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CONTO DE INVERNO
LINGS, Martin. The secret of Shakespeare. 1. paperback ed., rev.exp ed. Wellingborough: Aquarian Pr, 1984.
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A peça “Conto de inverno” é o paralelo mais próximo com a “Divina comédia” de Dante entre todas as obras de Shakespeare, embora não alcance a mesma extensão, e estrutura-se em três partes distintas para Leontes, com o Inferno e o Purgatório representados separadamente.
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A primeira parte da peça trata da descoberta do mal oculto na alma de Leontes, cuja grande falta é profanar as forças do Espírito, representadas por Hermione, ao usá-las para um propósito trivial, como persuadir Polixenes a ficar, desperdiçando seu poder irresistível.
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Após Hermione convencer Polixenes a prolongar a visita, Leontes começa a suspeitar de adultério entre eles, ordena a Camilo que envenene Polixenes e, diante da recusa de Camilo, este foge com Polixenes para a Boêmia.
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O ciúme de Leontes não deve ser comparado ao de Otelo, pois Leontes é como Otelo com Iago dentro de si, não havendo personificação exterior do mal, e os outros personagens atuam como anjos guardiães enquanto Leontes afunda no Inferno, estando “em rebelião contra si mesmo”.
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A substância psíquica perdida precisa ser redescoberta e purificada, e Leontes, ao despertar elementos adormecidos, é subjugado por eles, mas salva-se ao submeter a questão ao julgamento de Apolo, enviando mensageiros a Delfos.
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Após renegar a filha recém-nascida e enviá-la para um lugar deserto, Leontes coloca Hermione em julgamento por adultério, e o oráculo de Apolo declara a inocência dela, de Polixenes e de Camilo, afirmando que Leontes é um tirano ciumento e que viverá sem um herdeiro até que o que foi perdido seja encontrado.
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Ao blasfemar contra o oráculo, dizendo não haver verdade nele, Leontes atinge a mais baixa profundidade do Inferno com sua impiedade, e o castigo é imediato: a morte de seu filho, o Príncipe Mamílio, o que aniquila instantaneamente toda a rebelião em sua alma, fazendo cair a venda de seus olhos e levando-o a um arrependimento completo, seguido pela notícia da morte de Hermione.
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O Purgatório de Leontes ocorre no intervalo de dezesseis anos entre os atos, não representado em cena, mas a imensidão de sua contrição é vislumbrada quando Paulina afirma que nem mil joelhos em penitência poderiam mover os deuses a olhar para ele como estava, ao que Leontes responde que mereceu todas as línguas amargas.
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O simbolismo da morte e do nascimento, combinado com o do inverno e da primavera, intensifica o efeito da peça, com a morte do Príncipe Mamílio (que contava o “conto triste de inverno”) e o nascimento e abandono de Perdita, a filha recém-nascida, cujo encontro por um pastor é contrastado com a morte testemunhada por seu filho (“coisas agonizantes” e “coisas recém-nascidas”).
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Perdita, cujo nome significa “a perdida” e é confirmado pelo oráculo, é identificada com o nascimento e com a primavera, personificando o estado de perfeição primordial que o homem perdeu na Queda, e sua criação entre pastores na natureza virgem ecoa a criação dos filhos de Cimbelino.
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Florizel, o filho de Polixenes, encontra Perdita quando seu falcão, o pássaro de Apolo, voa sobre a terra do pastor, e os dois se apaixonam profundamente, mas Polixenes, ao descobrir, disfarça-se e vai à festa da tosquia, onde, ao ver a determinação do filho em casar-se, revela sua identidade e ordena que ele nunca mais volte, sob pena de morte para Perdita.
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No Festival da Tosquia, que ocorre no final do verão, a estação que Leontes alcançou em vida, Perdita está paramentada como Flora, a deusa da primavera, e distribui flores, recusando-se a cultivar cravos por serem híbridos, o que leva a um diálogo com Polixenes sobre a arte do enxerto.
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Polixenes defende a arte do enxerto como derivada da natureza, enquanto Perdita recusa os híbridos, expressando uma consciência intuitiva de que pertence à era primordial, onde não há “tronco selvagem” que precise de “inoculação”, ao contrário da metáfora de Hamlet sobre a necessidade de inocular um novo tronco no velho tronco corrupto da humanidade para superar o mau cheiro da mortalidade.
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Após a revelação e a ordem de Polixenes, Florizel mantém sua determinação de casar-se com Perdita, e Camilo aconselha-os a fugir para a Sicília, apresentando-se a Leontes como visitantes da Boêmia, enquanto o pastor e seu filho, para evitar a ira do rei, decidem revelar que Perdita é adotada e partem para contar, mas são levados por Autólico ao barco de Florizel.
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Camilo, após dar tempo aos amantes para fugirem, informa Polixenes do destino deles e o persuade a levá-lo consigo na perseguição até a Sicília.
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Na Sicília, Leontes, após dezesseis anos de penitência, é informado por Cleomenes de que cumpriu sua pena como um santo, redimindo todas as faltas, e deve perdoar a si mesmo, indicando que a peça alcança um ponto que as peças do período médio não ultrapassavam.
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A chegada de Florizel e Perdita causa admiração, e Paulina observa que Florizel poderia ter emparelhado bem com o falecido Príncipe Mamílio, indicando que ele está prestes a substituí-lo e que, junto com Perdita, representam a “imortalidade” perdida e reencontrada do homem primordial.
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Leontes, sem saber que Perdita é sua filha, vê o casal como uma visão do Paraíso Terrestre, equiparando-os a seus filhos perdidos e dizendo que estão “entre o céu e a terra”, uma lembrança da função do homem primordial como mediador.
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A reação de Leontes à beleza e felicidade do casal revela a transformação de sua alma no Purgatório: sua teimosia, autoconfiança e orgulho foram eliminados, substituídos por um altruísmo espontâneo e magnanimidade que lhe permite regozijar-se com a alegria alheia apesar de suas próprias perdas.
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A descoberta da verdadeira identidade de Perdita ocorre fora de cena, quando o pastor apresenta o pacote de objetos encontrado com ela, contendo um manto e uma jóia de Hermione e um papel com a caligrafia de Antígono nomeando a criança como Perdita.
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Um cavalheiro descreve a cena: Leontes, em êxtase, clama pela mãe de Perdita, pede perdão a Polixenes, abraça o genro e a filha e agradece ao pastor, em um encontro que o narrador considera o mais marcante de que já soube.
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A recuperação “daquilo que estava perdido” marca o fim dos Pequenos Mistérios, que se abrem para os Grandes Mistérios, uma transposição de nível implicada pelo cenário sagrado da cena final, que ocorre numa capela com Hermione em posição exaltada dentro do santuário.
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A aparição final de Hermione tem um efeito celestial sobre a plateia, pois, ao contrário de Leontes, o público não foi informado de que ela estava viva e, para todos, ela estava morta e no Paraíso, tornando sua descida do pedestal, ao som de música, uma ascensão a um plano transcendente.
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A gradualidade da reunião de Leontes com Hermione sugere as estações da certeza na hierarquia dos graus de realização espiritual, e a peça termina numa felicidade que é suprema, mas que aponta para uma felicidade ainda maior e transcendente.
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A ilimitação sugerida pelo símbolo do casamento, que na arte sagrada abre uma perspectiva para os visionários que enxergam mais longe, leva ao tema secundário da passagem de Florizel pelos Mistérios, representada por sua devoção inabalável a Perdita (“aquilo que estava perdido”) e sua conquista final, completando a posse desse tesouro.
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