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MÍSTICA CRISTÃ E ESOTERISMO MUÇULMANO

SCHAYA, Léo. La Création en Dieu: à la lumière du judaïsme, du christianisme et de l’islam. Paris: Dervy, 1983.

  • A obra de Mestre Eckhart, particularmente seus tratados e sermões alemães, é apresentada como uma expressão da mística renana que, transcendendo a escolástica, aborda o criacionismo a partir da distinção entre a “Divindade” (Gottheit) ou Sobre-Ser não-causal e o “Deus” (Gott) trinitário e causal, situando a origem e o fim último da criatura nessa Essência absoluta, de modo que todo o circuito existencial da criação se inscreve no Círculo divino da Trindade, que conduz todas as coisas do Sobre-Ser ao Sobre-Ser através do Ser causal e onipresente.
    • Mestre Eckhart distingue a “Divindade” (Gottheit) como o Sobre-Ser não-causal, incriado e incondicionado, do “Deus” (Gott) trinitário, que é o Ser causal e pessoal.
    • O Sobre-Ser é a Essência absoluta, o “Nada” (das Nichts) que é a negação da negação, o “Sim” absoluto, donde tudo procede e para onde tudo retorna.
    • O Ser causal de Deus, a Trindade, constitui o Círculo divino que produz, habita e contém todo o circuito existencial da criação, que vai do Sobre-Ser ao Sobre-Ser.
    • A Unidade ou Continuidade divina é subjacente às aparentes separações das criaturas, que são como grãos de um rosário atravessados pelo fio da presença divina.
  • A relação entre a Divindade inativa e o Deus ativo é detalhada, sendo a Divindade o fundo silencioso e sem obra do qual o Ser causal emerge para agir, e é nesse contexto que Mestre Eckhart situa o Si-mesmo puro do homem, que, descendo desse estado supremo, percorre o Círculo trinitário para, através de uma “progressão” ascendente, retornar à sua Realidade absoluta na Divindade, onde Deus mesmo se desfaz.
    • A Divindade não age, não tem obra, enquanto Deus age, sendo seu próprio Ser o seu Ato, um ato de amor infinito e universal.
    • Mestre Eckhart descreve a experiência de estar no “fundo, no tréfano” da Divindade, um estado de liberdade absoluta onde não há questionamento por nenhuma Pessoa divina.
    • A “progressão” (Durchbruch) da alma através do Ser divino de volta à Divindade é mais excelente do que sua “saída” deste estado para a criação.
    • Na Divindade, o Deus pessoal e trinitário é absorvido na Realidade absoluta e transpersonal, que é também o Si-mesmo supremo da alma.
  • O modo de atividade divina é esclarecido: o Ser de Deus é seu próprio Ato, um ato de conhecimento e amor que se dá a Si mesmo, de modo que ao criar, Deus age “com Ele mesmo e nele mesmo”, imprimindo sua imagem em tudo o que faz, particularmente na alma humana, que é feita “igual” a Ele e na qual Ele opera continuamente por amor, amando todas as criaturas com o mesmo amor com que se ama a Si mesmo.
    • O Ser de Deus é seu Ato, que é puro Amor e Conhecimento de Si mesmo e de tudo o que nele “é”.
    • Deus cria “com Ele mesmo e nele mesmo”, o que transforma o “nada” da creatio ex nihilo no “Divino” da creatio ex Deo et in Deo.
    • A alma humana é a obra suprema de Deus, feita à sua imagem e “igual” a Ele, resumindo nele toda a criação e o próprio Criador.
    • Deus ama todas as criaturas com o amor com que se ama a Si mesmo, pois em essência elas não são outras que Ele, amando-as nelas mesmas como Ele mesmo.
  • Apesar da identidade essencial da criatura com Deus na Divindade, Mestre Eckhart mantém a distinção no plano criado: a criatura enquanto tal não é Deus, e Deus não se reduz às criaturas, assim como o oceano não se reduz à vaga, embora seja todas as vagas; a alma, em seu circuito universal, permanece ela mesma na finitude, mas é destinada a ultrapassá-la para que só reste sua essência infinita, que é Deus.
    • A criatura, em sua natureza criada, finita e relativa, não é o Incriado, Infinito e Absoluto.
    • Deus está na alma com sua Natureza, seu Ser e sua Divindade, mas não é a alma em sua finitude criatural.
    • A alma, como “imagem de Deus”, possui em Deus seu próprio arquétipo, ao qual deve retornar, transcendendo a si mesma para alcançar a Absoluidade comum.
  • A relação entre o arquétipo único (o Filho) e os arquétipos de todas as criaturas é explorada: em Deus, todos os arquétipos estão indistintamente contidos no Filho, a Forma das formas, de modo que todas as criaturas são, nele, o “Filho único”, e sua criação se dá por um “derramamento” do estado arquetípico no Pai para o estado criado, sem que aquele deixe de permanecer na transcendência divina.
    • O Filho é a primeira Forma arquetípica, contendo em si todas as formas prototípicas das criaturas.
    • As criaturas são, em Deus, o Filho único, e o Pai as engendra eternamente nele.
    • O “derramamento” das criaturas para o estado criado é uma descontinuidade relativa, pois seu ser arquetípico permanece no Pai.
    • A comparação com a palavra proferida ilustra como a imagem mental permanece em quem fala, mesmo sendo recebida pelos ouvintes.
  • A posição preeminente do homem na criação é destacada: ele é a imagem central de Deus, a síntese perfeita de sua Toda-Realidade, o mediador entre o Criador e as criaturas, e é nessa qualidade que o Filho de Deus se manifesta como Homem-Deus para a redenção, pois a natureza divina do homem, embora inalterada em sua essência, foi obscurecida pela queda, devendo ser recuperada pela graça para que o homem se torne “por graça o que Deus é por natureza”.
    • O homem é a imagem central de Deus, a síntese perfeita de sua Toda-Realidade e o mediador entre Ele e as criaturas.
    • O Filho de Deus, que no Transcendente é Verbo, no Onipresente é também Filho e homem, manifestando-se como encarnação redentora.
    • O homem decaído perdeu o acesso direto à sua natureza divina, que permanece, porém, inalterada em sua essência.
    • Pela graça, o homem pode recuperar essa natureza e tornar-se “o que Deus é por natureza”, realizando a máxima de que “Deus se fez homem para que o homem se torne Deus”.
  • A aparente contradição entre o “puro nada” das criaturas e sua realidade é resolvida: as criaturas são um “puro nada” apenas em si mesmas, sem Deus, mas como não podem existir sem Ele, que é o Ser único e universal, elas são, em verdade, aparições de uma Realidade que não é outra senão a Dele, de modo que, quando a criatura se despe de sua aparência criatural, ela é sua própria Realidade incriada e divina, identificando-se ao “Nada do nada” que é o Absoluto.
    • As criaturas, sem Deus, seriam um “puro nada”, mas não podem ser sem Ele, o Ser único.
    • Elas são aparições existenciais de uma Realidade que, em essência, é a própria Realidade divina.
    • Quando a criatura deixa de ser a aparência de um outro que Deus, ela é sua própria Realidade incriada e divina.
    • O “nada” do criado identifica-se, na coincidentia oppositorum, ao “Nada do nada” que é o Absoluto, o único “Nada” possível da creatio ex nihilo, que é, na verdade, uma creatio ex Deo.
  • A criação a partir do nada é reinterpretada à luz da metafísica eckhartiana: o Ser causal e universal irradia-se a partir de sua própria Essência absoluta (o Sobre-Ser não-causal), numa operação no “Não-Ser” que faz “nascer” o Ser, sendo esta a verdadeira significação da creatio ex nihilo, na qual o “nada” é o próprio Fundo divino de onde tudo procede e para onde tudo retorna.
    • O Ser causal, no “vasto espaço” de sua Infinitude, determina-se como Ser a partir do Sobre-Ser imutável, operando no “Não-Ser” sem que este seja afetado.
    • Antes de todo ser, Deus já “operava” fazendo nascer seu próprio Ser, estando, em sua Essência, acima do Ser.
    • A criação, portanto, não é um ato que parte de um nada literal, mas uma irradiação do Ser divino a partir de sua própria Essência absoluta, o “Nada” divino.
  • O comentário de Mestre Eckhart a “In principio” revela o mistério da criação como um processo eterno no qual o Pai engendra seu Filho único “das Trevas escondidas” da Divindade, e este, por sua vez, desce para buscar a criatura e reconduzi-la, através da “câmara nupcial” da Paternidade oculta, à sua Absoluidade no “mistério das Trevas da Divindade eterna”, que é a Origem não-causal e a Finalidade última de todo ser.
    • “In principio” significa que somos o Filho único que o Pai engendrou eternamente das Trevas ocultas da Divindade.
    • O Filho, após “dormir” inexprimido na Paternidade eterna, ergue a tenda de sua glória e desce para buscar a criatura, sua “amiga”, com quem está unido desde a eternidade.
    • A “câmara nupcial” para onde o Filho conduz a criatura é a “obscuridade silenciosa de sua Paternidade oculta”, a Essência supra-inteligível da Divindade.
    • O “primeiro começo” (o Ser) só existe em virtude da “vontade do fim último” (o Sobre-Ser), onde Deus repousa como fim de toda causalidade e de toda criatura, nas Trevas mais que luminosas de sua Divindade eterna e incognoscível.
  • A doutrina eckhartiana é resumida na imagem do Círculo divino da criação: a Divindade é o “Nada” que circunscreve o Círculo, cujo Centro é o Ser causal e trinitário, cujos raios são as “centelhas divinas” que constituem a realidade das aparências criadas, de modo que todas as coisas são nascidas de Deus e em Deus e a Ele retornam, numa creatio ex Deo et in Deo em sentido pleno, exigindo, porém, que a criatura decaída retorne pela graça à sua essência divina, unindo-se ao “Ponto central” que é a Trindade.
    • A Divindade é o “Nada” ou “Treva mais que luminosa” que contém o Círculo da criação, cujo Centro é o Ser trinitário e causal.
    • A irradiação do Centro produz os raios, as “centelhas divinas”, que são a realidade das aparências criadas, reais por participarem de Deus, mas efêmeras em sua alteridade criatural.
    • O Círculo é a “Esfera cujo Centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma”, pois o Centro onipresente e infinito abrange toda a existência.
    • A alma que vê a criação preenchida pela Glória divina cessa de tomar as aparências por realidades independentes e retorna ao Centro para recuperar sua Realidade pura.
  • A descrição da alma que “percorreu o círculo do mundo” e se lançou no “único Ponto central” da Trindade é interpretada: neste Ponto, que é a Potência criadora una e imutável, a alma participa da Onipotência divina e, unindo-se a ele pelo “poder unitivo” do olhar de Deus, é desapegada de toda criaturalidade e nele confirmada, conhecendo a Deus por Deus mesmo, num estado onde sabe ter sido criada do “Nada” divino para afirmar e realizar o que realmente é: o próprio Absoluto.
    • A Trindade é a Causa de todas as coisas, que imprimiu sua imagem nas criaturas e para a qual todas aspiram retornar.
    • O “Ponto central” é a Potência criadora da Santíssima Trindade, Una e imutável, na qual a alma, ao se unir, participa dessa Onipotência.
    • O “olhar” divino é o poder unitivo que desapega a alma de tudo o que é criado e mutável, resolvendo-a no Ponto único, onde é eternamente confirmada na união com Deus.
    • Quando a alma é despojada de seu próprio ser criatural, Deus torna-se sua única Essência, e ela contempla, conhece e apreende a Deus por Deus mesmo.
  • Os exemplos extraídos da obra de Mestre Eckhart demonstram sua penetração no mistério da criação até a “progressão” na Identidade essencial da criatura com o único Real, doutrina que encontra paralelo no esoterismo islâmico ou Sufismo, particularmente na doutrina da “Unidade do Ser” (wahdat al-wujud), fundamentada no Corão, que afirma que Deus criou o mundo “bi-l-haqq”, isto é, “pela, da e na Verdade ou Realidade” que Ele mesmo é.
    • Mestre Eckhart atinge, em sua doutrina, a Origem e a Finalidade absolutas das criaturas: sua Identidade essencial e eterna com o único Real.
    • No esoterismo islâmico, a doutrina da “Unidade do Ser” (wahdat al-wujud) afirma que não há realidade senão a Realidade divina, única e universal.
    • O Corão revela que Deus criou o mundo bi-l-haqq, “pela, da e na Verdade ou Realidade”, sendo al-haqq um nome divino que significa o único “Verdadeiro e Real”.
  • A doutrina da “Unidade do Ser” no Sufismo é exposta através de seus principais mestres: Ibn'Arabî afirma que a Realidade divina é o aspecto interior da criação, enquanto esta é o aspecto exterior daquela, sendo o mundo uma “revelação” (tajallî) de Deus a Deus em Deus; al-Jîlî identifica a Essência divina como o “Mistério da Unidade”; Hamzah Fansûrî equipara a existência do universo a uma imagem no espelho, sem realidade própria; e Jâmi sintetiza que a Essência única, considerada absoluta, é a Realidade, e considerada sob o aspecto da multiplicidade, é todo o universo criado.
    • Ibn'Arabî ensina que a Realidade divina (al-haqq) é o interior (al-bâtin) da criação, e esta é o exterior (az-zâhîr) daquela.
    • A palavra divina “Eu era um tesouro escondido e quis ser conhecido” fundamenta a criação como uma revelação de Deus a Deus em Deus.
    • Os “arquétipos imutáveis” ('ayân ath-thâbita) do criado residem eternamente em Deus como determinações próprias de seu Ser uno.
    • Al-Jîlî, Hamzah Fansûrî e Jâmi reforçam, em suas obras, a identidade essencial entre a Realidade divina e o universo, sendo este a manifestação externa daquela, sem que haja, contudo, uma existência independente para o criado.
  • A concepção esotérica islâmica da criação é claramente distinguida do panteísmo: trata-se de uma doutrina da Unidade divina que abrange tanto a Transcendência quanto a Presença universal do Uno, mas sem reduzir Deus ao mundo ou considerar o mundo como uma emanação da Essência divina; a criação é uma “determinação cognitiva” de Deus, uma distinção principial que implica uma descontinuidade relativa entre Criador e criatura, compensada pela Unidade contínua da Causa, subjacente a toda dualidade.
    • A doutrina não é um panteísmo imanentista (que reduz Deus ao mundo) nem emanatista (que considera o mundo um fluxo da Essência divina).
    • Deus é o único Real e o Toda-Real, sendo “Ele mesmo” em sua Realidade transcendente e “Ele mesmo” no seio das aparências do universo criado.
    • A criação é uma “autodeterminação cognitiva” de Deus, que se determina como Ser uno e como Causa universal, implicando seus efeitos criados sob a aparência de algo outro que Ele.
    • Há uma descontinuidade relativa entre a Causa e o efeito, compensada pela Unidade ou Continuidade infinita da Causa, imanente a toda dualidade.
  • A relação entre exoterismo e esoterismo no Islã é abordada: o exoterismo afirma o dualismo entre o “Senhor” e o “servo” e a creatio ex nihilo, enquanto o esoterismo, respeitando esse dualismo na prática religiosa, o supera na realização espiritual pela “extinção” (fanâ) da ilusão de uma “coexistência” com o único Real, alcançando a Unidade que não tem associado, o que é corroborado pela tradição profética sobre a proximidade divina a ponto de Deus tornar-se os próprios sentidos do fiel.
    • O exoterismo islâmico afirma o dualismo entre o Senhor (rabb) e o servo ('abd) e a creatio ex nihilo.
    • Os esotéricos respeitam esse dualismo na prática religiosa, mas o transcendem na realização espiritual pela “extinção” (fanâ) da ilusão da alteridade.
    • A palavra divina transmitida pelo Profeta, sobre Deus tornar-se o ouvido, a vista, a mão e o pé do fiel que Dele se aproxima, mostra a relação essencial entre Deus e o criado, apesar da afirmação exotérica da creatio ex nihilo.
    • O abismo entre o criacionismo exotérico e a concepção esotérica da creatio ex Deo et in Deo não é intransponível, sendo superado por aqueles a quem o mistério da criação se desvela à luz do único Verdadeiro e Real, confirmando que “Deus era e nada com Ele, e que Ele é agora como era”.
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