalíptica o cenário do Apocalipse de João.
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Referências textuais: Antigo Testamento, Salmos, textos apocalípticos, Evangelho da Infância, Livro de Henoc e Pastor de Hermas
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Personagens e nomes próprios: Leviatã, Beemote, Bel, Ormazd, Ahriman e João
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Continuidade temática entre herança babilônica e formulações cristãs finais
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As imagens egípcias de Horus inspiraram no Egito numerosas figuras de santos cristãos, como Salomão a cavalo trespassando uma diablessa serpentiforme em medalha talismânica de origem grega, uma cena afim em Baouit onde São Sisínio mata a diablessa e é apresentado em textos gregos medievais como duplo de São Miguel, além de tríptico no Museu do Cairo com dois santos cavaleiros e da vasta proliferação copta de santos militares, entre os quais São Teodoro e São Jorge.
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Exemplos materiais: medalha talismânica, fresco de Baouit, tríptico do Museu do Cairo
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Personagens e nomes próprios: Salomão, São Sisínio, São Miguel, São Teodoro e São Jorge
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Categoria iconográfica: santos militares ou santos cavaleiros na cristandade copta
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A difusão dessas representações permaneceu intensa, pois no fim do século XVIII um manuscrito siríaco do Kitaba Denoutari, Livro de Preservação, reúne exorcismos e encantações ilustrados com miniaturas de Mar Gabriel, Mar Hourmizd e São Jorge atravessando demônios serpentiformes.
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Persistência tardia do motivo em suporte manuscrito
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Personagens e nomes próprios: Mar Gabriel, Mar Hourmizd e São Jorge
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Associação da imagem cavaleiresca a funções apotropaicas e de preservação
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Por intermédio do Egito, o tipo do santo militar, especialmente São Jorge, se expandiu por todo o Ocidente, onde aparece ao lado de São Juliano, São Bié e São Sansão.
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Egito como vetor de transmissão iconográfica para o Ocidente
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Personagens e nomes próprios: São Jorge, São Juliano, São Bié e São Sansão
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Consolidação de um repertório hagiográfico cavaleiresco
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Os relatos do combate contra o monstro se distribuem em três grupos conforme o agente principal ser homem, herói ou deus, e o domínio cristão reproduz essa gradação ao lado de santos com a atuação de São Miguel e do próprio Cristo, como no Apocalipse de João que descreve uma guerra celeste conduzida por Miguel e outra ação conduzida pelo Cristo, com queda do Dragão identificado como Serpente primitiva, Diabo e Satanás, e com a aparição do cavaleiro do cavalo branco chamado Fiel e Verdadeiro e Verbo de Deus.
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Tripartição do agente: homem, herói e deus, com paralelos no cristianismo
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Referência explícita ao Apocalipse de João e a seus dois combates
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Personagens e nomes próprios: São Miguel, Cristo, Dragão, Serpente primitiva, Diabo, Satanás, Fiel e Verdadeiro e Verbo de Deus
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A iconografia e a literatura cristãs registram o Cristo escatológico justiciero que derrota o dragão ondulante, como em medalha bizantina preservada no Museu de Estrasburgo e em hino de São Paulino de Nola que identifica o Cristo ao Apolo vencedor de Python e enfatiza um caráter solar do Verbo divino, havendo ainda representações primitivas do Cristo sob traços de Apolo em seu carro e a possibilidade de origem délfica desse paralelo por assimilação de elementos do culto antigo e implantação precoce do culto de São Jorge em Delfos.
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Exemplos de suportes: medalha bizantina e hino de São Paulino de Nola
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Personagens e nomes próprios: Cristo, Apolo, Python, Verbo divino, São Paulino de Nola, Delfos e São Jorge
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Motivo solar como chave simbólica e como ponte entre repertórios cultuais
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Os textos do Antigo Testamento também sustentam a temática ao fornecerem o motivo de pisar aspide, basilisco, leão e dragão, figurado em mosaico de Ravena com o Cristo em veste imperial sobre leão e serpente e perpetuado no Ocidente medieval como o Beau Dieu de Amiens, assim como versículos dos Salmos e Isaías articulam o triunfo sobre Leviatã e o monstro marinho, refletindo influência assírio-babilônica na luta de Yahweh contra as forças do abismo e sendo retomados na tradição cristã.
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Referências: Salmos, Isaías e Antigo Testamento como base textual do motivo
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Exemplos visuais: mosaico de Ravena e escultura do Beau Dieu de Amiens
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Personagens e nomes próprios: Cristo, Yahweh, Leviatã, Ravena e Amiens
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Herança assírio-babilônica como matriz das modalidades do combate
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A literatura cristã herdou essa sequência ao alimentar uma temática do batismo do Cristo e da bênção das águas em que o Cristo desce ao Jordão para derrotar o dragão oculto, aparecendo em cantos da Teofania a imagem de quebrar as cabeças dos dragões na água e, no rito armênio, a cena do dragão no Jordão punido conforme predição profética.
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Contextos litúrgicos: Teofania, bênção da água, rito bizantino e rito armênio
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Personagens e nomes próprios: Cristo e Jordão
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Motivo aquático: vitória sobre o dragão como purificação e santificação das águas
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A ampliação da luta do Cristo contra o monstro fundamenta a dimensão e a significação do combate de São Jorge, pois as três imagens do esmagamento do monstro se encadeiam hierarquicamente de modo que a de São Jorge depende da de São Miguel e sobretudo da do Cristo, que funciona como arquétipo das duas e como paradigma intermediário para a ação do cristão por imitação de um modelo celeste.
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Hierarquia imagética: Cristo como arquétipo, São Miguel como mediação e São Jorge como dependente
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Imitatio de um paradigma celeste como princípio de eficácia espiritual
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Valor da cena de São Jorge como participação em um modelo superior
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O mito sustenta o tema do ícone e deve ser considerado no plano macrocosmico e no plano microcosmico, porque a articulação hierárquica das cenas remete primeiro à cosmogonia e à criação como luta da luz contra o monstro das trevas, ordo ab chao, e também à escatologia do Apocalipse e ao batismo no Jordão como eventos cosmogônicos que marcam começo e fim do ciclo, com paralelos à criação do Gênesis nas águas e no Fiat lux.
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Macrocosmo: cosmogonia, criação e restauração final da ordem
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Textos e imagens correlatas: Gênesis, Apocalipse e batismo no Jordão
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Correspondências simbólicas: águas do Jordão e águas primordiais, Espírito sobre as águas e voz criadora
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Noção de ciclo de manifestação: início e fim como momentos correlatos
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Entre os dois marcos cosmogônicos a temática orienta a atividade humana no plano social e no plano individual moral e espiritual, e no domínio social remete à função do poder temporal e à função guerreira como triunfo da forma sobre o informe e da ordem sobre a dissolução, razão pela qual a realeza e a cavalaria assumem o paradigma do gesto divino primordial e São Jorge figura como patrono da cavalaria ao lado de São Miguel.
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Plano social: poder temporal como contenção da violência e garantia da ordem
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Função guerreira como modelagem da ação humana sobre o ato divino criador
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Personagens e nomes próprios: São Jorge e São Miguel como patronos associados
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Considerada à luz da geomancia e da alquimia, a perfuração do serpente por lança ou espada simboliza captar e dominar correntes de forças telúricas que em si mesmas não são más mas se tornam perigosas se não forem orientadas, sendo a arma comparável a raio, relâmpago ou raio solar que ativa a substância terrestre e obriga a revelar tesouros ocultos, e o gesto descreve a conjunção equilibradora entre medida apolínea das forças espirituais e desmedida dionisíaca das potências ctonianas, caracterizando a espiritualidade pítica de Delfos.
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Geomancia: domínio dos fluxos telúricos e sua orientação pela potência celeste
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Simbolismo da arma: raio e luz como princípio de ordenação e ativação
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Polaridade complementar: apolíneo e dionisíaco como medida e potência
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Referência a Delfos como contexto de espiritualidade pítica
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Na alquimia, matar o dragão designa o combate para dominar leis da natureza após penetrá-las e vencer a matéria inicial da Obra, como confronto entre energias ativa e passiva, Enxofre e Mercúrio, visando conciliar contrários e resolvê-los em unidade, e esse motivo é figurado no portal direito da fachada oeste de Notre-Dame de Paris com um alquimista vencendo o dragão das forças físicas enquanto no atanor surge forma humana e, ao longo do portal, a ascensão culmina na vida triunfante como síntese da transmutação.
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Vocabulário alquímico: Obra, Enxofre, Mercúrio e dissolvente universal
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Exemplo iconográfico: Notre-Dame de Paris, fachada oeste e portal direito
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Elementos figurativos: soco com signo do Grande Obra, dragão, atanor e forma humana
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Progressão simbólica: forças na vida cotidiana, elevação acima da matéria e triunfo final
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A alquimia visa primariamente a uma transmutação espiritual, e a imagem de São Jorge constitui tradução plástica e instrumento operativo de contemplação por ser o ícone um meio de meditação.
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Primazia da transmutação interior sobre resultados materiais
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Ícone como ferramenta de contemplação com eficácia prática na via espiritual
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São Jorge como síntese visual de um processo de purificação e elevação
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O ícone de São Jorge condensa a primeira fase da via mística, a praxis ou ascese, orientada à purificação do ser para receber a luz do alto, e essa ascese se exprime na fórmula matar o serpente, exemplificada por passagem de Macário que associa a perfeição a um espírito humilde e à mortificação do serpente que se aloja nas profundezas da alma, exigindo o domínio da personalidade inferior antes da espiritualidade propriamente dita.
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Etapas da via: praxis e ascese como fase inicial
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Personagem e nome próprio: Macário
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Motivo interior: serpente como imagem de forças profundas e perigosas no coração-abismo
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Necessidade de domínio da personalidade inferior como condição para a iluminação
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No monaquismo antigo, a oposição entre animal e anjo descreve a tensão interna do humano, e na perspectiva ascética as forças da parte animal são simbolizadas como serpente e associadas ao demoníaco, embora se afirme que o caráter maléfico deriva da vontade desviada que não as regula, sendo lembrado por Orígenes que animais figuram paixões humanas e se encontram sob domínio demoníaco por constituírem parte não ainda salva da criação e reflexo das profundezas ameaçadoras da alma.
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Quadro monástico: animal e anjo como polaridade antropológica
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Personagens e nomes próprios: Orígenes
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Demonização funcional: forças não reguladas como perigosas por desvio da vontade
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Paixões simbolizadas por animais como visibilidade de estados interiores
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A sabedoria monástica também sustenta que o verdadeiro gnóstico, ao fazer o anjo dominar o animal, adquire poder espiritual sobre demônios e poder de transfiguração sobre animais e plantas como antecipação da futura redenção de todas as criaturas.
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Figura do verdadeiro gnóstico como resultado de ordenação interior
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Transfiguração de criaturas como sinal antecipado de redenção universal
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Domínio espiritual como inversão do estado de sujeição ao demoníaco
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A finalidade não consiste em eliminar as potências inferiores, pois isso seria impossível e tenderia a um refreamento que agravaria o estado psíquico, mas em dominar e harmonizar tais potências para que sirvam ao trabalho espiritual, em consonância com a linguagem da alquimia sobre harmonização de Mercúrio e Enxofre, e conforme Gregório Palamas o corpo participa das coisas divinas quando as forças passionais são transformadas e santificadas em vez de mortas.
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Impossibilidade de supressão e risco de agravamento psíquico por refreamento
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Integração e harmonização como condição do trabalho espiritual
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Personagens e nomes próprios: Gregório Palamas
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Transformação e santificação das forças passionais como via corpórea de experiência do divino
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Essa via é apresentada pelo ícone de São Jorge e é resumida por Gérard de Sorval ao interpretar o mito de Perseu como combate contra energias ctonianas como as de Python em Delfos, energias refouladas e ameaçadoras que bloqueiam a alma vital, vencidas com armas concedidas pelos deuses e por força universal do alto que reconcilia energia do baixo, permitindo converter tais forças em dinamismo fecundo e libertar Andrômeda como símbolo da natureza cativa do dragão, etapa descrita como retorno a uma animalidade sã antes de estados angélicos.
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Personagens e nomes próprios: Gérard de Sorval, Perseu, Górgona, Python, Delfos e Andrômeda
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Energia ctoniana como força inferior informe que precisa ser integrada
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Auxílio superior como condição de vitória e reconciliação de planos
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Conversão do ameaçador em fecundo como objetivo de integração psíquica
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O ingresso na via espiritual implica trabalhar não só na própria transmutação mas também na da criação inteira, atuando macrocosmicamente e microcosmicamente e podendo experimentar interiormente a cosmogonia e o retorno à origem, em continuidade com o arquétipo do Cristo no Jordão e com a própria cosmogonia.
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Dimensão universal do trabalho espiritual para além do indivíduo
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Paralelo entre obra interior e ordenação cosmogônica
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Motivo do retorno à origem como experiência espiritual correlata à criação
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A trilogia de Ésquilo sobre as Danaides é coroada por fragmento poético que descreve o desejo do Céu de penetrar a Terra e a chuva como beijo nupcial que fecunda rebanhos e o fruto de Deméter, e essa evocação sugere ressonâncias místicas de cultos de fecundidade nas quais as Danaides podem ser compreendidas como divindades ou sacerdotisas.
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Personagens e nomes próprios: Ésquilo, Danaides e Deméter
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Imagem hierogâmica: Céu e Terra como união geradora sob a chuva
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Fecundidade como símbolo de uma dimensão mística integrada ao tema
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