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NASCIMENTO EM ESPÍRITO

SCHAYA, Leo. Naissance à l’esprit. Paris: Dervy-Livres, 1987.

  • O diálogo entre Jesus e Nicodemos introduz a necessidade da regeneração espiritual do homem, contrastando a “nova nascença” espiritual com a “primeira nascença” corporal e afirmando que a origem e o destino do nascido do espírito são tão misteriosos quanto o vento.
    • A distinção fundamental entre a “nascença de cima” (espiritual) e a “nascença de baixo” (corporal) é um princípio presente em todas as religiões autênticas, onde a primeira representa uma transformação do homem psico-físico em um ser espiritual pela ação do Espírito.
    • A religião (religio), etimologicamente ligada a “religar”, é o meio formal de religar o homem ao Princípio transcendente, operando essa união após a separação relativa causada pela condição criatural e, mais profundamente, pelo pecado original.
    • Antes da criação, a essência do homem não era nada, mas sim uma essência incriada unida à Essência divina, cujo reflexo foi manifestado em uma forma criada paradisíaca; após o pecado original, a união espiritual foi perdida, tornando a religião ainda mais necessária.
    • Os suportes rituais para o restabelecimento do vínculo espiritual variam entre as religiões, como a circuncisão no judaísmo (simbolizando a consagração do corpo) e o batismo no cristianismo (simbolizando a imersão na morte de Cristo e a participação em sua ressurreição para renascer como filho de Deus por graça).
  • O ensinamento de Jesus a Nicodemos sobre a necessidade de “renascer da água e do espírito” aponta para uma efetivação espiritual que transcende o mero pertencimento formal à religião, encontrando seu fundamento eterno na doutrina do engendramento do Filho in divinis.
    • O “Filho” na tradição judaica, como Tiphereth, Rahamim e Da'ath, é a Sabedoria criadora, reveladora e salvadora, nascida do Pai e da Mãe transcendente, e Israel é espiritualmente identificado com este “Filho”.
    • A passagem do Salmo II, 7 (“Tu és meu Filho, eu hoje te gerei”) é interpretada esotericamente como o anúncio eterno do Pai ao Filho, revelando sua identidade de essência no instante eterno.
    • O Corão rejeita a filiação divina, mas o sufismo, com Ibn Arabi, reencontra essa verdade espiritual ao afirmar a identidade suprema do “Homem Perfeito” com Deus, onde “o filho é a essência de seu genitor”.
    • O Filho único é inclusivo e universal, sendo a realidade essencial de todo cristão e, em si, de todo homem, que, como membro de seu corpo, pode ser preenchido com toda a plenitude de Deus, realizando a unidade entre o Pai, o Filho e os homens.
  • A gênese espiritual do homem, que deve nascer do alto, funda-se na distinção entre o Espírito transcendente de Deus e seu Espírito imanente, que se revela ao espírito humano e sonda as profundezas divinas, pressupondo no homem um princípio essencialmente aparentado ao Divino.
    • O Espírito transcendente é o Sobre-ser eternamente não manifestado, enquanto o Espírito imanente é a Irradiação universal que revela a realidade espiritual e divina aos eleitos.
    • A capacidade do espírito humano de receber a revelação do Espírito de Deus indica uma conformidade profunda com o Divino, confirmada pelas escrituras que afirmam ser o homem “da raça de Deus” e “deuses” e “filhos do Altíssimo”.
    • O “nishmath” ou “neshamah”, segundo o esoterismo judaico, é a essência puramente espiritual da alma, uma “lâmpada de YHVH” que emana da Essência divina e transcende a alma mental (ruah) e a alma corporal (nephesh).
    • A tripla constituição do ser humano (espírito, alma e corpo) é comum ao cristianismo e ao islamismo, e cada um desses elementos possui múltiplos aspectos: o corpo tem modos perecíveis e incorruptíveis; a alma tem tendências inferiores e superiores, sensoriais e racionais.
    • As potências espirituais da alma, pelas quais ela se une a Deus, resumem-se na vontade conforme ao Vontade divina (imagem do Espírito Santo), na potência cognitiva (Sabedoria do Pai) e no poder mnemônico (Memória do Pai), existindo ainda na alma algo que transcende a essência criada e é uno com Deus.
  • O vínculo espiritual que une o ser criado do homem à sua essência incriada e divina reside na continuidade subjacente do Infinito, que ao manifestar-se no finito, pode tanto iluminá-lo quanto, em plenitude, resolvê-lo completamente em si mesmo.
    • A “Unidade do Ser” (wahdat al-wujud) é a continuidade misteriosa do Infinito que, ao revelar-se ao finito, o ilumina e, ao manifestar-se plenamente, o resolve, implicando a passagem do criado através da descontinuidade natural até sua própria essência infinita.
    • A resolução do contingente no Eterno, como afirmado por al-Junayd, é a morte interior ao mundo e a “extinção” (fana) da ilusória existência separada na “subsistência” (baqa) eterna.
    • A “Unidade do Ser” reflete-se nos múltiplos aspectos do homem, unindo corpo e alma e mantendo uma continuidade oculta entre a alma criada e sua essência espiritual incriada.
    • A essência espiritual do homem tem um aspecto criado (reflexo) e um incriado (identificado à Essência suprema), e a Imanência do Infinito se oculta no “coração” (qalb) da alma (nafs), onde reside o “espírito” (ruh) e, em seu foro mais íntimo (batin), o “segredo íntimo” (sirr), ponto de contato com o Incriado.
    • Através da purificação e interiorização da alma, o homem passa da multiplicidade ilusória à unidade real, sendo que as designações “alma”, “coração”, “espírito” e “segredo íntimo” nomeiam a mesma entidade sutil em diferentes estágios de purificação, desde a inclinação à imperfeição até a absorção no Incriado.
    • A purificação da alma até o “segredo íntimo” coincide com o conhecimento de si mesmo, conforme a sentença do Profeta: “Quem conhece sua nafs (sua alma, até seu 'si' essencial) conhece seu Senhor”.
  • A Cabala ensina uma progressiva espiritualização da alma, elevando-se do psiquismo ligado ao corpo (nephesh) ao racional (ruah) e deste ao espiritual (neshamah), pois a alma corporal e racional é imperfeita por seu dualismo, enquanto a alma espiritual (neshamah) é pura, perfeita e uniativa, sendo um sopro do próprio Deus vivente.
    • O Zohar compara essa elevação à luz de uma chama: a luz escura na base (nephesh) une-se à luz branca ao centro (ruah) e, juntas, ascendem à luz superior “encerrada, não aparente e imperceptível” (neshamah), tornando o homem “santo”.
    • A necessidade de espiritualização decorre do dualismo da alma (os dois impulsos, bom e mau), contrastando com a pureza una da neshamah, que é um sopro (nishmath) do “Deus vivo” insuflado no homem, conforme a oração diária israelita e a narrativa da criação em Gênesis.
    • O Corão confirma essa doutrina ao mencionar a intenção divina de insuflar no homem “de Seu Espírito”.
  • A descida criadora do Espírito de Deus no homem estabelece uma descontinuidade entre a essência incriada e a natureza criada, gerando na essência espiritual humana dois aspectos: o criado (neshamah) e o incriado; este último, por sua vez, manifesta-se como Imanência divina (hayah) e como Transcendência una (yehidah).
    • A expressão “alma vivente” (nephesh hayah) implica esses dois aspectos: nephesh é a individualidade criada, e hayah, em seu sentido mais elevado, é a alma vivendo eternamente em estado incriado no “Deus vivente” (El Hay).
    • Hayah, como Imanência divina, situa-se imediatamente acima de neshamah (o espírito criado), que atua como ponto de intersecção entre a natureza finita e a essência infinita do homem.
    • A essência incriada apresenta o aspecto imanente (hayah) e o transcendente, que se identifica com a Transcendência divina una (Ehad, Yahid), onde toda a multiplicidade, inclusive a essência incriada do homem (yehidah), é absolutamente uma com o Uno.
  • A constituição completa do ser humano abrange desde o corpo perecível até a essência transcendente e “única” (yehidah), que se identifica com o Ser causal e, em última instância, com o Não-Ser (Ain), o que demonstra que o homem deve “nascer de cima” a partir dessa absoluta origem oculta, sendo ele mesmo a síntese inicial e final de toda a criação.
    • A essência suprema do homem está primeiramente oculta no Sobre-Ser ou Não-Ser (Ain), de onde “nasce” ou desce através do Ser causal, que decide “Façamos o homem”.
    • O homem é a síntese da criação, o primogênito espiritual (oculto em Ain antes da criação) e o último nascido natural, sendo a imagem do “Reino sagrado”, a síntese de todos os espíritos e de todas as Sefirot.
    • Ao sair de Ain, sua própria essência absoluta, o homem é espiritualmente todo o “Reino de Deus”, identificando-se ao “Homem transcendente” (Adam ilaah) da Kabbala, ao “Filho” in divinis do cristianismo e ao “Homem universal” (insan al-kamil) do sufismo, sendo ele a própria Sabedoria que procede do “Néant” divino.
    • A “nascença de cima” implica não só a regeneração da natureza criada, mas a superação desta pela absorção da alma em sua essência incriada, através da morte interior, podendo ser seguida de uma redescida, estado daquele que, uno com o Filho, vem do Infinito e para o Infinito retorna, sendo seu movimento tão misterioso quanto o vento.
  • O Infinito possui a possibilidade de assumir a aparência de um outro que não Ele mesmo, que é o finito, o qual, embora existencialmente outro, é em essência idêntico a Ele, não havendo nem confusão nem separação absoluta entre ambos, pois o finito está contido no Infinito.
    • Se o finito fosse absolutamente outro que o Infinito, seria ele mesmo um absoluto, o que é impossível, pois nada pode estar fora Daquele que não tem limite.
    • O finito é afirmado e atualizado pelo Infinito ao mesmo tempo que é negado por Sua realidade, estando, portanto, relativamente separado e, em última instância, destinado a ser resolvido Nele.
    • A descontinuidade entre o Infinito e o finito é apenas relativa, pois o Infinito é a Continuidade subjacente e imanente ao finito, sem a qual o finito não poderia ser criado “à imagem” do primeiro, nem a Escritura poderia dizer que a alma do homem é uma “luz de Deus” ou uma “porção” do Infinito.
  • A relação entre a particularização finita e o Todo infinito é tal que o “eu” não pode ser identificado com o Infinito enquanto “eu”, mas a Essência infinita do finito é o próprio Infinito, e os arquétipos eternos do finito possuem um duplo aspecto: um determinado voltado para a finitude e outro indeterminado idêntico ao Infinito.
    • Al-Jîlî formula essa relação afirmando que se o homem é Deus, ele não é ele mesmo, mas Deus é Si mesmo; e se Deus é o homem, Ele não é Ele mesmo, mas o homem é ele mesmo, pois o Infinito não se reduz à finitude que assume como aparência ilusória.
    • Os arquétipos, em seu aspecto determinado, prefiguram o finito como algo outro que Deus, mas em sua essência infinita não são outros que Ele, refletindo-se em seus efeitos criados que são, à sua maneira, “nem Ele, nem outro que Ele”.
    • A identidade essencial entre o “eu” e Deus é subjacente à descontinuidade que os separa, persistindo esta descontinuidade mesmo em seu aspecto arquetipal eterno, de modo que a afirmação profética “Eu sou Ele mesmo, e Ele é mim mesmo” é acompanhada da ressalva da distinção individual.
  • A imanência do Infinito no finito é a condição de possibilidade para que o “eu”, em sua realidade essencial, não seja outro que o seu Si divino, e essa verdade encontra expressão na relação amorosa entre a alma e Deus, na qual a entrega total do “eu” a Ele conduz à sua dissolução e identificação com o Amado.
    • A frase do Cântico dos Cânticos, “Eu sou para o meu Amado e meu Amado é para mim”, expressa inicialmente a pertença da alma a Deus, e, num segundo momento, a liquidação total do “eu” no oceano da Beatitude una, onde a alma se torna o próprio Amado.
    • Quando a alma retorna de Deus a si mesma, tudo nela é dEle, e o Todo toma posse de sua particularização até na aparência tangível, conforme a promessa feita a Maomé de que Deus se tornaria os próprios órgãos do seu adorador.
    • Apesar da identidade essencial, o Infinito não se reduz ao finito, que é apenas uma possibilidade de Sua Toda-Possibilidade, a qual lhe permite assumir a aparência de um outro.
  • No homem, que em sua essência une o estado terrestre e o estado divino, o finito atinge sua perfeição, manifestada como receptividade total ao Infinito e, em última análise, como extinção de sua particularização ilusória na identidade eterna com Ele.
    • A extinção espiritual do homem na Essência divina é a dissolução da luz de sua alma no Sol supremo e a dissolução das trevas de sua substância receptiva na “matéria prima”, que é a própria Receptividade materna do Infinito.
    • O Infinito, por sua Continuidade essencial, arquetípica e criadora, assegura ao finito sua continuidade relativa através de um renovar-se constante a cada instante, simbolizado pelos ciclos naturais e pela ressurreição, que são imagens da nova nascença espiritual e da renascença suprema no Infinito.
    • O versículo corânico sobre o destino natural do homem (II, 28) é interpretado anagogicamente como as etapas da perfeita realização espiritual: da não-manifestação no Infinito à manifestação, à morte para a aparência com retorno à Realidade, à revivescência com plena consciência da identidade essencial e, finalmente, à absoluta unidade com Ele.
    • O finito tem um começo e um fim, mas seu fim coincide com sua resolução na Essência infinita e eterna, que é o que é antes, durante e depois de sua existência.
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