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ALGUMAS DIFICULDADES DOS TEXTOS SAGRADOS

  • A leitura das Escrituras sagradas da humanidade com admiração sem mistura implica reconhecer simultaneamente a própria incapacidade eventual de apreciá-las plenamente, pois a perfeição de um texto sagrado quanto ao conteúdo e à forma pode escapar à constatação individual em razão da ignorância diante de passagens que apenas o comentário tradicional torna inteligíveis.
    • A perfeição do texto sagrado é afirmada sob o duplo aspecto do conteúdo e da forma.
    • A dificuldade de compreensão decorre de limites do leitor diante de certos trechos.
    • O comentário tradicional é apresentado como meio necessário para tornar inteligíveis passagens obscuras.
    • A aceitação veneradora da palavra divina deve fundar-se em motivos reais, não em hipocrisia ou ingenuidade quanto a erros de tradução.
  • A atribuição ao Corão de um estilo sobre-humano e inimitável, comum entre muçulmanos, é relativizada pela afirmação de que a perfeição formal e a beleza poética não ultrapassam os limites próprios da linguagem humana, sendo a qualidade verdadeiramente divina situada na riqueza de significações e na substância subjacente que se manifesta por seus efeitos espirituais e históricos.
    • O Corão é reconhecido como perfeito e normativo quanto à gramática e sintaxe.
    • A beleza poética pode ser insuperável sem ser absolutamente inigualável.
    • A divindade não se prova pela forma terrestre nem pelo conteúdo conceitual isolado.
    • A substância divina explica a eficácia mística e teúrgica dos versículos, a expansão do Islame primitivo, a estabilidade das instituições, a fecundidade doutrinal, a potência espiritual e a originalidade artística.
    • A convicção firme da fé muçulmana não se explica apenas por ideias ou estilo.
  • A questão acerca da existência de critérios formais que garantam a proveniência divina de um texto é ilustrada pela comparação com a beleza do Avatâra, na qual a perfeição não viola a norma humana, sendo o fracasso dos imitadores do Corão atribuído a uma realidade sobrenatural e não a mera impossibilidade literária.
    • Certas passagens do Corão, como as suratas escatológicas de Meca, o versículo du Trono e o versículo da Luz, manifestam mais diretamente seu caráter privilegiado.
    • A distinção entre graus de expressividade não resolve o problema do estilo necessariamente divino.
    • No Avatâra, a beleza sobre-humana aparece na alma, expressão e atitudes, não em deformação monstruosa.
    • O fracasso dos imitadores é associado a um desvio de ordem prometéica ou titânica.
    • A crítica literária não apreende essa dimensão sobrenatural.
  • A leitura adequada de um Livro sagrado requer consciência das associações de ideias próprias da língua original, distinguindo-se Escrituras cuja língua é canonicamente insubstituível, como Torá, Corão e Veda, daquelas cujo sentido se comunica por imagens e admite tradução tradicional, como o Evangelho e os Livros budistas.
    • A língua original é capital em certas tradições e pode implicar proibição de tradução para uso canônico.
    • A Revelação cristã e budista funda-se numa humanização do Divino.
    • Nas tradições judaica, islâmica e hindu, a Revelação assume primariamente a forma de Escrituras.
    • O Veda precede os Avataras e não depende deles para revelar o Sanatana-Dharma.
  • A compreensão detalhada da Torá, do Corão e dos Livros brahmânicos pressupõe conhecimento das associações linguísticas e das proposições implícitas fornecidas pelos comentadores, exigindo ainda discernimento entre simbolismo direto e essencial e simbolismo indireto e acidental.
    • O gesto de Jesus elevando os olhos ao céu constitui simbolismo direto da dimensão divina.
    • Na parábola do semeador, os pássaros significando o diabo exemplificam simbolismo indireto e provisório.
    • O braimento do asno comparado à voz de Satanás indica simbolismo parcial e direto.
    • A Lei de Manu apresenta frequentes graus de simbolismo que requerem conhecimento de suas ramificações.
  • Certos versículos do Corão e dos Evangelhos contêm repetições ou aparentes redundâncias que se esclarecem à luz do contexto doutrinal e das associações implícitas, como no caso de Abraão, das palavras de Jesus sobre o que se come e se acumula, e da súplica da mesa celeste.
    • A menção de Abraão no mundo e no além evita interpretação limitativa.
    • A referência cristã aos limbos dos pais e à anterioridade de Jesus contextualiza a precisão islâmica.
    • A alusão ao que se come relaciona-se à Eucaristia e ao tesouro no além.
    • A ameaça divina aos indignos remete à advertência de saint Paul na Primeira Carta aos Coríntios.
  • Outras dificuldades aparentes do Corão, como permissões durante a peregrinação ou repetições relativas ao temor de Deus, são esclarecidas pelos comentadores em referência às circunstâncias históricas, às divisões do tempo e aos graus de aplicação moral.
    • A busca de subsistência durante a preregrinação é permitida sem pecado.
    • O apagamento do mal anterior à revelação aplica-se aos verdadeiros crentes.
    • As repetições remetem ao passado, presente e futuro, e às relações com si mesmo, Deus e o próximo.
    • Em circunstâncias excepcionais, princípios intrínsecos podem prevalecer sobre prescrições alimentares.
  • A inserção de fórmulas como “Alá é poderoso, sábio” após estipulações legais indica a sobreposição de camadas no Corão, nas quais o fundo imutável reaparece após a menção de contingências temporais.
    • O texto comporta múltiplos níveis simultâneos.
    • A referência ao poder e à sabedoria divina rasga o véu da contingência.
  • A expansão do Islame entre povos não arabófonos explica-se pela manifestação humana e social da religião, enquanto os oulemas desempenham função essencial como depositários das sentenças e significações implícitas do Corão e da Sounna.
    • A conversão ocorre por observação da vida dos muçulmanos e de suas práticas.
    • A maioria dos muçulmanos não aprecia diretamente as qualidades literárias do Corão.
    • Os oulémas conservam e transmitem significações frequentemente sibilinas.
  • A interpretação do versículo em que Satanás ataca de frente, de trás, da direita e da esquerda evidencia a limitação do poder satânico e simboliza as dimensões invioláveis da grandeza e da pequenez, articuladas com imagens como a de Lao-Tseu.
    • A ausência de referência ao alto e ao baixo indica esferas protegidas.
    • A salvação pode derivar da humildade infantil ou da elevação contemplativa.
    • O tipo prometéico corresponde ao adulto ambicioso privado dessas qualidades.
    • A altura simboliza a Verdade e a profundidade a natureza incorruptível do Ser.
  • Nos textos sagrados podem ocorrer antinomias simbólicas ou dialéticas sem contradição real, como nas narrativas divergentes sobre os ladrões nos Evangelhos de São Lucas, São Mateus e São Marcos, cuja chave reside na diferença de ponto de vista.
    • Em São Lucas, a oposição entre os ladrões exprime contraste entre bem e mal.
    • Em São Mateus e São Marcos, ambos injuriam o Cristo, representando polos do mal na alma.
    • O Cristo simboliza o Intelecto e a voz da consciência.
    • A primazia do relato de Luc é associada à superioridade da Misericórdia sobre o Rigor segundo fórmula islâmica.
  • A necessidade de transpor imagens escriturísticas aos planos metafísico, macrocósmico ou microcósmico é ilustrada por tradições exegéticas presentes em Orígenes, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, Cassiano e São Gregório.
    • A interpretação simbólica está ancorada na natureza das coisas.
    • As imagens permanecem ininteligíveis sem essa transposição.
  • Divergências entre textos sagrados podem assemelhar-se à oposição entre astronomia exata e sistema de Ptolomeu, sendo cada perspectiva sustentada por lógica própria e oportunidade espiritual, como na diferença entre teses cristã e muçulmana sobre o fim terrestre de Jesus.
    • Uma perspectiva pode privilegiar natureza objetiva ou experiência simbólica.
    • Cada tradição transmite um aspecto extremo conforme sua espiritualidade.
  • A oposição entre o nirvanismo budista e o monoteísmo semítico exemplifica a maior divergência possível no domínio religioso, fundamentando-se respectivamente na impermanência do cosmos e na manifestação ativa do Princípio criador, sem implicar contradição da Palavra celeste universal.
    • O budismo enfatiza o caráter onírico e vazio da realidade aparente.
    • O monoteísmo afirma a realidade do mundo e a ação positiva do Criador.
  • As aparentes deficiências internas de um Livro sagrado constituem na realidade sínteses ou elipses, não sendo necessário compreender ou sentir como sublime cada passagem para manter respeito sincero e ortodoxia fundada na certeza da perfeição intrínseca da Palavra divina.
    • A verdade não exige apreciação estética universal.
    • A perfeição divina independe da capacidade atual de constatá-la.
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