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VESTES

PALLIS, Marco. The Way and the Mountain: Tibet, Buddhism, and Tradition. 1st ed ed. New York: World Wisdom, Incorporated, 2008.

  • A troca de cartas entre Ananda K. Coomaraswamy e o autor durante os anos de guerra originou a reflexão sobre o abandono do traje tradicional, tema que ambos consideravam de importância crucial como pedra de toque para julgar muitas outras questões.
    • Coomaraswamy informou que sua primeira publicação fora da Geologia foi “Borrowed Plumes” (Kandy, 1905), motivada por um incidente humilhante presenciado no Ceilão.
    • Coomaraswamy sugeriu ao autor que tratasse o mesmo tema com maior profundidade.
    • A oportunidade surgiu quando o autor foi convidado a contribuir para um simpósio mundial em honra ao septuagésimo aniversário de Coomaraswamy.
    • O método adotado foi o dialético, tipicamente indiano, que parte dos princípios universais, desce à dedução de desenvolvimentos e chega à aplicação prática.
    • As tradições hindu e islâmica são invocadas como autoridades paralelas, por partilharem o cenário indiano, como garantia de autenticidade tradicional.
  • A questão do vestuário é, em seu fundamento, uma questão de svadharma, a lei ou norma de comportamento intrínseca a cada ser em virtude de seu modo particular de existência (svabhava).
    • Conformar-se à própria norma equivale a tornar-se o que se é, realizando a plenitude das possibilidades.
    • O afastamento dessa norma implica autocontradição e desintegração proporcional.
  • Sir John Woodroffe, em Bharata Shakti, cita George Tyrrell: o único pecado real seria o suicídio ou não ser si mesmo, afirmação que ecoa uma doutrina de alcance universal.
    • No plano universal, o pecado último é a ignorância (avidya) do que se é, a crença de ser outro que o Self.
    • Esse pecado universal é cometido diariamente por todos, até que o ser se recolha a si mesmo e “se torne o que é”.
  • Existem três graus de conformidade (islam) à verdade, que na tradição islâmica definem progressivamente a relação do ser com a Vontade Divina.
    • Primeiro grau: todo ser é muslim pelo simples fato de existir, pois não pode sair da órbita da Vontade Divina.
    • Segundo grau: o ser é muslim ao reconhecer sua dependência e aderir conscientemente a uma tradição.
    • Terceiro grau: o ser é muslim por ter alcançado a conformidade perfeita, tornando-se idêntico ao seu verdadeiro Self.
    • Em terminologia hindu, os mesmos graus correspondem ao ser como yogi por impossibilidade de existência separada do Self, ao ser que pratica sadhana, e ao Yogi que realizou a união efetiva.
  • O que o homem individual é resulta positivamente de suas possibilidades inerentes e negativamente de suas limitações, e os dois fatores juntos constituem seu svabhava e o qualificam (adhikari) para um papel específico no lila cósmico.
    • Nem possibilidades nem condições limitantes são escolha do indivíduo.
    • A liberdade relativa de vontade dentro dos limites atribuídos é a tradução, no plano individual, da liberdade ilimitada do Princípio.
  • A responsabilidade individual aplica-se exclusivamente ao modo de desempenhar o papel atribuído, o que pressupõe acesso a um padrão de comparação subsistente no intelecto do “dramaturgo” divino.
    • A fonte autêntica desse padrão só pode ser o próprio dramaturgo, e sua comunicação implica um ato de revelação ou graça.
    • A execução prática consiste em imitar fielmente o padrão revelado pela tradição, usando as ferramentas recebidas, nunca forjando novas.
    • Adjuntos artificiais que ampliem as ferramentas naturais devem ser tratados como atributos suplementares (upadhi) da individualidade, harmonizados com o propósito geral de realização do que se é.
  • De tudo que o homem usa em sua vocação terrena, nada está tão intimamente ligado à sua personalidade quanto as roupas que veste.
    • Considerações utilitárias como clima, sexo, ocupação e status social são pressupostas.
    • O aspecto complementário de qualquer utilidade é sua significância, que lhe confere poder de ser fator integrador ou desintegrador na vida humana.
    • Os elementos que definem uma forma de vestuário são: corte, material, cor e ornamentos, incluindo fechos e acabamentos.
  • Qualquer tipo de roupa modifica profundamente a aparência de uma pessoa, inclusive sua expressão facial, reproduzindo assim um processo cósmico de revestimento de uma mesma entidade com aparências diversas.
    • Os “setenta mil véus que obscurecem o Rosto de Allah” correspondem, na analogia cósmica, às ordens de manifestação sobrepostas à nudez do Real.
    • Em virtude dessa analogia, o vestuário possui, também no plano individual, o poder de velar ou revelar.
  • A escolha do vestuário revela três coisas sobre o homem: o que ele considera compatível com a dignidade humana, como ele deseja se ver e que atributos quer manifestar, e que opinião deseja que os outros tenham dele.
    • O fator de autorrespeito e a consideração social estão tão entrelaçados que interagem continuamente.
  • A concepção que o homem tem de seu papel no mundo determina diretamente como ele se veste, e o teatro oferece a ilustração mais perfeita desse princípio.
    • O ator que “veste o personagem” e aplica a maquiagem tende a sentir-se outra pessoa, com voz e movimentos que exalam o rasa do novo caráter.
    • Trocando mantos reais por farrapos de mendigo, o mesmo ator geme e se curva; com peruca encanecida, sua voz treme; com espada, emite ordens peremptórias.
    • Quando a “personificação” é completa, o ator quase se torna o outro homem, “esquecendo quem é”, e só ao sair do personagem descobre que, afinal, “as roupas não fazem o homem”.
  • Shri Ramakrishna Paramahamsa atestou com humor o poder do vestuário de moldar a personalidade, observando que a natureza do homem muda com cada upadhi.
    • Quem veste musselina com borda preta passa naturalmente a cantarolar canções de amor de Nidhu Babu e a jogar cartas.
    • Quem calça botas inglesas, mesmo sendo magro, começa a assobiar; ao subir escadas, pula os degraus como um sahib.
  • O estudo de tiranias políticas modernas que deliberadamente buscaram minar a ordem tradicional revela uma unanimidade notável: todas atacaram simultaneamente o traje nacional e a Autoridade Espiritual.
    • Esses ditadores perceberam instintivamente que o traje nacional e a Autoridade Espiritual eram incompatíveis com o movimento antitradicional que desejavam instaurar.
    • O traje implicava uma participação simbólica (bhakti) na influência “sobrenatural” que a Autoridade Espiritual representava explicitamente no campo da doutrina.
  • O Czar Pedro I da Rússia foi aparentemente o primeiro a perceber o quanto dependia da questão do vestuário, obrigando as classes dirigentes a abandonar o traje moscovita pelo casaco e calça ocidental, enquanto intervinha na constituição da Igreja Ortodoxa para subordiná-la ao Estado.
    • No Japão, após 1864, o partido modernizador substituiu o traje da corte tradicional pelo fraque de Berlim, tornando os funcionários japoneses de aparência grotesca, acompanhando a medida de certa hostilidade às instituições budistas.
    • Em muitos países da Europa e da Ásia, as classes oficiais adotaram trajes e costumes ocidentais, deixando a população segui-las gradualmente, incentivada pelo ensino em escolas e universidades ocidentalizadas.
  • O exemplo clássico é a revolução kemalista na Turquia, distinguida pela amplitude das mudanças, pela rapidez com que foram impostas e pelo número de imitadores em países vizinhos.
    • Kemal, aclamado como Ghazi ou “paladino da Fé” após a vitória sobre os inimigos externos, voltou seu poder contra a tradição islâmica, suprimindo o Califado e saqueando as dotações de uso sagrado.
    • Sob a nova legislação, os derviches votados à vida contemplativa foram equiparados a vagabundos comuns.
    • Kemal proibiu o traje nacional turco em toda a nação, impondo em seu lugar confecções europeias de baixa qualidade.
    • Milhares de mulás que ousaram opor-se foram executados pelos algozes de um “Ghazi” ímpio e bebedor de arak.
    • No restante do mundo muçulmano, incluindo a Índia, mal se levantou um protesto; apenas o fez turco otomano sobreviveu, proscrito em seu próprio país, como lembrete das inconsistências a que as lealdades humanas podem conduzir.
  • Para determinar o que torna uma forma de vestuário adequada ou inadequada é preciso recorrer à raiz metafísica da possibilidade de manifestação: toda possibilidade de manifestação tem sua raiz na possibilidade correspondente do Não-Manifesto, onde subsiste como causa eterna.
    • Metafisicamente, o Ser é o Não-Ser afirmado, a Palavra é o Silêncio pronunciado; afirmada a Nudez, o vestuário é “inventado”.
    • O princípio do Vestuário reside, portanto, na Nudez.
  • O Mito Cosmológico comum às três tradições abraâmicas, retomado no relato bíblico de Adão e Eva no Éden, ilustra o estado de humanidade primordial ou Estado Primordial.
    • No centro do Jardim do Éden crescia a Árvore da Vida ou Eixo do Mundo (Meru danda), assimilado macrocosmicamente ao Sol Supremo (Aditya) e microcosmicamente ao Intelecto (Buddhi).
    • Todas as faculdades do conhecimento e da ação estavam hierarquicamente agrupadas em torno do Intelecto, cada uma cumprindo sua norma (dharma), sem usurpação.
    • Esse estado de harmonia interior refletia-se externamente nas relações pacíficas entre o Homem e todas as criaturas ao redor.
    • Adão conversava diariamente com Deus, ou seja, o self individual era plenamente receptivo à influência do Self Universal; a concentração ekagrya era espontânea.
    • Esse estado é chamado de “infantilidade” (balya) na doutrina hindu ou “pobreza” (faqr) na islâmica, e para ele “nudez” seria igualmente um nome apropriado.
  • A perda do estado de normalidade humana é narrada no relato da queda de Adão e Eva, que comeram o fruto proibido da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, corrompidos pela Serpente.
    • A unidade original da visão cedeu lugar ao dualismo, produzindo uma cisão entre o self e o Self — esse é o “pecado original” da teologia cristã, semente de toda oposição.
    • O primeiro efeito do fruto dualista foi o sentimento de “vergonha” diante da própria nudez, levando Adão e Eva a cobrir seus corpos com folhas de figueira, criando assim o primeiro exemplo de vestuário humano.
  • Para quem ainda se encontra no estado de balya, nunca pode surgir o pensamento “preciso me vestir”, pois balya implica o reconhecimento claro de que a individualidade, com todos os seus invólucros (kosha), é ela mesma apenas um manto para o verdadeiro Self.
    • Vestir a individualidade seria sobrepor roupa sobre roupa.
    • Para quem realizou esse estado primordial, o procedimento mais natural seria despojar-se de toda roupa; o asceta nu (nanga sannyasin) representa adequadamente a posição de quem intenta reunir-se ao Self.
  • Uma vez abandonada a indistinção da nudez primitiva, as diversas vias tradicionais separam-se, produzindo uma ampla diversidade de tipos de vestuário, cada um com certos aspectos do simbolismo predominantes.
    • Esse é o princípio geral de distinção entre qualquer forma tradicional e outra: cada uma exibe um “gênio” para certos aspectos da verdade, deixando aos vizinhos os aspectos complementares.
  • O tipo mais característico do vestuário hindu, antigo e moderno, conforme Coomaraswamy explicou ao autor por carta, consiste em uma extensão de tecido tecida toda de uma peça, sem costuras — a “veste inconsútil”.
    • Os estilos “talhados”, como os usados por muçulmanos indianos, pertencem a outra categoria.
    • Na Crucificação, os soldados que despojaram Jesus de sua roupa recusaram-se a rasgar a veste inconsútil e lançaram sortes por ela.
    • O próprio Salvador foi erguido nu na Cruz, pois no momento em que o Filho do Homem descartava a última aparência de dualidade e retomava a nudez principal do Self, isso era o apropriado.
    • Teólogos cristãos assinalaram que a veste simbólica de Cristo é a própria Tradição, una e “sem partes”; “rasgar a veste inconsútil” equivale a romper com a tradição.
    • As palavras de Cristo em Mateus 9,16 — sobre não remendar pano novo em roupa velha — advertem aqueles que pretendem salvar a tradição por meio de compromissos com uma visão secularista.
  • O “hábito monástico” constitui outro tipo importante, fundado em material simples e corte austero, frequentemente feito de trapos, como ocorre no Budismo, sempre evocando a ideia de pobreza e simbolizando a aspiração ao estado de balya.
    • A esse tipo se vincula, em sentido lato, o algodão artesanal autocorado (khaddar) que, na India de Gandhi, tornou-se emblema de um certo movimento.
    • A ideia de pobreza estava em primeiro plano no khaddar, mas alguns apoiadores, possivelmente influenciados por um viés inconsciente de ocidentalização, insistiam em atribuir-lhe apenas propósito econômico — socorrer os pobres despojados de sua vida vocacional pela industrialização moderna.
    • Admitir isso seria reconhecer que o khaddar tinha propósito utilitário mas nenhuma significância espiritual, tornando o movimento essencialmente “profano” (literalmente “diante do templo”).
    • Gandhi, contudo, nunca cessou de pregar e exemplificar que nenhuma atividade, nem mesmo a política, pode ser divorciada da fé em Deus e da autodedicação a Seu serviço — visão que lhe valeu o ódio dos “progressistas” de todo matiz, que o chamavam de “medieval”, “tradicional” e “reacionário”.
  • O traje tradicional, em toda sua variedade de tipos ao longo das épocas e em todas as partes do mundo, relaciona-se imediatamente a uma ideia que sempre implica o reconhecimento de uma influência supra-humana.
    • Conforme a formulação de Coomaraswamy, toda arte tradicional pode ser “reduzida” à teologia, sendo dispositiva à recepção da verdade.
    • O traje que um homem usa como membro de uma sociedade tradicional é o sinal, parcialmente consciente e parcialmente inconsciente, de que aceita uma visão do self humano e de sua vocação, ambos encarados em relação a um Princípio em que sua origem causal (alpha) e seu fim último (omega) coincidem.
    • Tal traje é governado por um Cânone que representa a continuidade da tradição, o elemento estável, o Ser; dentro do cânone há amplo espaço para adaptação individual, correspondente ao elemento variável, o Devir.
  • Nas civilizações tribais, a arte do vestuário e do adorno pessoal é levada a um ponto em que os detalhes do traje são equivalentes simbólicos quase exatos das vestimentas, adereços de cabeça e joias que indicam os upadhis em uma imagem sagrada (pratima).
    • O traje tribal é frequentemente coberto de emblemas metafísicos, cujo significado preciso nem sempre é conhecido por seus portadores, que os reverenciam profundamente e deles extraem nutrição e poder espiritual (shakti).
    • O traje tribal costuma implicar considerável grau de nudez e é muito reminiscente das vestimentas de deuses e deusas retratados em pinturas e esculturas antigas, sugerindo que as formas de vida tribal são sobrevivências de um período anterior ao atual Kali-yuga.
    • Tanto os missionários “cristãos” quanto os apóstolos do materialismo moderno — motivos aparentemente contraditórios frequentemente encontrados na mesma pessoa — comemoram quando conseguem induzir camponeses e tribais a abandonar o traje nativo, pois depois disso eles se tornam vítimas fáceis de persuasões subversivas.
  • O traje moderno europeu e americano ameaça suplantar todos os outros, levando à abolição de toda distinção — tradicional, racial ou mesmo individual — e tornou-se o uniforme reconhecido de todos os que desejam converter-se ao credo do “individualismo” e da humanidade que se basta a si mesma.
    • É paradoxal que partidários de um nacionalismo violento — que é apenas um ramo do individualismo — tenham sido frequentemente inimigos declarados de seu próprio traje nacional, precisamente por sua silenciosa afirmação de valores tradicionais.
  • O “uniforme de partido”, variante recente do vestuário humano introduzida pelos estados totalitários, merece menção especial.
    • As “camisas negras” de Mussolini e as “camisas pardas” de Hitler foram concebidas para sugerir brutalidade e uma camaradagem boisterous, indicativa de lealdades partidárias.
    • O uniforme dos membros do Partido Comunista Chinês, com sua calculada opacidade, expressa com quase genialidade a total subordinação do indivíduo humano à máquina do partido — aquela jaqueta disforme abotoada até o queixo, às vezes acompanhada de um boné horroroso que confere um caráter peculiarmente desumano a qualquer rosto que o sustente.
    • Esse tipo de uniforme equivale, no fundo, à paródia de um hábito monástico: onde a austeridade do traje monástico afirma um apagamento voluntário do indivíduo diante da Norma Espiritual, o uniforme partidário sugere um apagamento da individualidade em sentido inverso, diante do princípio coletivo deificado conhecido como “as Massas”.
    • É o ideal de uma humanidade menos o Homem, pois ninguém pode ser verdadeiramente humano ao tentar ignorar seu próprio simbolismo como reflexo da imagem divina.
    • Não é acidente que todos esses tipos de uniforme tenham sido derivados de formas ocidentais, nunca de trajes nativos.
  • O traje ocidental moderno, sob suas formas mais correntes, prestou-se mais do que outros à expressão de valores profanos, tendência que se acentuou progressivamente desde a segunda metade da Idade Média.
    • As mudanças levaram tempo para passar das “altas sociedades” às camadas populares; o traje camponês permaneceu tradicional em grande parte da Europa Ocidental por longo período.
    • Mesmo com as extravagâncias que afetavam as modas dos abastados, um certo sentimento “aristocrático” persistiu por tempo suficiente antes de ser completamente minado.
  • Os traços do traje moderno que mais correspondem à concepção profana do homem incluem: a sofisticação pronunciada combinada com despojamento, as alterações frequentes e gratuitas em nome da “moda”, o contraste com a estabilidade formal das coisas tradicionais, e os efeitos da produção em massa por processos que desnaturalizam os materiais.
    • Os corantes químicos, difundidos pelo mundo inteiro, contribuem para a degradação; mesmo onde o traje tradicional ainda prevalece, como na Índia, eles e o uso excessivo de agentes branqueadores anulam muito da qualidade ainda presente nas formas.
    • O encerramento dos pés anteriormente descalços em sapatos apertados e o distúrbio no equilíbrio natural do corpo provocado pela introdução de saltos elevados também não devem ser subestimados.
    • Os ornamentos do vestuário moderno nunca apresentam caráter simbólico; o ornamento, em seu melhor e em seu pior, tornou-se arbitrário e, portanto, profano.
  • Uma objeção possível é que o traje ocidental moderno é um desenvolvimento linear do que era habitual na Europa cristã e poderia, portanto, reivindicar certo grau de equivalência tradicional com o que existia em outros lugares.
    • Historicamente, o fato é incontestável, mas longe de invalidar o argumento precedente, torna-o mais inteligível: o erro nunca existe em estado “puro” e não pode ser oposto à verdade, pois a verdade não tem oposto.
    • Um erro representa apenas um empobrecimento, uma distorção, uma caricatura de algum aspecto particular da verdade, que ainda é discernível por quem possui discernimento, mesmo através de todas as deformações.
    • Todo erro é muslim apesar de si mesmo, segundo o primeiro dos três graus de conformidade, e não pode ser referido a nenhum princípio separado, sob pena de aceitar um dualismo radical no Universo, um diteísmo.
  • Os ocidentais, embora usando um traje associado à afirmação de valores secularistas, são menos prejudicados por ele do que asiáticos, africanos ou mesmo europeus orientais que adotaram o mesmo traje.
    • Para os primeiros, ao lado da degeneração antitradicional houve alguma medida de adaptação que trouxe certa imunidade — a doença é endêmica, enquanto para os segundos tem toda a virulência de uma epidemia.
    • Como elementos positivos, por mais reduzidos, persistem através de toda corrupção, aqueles a quem essa forma de traje pertence propriamente podem, se quiserem, utilizar os fatores qualitativos ainda presentes — embora o contrário também seja possível, como evidenciado tanto no indivíduo afetadamente fashion quanto em seu contraparte afetadamente desleixado.
    • Para o imitador oriental, a mudança para o traje moderno pode envolver uma contradição tão completa de todos os seus hábitos mentais e físicos que resulta em um súbito rompimento violento de sua personalidade, com perda total do senso de discriminação e do gosto ordinário.
  • A crença de que o movimento de submergir diferenças específicas revela uma tendência unificadora na humanidade é uma grande ilusão, pois confunde a verdadeira unidade com sua paródia, a uniformidade.
    • Para cada indivíduo, realizar plenamente as possibilidades inerentes ao seu svabhava marca o limite da realização, após o qual nada mais há a desejar.
    • Entre dois seres que são plenamente eles mesmos, nenhum osso de contenda pode existir, pois nenhum pode oferecer ao outro algo além do que ele já possui.
    • No nível supra-individual, a preocupação comum com a Verdade principal garante uma unidade que nada perturbará; o máximo de diferenciação é, portanto, a condição mais favorável à unidade e à harmonia humanas — conclusão que René Guénon foi o primeiro a formular nos tempos modernos.
    • Quando dois seres são submetidos ao rolo compressor da uniformidade, ambos são frustrados em elementos de sua realização pessoal e colocados em posição de competição num campo artificialmente restrito, resultando em oposições crescentes — quanto maior a uniformidade imposta, mais inevitáveis os conflitos resultantes.
  • O princípio geral ilustrado pelo tema do vestuário poderia ter sido igualmente aplicado a outros fatores da Vida Ativa (karma-marga), como o mobiliário das casas, a música e os instrumentos musicais ou a arte dos modos de convivência, todos governados pela mesma lei de svadharma.
    • Por trás da ampla deserção do traje e dos costumes tradicionais está, sem dúvida, uma profunda perda de espiritualidade, que se manifesta superficialmente em uma diminuição da dignidade pessoal e do senso de discriminação.
    • No Oriente, essa tendência caminhou lado a lado com o que Henry James descreveu como uma “valorização supersticiosa da civilização europeia”, tendência ainda não esgotada.
    • A imitação raramente se limita ao que parece indispensável para sobreviver no mundo moderno, estendendo-se facilmente ao que não pode ser considerado imposto por necessidade contingente.
    • A causa operativa deve ser buscada em um impulso psicológico avassalador — o impulso de experimentar certas possibilidades do ser que a tradição até então havia inibido, possibilidades que só amadurecem no esquecimento de Deus; o traje tradicional, sendo lembrança dessas coisas, precisa ser descartado.
  • As mulheres indianas, com raras exceções, continuam a usar o sari tanto em casa quanto no exterior, e seu gentil exemplo chegou a se espalhar para lugares inesperados, com visitantes africanas vestindo o sari em cores e designs da própria tradição africana.
    • Essa adoção de um modelo tradicional estrangeiro em lugar do ocidental onipresente, por adeptos de um nacionalismo emergente, é até então sem precedentes.
    • Visitantes muçulmanos nigerianos de compleição imponente, de ambos os sexos, são frequentemente vistos passeando pelas ruas devidamente trajados em seu esplêndido traje nacional.
  • O princípio que governa todos os casos similares é que o traje nativo — ou qualquer outro “suporte” formal da mesma ordem — é um fator acessório no condicionamento espiritual do homem ou da mulher, tanto pelas associações que carrega quanto, em nível mais elevado, por seu simbolismo.
    • A adoção do traje moderno ocidental tem sido frequentemente o primeiro passo na fuga da Tradição.
    • Seria justiça poética que seu abandono marcasse o primeiro passo em um eventual caminho de retorno — talvez demasiado para esperar, mas a possibilidade vale ser mencionada.
    • Embora o traje não seja o homem em si, é verdade que, se “as roupas não fazem o homem”, igualmente verdadeiro é que representam uma influência das mais eficazes em sua formação — ou em sua deformação.
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