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IN PRINCIPIO CREAVIT DEUS

SCHAYA, Léo. La Création en Dieu: à la lumière du judaïsme, du christianisme et de l’islam. Paris: Dervy, 1983.

  • A discussão sobre as duas concepções criacionistas antinômicas é aprofundada a partir da constatação de que a noção de creatio ex nihilo não é uma revelação unívoca das Escrituras, mas uma elaboração de exegetas exotéricos que atende à capacidade de compreensão das massas, ao mesmo tempo em que sua ambivalência permite a transposição esotérica para a verdade da creatio ex Deo et in Deo, ambivalência esta que é inerente tanto à letra das Escrituras quanto a certos comentários, embora as massas tendam a interpretações literalistas e superficiais que nivelam a Revelação por baixo, confundindo-a com a exegese humana, o que introduz as análises do capítulo sobre exemplos bíblicos e corânicos que se prestam a ambas as exegeses contraditórias.
    • A noção de creatio ex nihilo foi elaborada por exegetas exotéricos a partir das Escrituras, e não revelada de forma unívoca, para responder às capacidades de compreensão das massas.
    • A ambivalência anagógica é inerente à letra das Escrituras e a certos comentários, permitindo a transposição esotérica para a creatio ex Deo et in Deo.
    • As massas tomam as exegeses ao pé da letra e frequentemente as simplificam ainda mais, nivelando a Revelação por baixo e confundindo-a com a exegese humana.
    • A análise do capítulo será introduzida por um exemplo de comentaristas cristãos, seguida de passagens bíblicas e corânicas que se prestam a ambas as exegeses, culminando no aprofundamento da revelação criacionista fundamental da Bíblia.
  • O exemplo do Segundo Livro dos Macabeus (VII, 28), frequentemente citado por comentaristas cristãos para afirmar a creatio ex nihilo como confirmada pela Escritura, não pode ser considerado uma revelação divina por não fazer parte do cânon hebraico e refletir apenas uma interpretação exotérica corrente em Israel, cuja formulação sobre Deus ter feito o mundo de coisas que não existiam, embora sirva à concepção exotérica, também permite uma exegese superior referente às realidades preexistentes e arquetípicas.
    • O Segundo Livro dos Macabeus é um escrito deuterocanônico para parte da Igreja cristã, mas não pertence à Escritura canônica do judaísmo, sendo uma obra histórica que reflete a interpretação exotérica corrente em Israel.
    • A passagem relata a exortação de uma mãe para que seu filho reconheça que Deus fez o céu e a terra e tudo o que contêm a partir de coisas que não existiam.
    • Essa formulação, embora sirva de ponto de partida para a concepção exotérica, também permite uma exegese superior que vê a inexistência fenomênica como referência às realidades pré-existentes ou arquétipos incriados e divinos.
  • A passagem da Epístola aos Romanos (IV, 17), citada por comentaristas cristãos para sustentar a tese exotérica da creatio ex nihilo, refere-se primeiramente à ressurreição dos mortos, que não simboliza uma criação a partir do nada mas sim a pré-existência essencial dos seres, e sua formulação sobre Deus chamar as coisas que não são como as que são, na realidade, corrobora a interpretação da pré-existência ao significar que Deus atualiza em Si as coisas ainda não criadas a partir de seu estado incriado e prototípico.
    • A primeira parte do versículo se refere à ressurreição dos mortos, que simboliza a pré-existência essencial dos seres, e não uma creatio ex nihilo.
    • A última parte, sobre Deus chamar as coisas que não são como as que são, é interpretada como a atualização por Deus, em Si mesmo, das coisas que ainda não foram criadas, partindo de seu estado incriado e prototípico.
  • O versículo 9 da sourate XIX do Corão, que relata o anúncio do nascimento de João Batista a Zacarias com a afirmação divina de que o criou anteriormente quando não era uma coisa, é interpretado pelos exotéricos como prova da criação a partir do nada, enquanto os esotéricos, rejeitando o nada, veem nessa inexistência anterior da coisa criada a sua pré-existência como realidade incriada na Transcendência divina, manifestada por Deus como aparência transitória de uma existência criada que permanece unida a Ele em sua essência pura e eterna.
    • Exotéricos interpretam a afirmação “não eras uma coisa” como prova da criação a partir do nada.
    • Esotéricos interpretam a inexistência anterior como a pré-existência da coisa enquanto realidade incriada na Transcendência divina, manifestada como existência criada, mas unida a Deus em sua essência eterna.
  • O versículo corânico XXXVI, 82, sobre o comando divino “Seja!” e a coisa imediatamente é, é interpretado pelos exotéricos como prova de que a coisa foi tirada do nada, enquanto para os esotéricos o Vouloir e o Comando de Deus fazem parte da Determinação própria de seu Ser, manifestando o ser divino e pré-existente da coisa sob o aspecto de sua existência criada no seio do Ser onipresente de Deus, sendo a criação uma atualização in divinis a partir do próprio Ser divino.
    • Exotéricos interpretam o comando “Seja!” como a criação da coisa a partir do nada.
    • Esotéricos entendem que o Vouloir e o Comando de Deus são a Determinação própria de seu Ser, que manifesta o ser pré-existente e eterno da coisa (identificado ao Ser divino) sob a forma de existência criada, numa creatio in divinis a partir do Sur-Être.
  • A análise dos exemplos bíblicos e corânicos demonstra que nenhum deles prova uma revelação unívoca da creatio ex nihilo, mas sim, para quem lê atentamente, apontam para a creatio ex Deo et in Deo, a começar pela frase inicial da Bíblia, “In principio creavit Deus”, cuja tradução latina “in principio” expressa mais completamente que a francesa “au commencement” o sentido local de “no Princípio”, situando a criação no Princípio divino que transcende espaço e tempo, sendo que o termo hebraico bereshith comporta múltiplos significados que convergem para a ideia de que Deus criou os céus e a terra no, com, pelo e para o Princípio essencial que Ele mesmo é.
    • Nenhum dos textos citados constitui uma revelação unívoca da creatio ex nihilo, mas sim, mediante leitura atenta, indicam a creatio ex Deo et in Deo.
    • A tradução latina “in principio” para o hebraico bereshith sugere o sentido local de criação “no Princípio”, mais do que a sugestão temporal de “au commencement”.
    • O termo bereshith implica significados como “no, com, por e para o Princípio essencial, a Origem, o Primeiro”, indicando que Deus, o próprio Princípio, criou os céus e a terra.
  • A frase inicial da Bíblia, “Bereshith bara Elohim eth ha-shamayim ve-eth ha-arets”, com o uso da partícula eth (composta pela primeira e última letras do alfabeto hebraico) para introduzir os céus e a terra, designa o eterno Alpha e Ômega, o Princípio que transcende e compreende o começo e o fim de todas as coisas, sendo ele próprio um aspecto divino causal, a condição sine qua non da criação, que revela que Deus, em si mesmo, é mais do que esse aspecto, repousando em sua Essência pura e suprema para além de toda causalidade, como indicado pelo “sétimo dia” de repouso que transcende os “seis dias” criadores.
    • A partícula eth, composta por Aleph e Taw, designa o eterno Alpha e Ômega, o Princípio que transcende e compreende o começo e o fim de todas as coisas.
    • A menção a bereshith ou in principio indica que a criação se dá por um aspecto causal de Deus, que é a condição sine qua non, mas que Deus em si mesmo é mais do que esse aspecto, repousando em sua Essência pura.
    • O “sétimo dia” de repouso divino transcende os “seis dias” criadores, simbolizando a Absoluitade de Deus para além da causalidade, enquanto Ele também se manifesta como Ser causal.
  • A revelação corânica (LVII, 3-5) de que Deus é o Primeiro e o Último, o Exterior e o Interior, e que a Ele retornam todas as coisas, confirma a impossibilidade da creatio ex nihilo em sentido literal no monoteísmo semítico, pois a existência de um nada ao lado de Deus implicaria uma segunda divindade, sendo a única verdade a creatio ex Deo et in Deo, onde o estado de “não-coisa” ou “não-existência” de uma criatura antes da criação significa sua pré-existência em Deus, a única Realidade.
    • A existência do nada ao lado de Deus é impossível, pois constituiria uma segunda divindade, um outro absoluto.
    • A creatio ex nihilo, em sentido literal, é, portanto, impossível do ponto de vista espiritual do judaísmo, cristianismo e islamismo.
    • A única verdade é a creatio ex Deo et in Deo, onde o estado de “não-coisa” antes da criação significa a pré-existência da criatura na única Realidade divina.
  • A identificação do estado de “não-coisa” ou “não-existência” criatural com o estado de pré-existência em Deus é exposta por Titus Burckhardt, que, resumindo a concepção criacionista do esoterismo islâmico, esclarece que o “nada” (adam) de onde o Criador tira as coisas só pode significar a “não-existência” criatural, isto é, a não-manifestação ou o estado principial (divino e incriado) das coisas, pois as possibilidades contidas na Essência divina não são distintas como tais antes de seu desdobramento, não existindo no sentido criatural.
    • O “nada” (adam) donde o Criador tira as coisas significa a não-existência criatural, ou seja, o estado de não-manifestação ou principial (divino) das coisas.
    • Na Conhecimento divino, todas as possibilidades estão contidas, e o mundo é essencialmente a manifestação de Deus a Si mesmo e em Si mesmo.
    • A criação é parte integrante da Autodeterminação cognitiva de Deus como Ser causal e universal.
  • A doutrina da creatio ex Deo et in Deo no esoterismo do islamismo e do judaísmo encontra paralelo no cristianismo com a doutrina do Verbo ou Filho, pelo qual e no qual o mundo foi criado, sendo o Verbo a Sabedoria, a Conhecimento ou Determinação cognitiva própria de Deus, conceito que já se encontra no judaísmo com a Sabedoria (Hokhmah) ou o Verbo (Dibbur) de Deus, identificado com o Princípio criador (Reshith), a primeira das “dez Palavras criadoras” pelo qual tudo foi feito.
    • A doutrina cristã do Verbo ou Filho, pelo qual o mundo foi criado, reúne-se ao criacionismo judaico e islâmico, sendo o Verbo identificado com a Sabedoria e a Determinação cognitiva de Deus.
    • No judaísmo, o Verbo ou Sabedoria (Hokhmah) é identificado com o Princípio (Reshith), a primeira Palavra criadora que contém todas as outras e pela qual Deus criou os céus e a terra.
    • A tradição judaica afirma que Deus fez tudo na, pela e com a Sabedoria (be-hokhmah).
  • A frase inicial da Bíblia, “No princípio Deus criou os céus e a terra”, encontra equivalência espiritual no versículo corânico “Deus é a luz dos céus e da terra” (XXIV, 35), onde Alá é apresentado como a própria Realidade essencial, a Luz criadora e a Palavra “Seja!” que Ele dirige a Si mesmo como eterna Autodeterminação de seu Ser, assim como no Evangelho de João, que começa com “No princípio era o Verbo”, explicitando a identidade do Verbo com Deus e seu papel causal na criação como Luz divina e onipresente.
    • O versículo corânico “Deus é a luz dos céus e da terra” mostra o aspecto interior e espiritual da Genese, identificando Alá como a Luz criadora.
    • O Evangelho de João começa com “In principio erat verbum”, oferecendo uma revelação onto-cosmológica centrada no Verbo, sua identidade com Deus e sua relação causal com a criação, à luz da frase inicial da Bíblia.
  • A tradição judaica e os Pais da Igreja identificam o Verbo (o Filho) com o Princípio (Reshith ou In principio) da Genese, de modo que o Pai cria todas as coisas pelo e no Filho, que é sua Conhecimento, Sabedoria e Palavra eterna, estando Ele antes de todas as coisas e subsistindo tudo nEle, conforme as afirmações do Novo Testamento de que “dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas” (Romanos, XI, 36) e que nEle “vivemos, nos movemos e existimos” (Atos, XVII, 28), explicitando assim a criação ex Deo et in Deo.
    • O Verbo ou Filho é identificado com o Princípio (In principio), sendo a Conhecimento ou Determinação própria do Pai, pelo qual e no qual todas as coisas foram criadas.
    • O Novo Testamento afirma explicitamente que todas as coisas são dEle (ex ipso), por Ele (per ipsum) e nEle (in ipso).
    • A criação se opera e existe, portanto, ex Deo et in Deo, seja o Princípio considerado como Pai ou como Filho.
  • O que foi exposto sobre o Verbo no Evangelho de João, sua identidade com o Princípio e com a Luz divina que contém a vida e a pré-existência de todas as coisas, reafirma a verdade da creatio ex Deo et in Deo, na qual o Deus criador da Genese, Elohim, e a Trindade causal no cristianismo (Pai, Filho e Espírito Santo) são o mesmo Princípio uno no qual e do qual unicamente foram criados os céus e a terra, contrariamente à associação exotérica do “nada” às Escrituras.
    • A criação é ex Deo et in Deo, como demonstrado pela análise do Prólogo de João e sua relação com a Genese.
    • O Deus criador Elohim e a Trindade causal cristã são o mesmo Princípio uno no qual e do qual tudo foi criado.
    • As revelações bíblicas e corânicas, para quem as estuda com atenção e profundidade espiritual, mostram a verdade da creatio ex Deo et in Deo, e não a associação do “nada” pretendida pelos exotéricos.
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