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ARTE DE TRADUZIR
* A ciência do espiritual pressupõe a ciência do humano, que por sua vez pressupõe a ciência da linguagem, justificando assim a atenção às artes de falar, escrever e traduzir mesmo no contexto de uma antropologia orientada pela metafísica e pela espiritualidade.
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A necessidade do estudo da linguagem é equiparada, com citação de Eurípides, à dignidade do necessário para os mortais.
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As chamadas “pequenas coisas” do domínio linguístico são apresentadas como instrumentos das grandes.
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A noção de tradução assume sentidos distintos conforme se trate do contexto ocidental ou do contexto oriental tradicional, e a confusão entre esses dois sentidos deve ser evitada.
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No Ocidente, traduzir significa reproduzir um discurso em outra língua de forma literal, sem erros gramaticais nem contrassensos, comunicando apenas o que o autor quis dizer.
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No Oriente, exemplificado pela tradução de textos budistas do sânscrito para o chinês, traduzir equivale a comentar e explicar a substância do texto, sem intenção de oferecer um equivalente linguístico.
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A perspectiva oriental faz a noção de tradução coincidir com a de comentário, o que não invalida o recurso ao original sânscrito por quem o desejar.
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No âmbito da tradução propriamente dita, a fidelidade ao pensamento do autor é obrigação absoluta, mas a transposição de valores poéticos é limitada e a de valores eufônicos é impossível.
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A tradução deve render o pensamento do autor — nada além, nada aquém — seja em frases complexas ou em expressões simples.
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Valores eufônicos pertencem exclusivamente à língua de origem; valores poéticos dependem dos recursos gramaticais, terminológicos e retóricos dessa língua.
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Um texto que perdesse toda a sua validade numa tradução correta demonstraria com isso sua própria carência de valor.
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Existe a possibilidade de tradutores de gênio recriarem na língua de chegada não apenas o clima estilístico, mas também o elemento musical do original.
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Na tradução de textos como a Bíblia, palavras cujo sentido se perde na transposição devem ser traduzidas literalmente, com nota de rodapé explicativa, preservando o simbolismo da imagem original.
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A substituição das palavras “bâton” e “houlette” do Salmo 23 por “apoio” e “consolação” é rejeitada por destruir a imagem concreta portadora de mensagem simbólica.
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O uso de “meditar” em lugar de “murmurar” no Salmo Primeiro é considerado intencionalmente justo, mas elimina um fato concreto e um simbolismo essencial.
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A fórmula árabe “çallâ Llâhu 'alayhi wa sallam” traduzida como “que Allah prie sur lui” é classificada como absurda por dois motivos: a construção é sem sentido em francês e implica incerteza sobre a salvação do profeta.
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A tradução correta da fórmula é “Que Dieu le bénisse et lui donne la paix”, sendo o optativo uma indicação da perspectiva islâmica segundo a qual tudo depende da vontade de Deus.
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A expressão “ho les croyants” para traduzir “yâ ayyuha 'lladhina âmanû” é classificada como falsa e irritante, por substituir o tom solene do árabe clássico por uma exclamação familiar e democrática.
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Palavras simples, concretas e populares devem ser mantidas na tradução, e palavras consideradas “désuètes” não devem ser descartadas em cumplicidade com a destruição demagógica da linguagem.
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A distinção entre palavras nobremente populares e palavras vulgares é indispensável.
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A tendência a atribuir nuances “particularisantes” e “trivialisantes” às palavras torna a linguagem inutilizável.
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A reeducação dos leitores afetados de iconoclasmo terminológico é preferível ao abandono do vocabulário normal.
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O chamado “purismo” linguístico, definido pelo Petit Larousse como amor excessivo pela pureza da língua, deve ser reavaliado à luz da distinção entre evolução legítima e degenerescência deliberada.
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Os “dados da linguística” só têm validade no interior das exigências da antropologia espiritual, que define os deveres e os direitos da linguagem.
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A evolução do latim de César e Cícero para as línguas da Itália cristianizada e germanizada é apresentada como legítima.
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O que hoje se chama “evolução” é, na maioria dos casos, degenerescência pura ou destruição deliberada da linguagem.
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A salvaguarda do patrimônio linguístico é função da aristocracia e, antes de tudo, do sacerdócio, guardião da religião e da dignidade do homem.
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A tradução deve ser literal ao máximo, evitando paráfrases e adaptações desnecessárias, pois qualquer alteração arrisca falsificar ou eliminar uma nuance do texto original.
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A paráfrase só se justifica por razões gramaticais imperiosas.
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Quando uma construção francesa pode ser reproduzida em inglês sem erro, não há razão para substituí-la por uma construção “mais inglesa”, pois o autor francês não é inglês.
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A “adaptação” ou editing é frequentemente uma falsificação que trata o leitor como fraco de espírito ou como fanático da mentalidade nacional.
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Se o autor francês tivesse preferido outra construção, teria utilizado ela próprio.
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Diferenças intraduzíveis existem, como a oposição entre palavras de origem latina — ideogramas conceituais — e palavras germânicas — evocadoras de imagens e experiências.
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A frase longa tem legitimidade própria tanto quanto a frase breve, e transformar uma em outra na tradução viola encadeamentos lógicos e a psicologia do autor.
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Para o autor de frases longas, a frase é uma mensagem com várias ramificações e graus de importância; para o autor de frases breves, cada frase registra um fato, uma ideia ou um único aspecto de uma coisa complexa.
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A sentença breve deve ser ao mesmo tempo inteira e homogênea: não pode conter metade de um pensamento nem dois pensamentos simultâneos, salvo bipolaridade.
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A barbárie moderna afeta a frase encurtada; a intelectualidade antiga e mesmo o pensamento do século XIX exprimem-se pela frase longa e complexa.
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Essas constatações são apresentadas como aproximativas, pois nem todo uso da frase curta é bárbaro.
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Aristóteles afirmou que cada língua é uma alma, isto é, uma dimensão psíquica ou mental, havendo línguas paralelas como o francês e o italiano, e línguas complementares como o francês e o alemão.
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Maître Eckhart é citado como exemplo de combinação feliz entre a força simbolista e imaginativa do germânico e a racionalidade clara e precisa do latim.
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Todo ser humano carrega em si a virtualidade de todas as línguas e, por conseguinte, de todas as almas.
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As línguas antigas são qualitativamente equivalentes no sentido de possuírem a qualidade necessária para servir como língua litúrgica, condição que as línguas modernas não preenchem.
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As línguas modernas são marcadas pelo individualismo e por hipertrofias e atrofias dele decorrentes, o que lhes retira universalidade e primordialidade.
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As línguas ditas “primitivas”, não fixadas pela escrita, nunca sofreram a influência de ideologias antimetafísicas e profanizantes, tendo preservado o senso do sagrado.
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Três graus são distinguidos para as línguas europeias: o do grego, latim, gótico e eslavo eclesiástico, quase equivalente ao das línguas sagradas; o do italiano de Dante e do alemão de Maître Eckhart, no limite do utilizável liturgicamente; e o das línguas europeias a partir do século XVII ou XVIII, inadequadas ao uso litúrgico.
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A linguagem humana é por definição coisa sagrada, e negligenciá-la ou destruí-la constitui uma verdadeira infração contra a dignidade essencial do homem.
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O jargão demagógico imposto em nome de um sincerismo baseado na vulgaridade real ou suposta das massas e propagado pelos mass media é o oposto da dignidade preservada mesmo nas línguas profanas.
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A trivialidade imposta resulta da irreligião e da perda do senso do sagrado, não de uma norma humana autêntica.
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A distinção entre evolução e degenerescência se aplica também aqui: a língua de Dante é apresentada como evolução legítima e providencial a partir do latim, sem relação com o desleixo popular dos patois nem com a destruição sistemática das línguas.
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O interesse pelas menores questões linguísticas se justifica pela conexão entre linguagem e fatores espirituais: a linguagem é o homem, é sua deiformidade, e falar é ser feito à imagem de Deus.
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A primeira palavra pronunciada pelo homem foi uma oração em resposta à Palavra criadora, e o primeiro vocábulo humano foi o Nome do Eterno.
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