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LITURGIA DA PALAVRA

HANI, Jean. La divine liturgie: aperçues sur la messe. Paris: Éditions de la Maisnie, 1981.

* A primeira parte da missa constitui uma liturgia integral e indissociável da liturgia do sacrifício, e não uma simples preparação ou “ante-missa”.

  • A designação “Liturgia da Palavra” é apresentada como expressão adequada para nomear essa parte da celebração.
  • A missa aparece estruturada por uma dupla liturgia: a do sacrifício e a da Palavra, complementares entre si.
  • O diálogo entre o homem e Deus se realiza pelas orações dos fiéis e pela resposta divina mediante a leitura da Bíblia, dos Evangelhos e das Epístolas.
  • A expressão “Liturgia da Palavra” possui fundamento sólido na terminologia cultual do Novo Testamento, conforme passagem de são Paulo em Romanos 15, 16.
    • Paulo é designado pelo termo grego litourgos, aplicado ao ministro de função cultual.
    • O verbo hierourguein descreve a realização de uma ação sagrada.
    • O termo prosphora, que designa a oblação na missa, é empregado por Paulo para definir o ministério da pregação do Evangelho.
    • Pela terminologia, o anúncio da Palavra é integrado à liturgia do sacrifício.
  • A tradição mais antiga e ininterrupta da Igreja estabelece uma analogia entre a Palavra de Cristo conservada na Escritura e o Corpo de Cristo sob as espécies do pão.
    • Inácio de Antioquia afirmou que o Evangelho era seu refúgio como a carne de Jesus.
    • Orígenes identificou o pão do qual Cristo falou como Seu Corpo com a Palavra que nutre as almas.
    • Tertuliano comparou a Palavra da vida à carne do Filho de Deus.
    • Cesário de Arles afirmou que negligenciar a santa Palavra é tão culpável quanto deixar cair o próprio Corpo de Cristo.
    • Agostinho orientou a escuta do Evangelho como se o próprio Senhor falasse.
    • A Imitação de Cristo menciona duas mesas no tesouro da Igreja: a do altar com o pão consagrado e a da Lei divina com a santa doutrina.
  • As marcas de veneração prestadas ao livro dos Evangelhos expressam concretamente a doutrina da analogia entre Palavra e Pão.
    • O Evangeliário é colocado sobre o altar desde o início da missa para representar o Cristo.
    • Em concílios e sínodos, era depositado num trono para presidir a assembleia.
    • Nas basílicas sírias, o berna possuía um pequeno altar semelhante ao altar-mor, sobre o qual se colocava o Evangeliário, uso herdado da sinagoga.
    • A procissão solene com luzes, o incensamento do livro e o beijo ao livro convergem para uma verdadeira adoração dirigida à Palavra de Deus.
  • A leitura pública das Escrituras na liturgia é necessária por razões intrínsecas, não podendo ser substituída pela leitura privada.
    • Os textos sagrados foram redigidos para ser a catequese dirigida à ecclesia reunida para a liturgia.
    • A Igreja crê que o Cristo vivo fala por esses textos e está presente na assembleia.
    • A presença de Cristo na synaxis é garantida por Ele mesmo: “onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome, Eu estou no meio deles”.
    • Ocorre uma ação de Deus na proclamação (kirygma) da Palavra, à qual o fiel responde com a aclamação: Laus tibi, Christe.
  • A leitura litúrgica atualiza os fatos revelados nas Escrituras e realiza a presença imediata do ato original pelo qual a Palavra se manifestou pela primeira vez.
    • Os rabinos assimilavam a leitura litúrgica à emissão direta da Voz divina no Sinai.
    • A leitura deve ser feita segundo ritmo determinado ou em recto tono, sem leitura expressiva segundo regras da dicção profana.
    • A personalidade do ministro humano deve se apagar diante da personalidade transcendente do Mestre divino.
    • A leitura solene da Escritura é um verdadeiro sacramento da Palavra, mediante a descida do Espírito Santo, à semelhança do que ocorre na consagração do Pão e do Vinho.
    • A Palavra proclamada na liturgia é o Verbo pelo qual o mundo foi criado e pelo qual deve ser recriado, objetivo do Santo Sacrifício como restauração do mundo original.
    • Os trechos proclamados constituem um apelo pelo qual o povo de Deus é chamado a fazer e a tornar-se o que a Palavra proclama.
  • A transmissão oral da Palavra de Deus pelo sacerdote aos fiéis responde a uma constante do sagrado universal presente nos cultos denominados mistérios.
    • Nos mistérios, os legomena consistem em revelar ao fiel a história do deus como história de salvação, o que corresponde exatamente à liturgia da Palavra.
    • A transmissão do segredo da salvação se faz de boca a ouvido: o sacerdote transmite (paradidosi) e o fiel recebe (paralamvani).
    • Paulo emprega a mesma terminologia em 1 Tessalonicenses 2, 13, distinguindo a Palavra recebida como Palavra de Deus da mera palavra humana.
    • A transmissão se faz de viva voz por alguém que a recebeu por tradição ininterrupta desde o fundador do culto, no caso do cristianismo pela cadeia apostólica.
    • Paulo afirma em Romanos 10, 17 que a fé nasce da escuta e a escuta se dá por ordem do Cristo.
  • As pesquisas do padre Jousse sobre antropologia da palavra e do gesto fundamentam a conexão entre anúncio da Palavra e eucaristia.
    • A palavra que designa uma coisa pode ser a própria coisa, pois é fundamentalmente concreta, especialmente nas línguas de sociedades tradicionais como a dos antigos hebreus, onde o nome é sinônimo de essência.
    • A palavra é articulação projetada pelo sopro e recebida pelo ouvido; a boca, órgão da fala, é também instrumento da manducação.
    • Platão já havia observado o papel ambivalente da boca: entrada dos alimentos por necessidade e saída das palavras como a mais bela das fontes.
    • A palavra é incorporada pelos ossos e tímpano de quem escuta e também pela boca, pois o homem é por natureza um imitador que repete em micro-gesto os movimentos bucais de quem fala.
    • No ambiente palestino do Cristo, o ensinador transmitia em ritmo-melodia com gestos e mímica, de modo que o mestre se incarnava literalmente no discípulo por intussuscepção.
    • O discípulo repetia em eco a lição do mestre (catecho, origem do catecismo), prática denominada mishná pelos judeus, fundamento da liturgia da sinagoga como réplica do Sinai.
  • A manducação da Palavra constitui o traço mais característico da intussuscepção, conforme demonstra a experiência de Ezequiel e passagem análoga no Apocalipse.
    • Deus ordena a Ezequiel que abra a boca e coma o manuscrito, cujo sabor era doce como mel (Ez 3, 1-3).
    • O Apocalipse 10, 8-9 apresenta sequência análoga.
    • Todo ensinador se dá a comer em sua medida; a verdadeira pedagogia consiste em incarnar todo o ser do mestre no discípulo.
    • Jesus realizou isso de forma perfeita na Ceia, que é, segundo Jousse, indissoluvelmente a intussuscepção bucal da carne e do sangue do Ensinador e a intussuscepção do ritmo-catecismo desse ensinador, correspondendo à Ceia e ao Discurso após a Ceia de são João.
    • A ritmo-melodia na proclamação litúrgica, herdada do uso hebraico, visa facilitar a penetração íntima da Palavra no ser psico-somático do fiel; nos ritos orientais, como o árabe e o bizantino-eslavo com a Epístola aos Romanos arranjada por Rachmaninov, essa riqueza foi preservada, em contraste com a leitura expressiva generalizada no Ocidente.
  • A Palavra de Deus deve ser recebida como alimento que se torna carne da carne e espírito do espírito do fiel, e não apenas como conjunto de doutrinas ou conceitos.
    • Os três sinais da cruz traçados antes da audição do Evangelho sobre a fronte, a boca e o peito correspondem a centros do organismo sutil que condicionam o despertar espiritual.
    • A Palavra deve cair como grão de trigo na terra do corpo e do coração para aí germinar (Mt 13, 4-23).
    • O texto da missa maronita coloca na boca do próprio Cristo a comparação entre o Verbo incorporal e um delicioso grão de trigo recebido no seio fértil de Maria.
    • Segundo Agostinho, Maria concebeu primeiro pelo ouvido, pela escuta da Palavra, e pelo obedecimento à Palavra foi digna de conceber em seu corpo; o fiat de Maria fez conceber no corpo humano o Verbo divino.
    • A Anunciação é o arquétipo da escuta da Palavra de Deus.
    • O sufi Al-Baqli descreve o processo de geração espiritual em Maria: sua alma concebeu pelo Sopro do Mistério oculto e tornou-se portadora da Palavra mais elevada após contemplar a manifestação do Eterno.
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