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PAI NOSSO
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Embora a Torá já utilizasse o simbolismo da paternidade divina, Cristo fez dele uma ideia central e o próprio Nome de Deus, testemunhando assim o “Soberano Bem”, dando prioridade ao divino Amor e à Paternidade sobre a divina Potência e o aspecto de Senhorio, o que confere ao homem a posição de filho com direitos, e não de simples escravo.
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A Torá contém exemplos do simbolismo da paternidade em II Samuel, Salmos, Isaías, Jeremias e Malaquias.
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Cristo refere-se à essencialidade da divina Bondade e à reciprocidade entre Criador e criatura feita à sua imagem.
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O homem, como “imagem de Deus”, torna-se um “interlocutor válido” com direitos perante o Pai.
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No linguajar de Cristo, distingue-se “nosso Pai” de “meu Pai”: a filiação é principial e potencial no primeiro caso, e plenamente atual e efetiva no segundo, pois o homem comum é filho de Deus por sua natureza humana, enquanto Cristo o é por sua personalidade única, que nenhuma realização humana pode produzir.
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A filiação do homem comum decorre do simples fato de ser humano e “interlocutor”.
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A filiação de Cristo é por sua personalidade, sendo o Avatâra um fenômeno cósmico que implica toda perfeição espiritual e física.
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A Santíssima Virgem, por ser “cheia de graça”, “Mãe de Deus” e imaculada, possui um caráter avatárico, e seu culto decorre claramente da Escritura; quanto à definição teológica das duas naturezas e da única pessoa em Cristo, as dificuldades inerentes à distinção entre natureza e pessoa podem, em última análise, reduzir-se a uma questão de terminologia.
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Maria é chamada “bem-aventurada” por todas as gerações.
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O corpo e sangue sacramentais de Cristo são, no fundo, os da Virgem.
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A teologia trinitária também contém “cláusulas” dogmaticamente inutilizáveis.
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A noção cristã de “filho de Deus” introduz um elemento de esoterismo de interioridade em relação à “Antiga Lei”, que era formalista e social, mas esse esoterismo tem sua própria aplicação exotérica e impõe uma ascese espiritualmente plausível, embora socialmente irrealista.
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O “servo” do “Senhor” torna-se “filho” do “Pai” pela atitude espiritual de interioridade ou essencialidade.
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As prescrições externas (alimentares, sabáticas) constituem um “formalismo objetivo” querido por Deus, mas não um “formalismo subjetivo” (redução humana da religião a essas observâncias).
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O Judeu é filho de Deus pela Eleição de Israel; o Cristão, pela Redenção; o Islã, por sua vez, tem a noção de “Amigo” (Walî), aplicável a Deus e ao santo, sem perder a de “escravo” (criatura), o que resulta numa profunda resignação à Vontade divina.
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O Judeu sente-se filho de Deus em relação aos “pagãos”.
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O Cristão sente-se filho de Deus mesmo em relação aos Judeus.
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A primazia da ideia de “Senhor” no Islã traz consigo a virtude da resignação e do senso de proporção.
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Na oração “Pai Nosso que estais nos céus”, a expressão “nos céus” indica a transcendência em relação ao estado terrestre, tanto no plano macrocósmico (ambiente mundano) quanto no microcósmico (alma individual), pois “o reino de Deus está dentro de vós”.
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“Céus” pode referir-se às virtualidades espirituais e aos mundos paradisíacos.
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“Terra” ou “mundo” pode ser a alma individual e sensorial.
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“Santificado seja o vosso nome” é quase sinônimo de adorar, invocar e ter consciência da transcendência divina, o que implica a oração interior no segredo do coração, como ensinam os hesicastas, sendo esse um traço característico do mensagem cristão de interioridade contemplativa e amor sacrificial.
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A parábola do juiz iníquo e a injunção da Epístola insistem na necessidade da oração contínua.
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A “chambre” onde se ora é o coração, cuja porta para o mundo deve ser fechada.
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“Venha a nós o vosso reino” relaciona-se com a resposta de Deus à oração do homem, podendo ser parafraseado como “que a vossa Graça desça sobre nós”, e refere-se à imanência do reino de Deus “dentro de nós”, cuja realização deve começar em nós mesmos, sendo esta sentença logicamente posterior à da santificação do Nome (transcendência).
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A dimensão unitiva (reino) pressupõe a dimensão devocional (santificação do Nome).
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O mistério da transcendência deve preceder e introduzir o mistério da imanência.
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A relação entre transcendência e imanência é de reciprocidade: o Transcendente comporta uma dimensão de imanência, pois a percepção da transcendência exige que o sujeito conhecedor esteja, de algum modo, ao nível do objeto conhecido (pelo Espírito Santo imanente ao Intelecto); e o imanente comporta uma dimensão de transcendência, pois a união com Deus vai de Deus ao homem e não do homem a Deus, havendo descontinuidade entre os pólos incomensuráveis.
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A presença divina no fundo do coração ou no intelecto não perde sua transcendência.
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A transcendência do Princípio criador não impede sua imanência objetiva na criação.
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O símbolo do yin-yang ilustra como um polo sempre contém o outro.
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O termo “Pai” tem sentido diferente conforme se refira ao homem como tal ou ao Cristo, e também conforme seja concebido “verticalmente” (como o Sobre-Ser, o Absoluto puro, ao qual nada pode ser associado) ou “horizontalmente” (como o Ser, ao nível ontológico das outras Pessoas da Trindade, que é absoluto do ponto de vista das criaturas).
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Na Trindade “horizontal” ou ontológica, o Pai está ao mesmo nível das outras hipóstases (Potência, Sabedoria, Amor).
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A teologia dogmática reteve a concepção “horizontal” do Pai.
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O homem, em sua oração, não deve preocupar-se com os graus de realidade do Princípio, sob pena de falar no vazio.
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A objeção de que a religião não precisa incluir a ideia do Sobre-Ser, pois visa à salvação das almas, é respondida pelo fato de que a religião, em sua pretensão de absolutição, deve incluir essa ideia para não excluir certas almas ou inteligências; o termo “Pai” expressa o que é suscetível de expressar em todos os graus de doutrina e entendimento, e o acúmulo dessas perspectivas desiguais explica os impasses da teologia dogmática e o recurso à noção de mistério.
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A religião, para ser completa, deve conter tudo, sem renunciar à sua função específica.
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O “Pai” pode significar o “puro Absoluto” (Sobre-Ser) em um nível, e o “Deus pessoal” (Ser) em outro.
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